sábado, 30 de março de 2019

LIÇÃO 13: ORANDO SEM CESSAR



SUBSÍDIO I

O QUE APRENDEMOS COM OS PRIMEIROS CRISTÃOS
     PARA LIDAR COM A BATALHA ESPIRITUAL

Declaração de Fé das Assembleias de Deus define oração como “o ato consciente, pelo qual a pessoa dirige-se a Deus para se comunicar com Ele e buscar a sua ajuda por meio de palavra ou pensamento”. Embora a maneira de orar dos primeiros cristãos possa se distanciar da tradição brasileira pentecostal, podemos aprender com eles para aperfeiçoar nossa comunicação com Deus e nos preparar para enfrentar as dificuldades e os ataques malignos do dia a dia.
Quanto aos modelos berakah e hodayah, Paul Bradshaw considera que atualmente os cristãos se afastaram desses modelos bíblicos e sugere que nos sirvam de reflexão sobre como estamos orando. Relembrando o que Deus tem feito, estaremos interpretando nossa experiência humana em termos religiosos; estaremos fazendo nossa confissão de fé; estaremos proclamando o evangelho ao mundo; estaremos nos aproximando também da natureza do relacionamento santo com Deus, sempre tendo em mente que a oração não é algo para nosso próprio benefício, mas para que o nome do Senhor seja glorificado.
A prática espiritual dos pais e das mães do deserto pode ser resumida em fugir, estar em silêncio e orar. São três verbos que se aplicam à maneira como devemos agir diante da batalha contra o maligno: fugir da tentação e do diabo, estar em silêncio para meditar na Palavra de Deus e discernir a vontade de Deus e orar. Para os pais e as mães do deserto, a batalha espiritual era contra o conformismo com o padrão de vida mundano, por isso eles se afastaram da sociedade.
A vida espiritual começa na igreja, não no indivíduo. Por isso, a necessidade do vínculo com a igreja para prestar contas da vida espiritual. Assim, o resultado da oração é uma maior intimidade com Deus que leva ao crescimento espiritual e deixa de ser algo individual para ser prestação de contas para com os outros.

Texto extraído da obra “Batalha Espiritual”, editada pela CPAD 

COMENTÁRIO E SUBSÍDIO II

INTRODUÇÃO

As armas espirituais são indispensáveis na batalha que temos que enfrentar. A oração, enquanto fundamento para a luta, também é muito importante. Na aula de hoje, a última deste trimestre, iremos estudar a respeito da oração, e seu valor para a vida cristã. Inicialmente, destacaremos, com base em Mt. 6.5-13, os fundamentos cristãos para a oração, com base na análise do texto grego. Em seguida, faremos a interpretação e aplicação desse texto.

I. ANÁLISE TEXTUAL
                                                                 
A oração sempre fez parte da religiosidade judaica, os fariseus do tempo de Jesus consideravam-na necessária, mas se equivocavam em relação ao modo. Esses eram os hupokritai, que apreciavam orar em pé, que pretendiam ser admirados pelas pessoas, como se fossem atores em um teatro. Eles são censurados pelo Mestre por quererem plateia (v. 5). A oração pública tem seu valor, mas não substitui a oração privada, no lugar secreto. Essa é a oração direcionada ao Pai, pois Ele é Aquele que recompensa. A oração, ainda que seja em oculto – en tô kruptô, terá recompensa do Pai, que responderá (v. 6). Ao orar, devemos fechar a porta, e não fazer como hoi hupokritai, que optam por ficarem “batendo na mesma tecla” (v. 7). Os seguidores de Jesus devem ser diferentes: me oun homoiôthete. Com essa expressão, o Senhor adverte para não se parecer com os gentios (v. 8). Deus é Pater hêmôn, não apenas meu ou teu, mas hêmon, e que é maior do que nós, pois está em tois ouranois. É assim que Jesus ensina Seus discípulos a orarem, e mais que: hagiasthetô to onoma sou, que Teu nome seja santificado (v. 9). A oração ensinada por Jesus orienta a clamar:  elthetô hê basileía sou, venha o Teu reino. Ele já reina nos corações e vidas daqueles que creem. Os súditos do reino se submetem ao senhorio de Cristo. A thelema - vontade de Deus é que todos se dobrem diante desse reino, mas isso não pode ser feito por meio da força. Oramos para que a vontade de Deus seja feita na terra, assim como acontece no céu. (v. 10). Até aquele dia, quando finalmente o reino de Deus será pleno, quando Cristo retornar em glória (Ap. 20.1-10). Devemos orar também pelas nossas necessidades, especialmente pelo pão nosso.Temos necessidades, e essas são supridas pelo Senhor, que nos favorece σήμερον. Nesses tempos de consumismo, existem muitos desejos, mas precisamos aprender a pedir pelo sustento (v. 11). Temos carência também do perdão divino, por isso devemos pedir: aphes hemin ta afelimata hemôn, perdoa as nossas dívidas. O relacionamento com o Pai é o que há de mais importante, pedir perdão é uma necessidade que não pode ser desconsiderada. E um dos fundamentos para fazê-lo é: hos kai hemeis afiemen tois afeiletais hemon, assim como nós perdoamos aos nossos deveredores (v. 12). Somos devedores a Deus, assim como certamente outros nos devem, formos alcançados pela graça, devemos agir de igual modo. É necessário também lembrar do perigo da tentação, por isso precisamos orar: kai me eisenegkes hemas eis peirasmós. E por fim, precisamos reconhecer na oração que é de Deus: he basileía kai he dunamis kai he doxa eis tous aiônas aiônas amén. Ao invés de querer aparecer, como faziam os religiosos, que pareciam que estavam em um palco, diante de uma plateia, em um espetáculo, devemos dar a Deus a glória (v. 13).

II. INTERPRETAÇÃO TEXTUAL

Em resposta ao pedido dos discípulos, Jesus passa, então, a ensinar-lhes a orar (Mt. 6.9; Lc. 11.2). As instruções do Senhor dizem respeito às atitudes: 1) com sinceridade (Mt. 6.1,5,6), não como os fariseus (Mt. 23.14; Lc. 18.10-14); 2) com confiança (Mt. Lc. 11.9-13; Mt. 21.22); 3) com persistência (Lc. 11.5-8), mas 4) com brevidade, sem apelar para vãs repetições (Mt. 6.7). Ainda que possamos orar no templo, enquanto casa de oração (Mt. 21.13; Mc. 11.17; Lc. 19.46; At. 3.1), não estamos restritos a um lugar específico, pois Deus é Espírito e importa que os adoradores que Ele mesmo busca façam-no em espírito e em verdade (Jo. 4.19-24). Um dos elementos fundamentais à oração é que essa seja feita com fé, pois aqueles que se achegam a Deus precisam acreditar que Ele é galardoador dos que O buscam (Hb. 11.6). As palavras de Jesus também devam permanecer em nós, pois, diz Ele em Jo. 15.7, “se vós estiverdes em mim, e as minhas palavras estiverem em vós, pedireis tudo o que quiserdes, e vos será feito”. É preciso fazer uma ressalva, que esse “tudo” é relativo, isto é, não podemos pedir mal, para esbanjar em deleites carnais (Tg. 4.2,3). E assim, quando as palavras de Jesus, verdadeiramente, estiverem em nós, oraremos segundo a Sua vontade, e Ele nos ouvirá (I Jo. 5.14; Jo. 15.7). A oração instrutiva de Jesus quebra um paradigma em relação à fé judaica porque chama Deus de “Paizinho” (Aba), ressaltando o relacionamento íntimo que podemos ter com Ele. Mas Deus não é apenas meu Pai, Ele é “nosso” Pai. Em Cristo fomos feitos filhos de Deus, de modo que hoje podemos, todos aqueles que crêem, se direcionar a Ele como Pai (Jo. 1.12). Esse Pai amoroso, revelado na Parábola do Filho Pródigo (Lc. 16), está acima dos homens, Ele é Deus acima de todos, por isso, está “nos céus” (Is. 66.1), é o Criador, não pode ser confundido com a criatura. Todos devem reconhecer que Ele é Santo, o nome dEle, na verdade, é Santo, e digno de louvor e adoração (II Sm. 22.5; Ez. 36.20). Ele é soberano, por isso, oramos para que venha o reino dEle, que Sua “vontade seja feita na terra como no céu”. Jesus veio para anunciar o Reino de Deus (ou dos céus) (Lc. 4.43), e esse já está no meio de nós (Mt. 22.1; Lc. 14.16), pois Cristo já reina entre os seus súditos (Mt. 13.44, 45, 46), mas ainda virá o dia no qual esse reino será pleno (Ap. 21.2-4), naquele dia, a vontade de Deus prevalecerá, na terra como já acontece no céu. Essa é a bendita esperança da igreja, e principalmente, de Israel, quando o trono de Deus será estabelecido na terra e Jesus será reconhecido como o Rei dos reis e Senhor dos senhores. Enquanto vivemos debaixo dessa esperança, dependemos de Deus e rogamos que Ele nos dê o alimento diário, ainda que saibamos que o Pai sabe o que temos necessidade, antes mesmo que peçamos (Mt. 6.8), oramos, pois Ele se compraz em responder as orações. O cristão não deve pedir riqueza, muito menos pobreza (Pv. 30.8,9), mas tão somente o necessário, não para entesourar, ou para viver ansiosamente (Mt. 6.19-31), antes dependendo do Senhor, que nos dá o que precisamos (Mt. 6.32-34). Devemos lembrar do material, mas também do espiritual, pois somos pecadores. Durante a oração precisamos reconhecer diante de Deus os nossos pecados, e pedir que Ele nos perdoe, mas precisamos perdoar aqueles que nos ofenderam (Mt. 6.14,15; 11.25; 18.21,22, 35), muito mais do que sete vezes (Mt. 18.21,22). O pecado não deva ser uma prática comum na vida cristã, por isso, é preciso orar para que não caiamos em tentação, cientes que não somos tentados por Deus, e sim pela nossa concupiscência (Tg. 1.13-14) e que nenhuma tentação nos sobrevém de sorte que não a possamos suportar (I Co. 10.13; II Pe. 2.9). Além de orar para que não cedamos à tentação, devemos pedir também que o Senhor nos livre do mal, isto é, do Maligno (Jo. 17.15). Orar somente não é suficiente, faz-se necessário resisti-lo (Tg. 4.7), pois Satanás “anda em derredor, bramando como leão, buscando a quem possa tragar” (I Pe. 5.8). Estejamos, pois, firmes, fortalecidos com toda armadura de Deus (Ef. 6.14-18) para que não sejamos vencidos pelo príncipe das trevas (Ef. 6.10-12), nem por homens perversos e maus (II Ts. 3.1-2), e muito menos pelos cuidados deste mundo e pela sedução das riquezas (Mt. 13.22).

III. APLICAÇÃO TEXTUAL

Vivemos em um mundo repleto de atividades, uma se sobrepõe à outra. O corre-corre da vida impossibilita o crente a buscar a Deus em oração. Mas não era assim no princípio, no Gênesis está revelado que o ser humano desfrutava de amizade com Deus. Depois da Queda, o sentimento de autossuficiência passou a ter prioridade na conduta humana. A agitação da modernidade também favorece a ausência de oração. Nos dias atuais, dominados pela tecnologia, as pessoas estão deixando de orar. O fazer está se sobrepondo à oração. É evidente que precisamos agir, mas toda ação do crente pressupõe oração. Lutero costumava dizer que deveríamos trabalhar como se todo trabalho dependesse de nós e orar como se tudo dependesse de Deus. Nesse contexto do fazer, os cristãos estão deixando de separar momentos especiais para a oração: de madrugada, antes das refeições, ou antes de dormir (Sl. 63.1). A materialismo filosófico e o liberalismo teológico contribuíram para essa “apostasia na oração”, pois fomos instruídos, por esses pensamentos, a depender exclusivamente do poderio humano. Essa lógica leva à apostasia, e, na verdade, toda aposta se inicia pela falta de oração. A oração não pode ser um apêndice na vida cristã, ela precisa ter prioridade, a hora silenciosa para a oração e meditação na palavra deva ter primazia na agenda do cristão. A oração é o meio pelo qual desenvolvemos nosso relacionamento com Deus. Ela é uma disciplina cristã, por isso, precisa de treinamento contínuo, tal como a de um atleta (I Co. 9.25). É importante que o cristão tenha um tempo reservado para a oração, ainda que esse seja inicialmente de apenas 15 minutos diariamente, e deva ser persistente em tal prática. Esse é o momento de trocar as nossas forças pelas forças de Deus (Is. 40.31). O ideal é que o crente associe a oração à leitura da palavra (I Sm. 3.21), meditando em algum texto da Escritura, pedindo ao Senhor que se revele por meio dela. Esse é um período para digerir a Palavra de Deus, deixando que ela seja alimento (Jr. 15.16). Alguns cristãos adotam a prática de fazer anotações: data, passagem lida, aplicações e o motivo da oração. Outra opção é a utilização de um livro devocional diário, com textos bíblicos e meditações aplicativas, sem esquecer da oração. A relevância da oração não está naquilo que iremos receber da parte de Deus, mas no fato de estarmos na presença dEle. Jesus nos dá esse exemplo maior, pois Ele, enquanto homem, nos ensinou a depender do Pai e a buscar desenvolver nosso relacionamento com Ele (Mt. 1.35-39). O encontro de Jesus com os discípulos, no caminho de Emaús, revela a importância do relacionamento com Deus (Lc. 24.13-16). Na jornada cristã, precisamos da companhia de Cristo, Ele é Aquele que nos livra das inquietações do cotidiano (Hb. 4.16; Fp. 4.6,7) Jesus é o fundamento da oração cristã, na verdade, podemos nos achegar ao Pai com confiança porque Ele é o mediador, Seu sacrifício perfeito nos oportuniza o acesso a Deus em oração (Ex. 30.7-10), por meio da Sua graça (Hb. 4.14-16), e auxílio bem presente (Rm. 8.34; I Jo. 2.1-2). A confiança se concretiza através da sinceridade, por isso, devemos orar cientes de que Deus pode nos socorrer (Sl. 139.1; I Cr. 28.9), perdoar os pecados, contanto que quebrantemos nossos corações perante Ele (Sl. 51.10,17), que não sejamos hipócritas tal como o publicano (Lc. 18.13). Na oração também podemos apresentar nossas queixas perante o Senhor (Sl. 44.23-24). A esse respeito, disse um pensador judeu: “o judeu pode amar a Deus ou lutar com Ele, mas não pode ignorá-lo”. Não tenhamos receio de apresentar nossas angústias diante de Deus, esses também são modos de oração, experimentados por homens de Deus, tal como Abraão (Gn. 18.23-33) e Moisés (Ex. 32.12,14). Mas a oração é também uma oportunidade para a rendição, isto é, de acatarmos a vontade soberana de Deus para as nossas vidas. Alguns crentes não oram porque têm receio de se dobrarem à vontade de Deus (Jo. 4.34; Rm. 12.1-3). É por meio da oração que nos achegamos em gratidão por tudo que o Senhor nos tem feito (ou deixado de fazer). Deus sabe sempre o que é melhor para cada cristão, por isso, enquanto a resposta não vem, devemos confiar nEle (Sl. 100.4), agradecer pela Sua providência (Ef. 5.20) e reconhecer a Sua soberania (Sl. 113.1-3).

CONCLUSÃO

A oração é fundamental na vida de todo crente. Não apenas para recebermos as bênçãos de Deus. A importância central da oração repousa na oportunidade de desenvolvermos um relacionamento contínuo com nosso Pai Celestial. Enquanto oramos, independentemente do modo como Ele responde, devemos confiar em Suas promessas (Fp. 4.6,7), que é o antídoto contra toda ansiedade (Sl. 4.8) e a certeza da Sua presença diante das adversidades (Fp. 4.9).


José Roberto A. Barbosa
Disponível no Blog subsidioebd.blogspot.com

COMENTÁRIO E SUBSÍDIO III

INTRODUÇÃO

A oração do Pai Nosso, conhecida também como a Oração Dominical, do latim Dominus, "Senhor", portanto a oração do Senhor, é um dos textos mais conhecidos da Bíblia. Pessoas de dotas as idades e dos diversos ramos do cristianismo conhecem pelo menos as primeiras palavras dessa oração. Muitos livros, poesias e hinos sobre tema já foram produzidos ao longo da história. Lutero escreveu um comentário sobre o "Pai Nosso", juntamente com os Dez Mandamentos e o Credo do Apóstolo, no seu Catecismo Menor em 1529. Isso, por si só, mostra a importância dessa oração no cristianismo.
No texto base desta lição encontramos os discípulos pedindo que Jesus os ensinasse a orar de modo que Deus se agradasse. Como escreveu o comentarista, muitas matizes da fé cristã ensinam e incentivam a recitação dos versos 9 a 13 como uma forma de oração. Muitas pessoas têm memorizado a Oração dos Discípulos, para que eles possam recitá-la frequntemente, mas, não importa quão bela ela seja, ela não foi dada para este propósito. De fato, após Jesus a dar, ninguém no Novo Testamento a recitou –– nem mesmo o próprio Jesus (confira João 17). Os discípulos não pediram para Jesus ensiná-los uma oração, mas para ensiná-los como orar (Lc 11.1). A resposta de Jesus foi: “Portanto, vós orareis assim” (v. 9). Estes versos apresentam um padrão geral para todas as orações, e embora ela não seja recitada, seus princípios estão evidentes em todas as orações do Novo Testamento. Arthur W Pink, em seu livro ‘A Oração do Senhor’ (Fonte: Providence Baptist Ministries, disponível em: http://www.pbministries.org), afirma que este dilema perdura a muito tempo, “se a Oração do Senhor deve ser considerada como uma forma a ser usada ou um padrão a ser imitado. A resposta certa para esta questão é que ela deve ser considerada como ambas as coisas. Em Mateus, ela é manifestamente apresentada como um exemplo ou padrão do tipo de oração que deve ser oferecida sob a nova economia. “Portanto, vós orareis assim”. Devemos orar “com aquela reverência, humildade, seriedade, confiança em Deus, interesse pela Sua glória, amor pela humanidade, submissão, moderação nas coisas temporais, e zelo pelas coisas espirituais que ela inculca” (Thomas Scott). Mas, em Lucas 11:2, encontramos nosso Senhor ensinando isto: “Quando orardes, dizei: ...”, ou seja, devemos usar Suas palavras como uma fórmula. Então, é o dever dos discípulos de Cristo, em sua oração, tanto usar a Oração do Senhor continuamente como um padrão quanto, às vezes, como uma forma.” A oração é a linguagem da dependência; quem não ora, está se esforçando para viver independentemente de Deus: esta foi a primeira maldição, e continua a ser a grande maldição da humanidade.

I. A ORAÇÃO
                                                                                                                                   
A oração é a alma do cristianismo e expressa a nossa total dependência de Deus. Ela é tão antiga quanto à humanidade, e o próprio Jesus se dedicava à oração particular e secreta. Sendo Ele Deus, vivia em oração contínua. Que exemplo! O que não diremos nós, com respeito à oração?
A oração é uma conversa com Deus; não é um monólogo, Ele responde às nossas orações de várias maneiras. Quando oramos, estamos iniciando uma conversa com Deus, para falar com Ele sobre o que está passando e ouvir o que Ele tem a dizer. A oração era parte constante na vida de Jesus, mesmo sendo ele Deus - “Eu e o Pai somos um”, disse Jesus aos judeus no Pórtico de Salomão (Jo 10.30). E apesar desta completa intimidade com o Pai, Jesus era um homem de oração: “Durante a sua vida aqui na terra, Cristo, em alta voz e com lágrimas, fez orações e súplicas a Deus, que o podia salvar da morte. E as suas orações foram atendidas porque ele era dedicado a Deus” (Hb 5.7).

1. Definição. A Declaração de Fé das Assembleias de Deus define oração como "o ato consciente, pelo qual a pessoa dirige-se a Deus para se comunicar com Ele e buscar a sua ajuda por meio de palavra ou pensamento". A oração é central para a vida cristã. A fé cristã não prescreve local, dia da semana, horário ou postura de pé, sentado ou ajoelhado para fazer orações. O ensino cristão é: “Orai sem cessar" (1 Ts 5.17). Não há problema para quem deseja orar em pé (1 Sm 1.9,10), prostrado em terra (Ne 8.6), de joelhos (1 Rs 8.54). A postura física não importa; o importante é a posição espiritual diante de Deus, é orar com sinceridade e estar em comunhão com o Senhor Jesus.
Não há o que acrescentar aqui quanto à definição. A oração é uma conversa. Deus responde às nossas orações de várias maneiras. Quando oramos, estamos iniciando uma conversa com Deus, para falar com Ele sobre o que está passando e ouvir o que Ele tem a dizer. “Se você quiser saber o conceito que um povo tem de Deus, preste atenção nas suas orações e nos seus cânticos. Pois é impossível ter um conceito correto de Deus revelado nas Escrituras e orar, cantar e adorar de maneira errada. Como sabemos, a teologia precede a ética, ou seja, o nosso comportamento, os nossos valores e prioridades são reflexos ou expressões do conceito que temos de Deus e da vida. Portanto, quanto mais conhecermos pelas Escrituras o Deus que se revelou na Pessoa de Jesus Cristo, quanto mais conhecermos o seu ser, os seus atributos, isto determinará a nossa maneira de orar, cantar e adorar a Deus.” (Paulo Cesar Bornelli). A Bíblia diz que o Espírito Santo intercede por nós (ora por nós), porque ainda não sabemos orar como convém (Rm 8.26).

2. Exemplos bíblicos. A Bíblia mostra a oração desde que Sete, filho de Adão e Eva, nasceu: "Então, se começou a invocar o nome do SENHOR" (Gn 4.26). Essa prática continuou na vida dos patriarcas do Gênesis, Abraão, Isaque e Jacó (Gn 20.17; 25.21; 32.9-12). A oração estava presente na vida de Moisés, dos profetas Samuel e Elias, entre outros, e dos reis piedosos como Ezequias (Êx 8.30; 1 Sm 8.6; 1 Rs 17.19-22; 2 Rs 19.15).
Interessante notar que este filho do primeiro casal recebeu um nome bem adequado. Sete significa “designado ou colocado”, o que indicava a misericórdia de Deus. Deus agraciou o primeiro casal com um filho que preservaria a fé no único Deus verdadeiro. Sua descendência logo começou na adoração - Foi uma experiência para nunca mais ser esquecida, quando, sob o estímulo de Enos, os homens começaram a invocar o nome de YWHW, o Deus da aliança. Enos, que se destacou na linhagem de Sete, foi o originador da oração pública e da adoração espiritual. Nela se usava o inefável nome do Deus eterno. Através dos descendentes de Sete havia uma esperança para dias melhores. É inadequado falarmos da vida de oração destes grandes homens de Deus, aliás, eles foram grandes justamente por que a oração fazia parte de suas vidas,já que orar é falar com Deus, é declarar lealdade a uma realidade espiritual que está acima e além do terreno humano, do auto esforço e do controle. Veja que Elias foi um homem poderoso na oração (1Rs 18.41-46).

3. Jesus e a prática da oração. Os Evangelhos relatam que Jesus orava em secreto continuamente e chegam a registrar algumas orações, como aquela feita no jardim de Getsêmani e também aquela em favor dos discípulos em João 17. Todos os Evangelhos mostram a oração individual do Senhor (Mt 14.23; Mc 1.35; Lc 6.12). Mesmo sendo Deus, Jesus estava também na condição humana e, como tal, buscava a dependência do Pai. Jesus é o maior exemplo de oração para os cristãos.
Qualquer leitura dos Evangelhos deixa muito clara a prática constante de oração na vida de Jesus. Algumas coisas que os apóstolos fizeram e falaram mostram como eles perceberam estes hábitos de oração. Eles pediram que Jesus lhes ensinasse sobre a oração, porque tinham observado o exemplo dele (Lc 11.1). A facilidade de Judas em encontrar Jesus mostra que os discípulos bem conheciam a prática dele de se isolar para falar com o Pai (Jo 18.1-2). Jesus Cristo, a pessoa que mais entendia o valor da comunhão com o Pai, constantemente procurava conversar com ele. Podemos aprender muito do exemplo de oração na vida de Jesus. “Não se diz que Jesus orava naqueles horários rígidos de oração, pela manhã, ao meio-dia e à tarde (Sl 55.17; Dn 6.10). Ele orava mais durante a noite do que durante o dia, mais nas montanhas do que em outro lugar. Uma coisa é certa: as orações do Senhor não eram rotineiras e cheias de vãs repetições. Influenciado pela vida de oração de Jesus, um dos discípulos lhe disse: “Senhor, ensina-nos a orar, como João ensinou os discípulos dele” (Lc 11.1). Foi nessa ocasião que Jesus ofereceu o modelo universal da oração dominical e discorreu sobre a perseverança na oração e sobre a boa vontade de Deus em nos ouvir e responder (Lc 11.2-13). Há uma relação das orações de Jesus com os acontecimentos anteriores ou posteriores que o envolviam, como se pode ver nos textos que as seguem ou antecedem.” (ULTIMATOONLINE).

SUBSÍDIO TEOLÓGICO

“A oração é a expressão mais íntima da vida cristã, o ponto alto de toda experiência religiosa genuinamente espiritual. Por que,então, permanece tão negligenciada?
Vivemos numa época em que os indivíduos evitam a intimidade e os relacionamentos pessoais. O receio de expor seus sentimentos e desenvolver amizades profundas afeta tanto as relações espirituais como as sociais, erguendo barreiras dentro da própria família e dividindo comunidades. Inconscientes de que esse modismo entrou na igreja e por ele influenciados, alguns cristãos sentem-se nada confortáveis quando se chegam próximos demais a Deus. O resultado imediato é a falta de oração — não querem intimidade. Além disso, também estamos muito ocupados. Vivemos para realizar, e não para ser. Admiramos a vida ativa mais do que o caráter e os relacionamentos. O sucesso é medido por nossas realizações; portanto, corremos, corremos — tentando fazer tudo quanto podemos em nossas horas ativas. Mais preocupados em fazer do que em ser, recusamo-nos a aceitar a realidade bíblica de que as realizações humanas são temporárias e fugazes. Somente a obra do Espírito Santo é permanente e eterna. A falta de oração nos impede de alcançar aquilo que tão desesperadamente ansiamos. A falta de oração, na verdade, é impiedade” (BRANDT, Robert L. Teologia Bíblica da Oração: O Espírito nos Ajuda a Orar. 6.ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2013, p. 17).

II. A ORAÇÃO NO SERMÃO DO MONTE

O Senhor Jesus falou sobre o assunto no Sermão do Monte para corrigir as distorções existentes na época sobre a oração. É necessário reconhecer, nas palavras dos vv. 5-8, o que Jesus estava ensinando, qual prática tinha a aprovação de Deus e o que era reprovado.
1. Oração nas praças e nas sinagogas (v.5). Jesus não estava proibindo orar nas ruas, praças ou nas sinagogas. É que líderes religiosos da época procuravam as esquinas e os locais movimentados, onde levantavam as mãos para cima na presença das pessoas, para mostrar a elas uma imagem de alguém piedoso e temente a Deus. Eram exibições para serem elogiadas pelo público; por isso, Jesus disse: "Em verdade vos digo que já receberam o seu galardão" (v.5b). São essas práticas exibicionistas que Jesus proibiu aos seus discípulos, e não as orações em público ou nas igrejas. Ele mesmo ensinava, pregava e curava nas sinagogas (Mt 4.23). Estava orando quando o Espírito Santo desceu sobre Ele no batismo: "Sendo batizado também Jesus, orando ele, o céu se abriu" (Lc 3.21). Ele também orou em público por ocasião da ressurreição de Lázaro (Jo 11.41-44).
Aqui não é uma proibição a oramos em público, mas é uma desaprovação à atitude dos fariseus em quererem parecer piedosos, faziam isso para aparecer. tu, porém -- O discípulo deve ter outra atitude. Não deve imitar os outros, mas deve seu comportamento ter algo nitidamente pessoal. Também aprendemos aqui que Deus quer que cada pessoa tenha com ele um contato pessoal e exclusivo. Por isso, a recomendação de sair da agitação, do meio das pessoas e ir a um lugar calmo e sossegado, sem ninguém ao redor parar orar, onde é possível falar com Deus sem interrupção ou perturbações. Esta é a recomendação de Jesus.

2. Oração em secreto (v.6). Jesus proíbe a ostentação e a hipocrisia. Não há como alguém se mostrar estando no próprio aposento, sozinho em oração, onde ninguém está vendo. Isso, no entanto, não significa que a oração só pode ser aceita se for secreta. Mas significa que Deus, que é onisciente e onipresente e conhece o nosso coração, nos recompensa. Ou seja, as nossas petições e súplicas são atendidas (Fp 4 .6). A oração num lugar secreto em uma das dependências da residência, sem a comunhão com Deus, tampouco lema aprovação do Senhor.
fecha a porta -- Oração é momento de intimidade com Deus. secreto -- a oração individual é diferente da pública. Não é para expor algo ao público, mas para se expor diante de Deus. É desnudamento. É jogo da verdade. É momento de confissão de pecados. É momento de falar e ouvir. “O Messias estava se referindo a intenção do coração, onde existe uma clara diferença em orar para os homens e orar para Deus, como alguém que sabe que é pecador e necessita desesperadamente da Graça do Senhor ou aquele que confia na sua própria “santidade”. “quando orares, não sejas como os hipócritas; pois se comprazem em orar em pé nas sinagogas, e às esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens”. (Mt 6.5). Cristo chama isso de hipocrisia, porque não é verdadeiro, não é raro encontrar por aí orações de “línguas” ou não, extremamente “forçadas”, para que a pessoa “pareça” mais santa.” (BIBLIACOMENTADA)

3. As vãs repetições (v.7). Jesus nus instrui com essas palavras: "Orando, mio useis de vãs repetições, como os gentios, que pensam que, por muito falarem, serão ouvidos". Isso dá a entender que havia judeus que oravam como os gentios, ou seja, os pagãos (1 Rs 18.26; At 19.34). Há religiosos que levam horas orando e repetindo palavras sagradas, pois acreditam que isso aumenta o seu crédito no céu. O termo grego usado para "vãs repetições" é battalogéo, "repetir palavras sem sentido". A eficácia da oração não está na sua extensão nem nas repetições das palavras, pois oração é também comunhão com Deus. A oração do Pai Nosso é usada na adoração coletiva desde muito cedo na história e continua ainda hoje em muitas igrejas [...].
Oração deve ser derramamento do espírito, não uma reza (conjunto repetido de palavras). Os pagãos repetiam os nomes dos seus deuses, para ver se ouviam... Jesus está nos advertindo de que repetir frases sem valor em nossas orações não as ajudará a serem ouvidas por Deus. Nosso Pai Celestial não se preocupa com a contagem de palavras, expressões poéticas ou mantras; Ele deseja a "verdade no íntimo" (Salmo 51.6). Orar é derramar a alma, nesse ‘derramar’ não cabem palavras sem sentido. Nossas orações devem ser mais como a breve e simples oração de Elias no Monte Carmelo e menos como as orações prolongadas e repetitivas dos profetas de Baal (1Rs 18.25-39). Se você entender e seguir o padrão de Cristo para a oração, você pode estar seguro que estará orando como Ele instruiu, e que, seja o que for que você peça em Seu nome, Ele fará, “para que o Pai seja glorificado no Filho” (Jo 14.13).

4. Entendendo o ensino de Jesus. O Mestre não está condenando a oração longa ou repetitiva, mas as "vãs repetições". 0 próprio Jesus, no Getsêmani, repetiu as mesmas palavras três vezes na oração (Mt 26.39,44). Jesus passou a noite orando no monte para escolher os doze apóstolos; com certeza, essa oração não foi curta (Lc 6.12). Além disso, Ele nos ensina a orar sem nunca desanimar (Lc 18.1). A oração do Pai Nosso é usada na adoração coletiva desde muito cedo na história e continua ainda hoje em muitas igrejas nos diversos ramos do cristianismo.
Há coisas em nossa vida que apresentamos em oração ao Senhor, uma, duas, três vezes, isso não configura repetição no sentido do texto em estudo, mas sim, perseverança. Sua oração era um padrão geral para todas as orações, e embora ela não seja recitada, seus princípios estão evidentes em todas as orações do Novo Testamento. A oração modelo de Cristo nos ensina a pedir seis coisas a Deus:
(1) que Seu nome seja honrado,
(2) que Ele traga o Seu reino à terra,
(3) que Ele faça Sua vontade,
(4) que Ele proveja nossas necessidades diárias,
(5) que Ele perdoe os nossos pecados, e
(6) que Ele nos proteja de tentação.
Cada uma dessas contribui para o objetivo último de toda oração, que é trazer glória a Deus. As últimas três são os meios pelos quais as três primeiras são alcançadas. À medida que Deus providencia o nosso pão diário, perdoa os nossos pecados e nos protege quando somos tentados, Ele é exaltado em Seu nome, glória e vontade.

SUBSÍDIO TEOLÓGICO

“Embora seja Deus, enquanto esteve aqui na Terra Jesus não era somente Deus — era o Deus-Homem. Na posição de Deus, Ele não precisava orar (exceto para manter aquela comunhão e companheirismo próprio da Deidade). Mas, na qualidade de homem, estando revestido de um corpo humano, sendo descendente legítimo de Abraão, a oração era tão essencial a Ele como o fora a Abraão e seus descendentes.
A oração destacou-se em cada aspecto e fase de sua vida e ministério. A Bíblia cita numerosos exemplos de oração durante o curto período de três anos e meio do ministério de Jesus. Há evidências de que a oração era a própria respiração da vida de Jesus, tal como acontecia com Moisés. Jesus vivia uma vida disciplinada. Os Evangelhos registraram determinados hábitos que Ele fazia questão de cultivar. Um deles era frequentar regularmente a sinagoga aos sábados, o que, naturalmente, incluía um período de oração (Mt 21.13). Não é errado pensar que Jesus tinha ido diariamente à sinagoga ou ao Templo — dependendo do lugar onde Ele estivesse — para dedicar-se à oração” (BRANDT, Robert L. Teologia Bíblica da Oração: O Espírito nos Ajuda a Orar. 6.ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2013, pp. 166,167).

III. O PAI NOSSO

Jesus repetia os seus ensinos em ocasiões e locais diferentes. Esses discursos são registrados, às vezes, por mais de um evangelista, e assim surgem algumas modificações. Um exemplo disso é a oração do Pai Nosso, em Mateus e em Lucas. São duas situações e locais diferentes. Sua importância está no fato de ser uma oração modelo. Podemos dividi-la em três partes: sobre o Deus que adoramos, sobre as nossas necessidades e sobre os nossos perigos.
Há duas formas do Pai Nosso no Novo Testamento, a versão de Lucas é mais breve do que a que encontramos em Mateus 6. Neste caso, não há uma repetição do ensino, mas duas narrativas de um mesmo evento. Lembrando que Mateus escreveu para um público judeu e Lucas para um público gentio.

1. O nosso Deus. O Pai Nosso é uma oração modelo, e isso pode ser visto na linguagem usada por Jesus: "Vós orareis assim" (v.9), e não o que devemos orar. Ele continua: "Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome". Essa forma de se dirigir a Deus é peculiar ao Novo Testamento, pois os justos do Antigo Testamento nunca a usaram. Deus, o Criador, é o nosso Pai. A liberdade que temos de nos aproximar dEle e chamá-lo de "Pai" ou, de maneira mais íntima, de “Aba, Pai", expressão aramaica que significa "papai", é um dos grandes privilégios dos cristãos (Rm 8.15; Gl 4.4-6). Essa bênção foi mediada por Jesus. Santificar o nome não significa tornar seu nome santo, pois ele já é santo em sua essência e natureza, mas é o nosso dever reconhecê-lo como tal.
Orareis assim não significa usar as mesmas palavras, mas sim seguir esse modelo de oração. As pessoas geralmente reduzem essa oração a uma recitação vazia — justamente o que o Senhor disse para não fazermos (Mt 6.7). A oração aqui é composta por seis pedidos. Os três primeiros são para que venha o Reino (Mt 6.9,10), e os três últimos para que Deus supra as necessidades de Seu povo até que o Reino seja plenamente estabelecido (Mt 6.11-13). Notemos, ainda, que as palavras “Santificado seja o teu nome” não são palavras de adoração ao Pai. O verbo aqui está no modo imperativo e quer dizer que o “teu nome seja santificado!” Isso nos traz à mente a profecia em Ezequiel 36.25-32, em que o profeta diz que Israel profanou o nome de Deus entre as nações. Um dia Deus reunirá Seu povo dentre as nações, irá purificá-lo e, assim, vindicará santidade ao Seu santo nome. A santificação do nome do Pai significa a chegada do Reino de Deus. O termo Abba é aramaico, a língua falada por Jesus, significa ‘papai’ ou ‘paizinho querido’ – “E, porque vocês são filhos, Deus enviou o Espírito de seu Filho ao coração de vocês, e ele clama: "Aba, Pai"” (Gl 4.6) – assim, chamar Deus de papai é algo muito sério, pelo menos foi para Jesus. Quando Deus é chamado de pai ele é honrado como criador , ou seja, tinha-se a consciência de que Ele é o Senhor que merece obediência e o Pai que é misericordioso. Chamar Deus de Abbá é para quem vive o cotidiano com Ele, é para quem está compromissado com a Cruz ensanguntada!

2. As nossas necessidades. O termo "pão" em "o pão nosso de cada dia dá-nos hoje" (v.11) inclui tudo aquilo de que o nosso corpo necessita. Mas só hoje? E o futuro? Jesus nos ensina a sermos moderados em nossos desejos e pedidos (Pv 30.8,9). Isso remete também à confiança na provisão de Deus para a nossa vida (Mt 6.25-34). O perdão é outro ponto importante: "Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores" (v.12). Já não fomos perdoados e já não somos filhos de Deus? É verdade, mas estamos sempre expostos ao pecado (1 Jo 1.8,9). Todavia, precisamos também perdoar aos que nos fazem o mal (Mt 18.32-35).
A partir do verso 11, voltamos agora a nossa atenção para aquelas petições que interessam mais imediatamente a nós mesmos. O pão nosso de cada dia é uma lembrança do maná que Deus enviava diariamente para alimentar o povo de Israel no deserto. Esta petição pelo suprimento de necessidades corporais. “Matthew Henry assinalou perspicazmente que o motivo para esta petição pelo suprimento de nossas necessidades físicas encabeçar as quatro últimas petições é que “nosso [bem-estar] natural é necessário [para] nosso bem-estar espiritual neste mundo”. Em outras palavras, Deus nos concede as coisas físicas desta vida como auxílios ao cumprimento de nossos deveres espirituais. E, visto que são dados por Ele, eles devem ser empregados em Seu serviço. Que consideração graciosa Deus mostra para com a nossa fraqueza: somos incapazes e inaptos para cumprir nossos mais elevados deveres, se privados das coisas necessárias para o sustento da nossa existência corporal. Podemos também inferir corretamente que esta petição vem primeiro a fim de promover o crescimento e o fortalecimento constantes da nossa fé. Percebendo a bondade e fidelidade de Deus em suprir nossas necessidades físicas diárias, somos encorajados e estimulados a pedir bênçãos mais elevadas (cf. At 17:25-28).
O pedido de perdão, que é explicado em Mateus 6.14,15, não se refere a como as pessoas são justificadas (compare com Rm 3.21-26; Ef 2.8-10), mas sobre como alguém que foi justificado deve andar todos os dias com Deus. Não se trata de um perdão posicional, forense (legal), mas de um preceito para preservar a comunhão familiar (1Jo 1.9). Então, devemos compreender que o perdão posicional foi adquirido no momento que passamos a fazer parte da família de Deus, e ao longo da nossa caminhada nessa família, necessitamos confessar sempre e rogar pelo perdão a fim de preservarmos a comunhão. Nossos pecados são vistos aqui, assim como em Lucas 11:4, sob a noção de dívidas, ou seja, obrigações não cumpridas ou fracassos em prestar a Deus o que Lhe é legitimamente devido. Paulo diz: “De maneira que, irmãos, somos devedores, não à carne para viver segundo a carne” (Rm 8:12), declarando assim o lado negativo. Mas, positivamente, somos devedores a Deus, para viver para Ele.

3. O livramento dos perigos. Essa petição no Pai Nosso: “Não nos induzas à tentação, mas livra-nos do mal (v.13) se refere aos perigos diários a que estamos expostos num mundo sedutor e corrompido (Fp 2.15). É verdade que Deus não tenta as criaturas humanas (Tg 1.13), mas devemos pedir a Deus que não permita que voluntariamente venhamos a nos deparar com a tentação. A oração termina com a doxologia: "porque teu é o Reino, e o poder, e a glória, para sempre" (v.13b), para ser um resumo de um trecho da oração de Davi (1 Cr 29.11-13). A expressão reflete o espírito das Escrituras Sagradas.
A doxologia no final da oração vem de 1 Crónicas 29.11: “Tua é, Senhor, a magnificência, e o poder, e a honra, e a vitória, e a majestade; porque teu é tudo quanto há nos céus e na terra; teu é, Senhor, o reino, e tu te exaltaste por cabeça sobre todo.”; alguns manuscritos antigos das Escrituras a omitem. “É importante entender que a palavra tentar possui um duplo significado na Escritura, embora nem sempre seja fácil determinar qual dos dois se aplica em uma passagem particular: (1) testar (a força de), por à prova; e (2) incitar a fazer o mal. Quando se diz que “Deus tentou a Abraão” (Gn 22:1), significa que Ele o provou, colocando à prova a sua fé e fidelidade. Mas, quando lemos que Satanás tentou a Cristo, significa que Satanás procurou produzir a Sua queda, embora fosse moralmente impossível. Tentar é fazer prova de uma pessoa, a fim de descobrir o que ela é e o que fará. Podemos tentar a Deus em um sentido legítimo e bom, pondo-O à prova em um sentido de dever, como quando aguardamos o cumprimento da Sua promessa em Malaquias 3:10. Mas, como está registrado para a nossa admoestação no Salmo 78:41, Israel tentou a Deus em um sentido de pecado, agindo de tal modo que provocasse o Seu descontentamento.” (MONERGISMO). Ao oramos “Não nos induzas à tentação”, estamos reconhecendo a soberania de Deus, que todas as criaturas estão à disposição soberana do seu Criador; Ele tem o mesmo controle absoluto sobre o mal que sobre o bem; Estamos clamando para que Deus nos ajude a enfrentar a tentação diária do pecado. Em Tiago 1.13,14, fica bem claro que Deus não nos tenta com o mal, mas, ao contrário, nós é que somos tentados pelas nossas próprias concupiscências. No entanto, Deus nos testa para nos dar a oportunidade de provarmos nossa fidelidade a Ele. O desejo de Deus jamais foi induzir-nos a fazer o mal. Sendo assim, se resistirmos ao diabo, temos a promessa de que ele fugirá de nós.
 Livra-nos dos mal” - “Somos ensinados a orar por livramento de todos os tipos, graus e ocasiões do mal; da malícia, poder e sutileza dos poderes das trevas; deste mundo mau e todos os seus engodos, laços, índoles e enganos; do mal de nossos próprios corações, para que seja refreado, subjugado e finalmente extirpado; e do mal do sofrimento...” (Thomas Scott). Esta petição, então, expressa um desejo de sermos livrados de tudo o que seja realmente prejudicial a nós, e especialmente do pecado, o qual não tem bem algum em si mesmo.


SUBSÍDIO BIBLIOLÓGICO

“Lucas 11.1-4 Essa passagem transmite uma mensagem muito simples. [...] A oração é a expressão do nosso relacionamento familiar com Deus. E as respostas às orações não dependem de alguém ter ou não cometido um erro ao recitar as palavras adequadas. Na verdade, as respostas à oração representam um transbordamento daquele permanente amor que Deus tem por nós, seus filhos.
Essa grande realidade nos dá a chave para entendermos aquilo que chamamos de Oração do Senhor (11.2-4).
• Pai. Nós nos aproximamos de Deus como de um Pai, profundamente conscientes de seu amor e compromisso conosco, e o respeitamos e amamos.
• Santificado seja o teu nome. Exaltamos a Deus e o louvamos pelo que Ele é” (RICHARDS, Lawrence O. Comentário Histórico-Cultural do Novo Testamento. 1.ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2007, pp.167-68).

CONCLUSÃO

Diante do exposto, concluímos que a oração deve ser uma prática contínua, e não ser recebida como um mandamento, mas como uma necessidade que temos da dependência de Deus. Note que Jesus não está mandando ninguém orar no discurso do Sermão do Monte. Ele disse: "quando orares" (v. 5); isso revela que a oração já era hábito do povo israelita, costume preservado desde o Antigo Testamento (Sl 55.17; Dn 6.10). Jesus estava corrigindo as distorções existentes.
“A falta de oração demonstra a falta de fé e a falta de confiança na Palavra de Deus. Nós oramos para demonstrar nossa fé em Deus, que Ele fará assim como prometeu em Sua Palavra, e que abençoará nossas vidas abundantemente mais do que podemos pedir ou esperar (Efésios 3:20). A oração é nosso primeiro meio de ver a obra de Deus na vida de outros. Por ser nosso meio de nos “ligarmos” ao poder de Deus como se nos ligássemos em uma tomada, é nosso meio de derrotar nosso inimigo e seu exército (Satanás e seu exército) que, por nós mesmos, não teríamos forças para vencer. Por isto, que Deus nos encontre sempre perante Seu trono, pois temos um Sumo Sacerdote no céu que pode se identificar com tudo o que passamos (Hebreus 4:15-16). Temos Sua promessa de que “A oração feita por um justo pode muito em seus efeitos” (Tiago 5:16-18). Que Deus possa glorificar Seu nome em nossas vidas conforme creiamos Nele de forma suficiente para que venhamos sempre a Ele em oração”.(Why pray?, disponível em: https://www.gotquestions.org/why-pray.html. Acesso em: 24 Mar, 2019).

Achando-se as tuas palavras, logo as comi, e a tua palavra foi para mim o gozo e alegria do meu coração; porque pelo teu nome sou chamado, ó Senhor Deus dos Exércitos”. (Jeremias 15.16)




Francisco Barbosa
Disponível no blog: auxilioebd.blogspot.com.br


sexta-feira, 22 de março de 2019

LIÇÃO 12: VIVENDO EM CONSTANTE VIGILÂNCIA


 
SUBSÍDIO I

EXORTAÇÃO A VIGILÂNCIA

A vigilância é um tema significativo no relato da angústia de Jesus no Getsêmani. Jesus disse a Pedro, João e Tiago, seu irmão: “A minha alma está cheia de tristeza até à morte; ficai aqui e vigiai comigo” (Mt 26.38). Outra vez, disse a esses três discípulos, depois de ter orado ao Pai pedindo que, se possível, passasse dele o cálice: “Meu Pai, se é possível, passa de mim este cálice” (v.39), e a seguir: “Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; na verdade, o espírito está pronto, mas a carne é fraca” (v. 41). O termo grego para “vigiar” nessas duas passagens é o mesmo, gregoréo, mas o sentido em cada uma delas difere pelo contexto. No v. 38, indica ficar despertado, acordado. O Dicionário exegético do Novo Testamento, de Horst Balz e Gerhard Schneider, explica que esse verbo “significa em primeiro lugar não dormir” e justifica esse significado primário pelo fato de Jesus exortar três vezes os seus discípulos no relato do Getsêmani a permanecerem acordados com ele, e o dicionário acrescenta ainda que a parábola do servo vigilante (Lc 12.36-38) “deve ser entendida no sentido de não dormir” (p. 801). O grifo não é nosso. De fato, o verbo é derivado de egrégora, perfeito de egeiro, “levantar, acordar, despertar”. O apóstolo Paulo usa esse verbo em contraste com dormir (1 Ts 5.6). A ideia de vigiar e vigilância é figurada. Devemos estar atentos a tudo sobre as especulações da falsa batalha espiritual.
Mas o v. 41 parece ser uma reminiscência ao Pai nosso, “não nos induzas à tentação” (Mt 6.13). O “vigiai” (Mt 26.41) ensina outra coisa, diferente do v. 38, pois lá a ideia é de ficar despertado, acordado, na companhia de Jesus, no momento tão crucial em toda a sua vida terrena; mas, aqui, significa estar vigilante e atento para evitar o fracasso espiritual e ficar distante do pecado. Trata-se de um aviso contra o vacilo. A advertência é esclarecida pelo próprio Senhor Jesus, “para que não entreis em tentação”; e mais: “o espírito está pronto, mas a carne é fraca”. E isso não somente por causa das astúcias de Satanás, mas também por causa da tendência humana para o pecado.
O “espírito” aqui não se refere ao Espírito Santo nem ao espírito satânico, mas ao espírito humano no crente, que adora a Deus em espírito (Jo 4.24); fala línguas em espírito (1 Co 14.3), ora e canta com o espírito (1 Co 14.14-16). O contraste bíblico entre carne e espírito revela, muitas vezes, o conflito entre a santificação e a tendência pecaminosa (Rm 8.5-9; Gl 5.17). Mas o termo “carne” tem um significado amplo nas Escrituras; é usado de modo geral para toda a criação, os seres humanos e os animais (Gn 6.13, 17; 1 Co 15.39), para se referir ao corpo humano (Jó 33.21); ao gado, quando se trata de alimento (Lv 7.19); e também para se distinguir do espírito (Jó 14.22; 1 Co 5.5). Quando Jesus expressa o contraste: “o espírito está pronto, mas a carne é fraca”, há quem interprete “carne” aqui como a natureza física considerando o estado de exaustão dos discípulos, até certo ponto aceitável (Sl 78.39). O contexto parece indicar o sentido de fraqueza moral e espiritual, pois a vigilância é para não cair em tentação. Sêneca, senador romano e maior expoente do Estoicismo do século 1, dizia: Errare humanum est, “Errar é humano”. Veja que até mesmo dos pagãos reconheciam a fraqueza moral dos seres humanos.
A vigilância em Mateus 26.41 significa estar vigilante para manter a fidelidade ao Senhor Jesus e nunca se apartar dele. Trata-se de uma advertência solene a todos os crentes em todos lugares e em todas as épocas para viverem atentos em todos os momentos da vida (Ef 6.18)
Texto extraído da obra “Batalha Espiritual”, editada pela CPAD 

COMENTÁRIO E SUBSÍDIO II

INTRODUÇÃO

Em uma batalha, os soldados se mantêm alerta, ficam em suas torres, vigiando para não serem pegos de surpresa. Na batalha espiritual acontece a mesma coisa, devemos permanecer atentos, evitando o ataque inesperado do inimigo. Na aula de hoje, estudaremos a respeito da importância de viver em constante vigilância, sobretudo na expectativa da bendita esperança da igreja, quando a trombeta soar e os mortos em Cristo ressuscitarem.

I. ANÁLISE TEXTUAL
                                                                 
Antes de ser conduzido ao calvário, Jesus seguiu para o Getsêmani, com a intenção de orar. Mateus registra esse momento difícil no final do ministério terreno do Senhor, e se encontra no cap. 26, versículos 36 a 41. Nesse texto, é narrado que Jesus chegou ali com seus discípulos, dando-lhes uma orientação expressa: kathisate autou heos os apelthon ekei proseuxomai. O Senhor ordena que os discípulos fiquem naquele lugar, enquanto ele iria mais adiante, para orar (v. 36). Ele levou consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu, o escritor diz que começou a entristecer-se, lupeisthai em grego, com a ideia de prantear, como resultado do sofrimento, e também a angustiar-se, admonein em grego, com o sentido de ficar ansioso ou de sentir dor (v. 37). Então Jesus disse aos seus discípulos: a minha alma está cheia de tristeza até a morte, ficai aqui e vigiai comigo. A palavra alma em grego é psuche, que pode ser traduzida por vida ou pessoa, assim, compreendemos que Jesus sofreu profunda angústia em sua existência terrena, naquele momento específico. A tristeza era imensa, a palavra é perilypos, destacando a intensidade da dor enfrentada pelo Senhor. Diante daquela situação, roga para que os discípulos vigiem com ele: gregoreite, verbo que se encontra no imperativo, com o sentido de ficar em alerta, ou mais precisamente, ficar acordado (v. 38). Mateus diz que Ele foi um pouco adiante, e que prostrou-se sobre seu rosto e orou: Pater mou, ei dunaton estin, parelthatô ap emo uto potérion touto. Jesus se dirige ao Pai, o termo em hebraico provavelmente foi Aba, uma demonstração de intimidade. E pede que que, se possível – ei dunaton estin – o cálice ou taça – poterion, passasse – parelthatô, o verbo está no imperativo. Mesmo assim, a vontade que deve prevalecer é a do Pai, pois acrescenta: ou hos ego thelô ala hos su. Que não prevalecesse seu ego – seu eu – mas a thelos, vontade do Pai (v.39). Ao retornar da oração, Jesus achou Seus discípulos adormecidos – katheudontas, que se encontra no presente, portanto, eles estavam dormindo. Então, se dirigiu a Pedro, e pergunta: houtos ou ischuo heis hora gregoreo meta ego? O verbo vigiar – gregoreo – é repetido na indagação de Jesus, e a expressão de espanto, por eles não serem capazes de vigiar com o Senhor por tão pouco tempo (v. 40). Em seguida, dar uma orientação aos discípulos, o verbo grego gregoreite mais uma vez aparece no texto: gregoreite kai proseuchesthe – vigiai e orai – com um propósito: hina me eiselthe eis peirasmon, para que não entrem – eiserchomai – em tentação ou em provação. Na verdade, diz o Senhor, o espírito – pneuma – está pronto – prothumon, ou mais precisamente, o espírito está disposto, mas a carne – sarx – é fraca – asthenes, a carne fraqueja (v. 41).

II. INTERPRETAÇÃO TEXTUAL

De acordo com Mateus, antes de Jesus ser crucificado como o Messias, aconteceu a Páscoa, a celebração da Ceia e os eventos no Getsêmane, em seguida o Senhor é preso, julgado e condenado pelas autoridades romanas, por fim é flagelado, crucificado, morte e sepultado, com parte da trama entre os líderes religiosos. Jesus não ficou surpreso com tudo que aconteceu, pois Ele mesmo previu Sua crucificação, e destacou tudo que haveria de ocorrer quando foi ungido em Betânia (Mt. 26.6-13), e sabia que seria traído por Judas (Mt. 26.14-16). O Getsêmane, cujo significado é “prensa de azeite”, era um jardim, no Monte das oliveiras, onde o azeite era preparado (v. 36). O Senhor conduz os discípulos que faziam parte do Seu círculo íntimo – Pedro, Tiago e João – para partilhar com Ele esse momento de angústia intensa, diante das agruras da cruz do calvário que O esperavam (v. 37). A dor era profunda, naquele momento Jesus sentiu tristeza, a sua alma estava angustiada, ao ponto de morrer. Era uma antecipação do que sobreviria a Ele, por ocasião da crucificação, quando seria separado do Pai, por levar sobre si a culpa dos pecados da humanidade (v. 38). Ele prostrou-se sobre o seu rosto, uma demonstração de humildade na oração, o Senhor estava rendendo Sua vontade diante do Pai, colocando-se a Sua disposição para enfrentar a maior provação da Sua vida, pois teria que beber aquele cálice (v. 39). Além disso, naquele momento tão difícil, ficou sozinho com Seu sofrimento, nenhum dos discípulos teve disposição de vigiar e orar com o Senhor. É angustiante não ter com quem partilhar nossas dores, a solidão e o desprezo daqueles que não se identificam com nossas provações (v. 40). É preciso andar no Espírito, mas não satisfazer as concupiscências da carne, há uma luta renhida entre a carne e o espírito, e se não estivemos atentos, poderemos até mesmo negar ao Senhor, quando a hora da provação chegar, como fez Pedro depois da prisão de Jesus, talvez por isso o Senhor chamou a atenção especificamente desse discípulo (v.41). Pedro negou Jesus por três vezes, quando foi identificado como um provável seguidor do Mestre, mas esse não foi esquecido do Senhor, que lembrou da condição de Pedro, após Sua ressurreição (Mc. 16.7).

III. APLICAÇÃO TEXTUAL

Os servos de Deus devem permanecer vigilantes em relação à vinda do Reino de Deus, e esse já está no meio de nós, ainda que não seja pleno. Não podemos perder a dimensão escatológica de vista, o interesse nas coisas deste mundo está cegando espiritualmente muitos cristãos. A próprio religião pode nos distanciar do Reino de Deus, há líderes religiosos que se embriagaram com seus cargos, servem apenas suas posições eclesiásticas, estão distantes da vontade de Deus. Alguns deles utilizam seus cargos a fim de abusar espiritualmente das pessoas, impondo sobre elas padrões e regras que eles mesmo não seguem. Paulo também teve que lidar com esse tipo de religiosidade quando escreveu sua Epístola ao Gálatas. Alguns crentes daquela cidade, incitados pelos falsos mestres judaizantes, abandonaram o verdadeiro evangelho, substituindo por um outro, totalmente diferente daquele ensinado por Jesus (Gl. 1.8-9). O abuso do poder religioso tem causado sérios danos, inclusive no contexto das igrejas evangélicas. Em nome de Deus, muitas pessoas estão sendo feridas, ovelhas que gemem, maltratadas pelos seus “pastores”. Quando a religião enfoca apenas a dimensão material, perde a visão do Reino de Deus, torna-se apenas uma engrenagem, põe em evidências as coisas e esquece das pessoas. Os cristãos precisam reconhecer que não passam de servos, a liderança evangélica também deve saber que não é dona do rebanho (At. 20.28; I Co. 4.1,2;  I Pe. 5.2). Jesus voltará em breve, essa é uma verdade bíblica, que muitas igrejas não consideram mais. Certo pastor destacou que antigamente a expressão JESUS VEM BREVE era bastante comum nos púlpitos das igrejas evangélicas. Mas aos poucos resolveram colocar apenas JESUS VEM, e nesses últimos dias, escrevem apenas JESUS. Infelizmente, em algumas igrejas evangélicas, nem mesmo o nome de JESUS está presente. Evidentemente, não podemos avaliar o compromisso de uma igreja com Jesus pela presença ou ausência de uma expressão. Mas essa metáfora nos ajuda a refletir sobre a expectativa escatológica da igreja. Precisamos manter a vigilância espiritual, compreender que Jesus virá, por isso devemos viver debaixo dessa verdade. Não sabemos QUANDO Ele virá, mas sabemos COMO devemos viver. Como o servo prudente da parábola, quando Cristo voltar devemos ser achados “servindo assim”. Aqueles que não estão preparados, que não consideram a realidade do Reino, serão surpreendidos, de modo que o “Dia do Senhor virá como ladrão de noite” (I Ts. 5.2). Sejamos, portanto, cautelosos, cientes da nossa missão, enquanto despenseiros (I Pe. 4.10). A santificação deve ser o alvo na vida de todo cristão, considerando que ninguém verá o Senhor, a menos que esteja consagrado a Deus (Hb. 12.14). E que sejamos bons mordomos, administradores fieis do que não é nosso (I Pe. 5.2), principalmente nesses tempos trabalhosos (II Tm. 3.1-5).

CONCLUSÃO

A mensagem de Jesus foi enfática: “eis que cedo venho, guarda o que tens, para que ninguém tome a tua coroa” (Ap. 3.11). Devemos, portanto, permanecer vigilantes, na expectativa do Vinda do Senhor. Caso contrário, como o servo mau da parábola, seremos envergonhados, por desconsiderar a expressas orientações do Senhor. Saibamos, a todo tempo, que não passamos de despenseiros, e que haveremos de prestar contas do que recebemos dAquele que nos comissionou para Sua obra.


José Roberto A. Barbosa
Disponível no Blog subsidioebd.blogspot.com

COMENTÁRIO E SUBSÍDIO III

INTRODUÇÃO

A exortação à vigilância na presente lição abrange dois aspectos da vida cristã. O primeiro diz respeito às palavras de Jesus na agonia em Getsêmani, na noite em que Ele foi preso. O outro aspecto refere-se ao contexto escatológico no sermão profético registrado nos Evangelhos Sinóticos. A presente lição mostra os aspectos da vigilância na fé cristã.
O retorno de Cristo, como defendemos em nossa base de fé, será evidente, sem ambiguidade e visível a todos (Mt 24.27). Este texto de Mateus nos garante que os verdadeiros seguidores de Cristo não serão enganados, mas saberão aguardar a chegada do seu Senhor dos céus. Sua vinda será tão repentina, quanto visível, quanto a isso, vale a exortação (ato ou efeito de exortar; encorajamento, estímulo, incitação) à vigilância quanto ao retorno de Jesus diz respeito às diversas vezes em que o Mestre alertou para a natureza súbita de sua vinda. Mesmo assim, pode-se observar, sem muito esforço, que grande parte dos crentes está descuidada, envolvida com os afazeres da vida e não se prepara para aquele grande momento em que Jesus voltará. É o que veremos no estudo desta lição. Deus tem falado, não só pela sua Palavra, mas através dos sinais da vinda de Jesus, que está chegando a hora. – Dito isto, convido-o a pensar maduramente a fé cristã!

I. O SIGNIFICADO DA VIGILÂNCIA
                                                                 
A vigilância é o ato ou efeito de vigiar, o estado de quem permanece alerta, de quem procede com precaução para não correr risco. E isso nos mais diversos aspectos da vida humana. O verbo “vigiar” aparece na Bíblia no sentido de estarmos atentos em todos os aspectos da vida cristã.

1. Vigiar, estar alerta. A palavra que mais aparece no Novo Testamento grego para “vigiar” é o verbo gregoréo, “vigiar, estar alerta, ser vigilante”, que aparece 22 vezes. A ideia principal dessa vigilância é escatológica (Mt 24.42,43; 25.13), e isso se mostra nas passagens paralelas de Marcos e Lucas. Mas, quando Jesus disse a Pedro, Tiago e João: “ficai aqui e vigiai comigo” (v.38), isso significa que Ele queria que seus discípulos ficassem acordados e continuassem a orar ou, talvez, se protegessem de alguma intromissão enquanto oravam. Mas gregoréo é usado para denotar uma vigilância mais geral (1Co 16.13; Cl 4.2; 1Pe 5.8).
O verbo “vigiar” segundo o Aurélio quer dizer: “observar atentamente; estar atento a; tomar cuidado” (FERREIRA, 2004, p. 2061). No hebraico o verbo é “shamar” que significa: “vigiar, guardar”. No grego o termo é “gregoreo” que significa literalmente “vigiar” e é encontrado em 1 Ts 5.6,10 e em mais 21 outros lugares nos quais ocorre no Novo Testamento (por exemplo, em 1 Pe 5.8).  É usado acerca de: (a) “manter-se acordado” (Mt 24.43; 26.38.40.41): (b) “vigilância espiritual” (At 20.31; 1 Co 16.13; Cl 4.2; 1 Ts 5.6.10; 1 Pe 5.8; Ap 3.2.3; 16.15) (VINE, 2002, p. 323 – acréscimo nosso). A palavra “vigiar” tem conotação exortativa, visando chamar a atenção dos ouvintes a estarem prontos para o retorno do Messias.

2. Vigiar, guardar, cuidar. É o verbo grego agrypnéo, “manter-se acordado, vigiar, guardar, cuidar”, e só aparece quatro vezes no Novo Testamento, duas delas no sentido escatológico no sermão profético (Mc 13.33; Lc 21.36). O vocábulo é usado para indicar a vigilância nas orações e súplicas (Ef 6.18) e apresenta ainda a ideia de cuidar ou velar: “Obedecei a vossos pastores e sujeitai-vos a eles; porque velam por vossa alma” (Hb 13.17).
A noção presente no verbo grego agrypnéo é de um cuidado constante e sem descanso, por isso mesmo é usado para falar sobre a necessidade de estamos alertas quanto aos fatos relacionados ao futuro (escatológicos) como também, é usado para falar acerca do cuidado pastoral.

3. Vigiar, ser sóbrio. É o verbo nepho, literalmente “ser sóbrio”, mas que aparece no sentido figurado de vigilância combinado com gregoréo (1Ts 5.6; 1Pe 5.8). Seu uso no sentido próprio pode ser visto em outras partes do Novo Testamento (1Ts 5.8; 2Tm 4.5; 1Pe 1.13). Existe ainda o verbo eknepho, que só aparece uma vez no Novo Testamento (1Co 15.34), traduzido por “vigiar”, na ARC; por “tornar à sobriedade”, na ARA e na Nova Almeida Atualizada; e por “despertar” na TB.
Sóbrio: grego: νηφω nepho, literalmente: livre da influência de intoxicantes; metaforicamente: calmo e sereno de espírito; ser moderado, controlado; lúcido, com plena capacidade de avaliar. Diversas vezes Jesus chamou a atenção dos seus seguidores quanto à importância de estarem vigilantes para o seu retorno (Mt 24.22; 25.13; Mc 13.33,35; 37; Lc 21.36; Ap 3.3; 16.15). Muitas dessas exortações se percebem através das parábolas, tais como: das dez virgens (Mt 25.1-13); do senhor que confiou o cuidado das coisas que lhe pertenciam aos seus servos, prometendo voltar em breve (Mc 13.34-37); dos servos que aguardam o seu senhor quando voltar das bodas (Lc 12.36-37). “O chamado à vigilância, no entanto, não foi dirigido apenas a eles, mas a todos nós (Mc 13.37)” (ADEYEMO, 2010, pp. 1222,1223).

SUBSÍDIO DIDÁTICO-PEDAGÓGICO

Prezado(a) professor(a), a aula desta semana trata a respeito da importância da vigilância no viver diário do cristão. É relevante explicar aos seus alunos que devemos estar alerta quanto à Segunda Vinda do Senhor Jesus, pois não sabemos o dia e nem a hora que Ele há de retornar para buscar a Sua Igreja. Para auxiliá-lo (a) na compreensão deste aspecto, leia para a classe o significado do conceito abaixo: “Escatologia – O termo escatologia (gr. eschatos, ‘últimos’; logos, ‘raciocínio’), significando ‘a teologia das últimas coisas’, tem sido usado desde o século XIX para designar a divisão da teologia sistemática que lida com tudo o que era profeticamente futuro na época em que foi escrito, isto é, profecias que já se cumpriram, como também profecias que ainda não se cumpriram. Importantes assuntos de profecia incluem predições com relação a Jesus Cristo, tanto em sua primeira vinda como na segunda, Israel, os gentios, Satanás, cristianismo, os santos de todas as eras, a futura Grande Tribulação, o estado intermediário, a ressurreição dos mortos, o reino milenial, o juízo final e o estado eterno. Estes temas podem ser classificados como a revelação divina do programa quádruplo de Deus para: (1) Israel, (2) os gentios, (3) a igreja e (4) Satanás e seus anjos caídos” (Dicionário Bíblico Wycliffe. 1.ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006, p. 662).

II. JESUS NO GETSÊMANI

Depois que Jesus instituiu a Ceia do Senhor, Ele seguiu com os seus discípulos para o jardim de Getsêmani. Em oração, o Senhor Jesus rogou ao Pai, três vezes, para que passasse dEle “esse cálice”.
1. Getsêmani. O lugar é assim identificado em Mateus (v.36) e Marcos (14.32). Lucas se refere ao local como “àquele lugar” (22.40) e João registrou: “o outro lado do ribeiro Cedrom, onde havia um jardim” (18.1, Nova Almeida Atualizada). O nome “Getsêmani” vem de um termo aramaico que parece significar “prensa de azeite”. Era uma área localizada no sopé do monte das Oliveiras, onde o Senhor Jesus costumava se reunir com os discípulos e para onde se retirou na noite em que foi preso (Lc 22.39; Jo 18.2).
Getsêmani significa “lagar de azeite”. O Getsêmani era um jardim onde Jesus e seus discípulos se reuniam. Também foi o lugar onde Jesus orou antes de ser preso. O jardim do Getsêmani era um olival no monte das oliveiras, perto da cidade de Jerusalém. Jesus e seus discípulos gostavam de se reunir nessa zona. Depois da Última Ceia, Jesus foi para o Getsêmani para orar com seus discípulos, se preparando para o sofrimento que estava prestes a suportar (Mateus 26:36). (RESPOSTAS.COM).

2. A angústia de Jesus. O Senhor Jesus, durante todo o tempo do seu ministério, encarava a sua morte de maneira serena (Mt 16.21; 17.22,23; 20.17-19; 26.1,2 e passagens paralelas em Marcos e Lucas). Alguns estudiosos do Novo Testamento se perguntam por que só agora “começou a entristecer-se e a angustiar-se muito” (v.37) a ponto de dizer: “A minha alma está cheia de tristeza até à morte” (v.38)? O seu pavor não era a morte, mas o ser separado do Pai ao assumir os pecados de toda a humanidade na cruz (2Co 5.21), pois Ele já estava decidido quanto a isso (Mc 10.33,34) e tinha consciência de que a sua morte era a vontade do Pai (Jo 12.27). Esse era o momento mais crucial para a humanidade, pois estava em jogo a salvação dos pecadores.
No jardim do Getsêmani, afastando-Se dos discípulos e ficando apenas com Pedro e os dois filhos de Zebedeu a Seu lado foi orar. Quando Ele ficou sozinho, mais tarde, “adiantando-se um pouco, prostrou-se sobre o seu rosto, orando…” (Mt 26.39). Qual foi a Sua oração?“ Meu Pai, se possível, passe de mim este cálice! Todavia, não seja como eu quero, e sim como tu queres” (v. 39). Jesus não recebeu resposta. “É verdade que Jesus usou a condicional “se possível” na oração do Getsêmani. Mas não era possível, a bem do pecador, afastar de Jesus o cálice da salvação. Desde o Jardim do Éden, desde a queda, “não havendo derramamento de sangue, não há perdão de pecados” (Hb 9.22, NTLH). Nossa redenção não é por meio de coisas perecíveis como prata ou ouro, “mas pelo precioso sangue de Cristo, como um cordeiro sem mancha e sem defeito”, planejada antes da criação do mundo (1Pe 1.18-21). É o sangue de Jesus que nos purifica de todo pecado (1Jo 1.7). Todo o processo depende de Jesus, dependia da cruz. Jesus não podia falhar -- e não falhou.”. (ULTIMATO). Não há nenhuma insinuação nem no Salmo 22, nem nos Evangelhos, de que Cristo orou para ser poupado do mero ato de morrer. O que ele temia era o Pai esconder Seu rosto dEle. Lembremos que 700 anos antes, Isaías previu o real motivo da cruz: "Ele foi traspassado por causa das nossas transgressões, foi esmagado por causa de nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas feridas fomos curados". Jesus, perfeito Deus e perfeito homem, que nunca pecou e nem poderia pecar por não ter a mesma natureza pecaminosa que herdamos de Adão, seria feito pecado na cruz. É importante frisar que ter ficado passivo ou satisfeito e contente com a aproximação de tal separação, não teria sido uma demonstração de fé, mas pecado. O cálice da morte a respeito do qual Ele orou para ser libertado foi, não a morte física, mas a separação de Sua alma humana da luz do semblante de Deus. Ele não obteve resposta, no entanto, Sua oração foi "ouvida" em Seu Pai o fortalecer, de modo a manter a Sua fé inabalável e sem oscilar, durante todo o teste e sofrimento.

3. O cálice. A expressão usada por Jesus: “Meu Pai, se é possível, passa de mim este cálice” (v.39) deve ser entendida à luz do Antigo Testamento. O cálice ou copo aparece com frequência na Bíblia e mui especialmente na sua aplicação metafórica. É usada para indicar uma situação miserável (Sl 11.6) e também de felicidade (Sl 16.5; 23.5). Da mesma forma, indica a manifestação da ira de Deus (Sl 75.8; Is 51.17). Essa linguagem aparece no Novo Testamento (Ap 14.10; 1Co 10.16). O Senhor Jesus se referia ao cálice da ira de Deus como castigo da separação do Pai no momento da cruz (Mt 27.46; Mc 15.34). Estava chegando a hora de ser submerso na maldição, por nós, pecadores (Gl 3.13).
Essa ira de Deus simbolizada pelo cálice, estava destinado a todos nós. O ato de Jesus verter este cálice, desviou de nós a santa e justa ira de Deus e direcionou a Cristo na sua morte na cruz. Foi esse o cálice que Jesus bebeu, e agora nos proporciona outro cálice: “Tomarei o cálice da salvação e invocarei o nome do SENHOR” (Sl 116.13) e também nos diz que: “Este cálice é a nova aliança em meu sangue, derramado em favor de vós” (Lc 22.20). O cálice da ira de Deus foi tomado por Cristo, por isso lemos no evangelho: “Podeis beber o cálice que eu bebo, ou ser batizados com o batismo com que sou batizado?" (Mc 10.38). No livro O verdadeiro Evangelho, do pastor Paul Washer, ele nos trás uma ilustração do que aconteceu conosco: “Imagine uma represa de dez mil metros de altura e dez mil metros de largura transbordando, e você está a dez metros dela. De repente essa represa desmorona e todo aquele turbilhão de água furioso está vindo em direção a você de forma violenta e destruidora. No entanto, a dez segundos de lhe atingir, o chão se abre e engole toda aquela água. Isso foi o que Deus fez por você. Isso foi o que Deus fez por nós. Cristo levou sobre si a ira de Deus contra o pecado para nos justificar”. Quando o comentarista afirma: “O Senhor Jesus se referia ao cálice da ira de Deus como castigo da separação do Pai no momento da cruz”, eu quero entender que “castigo da separação do Pai no momento da cruz”, ele quis dizer o mesmo chão que se abriu e engoliu toda aquela água que vinha contra nós, porque se não for isso, corre risco de termos aqui uma falsa afirmativa, já que cálice, muitas vezes é símbolo da retribuição divina ou da ira de Deus.

SUBSÍDIO BÍBLICO-TEOLÓGICO

“[...] É importante observar o uso de uma condicional de primeiro tipo na expressão ‘se é possível’ (Mt 26.39). Isto normalmente sugere que se supõe que a condição é cumprida – isto é, que era possível evitar o ‘cálice’ que Jesus tinha em mente. Esta interpretação recebe o apoio de Hebreus 5.7, que observa que quando Jesus ‘oferecendo com grandes lágrimas, orações e súplicas ao que o podia livrar da morte, foi ouvido quanto ao que temia’. A morte biológica não causava terror a Jesus. Ela não causa terror em nós. Como Jesus carregou nossos pecados e sentiu a ira de Deus em nosso lugar, nós também fomos libertados. Nem a morte biológica nem a espiritual têm qualquer influência sobre aqueles que, por meio de Cristo, receberam a vida eterna” (RICHARDS, Lawrence O. Comentário Histórico-Cultural do Novo Testamento. 1.ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2007, pp. 83,84).

III. EXORTAÇÃO À VIGILÂNCIA

Depois de uma breve explicação sobre Jesus no Getsêmani, retornamos ao tema da lição. Entendemos que o ponto central dessa seção do Evangelho de Mateus (26.36-41) é a exortação à vigilância, apesar de outros temas serem importantes aqui.
1. No contexto escatológico. A exortação à vigilância é um dos pontos centrais do sermão profético porque não se sabe o dia e a hora da vinda de Jesus (Mt 24.36; Mc 13.32). O ensino do Senhor nas diversas parábolas desse discurso escatológico dá muita ênfase à necessidade de os crentes estarem atentos. Apesar de ser vedada aos humanos a data da segunda vinda de Jesus, a Bíblia indica os sinais que precederão a vinda de Cristo em Mateus 24 e Lucas 21. Os acontecimentos de hoje nos mostram o cumprimento das profecias bíblicas, sinalizando que essa vinda está próxima. Se os cristãos da primeira hora deviam estar vigilantes quanto ao grande evento, o que não diremos nós, que somos a Igreja da última hora? Por isso devemos estar ainda mais firmes e atentos, continuamente.
Ninguém sabe a data quando Jesus voltará. É impossível prever quando esse dia será porque acontecerá quando não estivermos à espera (Mt 24.36). Se alguém diz que sabe quando vai acontecer, está enganado. Se alguém disser que Jesus já voltou, não devemos acreditar porque quando acontecer o mundo todo saberá (Mc 13.21-22).
Três pontos sobre a doutrina da segunda vinda são absolutamente claros. Primeiro, a volta de Jesus será evidente, sem ambiguidade, visível a todos. O Senhor mesmo explica: “Assim como o relâmpago sai do Oriente e se mostra no Ocidente, assim será a vinda do Filho do homem” (Mt 24.27, NVI). A mensagem apocalíptica afirma que Ele “vem com as nuvens, e todo olho o verá, até mesmo aqueles que o traspassaram” (Ap 1.7). Segundo, a volta de Jesus será “com poder e muita glória” (Mt 24.30). Ele não levará sobre si as nossas enfermidades nem será esmagado por causa das nossas iniqüidades. Não será oprimido nem afligido nem levado ao matadouro. Terceiro, a volta de Jesus será em dia e hora que ninguém sabe (Mt 24.36). Ele mesmo avisou: “O Filho do homem virá numa hora em que vocês menos esperam”. No último livro da Bíblia, lê-se esta declaração pessoal e enfática: “Eis que venho como ladrão!” (Ap 16.15.) A igreja é qual a noiva à espera do noivo. De repente, ela ouvirá um grito: “O noivo se aproxima! Saiam para encontrá-lo!” (Mt 25.6.) Enquanto Ele não chega, tanto a igreja como o Espírito fazem esta pequena oração litúrgica: “Vem, Senhor Jesus!” (Ap 22.20.)” (ULTIMATO)

2. Na vida cristã. É o estado de alerta para não cairmos em pecado, para nos abstermos de tudo aquilo que desagrada a Deus (1Co 16.13; 1Ts 5.6; 1Pe 5.8). Mas essa vigilância não deixa de ser um exercício contínuo da fé até que Jesus venha. Ele pode voltar a qualquer momento; os sinais de sua vinda estão aí, como o avanço da imoralidade e da corrupção (Ap 9.21), a evangelização mundial por meio de recursos das redes sociais (Mt 24.14) e a posição de Israel no Oriente Médio (Lc 21.29-31).
Os sinais que prenunciam a volta de Jesus estão se cumprindo a cada dia - falsos cristos e falsos profetas; apostasia, Doutrinas de demônios, Perseguição aos crentes, sinais no céu, Guerras e conflitos, terremotos. A apostasia tem se evidenciado, no meio de igrejas evangélicas, a ponto de a Bíblia não ser mais referência para a conduta de muitos que se dizem cristãos. Na natureza, há fenômenos que indicam o cumprimento das previsões apocalípticas. Na vida moral, certamente, há o maior grau de fatos que comprovam o aumento da iniquidade humana. Mas a Igreja de Jesus Cristo deve continuar em oração e vigilância como “coluna e firmeza da verdade” (1Tm 3.15), aguardando em santificação a volta de Jesus. A vigilância na vida cristã deve nos levar à santidade. Jesus exortou os discípulos a serem vigilantes. Ele afirmou: “Vigiai, pois, porque não sabeis a que hora há de vir o vosso Senhor” (Mt 24.42). Por não sabermos a data da segunda Vinda de Jesus, temos de ter uma conduta ilibada em nosso dia a dia. Temos que aguardar a volta de Cristo em santidade e com o coração repleto de fé. Precisamos também desejar a volta de Cristo, como os crentes de Tessalônica. Eles ficaram tão convictos e anelantes ante a mensagem que os missionários lhes pregaram concernente à segunda Vinda de Cristo, que entendiam que a mesma ocorreria naqueles dias enquanto estavam vivos (1Ts 4.15,17).

3. “Vigiai e orai” (v.41a). O sentido da vigilância aqui difere daquele mencionado no v.38, em que “vigiar” indica ficar despertado, acordado. Mas aqui significa estar vigilante para manter a fidelidade ao Senhor Jesus e nunca se apartar dEle. Isso fica claro pelas palavras seguintes: “para que não entreis em tentação”. É uma advertência solene a todos os crentes em todos lugares e em todas as épocas para viverem atentos em todos os momentos da vida (Ef 6.18). O Comentário Bíblico Beacon diz: “A eterna vigilância é o preço da liberdade.
A palavra vigiai não é entendida muitas vezes pelos cristãos, pode ser considerado um aviso em estar atento para não pecar, mais do que isso, estar alerta para não se perder com as distrações desse mundo, que em um sentido mais amplo nos tornaria aptos com ações sempre voltadas ao Reino. “Jesus nos disse para vigiar e orar porque nossa carne é fraca e enfrentamos muitas tentações. Quando vigiamos e oramos, ficamos mais fortes para resistir à tentação. Na noite em que foi preso, Jesus foi para o jardim do Getsêmani com seus discípulos para orar. Mas, enquanto ele orava sozinho, os discípulos adormeceram. Quando voltou, Jesus repreendeu os discípulos e os avisou que deveriam vigiar e orar, para não caírem em tentação (Mateus 26:40-41). No entanto, eles adormeceram outras duas vezes!” (RESPOSTAS).

4. O espírito e a carne (v.41b). Temos aqui o contraste entre o espírito e a carne, muito comum no Novo Testamento (Rm 8.5-9; Gl 5.17). Seria esse o sentido aqui? A “carne” é um termo frequentemente usado nas Escrituras, com variação semântica tão ampla que não é possível descrever todos os seus significados neste espaço. Aqui essa palavra pode indicar a fragilidade da nossa natureza física (Sl 78.39), visto que os discípulos estavam cansados, exaustos e entristecidos; mas também pode ser uma referência à fraqueza da natureza humana decaída (Ef 2.3), por causa da associação com a palavra “tentação”. A expressão pode indicar as coisas simultâneas ou qualquer uma dessas interpretações.
Os discípulos precisavam ficar acordados e orar porque em breve seriam provados. A palavra carne aqui se refere à natureza humana. O contraste entre a natureza dos discípulos e a força do Senhor é impressionante. Já que a carne é fraca, todo filho de Deus precisa de poder sobrenatural (Rm 8.3,4)” (BIBLIOTECABIBLICA). W. Hendriksen diz que a palavra “carne”, no sentido que lhe é atribuído na expressão “a carne é fraca”, indica a natureza humana considerada do prisma de sua fragilidade e necessidades, tanto físicas quanto psíquicas (Is 40.6-8). J. MacArthur diz que o próprio Cristo também estava familiarizado com o sentimento das fraquezas humanas (Hb 4.15). Essas fraquezas, no entanto, devem ser subjugadas à vontade divina. Então ao dizer que “o espírito está pronto, mas a carne é fraca”, basicamente Jesus estava dizendo que o espírito está sempre disposto, mas a carne, com suas debilidades naturais, não acompanha essa disposição. Isso ficou muito claro no comportamento dos discípulos. Este texto não é somente escatológico, mas ele é para agora, é para refletirmos como está nosso relacionamento com Deus. Com as tribulações da vida temos tido o cuidado de buscar a Deus sempre? Ou somente quando estamos necessitados? O nosso Deus Pai está de braços abertos esperando nossa súplica, nossa oração para que Ele na sua infinita glória derrame suas bênçãos sobre nós e sobre nossos familiares.


SUBSÍDIO TEOLÓGICO

“Iniquidade e esfriamento do amor. Em Mateus 24.12, Jesus mencionou mais dois alarmantes sinais, um decorrente do outro: ‘E por se multiplicar a iniquidade, o amor de muitos se esfriará’. E o que assusta, neste duplo sinal, é mais uma vez a palavra ‘muitos’, cujo significado é ‘quase todos’. Não foi por acaso que Jesus ensinou: ‘Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela’ (Mt 7.13). A cada dia, a aceitação da verdade da Palavra de Deus torna-se mais difícil. Doutrinas que outrora, ao serem ensinadas, geravam temor, têm levado muitos crentes a fazerem questionamentos. Vemos que os mensageiros mais conservadores — mas conservadores do ponto de vista bíblico (2 Tm 1.13,14) — são vistos por muitos como extremistas, descontextualizados ou politicamente incorretos. Isso, com certeza, é reflexo do dúplice sinal em questão. O amor ao mundo faz-nos perder o amor a Deus (Tg 4.4; 1 Jo 2.15- 17). E muitos líderes, à semelhança de Demas (2 Tm 4.10), perderão a visão espiritual, nesses últimos dias. Os cultos, que deveriam ter como objetivos o louvor a Deus e a exposição da Palavra (1 Co 14.27), se transformarão — como já vem ocorrendo — em programas de auditório, shows, com muito entretenimento e pouco ou nenhum quebrantamento de espírito na presença do Senhor. Esse sinal indica que, nos últimos dias, o mundo se tornará tão religioso, e a igreja — quer dizer, uma boa parte dela — tão mundana, que não saberá onde começa um e termina o outro. Sabendo que tudo isso aconteceria, Jesus alertou: ‘Vigiai, pois, a todo tempo, orando, para que possais escapar...’ (Lc 21.36, ARA). E, como escapar? O caminho é dar ouvidos à Palavra de Deus e se arrepender, a fim de que o nosso amor não se esfrie (Ap 2.4,5)” (ZIBORDI, Ciro S, Et al. Teologia Sistemática Pentecostal. 1.ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2008, pp. 493-94).

CONCLUSÃO

O enfoque no relato do Getsêmani é a vigilância e por essa razão não entramos em outros pontos do texto. Finalizamos dizendo que, na tentação do deserto, o Senhor Jesus recusou o domínio do mundo sem o Pai, mas aqui Ele aceita sofrer e morrer por nós com Deus. A experiência de Jesus e dos seus discípulos no jardim nos ensina que cada cristão tem o seu Getsêmani e cada um de nós deve-se submeter à vontade do Pai.
Naquela noite no Getsêmani, os discípulos de Jesus estavam numa verdadeira batalha entre seu espírito pronto e sua carne fraca. O espírito de cada um deles estava disposto a atender ao pedido de Jesus e permanecer alerta em oração; mas a fraca carne estava conduzindo-os ao sono, e assim, de certa forma, tornando-os vulneráveis aos desejos de Satanás. Certamente não iríamos querer espontânea e voluntariamente “pular” em pecados, sabendo que o salário do pecado é a morte, mas não podemos resistir cair nele porque a nossa carne não é forte o suficiente para resistir. Nós nos colocamos em situações ou preenchemos nossas mentes com paixões sensuais, e isso nos leva a pecar; somos seres caídos e fracos como já antes mencionei. A única forma de sermos fortes em meio às tentações é estarmos verdadeiramente em Cristo; a Cruz como meio e Cristo como a fonte de nossa esperança por meio da graça dada por Deus Pai (Ef 1.4). Fomos chamados para sermos santos e irrepreensíveis diante de Deus. E ser santo é ser separado para Deus e do mundo.

Achando-se as tuas palavras, logo as comi, e a tua palavra foi para mim o gozo e alegria do meu coração; porque pelo teu nome sou chamado, ó Senhor Deus dos Exércitos”. (Jeremias 15.16)




Francisco Barbosa
Disponível no blog: auxilioebd.blogspot.com.br