sexta-feira, 2 de outubro de 2020

LIÇÃO 1: O LIVRO DE JÓ

 

 

COMENTÁRIO E SUBSÍDIO I

   INTRODUÇÃO

Neste trimestre estudaremos o Livro de Jó, uma das obras mais fascinantes da Bíblia. Não há em toda Literatura bíblica outra obra semelhante. Diferente na sua estrutura, no estilo e, sobretudo, no conteúdo, o Livro de Jó demonstra a grandeza de Deus diante da finitude humana. É, portanto, uma obra que alimenta a nossa esperança quando tudo mais parece ter perdido o sentido. – O livro recebe este nome por causa de Jó, cuja prosperidade, aflição e restauração estão nele registradas. Ele viveu pouco depois de Abraão, ou, quem sabe, antes deste patriarca. É o livro mais antigo que existe. As instruções que se devem aprender da paciência de Jó e de suas provas, são tão úteis agora e tanto mais necessárias, como sempre o foram. Vivemos sob a mesma providência, temos o mesmo Pai que disciplina, e existe a mesma necessidade de correção para a justiça. A fortaleza e a paciência de Jó, que não foram poucas, cederam em seus graves problemas; porém, sua fé estava fixada na vinda de seu Redentor e isto lhe deu firmeza e constância, ainda que outra dependência, particularmente o orgulho e a jactância de um espírito de justiça própria, foram provados e consumidos.

   I. AUTORIA, LOCAL E DATA DO LIVRO

1. O autor de Jó. Quem escreveu o Livro de Jó é motivo de longos debates. As opiniões passam por Moisés, Eliú, Salomão, Ezequias, lsaías e, até mesmo, Esdras. Os que não acreditam no mover sobrenatural de Deus sobre os autores bíblicos fazem do livro uma colcha de retalhos. Afirmam ser ele a produção de vários autores e em diferentes épocas. Entretanto, o cristianismo histórico e conservador não tem o livro de Jó como uma ficção religiosa, mas como uma narrativa poética inspirada por Deus e redigida por um único autor. A própria Bíblia não apresenta indicações do autor do livro, mas o fato é que o autor conhecia a forma poética e nela expressou a maior parte do livro. – As discussões sobre a autoria de Jó da maior parte dos críticos são complicadas pelas dúvidas que os críticos têm quanto à unidade do livro tal como o temos atualmente. A prova não é primordialmente externa, pois embora o texto de Jó na LXX seja um quinto mais curto do que o texto massorético, suas omissões são claramente secundárias. As partes que mais amplamente têm sido consideradas como acréscimos à obra básica original são o prólogo e o epílogo, o poema sobre a sabedoria (cap. 28), o material sobre Eliú (caps. 32-37) e parte ou todos os discursos do Senhor (caps. 38-41). Também, os capítulos 24-27 são considerados como seriamente alterados. Contudo, encontramos forte defesa da integridade de nosso texto atual na unidade magistralmente estrutural do tudo e no rico inter-relacionamento de todas as partes.

2. A pessoa histórica de Jó. A Bíblia mesma atesta que Jó foi uma pessoa histórica. O profeta Ezequiel confirma que ele, de fato, foi uma pessoa real, correlacionando-o ao lado de Noé e Daniel (Ez 14.14). Tiago, por exemplo, atesta a realidade histórica do principal personagem do Livro, bem como sua autenticidade textual, quando destaca a perseverança de Jó (Tg 5.11). – Em Ezequiel 14.14, Deus usa Jó, Daniel e Noé como exemplos de retidão. Essa profecia de Ezequiel foi dada um pouco antes de Nabucodonosor destruir Jerusalém e levar o povo para o exílio na Babilônia. Isso mostra que o livro de Jó já era bem conhecido entre os judeus dessa época. Portanto, o livro de Jó deve ter sido escrito antes do exílio na Babilônia. – “Se Jó foi uma figura humana literal, conforme cremos, então ele pode ter sido um xeque que vivia perto do deserto da Arábia, nos tempos dos patriarcas do Antigo Testamento (não há qualquer menção à lei mosaica, nesse livro de Jó). É possível que Jó fosse uma personagem histórica, e que um autor posterior, conhecendo a história mediante a tradição oral, a tenha reduzido à forma escrita. Mas, por essa altura, a genealogia e o arcabouço histórico de Jó se tinham perdido, pelo que esses detalhes não foram registrados, ainda que importantes para a mentalidade dos hebreus.” (CHAMPLIN, Russell Norman, Antigo Testamento Interpretado versículo por versículo. Editora Hagnos. pag. 4546)

3. A terra de Jó. Já no início do seu texto, o Livro de Jó destaca que ele era da “terra de Uz” (Jó 1.1). Como Jó, Uz era uma terra real. Os comentaristas situam Uz ao sul de Edom e a oeste do deserto da Arábia, se estendendo a Leste, indo até a Babilônia (Jr 4.21; 25.20). – Jó aparece como habitante da terra de Uz (Jó 1.1), era uma cidade murada e com portões (29.7-8), onde ele desfrutava de uma posição de grande respeito. A cidade ficava na terra de Uz, ao norte da Arábia, adjacente a Midiã, onde Moisés viveu por 40 anos (Êx 2.13). - “A terra de Uz, onde dizia-se que Jó vivia (Jó 1.1). A Bíblia fornece várias observações que nos ajudam a localizar essa terra: era um país (território) localizado próximo aos sabeus e caldeus (Jó 1.1, 1517). Era acessível aos temanitas e naamitas (Jó 2.11). Os buzitas estavam relacionados a ela (Jó 32.2). Os edomitas governaram o lugar em épocas passadas (Jer. 24.20; Lam. 4.21). Ficava próxima a um deserto (Jó 1.19). Teve vários xeques, chefes de tribos, povos semitas (Jer. 25.20, 23). Na terra de Uz ficava a colônia de Edom, que é uma “filha” do local (Lam. 4.21). Além das observações da Bíolia, temos o testemunho de Josefo, que situava o lugar no nordeste da Palestina, dizendo “Uz fundou Traconites e Damasco” (Ant. 1.6.4). As tradições árabes estão de acordo com isso. Talvez o wadi Sirhan moderno, ao sul de Jebel ed Druz, seja situado no antigo território. Essa é uma grande depressão rasa, parecida com uma planície de cerca de 300 km de extensão e com uma média de 30 km de largura. Possui terra pastoril abundante, o que se ajusta a Jó 1.3. Há água suficiente para suportar animais silvestres e domesticados, além de uma população humana razoável, especialmente se os povos envolvidos fossem tribos nômades de números pequenos de indivíduos. Os mapas da Zondervar Pictorial Encyclopedia of the Bible localizam Uz próximo a Damasco, mas o Wadi Sirhan, a leste do mar Morto, de forma que contradiz os aspectos das informações dadas acima. A localização a leste do mar Morto parece ser mais lógica.” (CHAMPLIN, Russell Norman, Antigo Testamento Interpretado versículo por versículo. Editora Hagnos. pag. 5416).

4. A época de Jó. A maioria dos comentaristas situa os fatos narrados no Livro de Jó dentro do período patriarcal (Abraão, Isaque e Jacó). Dentre outros, alguns fatos contribuem para esse entendimento: O sacerdócio como instituição ainda não existia, visto que Jó era o sacerdote de sua própria casa (Jó 1.5); as filhas de Jó eram coerdeiras juntamente com seus irmãos (Jó 42.15), o que não era permitido pela lei mosaica (Nm 27.8); a palavra hebraica qesitah, traduzida como “uma peça de dinheiro” (Jó 42.11), só aparece em outras duas ocasiões na Bíblia: uma em Gênesis 33.19 e a outra em Josué 24.32. – A época retrata no livro de Jó parece ser o tempo dos patriarcas. Não há nenhuma referência a reis, nem ao templo, nem à Lei de Moisés. A data da autoria do Livro de Jó seria determinada por quem foi o seu autor. Se Moisés foi o autor, a data seria por volta de 1440 AC. Se Salomão foi o autor, a data seria em torno de 950 a.C. Já que não sabemos de certeza quem foi o autor, não podemos saber exatamente quando foi escrito. – A data de redação do livro pode ser bem posterior aos acontecimentos que ele relata. Essa conclusão se baseia:

a. na idade de Jó (42.16);

b. ele chegou perto dos 200 anos de idade, o que está de acordo com o período patriarcal (Abraão viveu 175 anos; Gn 25.7);

c. na unidade social, que era a de família patriarcal;

d. no fato de que os caldeus que mataram os servos de Jó (1.17) eram nômades e ainda não haviam se estabelecido em cidades;

e. no fato de que a riqueza de Jó era medida pelos seus rebanhos em vez de pelo ouro e prata (1.3; 42.12); f. nas funções sacerdotais de Jó dentro de sua família (1.4-5); e

g. no silêncio básico sobre assuntos como a aliança de Abraão, Israel, o êxodo e a lei de Moisés. Os acontecimentos da odisséia de Jó parecem ser patriarcais. Jó, por outro lado, parecia conhecer a história de Adão (31.33) e o dilúvio dos dias de Noé (12.15). Esses detalhes históricos/culturais parecem situar os acontecimentos cronologicamente numa provável época após Babel (Gn 11.1-9), mas anterior a Abraão ou contemporânea dele (Gn 11.27ss.)

SUBSÍDIO BÍBLICO-TEOLÓGICO

“Jó é um dos livros sapienciais e poéticos do AT; ‘sapiencial’, porque trata profundamente de relevantes assuntos universais da humanidade; ‘poético’, porque a quase totalidade do livro está elaborada em estilo poético. Sua poesia, todavia, tem por base um personagem histórico e real (ver Ez 14.14,20) e um evento histórico e real (ver Tg 5.11). Os fatos do livro se desenrolam na ‘terra de Uz’ (1.1), que posteriormente veio a ser o território de Edom, localizado a sudeste do Mar Morto, ou norte da Arábia (cf. Lm 4.21). Assim sendo, o contexto histórico de Jó é mais árabe do que judaico.

[…] Se não foi o próprio Jó, o escritor deve ter obtido informações detalhadas, escritas ou orais, oriundas daqueles dias, as quais ele utilizou sob o impulso da inspiração divina para escrever o livro na feição em que o temos. Certas partes do livro vieram evidentemente da revelação direta de Deus (e.g. 1.1-2.10)” (Bíblia de Estudo Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 1995, p.767).

  II. ESTRUTURA LITERÁRIA DO LIVRO DE JÓ

1. Prosa e poesia. O leitor que deseja ler o Livro de Jó precisa dar-se conta de que diante dele há uma obra de natureza poética. Isso não torna o livro de Jó menos inspirado do que outros da Bíblia, mas revela que ele pertence a um diferente gênero literário. Jó precisa ser lido dessa forma. A estrutura dessa obra demonstra isso. O texto é uma combinação de prosa-poesia-prosa (nessa ordem). Ele está literariamente organizado assim: Uma prosa nos primeiros capítulos; uma longa poesia no meio; mais uma prosa no último capítulo. Assim, o prólogo (Jó 1.1-2.13) e o epílogo (Jó 42.7-17) estão em prosa; o texto intermediário em poesia (Jó 3.1-42.6). – A essência do livro é poesia, engastada como uma pedra preciosa entre um prólogo e um epílogo de prosa épica. Tal estrutura A B A encontra-se em outras peças de literatura antiga. Como, por exemplo, Hamurabi que colocou suas leis entre um prólogo e um epílogo poéticos. E uma obra egípcia, The Eloquent Peasant, emoldura os nove protestos semipoéticos do camponês entre a prosa do prólogo e do epílogo. – Junto com os Provérbios, o Eclesiastes e, sob um certo aspecto, os Cantares de Salomão, Jó pertence ao gênero da Sabedoria (hokmâ), um tipo de obra amplamente ilustrada em uma variedade de formas na literatura antiga do Oriente Próximo. Dentro do cânon das Escrituras do Velho Testamento, a contribuição característica dos livros da Sabedoria é que eles expõem a relação que existe entre a revelação da aliança fundamental dada através de Moisés e os grandes problemas da vida do homem neste mundo, mais especificamente, da vida do homem à parte do conteúdo peculiarmente teocrático da história de Israel. Existe muita semelhança formal entre Jó e as diversas obras da Sabedoria extra-bíblica; como, por exemplo, o estilo coloquial, e motivos tais como o problema do sofrimento e o anseio pela morte. Não obstante, em seus ensinamentos essenciais, Jó difere completamente da literatura da Sabedoria extra-bíblica porque representa a mensagem única da revelação redentiva, a sabedoria de Deus que torna tola a sabedoria dos homens. Mesmo em sua estrutura literária, considerada como um todo, ele é único – uma obra prima universalmente aclamada

2. Organização. No texto em poesia há a seguinte organização: Um monólogo feito por Jó; três ciclos de diálogos entre Jó e seus amigos (Elifaz, Bildade e Zofá); quatro outros discursos de um quarto amigo jovem, Eliú; seguido pela revelação de Deus onde Ele manifesta o seu poder e graça; e, finalmente, a humilhação de Jó diante da revelação divina e sua restauração completa. – “Neste livro temos: (1) A história dos sofrimentos de Jó, e sua paciência nessas circunstâncias (caps. 1-2, não sem uma mistura de fragilidade humana, conforme o cap. 3). (2) Uma discussão entre Jó e os seus amigos, sobre eles, na qual: [1] Os oponentes eram Elifaz, Bildade e Zofar. [2] O indagado era Jó. [3] Os moderadores eram: Primeiro, Eliú, caps. 32-37. E, mais adiante, o próprio Deus, caps. 38-41. (3) A conclusão de tudo na honra e na prosperidade de Jó, cap. 42. No todo, aprendemos que muitas são as aflições dos justos, mas que quando o Senhor os livra delas, toda provação da sua fé redundará em louvor, honra e glória”. (HENRY. Matthew. Comentário Matthew Henry Antigo Testamento Jó a Cantares de Salomão. Editora CPAD. pag. 2)

3. Abundância de figuras de linguagens. O livro é rico em metáforas. Esse recurso estilístico é usado pelo autor bíblico quando ele quer dar mais expressividade e maior vivacidade ao texto. O autor almeja que seu texto seja “colorido” ao invés de “preto e branco”. Jó, por exemplo, usa a figura do “vai-e-vem” do Tecelão para demonstrar a brevidade da vida (Jó 7.6; cf. “vento” Jó 7.7; “nuvem” 7.9; “sombra 8.9,14.2; “uma corrida”, “uma águia”, “uma flor” 9.25,26, 14.2). No livro também há o recurso estilístico de paralelismos onde os elementos literários repetem-se na mesma ordem. – “Chamamos de figura de linguagem os recursos expressivos empregados para gerar efeitos nos discursos, ampliando a ideia que se pretende passar e que não seria possível com o uso restrito e literal das palavras. Esses recursos podem dar o efeito de exagero, ausência, similaridade, lirismo ou estranheza, priorizando a alteração da construção das sentenças ou a semântica (o significado) ou a sonoridade (a forma)” (mundoeducacao.uol.). As principais Figuras de Linguagem são Metáfora, Símile, Analogia, Metonímia, Perífrase, Sinestesia, Hipérbole, Elipse (ou Zeugma), Silepse, Hipérbato (ou Inversão), Polissíndeto, Antítese, Paradoxo, Gradação (ou Clímax) e Personificação (ou Prosopopeia). – “Há abundantes figuras de pensamento ou de linguagem de vários tipos na poesia: símile, metáfora, personificação, hipérbole, apóstrofe, etc. Elas são, em primeiro lugar, uma outra forma de expressão. Mas também visam desafiar o leitor na interpretação, conseguida por meio de relacionamentos. Uma figura de linguagem ocorre quando utilizamos uma palavra com um sentido secundário”. (Carneiro. Moisés,. Livros Poéticos, Curso Básico em Teologia. Instituto Belém. pag. 11)

SUBSÍDIO DIDÁTICO-PEDAGÓGICO

“Neste tópico, após expor o assunto, apresente o esboço do Livro de Jó. É importante para o aluno ter contato com a visão estrutural de todo o livro. Nesse sentido, sugerimos que reproduza o seguinte esquema:

LIVRO DE JÓ

I – Prólogo: A Crise     1.1-2.13

II – Diálogos entre Jó e Seus Amigos (Elifaz, Bildade e Zofar): A Busca de Resposta Humanista 3.1-31.40

III – Discursos de Eliú: O Começo do Entendimento        32.1-37.24

IV – O Senhor Responde a Jó Diretamente 38.1-42.6

V – Epílogo: Desfecho da Prova 42.7-17

  III. NATUREZA E MENSAGEM DO LIVRO DE JÓ

1. Por que os justos sofrem? Algumas das questões mais importantes levantadas no Livro de Jó são eminentemente de natureza teológica e, também, filosófica. A questão do sofrimento do inocente é a principal delas. Por que sofre o justo? Ou ainda, por que os ímpios prosperam enquanto o justo sofre?

Ao longo dos anos, tanto teólogos quanto filósofos têm procurado dar explicações para esse dilema humano. No contexto de Jó, a ideia que prevalece é a de que somente os maus sofriam em consequências de seus pecados. Se havia sofrimento era porque havia culpa do sofredor. Nesse aspecto, ao longo de seus 42 capítulos, o autor procura demonstrar um novo olhar sobre essa questão. – “Sellin-Fohrer fazem uma preciosa contribuição em perceber que "o poeta de Jó não aborda o problema da Teodicéia, sob a forma do sofrimento merecido do justo, ou sob a forma da justiça de Deus, em contraposição com a experiência humana. Isto estaria em contradição com o pensamento concreto e subjetivo do israelita. Também ele não apresenta pura e simplesmente um acontecimento. Pelo contrário: trata-se aí de um problema vital: o problema da existência humana vivida no sofrimento; trata-se da questão sobre o modo de proceder corretamente dentro dessa existência. Jó vive o comportamento que lhe parece possível e correto. Os amigos querem ensinar-lhe um comportamento que, no seu parecer, é o melhor, e Deus o coloca diante do problema decisivo no que respeita a seu comportamento. (...) A narrativa que enquadra o poema interpreta o sofrimento como provação do homem que deve, por este meio, confirmar a sua piedade que alimentar até então. Os amigos de Jó atribuem a infelicidade às culpas do homem, e o convidam a se desviar do mal, a se voltar humildemente para Deus e a se converter radicalmente. (...) Passando por cima de todas estas opiniões – as ortodoxas e as heréticas -, o poeta de Jó, que faz Deus condenar, inclusive, os amigos de Jó, apesar de sua fé imaculada, e recomendá-los à intercessão daquele Jó que antes parecia tão herético, parte em busca de sua própria solução, a qual atesta a profunda influência da fé profética: a atitude correta do homem no sofrimento é o silêncio humilde, na plena entrega de si mesmo, brotando da paz com Deus, e baseada não somente na intuição de que o sofrimento decorre de uma intervenção misteriosa, impenetrável, mas inteiramente lógica de Deus, mas também na certeza da comunhão com Deus, a qual faz com que tudo o mais seja secundário."” (E. Sellin, G. Fohrer, Introdução ao Antigo Testamento, vol. 2, pp. 496-497)

2. Existe bondade desinteressada? Para muitas pessoas qualquer prática religiosa não passa de barganha. Essa era também a tese do Diabo. Para ele, Jó só permanecia fiel a Deus porque recebia benefício em troca: Jó era um homem agraciado com muitos bens; com uma família formidável; cercado de muitos amigos; e gozava de boa saúde. Nessas condições, como disse Satanás, todos são devotos. Todavia, vindo o infortúnio, a tragédia e a calamidade, será que esse fervor religioso permaneceria? Satanás estava disposto a apostar que a espiritualidade de Jó não subsistiria a uma prova de fogo. 0 livro mostra como Jó se comportou nessa prova. – É comum ouvirmos o jargão “Deus tem um plano na vida de cada homem”, e assim, sem compreensão adequada, afirma-se a soberania divina. O propósito teológico do livro de Jó é mostrar a soberania de Deus. Deus usa os piores ataques de Satanás para o cumprimento do seu santo decreto (Jó 42:2). O soberano Deus ilustra através da vida de Jó, que “todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (Rm 8.28). Para que não haja qualquer dúvida sobre o papel de Deus nessa experiência, foi ele quem iniciou o diálogo com o adversário. Não era o adversário quem estava presidindo. De qualquer maneira, Satanás levantou a questão crucial que poderia muito bem ter sido levantada por qualquer outra pessoa, talvez até pelo próprio Jó: será que Jó serve a Deus por motivos puros ou será que ele só o faz porque é abençoado? – Esta é uma questão tão atual e comum em nosso meio que, esquecemos de confrontar nossa real intenção em servir ao Senhor. Qual a sua motivação em servir a Deus? A partir do momento em que o homem for capaz de servir a Deus por nada, simplesmente por que Ele é Deus, aí ele encontra o sentido maior da devoção, o centro da espiritualidade, o coração como fonte dos afetos

3. Pode o homem compreender Deus? Os últimos capítulos de Jó mostram os impactos que a revelação divina tem sobre os homens. Como Paulo, que foi verdadeiramente mudado quando contemplou o Senhor numa visão (At 9.1-17), assim também Jó é totalmente transformado quando contempla a majestade do Senhor (Jó 38-42). A questão para Jó não foi tanto o entender Deus, mas experimentá-Lo. Viver e experienciar Deus mudou completamente a vida de Jó! Eis uma grande lição deixada por esse precioso livro. – O Pastor Antônio Neves de Mesquita comenta: “O esforço de Satanás para convencer a Deus de que ninguém o serve desinteressadamente. Todos têm, de um modo ou de outro, os seus interesses ligados ao culto a Deus (caps. 1 e 2). Nesse campo de cogitações, Satanás insinua que a religião de Jó é consequência da sua prosperidade; portanto, uma vez privado da mesma, renunciará imediatamente ao culto a Deus. Deus aceitou o desafio e autorizou Satanás a destruir a fortuna de Jó, para verificar que a sua piedade não resultava da riqueza, mas, sim, do amor e reconhecimento do próprio Jó. A seguir vem a outra prova. Se Deus lhe tirasse a saúde, Jó amaldiçoaria a Deus. Satanás tem permissão para destruir a saúde de Jó, porém este continuou firme na sua crença em Deus. Desta prova resultou o drama que constitui o Livro de Jó” (Mesquita. Antônio Neves de,. Jó Uma interpretação do sofrimento humano. Editora JUERP).  

SUBSÍDIO BÍBLICO-TEOLÓGICO

“Sete características principais assinalam o livro de Jó. (1) Jó, um habitante do norte da Arábia, foi um não israelita justo e temente a Deus […] (1.1). (2) Este Livro é o mais profundo que existe sobre o mistério do sofrimento do justo. (3) Revela uma dinâmica importante, presente em toda prova severa dos santos: enquanto Satanás procura destruir a fé dos santos, Deus está operando para depurá-la e aprofundá-la. A perseverança de Jó na sua fé permitiu que o propósito de Deus prevalecesse sobre a expectativa de Satanás (cf. Tg 5.11). (4) O livro é de valor inestimável pela revelação bíblica que contém sobre assuntos-chaves tais como: Deus, a raça humana, a criação de Satanás, o pecado, o sofrimento, a justiça, o arrependimento e a fé. (5) Boa parte do livro ocupa-se da avaliação teológica errônea no Livro talvez indique tratar-se de um erro comum entre o povo de Deus; erro este que exige correção. (6) O papel de Satanás como “adversário” dos justos, o livro de Jó o demonstra mais do que em qualquer outro livro do AT. Entre as dezenove referências nominais a Satanás no AT, quatorze ocorrem em Jó. (7) Jó demonstra com toda clareza o princípio bíblico de que os crentes são transformados pela revelação, e não pela informação (42.5,6)” (Bíblia de Estudo Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 1995, p.768).

  CONCLUSÃO

Nesta lição apresentamos algumas informações básicas sobre o contexto histórico e literário de Jó. Quanto ao seu gênero o livro é de natureza poética. Isso é importante para a compreensão da própria estrutura como o livro foi organizado. Vimos que o livro apresenta princípios teológicos que transcendem o espaço e o tempo. Esses princípios são para todas as épocas e culturas. O que é demonstrado é que o conhecimento de Deus é o anseio de todo ser humano. – Pode parecer desnecessário, mas uma lição introdutória como esta é crucial para uma compreensão definitiva do conteúdo do livro estudado. Jó é um daqueles livros chamados de poéticos e de sabedoria e faz parte de todo o contexto da história do povo de Israel, desde os tempos da formação inicial com Abraão e vai até o final dos livros proféticos que formam o Antigo Testamento. Este livro tem encantado muitas gerações de crentes piedosos que o leem buscando conhecer mais sobre a misericórdia de Deus e como nós devemos sempre depender Dele. Jó em sua narrativa nos apresenta um modelo de fé e fidelidade a Deus que nos serve como um farol de esperança, pois o sofrimento é um processo do próprio desdobramento da vida. Vamos aprender ser crentes incansáveis como Jó, pois a sabedoria procedente de Deus, possibilita-nos a conhecê-lo verdadeiramente até mesmo em nossas reclamações e murmurações contra Ele. Bom estudo a todos!

REFERÊNCIAS

BARBOSA, Francisco. Lição 1: O livro de Jó. Disponível em: https://auxilioebd.blogspot.com. Acesso em 02.10.2020

HENRY, Matthew. Comentário Bíblico Antigo Testamento: Jó p. 1.  Rio de Janeiro: CPAD, 2010.

LIÇÕES BÍBLICAS. 4º Trimestre 2020 - Lição 1. Rio de Janeiro: CPAD, 04 outubro, 2020.

PFEIFFER, Charles F. Comentário Bíblico Moody. Vol. 1: Jó. p. 1: Batista Regular, 2019.

 

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