sexta-feira, 4 de outubro de 2019

LIÇÃO 1: CONHECENDO OS DOIS LIVROS DE SAMUEL

SUBSÍDIO I
A ORIGINALIDADE DE SAMUEL

Para uma visão panorâmica do conteúdo de 1 e 2 Samuel, faremos um passeio em aspecto geral, no afã de situar você, leitor, no contexto, a fim de que possa assimilar bem o que nele está proposto. 
Ao abrir a Bíblia Hebraica Stuttgartensi, logo você lerá Shemoel a b b (a, b) e, na Septuaginta, Basileion A. B. G. D. O Cânon Hebraico apresenta 1 e 2 Samuel como um só livro, ou seja, sem a divisão que consta em nossas Bíblias em português. Diversos nomes aparecem nas páginas desses dois livros, mas o protagonista é Samuel, ainda que a ênfase sobre ele seja mais forte nos primeiros quinze capítulos do primeiro livro. Já no segundo, seu nome não aparece, mas ele continua sendo o personagem influente. O doutor Champlin, nesse particular, pontua:

O nome do livro deriva-se de uma das três personagens principais da obra, o profeta Samuel. Ele aparece, com preeminência, nos primeiros quinze capítulos de I Samuel. E, mesmo depois que a história passa a gravitar em torno, primeiramente, de Saul, então, de Saul e Davi, e, finalmente, de Davi apenas, Samuel continua aparecendo como uma das três personagens principais do relato, até a sua morte [...] (1Sm 25.1).

Particularmente, podemos asseverar que isso se deve ao fato de ele haver ungido os dois primeiros reis de Israel, Saul e Davi, o que se tornou algo indelével, mas, talvez, essa ênfase nos dois livros resulte de sua forte influência como profeta de Deus. No segundo livro que leva seu nome, Samuel não aparece mais, posto que a última referência a ele consta em 1 Samuel 28.20.
O nome de Samuel é forte nos dois livros, sendo que só no primeiro ele é citado 125 vezes. Em diversos outros livros das Escrituras Sagradas, seu nome também aparece, como em Crônicas, Salmos, Jeremias, Atos e Hebreus. No geral, perfaz um total de 136 vezes que seu nome é citado. Quanto a essa ênfase constante do nome de Samuel, podemos estar convictos de que não se trata de mera casualidade, mas de dois fatores preponderantes: a presença do Senhor em sua vida e a sinceridade em suas palavras. 

E crescia Samuel, e o Senhor era com ele, e nenhuma de todas as suas palavras deixou cair em terra. E todo o Israel, desde Dã até Berseba, conheceu que Samuel estava confirmado por profeta do Senhor. (1 Sm 3.19,20) 

Em sua origem, como dissemos, no hebraico, esses livros eram um só. A alteração se dá com o surgimento da Septuaginta (LXX) e daí surge a divisão em dois — 1 e 2 Samuel —, os quais eram denominados Livros dos Reinos. Nessa época, também os livros de 1 e 2 Reis, como aparecem em nossas Bíblias, eram chamados de Livros dos Reinos III e IV. No Comentário Bíblico Beacon — Josué a Ester, os autores dizem:

Na Septuaginta, a tradução grega do Antigo Testamento hebraico, os volumes originalmente não divididos foram separados. Os dois livros de Samuel foram chamados de Primeiro e Segundo dos Reinos, e os nossos 1 e 2 Reis eram chamados de Terceiro e Quarto dos Reinos. Jerônimo adotou nomes similares na Vulgata Latina, a fim de chamá-los de Primeiro, Segundo, Terceiro e Quarto Reis, uma prática refletida nos subtítulos da versão inglesa do rei Tiago, conhecida como “King James Version”, ou apenas KJV. O primeiro Livro de Samuel, outrora chamado de o Primeiro Livro dos Reis e o Primeiro Livro de Reis, comumente chamado de O Terceiro Livro dos Reis.

Por vezes alguém pode perguntar qual o propósito das alterações no nome desses livros e se isso afeta a questão da inspiração. Podemos dizer que nada disso implica na matéria da inspiração, mas que se trata apenas de um recurso didático. 
Vale ressaltar que é importante que entendamos a citação dos livros dentro do Cânon Hebraico, também feita por Jesus Cristo (Lc 24.44). Segue então essa estrutura no hebraico:
• Lei. Os cinco livros: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio.
• Os profetas. Estão arrolados em oito livros.
- Os primeiros quatro livros são chamados de profetas anteriores: Josué, Juízes, Samuel, Reis.
- Profetas posteriores, mais quatro livros, os quais envolvem os primeiros três profetas maiores: Isaías, Jeremias, Ezequiel. - Profetas menores, um livro, mencionando os outros doze profetas.
• Os Kethubhim ou Escrituras. Esses são em número de onze livros, os quais podem ser classificados assim:
Os poéticos. São três livros: Salmos, Provérbios, Jó.
Os cinco rolos ou Megilloth. Cantares de Salomão, Rute, Lamentações de Jeremias, Eclesiastes, Ester.
Os três livros históricos: Daniel, Esdras (com Neemias), Crônicas.
Esses livros fazem um total de 24 do Antigo Testamento no Cânon Hebraico, o que, nas nossas Bíblias, corresponde a um total de 39 livros. Em que se baseia a contagem diferente? Podemos responder a essa pergunta usando as palavras do Dr. Turner, em sua Introdução ao Velho Testamento

Os livros históricos, Reis, Crônicas, e Esdras-Neemias, são por nós divididos em duas partes ou livros dos profetas menores, que os hebreus consideravam como um livro só, fazem com que 24 livros mais 11 livros sejam os mesmos 39 livros que temos em nossas Bíblias. Ocasionalmente os judeus uniam Rute com Juízes e Lamentações com Jeremias, perfazendo assim um total de somente 22 livros. (Isso correspondia às letras do alfabeto hebraico).

É bom levar em consideração que o livro de Samuel é da categoria dos profetas anteriores, incluindo ainda os livros de Josué, Juízes, Samuel e Reis. Essa classificação se dá simplesmente pelo fato de relatarem a história que começa com a morte de Moisés indo até o desfecho do reino. A inclusão de Daniel como histórico, e não profético, é resultado de dois fatores: primeiramente, ele não era considerado profeta, ainda que tenha profetizado; em segundo lugar, a metade do seu livro se enquadra em um conteúdo histórico.
Portanto, precisamos entender que, no tocante à organização e mudança de nomes presente em alguns livros, como no caso do Hebraico para o Grego (LXX), nada disso afeta a inspiração da Palavra, mas apenas é uma questão que busca auxiliar o leitor.

Texto extraído da obra “O governo divino em mãos humanas”, editada pela CPAD 
COMENTÁRIO E SUBSÍDIO II

INTRODUÇÃO
Neste trimestre, estudaremos os livros históricos de 1 e 2 Samuel. Veremos que eles mostram como Deus escolhia homens para reinar sobre Israel. A partir de seus personagens principais - Samuel, Saul e Davi-, perceberemos que os líderes do passado não eram infalíveis. [Lições Bíblicas CPAD, Revista Adultos, 4º Trimestre 2019. Lição 1, 6 Outubro, 2019]
 Iniciamos o 4º trimestre com o estudo destes livros bíblicos que nos legam conteúdo histórico, profético, pedagógico, edificador e consolador. Começando com uma nação desunida e entregue à idolatria, terminando com uma nação unida pela monarquia e serviente ao Deus Verdadeiro. O papel desempenhado por Samuel, o último juiz, não foi fácil, mas foi decisivo para a grande mudança nacional, no campo espiritual seguido pelo campo material. Encontraremos as figuras de Saul e Davi antagonizadas em torno da figura de Samuel. Nessa tríade, os eleitos para o bem do povo, caberia não ab-rogar para si poder, títulos ou direito à realeza, mas reconhecer em Deus o verdadeiro Rei - 1 e 2 Samuel aponta para as condições do reinado de Deus com o seu povo. Ao final deste trimestre, veremos que a iniciativa de pedir um rei, que parecia ter origem no desejo do povo, pela lógica interna partiu do próprio Deus. Bom estudo e crescimento maduro na fé cristã!
I. CONTEXTO HISTÓRICO DE 1 E 2 SAMUEL
1. A originalidade de Samuel. Originalmente, os livros de 1 e 2 Samuel formavam uma só obra, assim como 1 e 2 Reis e 1 e 2 Crônicas. Os livros de 1 e 2 Samuel formam uma narrativa que trata da história de Israel, a partir de sua entrada em Canaã (XII a.C.) até ao cativeiro na Babilônia (587-586 a.C.). Eles não são apenas registros de fatos e de pessoas do passado, mas são a Palavra de Deus indispensável ao nosso ensino, edificação e consolação (2 Tm 3.16). [Lições Bíblicas CPAD, Revista Adultos, 4º Trimestre 2019. Lição 1, 6 Outubro, 2019]
Nos manuscritos hebraicos mais antigos, os dois Livros de Samuel formavam apenas um só livro; mais tarde, eles foram divididos em dois pelos tradutores da Septuaginta; essa divisão foi seguida pela Vulgata e pelas traduções modernas na nossa língua e no hebraico. Os primeiros manuscritos hebraicos classificam o Livro nos Nevi'im (Profetas), com o primeiro livro chamado Shmû’ēl (שְׁמוּאֵל / Samuel), homenageando assim, o Profeta que Deus usou para estabelecer o reino de Israel. Os textos hebraicos subsequentes e as versões em português chamaram o livro dividido de "1º e 2º Samuel", Na Septuaginta eles aparecem como "O Primeiro e o Segundo Livros dos Reinos" e na Vulgata, "Primeiro e Segundo Reis", diferentemente das nossas versões protestantes, e os Livros de 1º e 2º Reis são chamados de "Terceiro e Quarto fieis". Os acontecimentos dos Livros ocorreram no período compreendido entre o ano 1105 a.C., com o nascimento de Samuel (1Sm 1.1-28), até aproximadamente o ano de 971 a.C., com as últimas palavras de Davi (2Sm 23.1-7). Temos um período de aproximadamente 135 anos de História Judaica, com sua transformação de um grupo de tribos unidas sob os Juízes a uma nação unida, governada por uma monarquia centralizada.
2. Os personagens principais do livro. Há vários personagens importantes nesses livros, mas dentre eles, três se destacam: Samuel, o profeta; Saul, o primeiro rei de Israel; e Davi, o homem segundo o coração de Deus. A partir desses homens, os livros de Samuel, como os demais da Bíblia, evidenciam o cuidado especial de Deus, bem como suas disciplinas, justiça e misericórdia, a fim de polir a vida dos reis e do povo hebreu, conforme seus propósitos (Tt 2.14; Hb 12.10). [Lições Bíblicas CPAD, Revista Adultos, 4º Trimestre 2019. Lição 1, 6 Outubro, 2019]
Os livros contemplam Samuel (1105-1030 a.C.), Saul, que reinou no período de 1052-1011 a.C., e Davi, que foi rei da monarquia unificada no período de 1011-971 a.C. Foi nesse período que Deus tratou com Israel para lhe dar ‘cara’ de Reino. No início do primeiro Livro, Israel encontrava-se espiritualmente deficiente. Os sacerdotes eram corruptos (1Sm 2.12-17,22-26), a arca da Aliança não estava no tabernáculo (1Sm 4.3—7.2), havia prática de idolatria (1Sm 7.3-4) e os juízes eram desonestos (1Sm 8.2-3). Mediante a influência piedosa de Samuel (1Sm 12.23) e Davi (1Sm 13.14), essas condições foram revertidas. O segundo livro termina com a ira do Senhor sendo afastada de Israel (2Sm 24.25).
3. O propósito de 1 e 2 Samuel. O propósito de 1 e 2 Samuel é relatar a história do reinado de Israel, partindo do estado de anarquia' para a monarquia teocrática (Jz 21.25; cf. 1 Sm 10.1). Uma das lições mais preciosas que esses livros nos ensinam é que o "obedecer é melhor do que o sacrificar" (1 Sm 15.22). [Lições Bíblicas CPAD, Revista Adultos, 4º Trimestre 2019. Lição 1, 6 Outubro, 2019]
Os livros de Samuel demonstram as consequências pessoais e nacionais do pecado. Tomemos os casos dos pecados de Eli e de seus filhos, que resultaram na morte deles (1Sm 2.12-17,22-25; 3.10-14; 4.17-18); A falta de reverência pela arca da Aliança levou à morte muitos israelitas (1Sm 6.19; 2Sm 6.6-7); A desobediência de Saul resultou em rejeição pelo Senhor, como rei de Israel (1Sm 13.9,13-14; 15.8-9,20-23). Inclusive Davi, que embora tenha sido perdoado dos pecados de adultério e assassinato depois de sua confissão (2Sm. 12.13), ainda assim sofreu as inevitáveis e devastadoras consequências deles (2Sm 12.14).
Os livros de Samuel relatam o período de transição da teocracia para a monarquia, e o estabelecimento desta. A história começa nos dias finais dos juízes e nos deixa com o velho Davi firmemente entronizado como rei de Israel e de Judá. Samuel e Saul são os outros dois grandes personagens do livro. Samuel foi o último dos juízes e o primeiro dos profetas. Homem de profunda piedade e discernimento espiritual, dedicava-se totalmente à realização dos propósitos de Deus para o bem de Israel. Embora não descendesse da linha genealógica de Arão, sucedeu a Eli no cargo sacerdotal. Ao que parece, foi o primeiro a estabelecer uma instituição para o preparo dos jovens que desejavam abraçar a vocação profética. Viu-se na contingência de guiar a Israel em algumas das mais profundas crises de sua história; no desempenho de suas funções quase alcança a estatura de Moisés. Embora não tivesse ambições pessoais, achou-se no papel de "fazedor de reis", comissionado para ungir a Saul, o primeiro rei, e a Davi, o maior dos reis de Israel.(BIBLIOTECABIBLICA)
SUBSÍDIO BÍBLICO-TEOLÓGICO

"Os dois livros de Samuel são os primeiros dos seis livros duplos* que originalmente não estavam divididos e que perfaziam um total de três: Samuel, Reis e Crônicas. Samuel e Reis são encontrados no cânon hebraico ao lado de Josué e Juízes em uma seção conhecida como 'Os Profetas Anteriores*. Juntos, estes livros contêm o registro histórico iniciado por Josué e a travessia do Jordão e estendem-se até o período do exílio babilônico" (Comentário Bíblico Beacon: 2 Josué a Ester. Rio de Janeiro: CPAD, 2005, p.175).
II. AUTORIA E DATA
1. Título e autor. O nome de Samuel significa "nome de Deus" e o título dos livros que levam o seu nome revela uma figura protagonista para contar a história do povo de Deus. Segundo alguns estudiosos do Antigo Testamento, e do aspecto externo dos livros, as duas obras são anônimas, assim como os outros livros históricos. Entretanto, de acordo com os capítulos 1 ao 24 de 1 Samuel, o filho de Ana pode ser apontado como autor, e os demais capítulos, atribuídos aos profetas Natã e Gade. Esse fato é possível, pois de acordo com o aspecto interno dos livros históricos, os autores sagrados quase sempre eram testemunhas oculares dos eventos que se sucediam (1 Cr 29.29). [Lições Bíblicas CPAD, Revista Adultos, 4º Trimestre 2019. Lição 1, 6 Outubro, 2019]
Samuel pode significar "Deus Ouve" ou "Nome de Deus". O autor é anônimo. Sabemos que Samuel escreveu um livro (1Sm 10.25), e é muito possível que tenha escrito parte deste livro também. Outros possíveis participantes de Samuel são os profetas Natã e Gade (1Cr 29.29).
A tradição judaica atribuía a autoria de "Samuel” ao próprio Samuel ou a Samuel, Natã e Gade (com base em ICr 29.29). Mas Samuel não pode ser o autor já que sua morte foi registrada em ISm 25.1, antes mesmo dos acontecimentos associados ao reino de Davi. Além disso, Natã e Gade foram profetas do Senhor durante a vida de Davi, e não estariam vivos quando o livro de Samuel foi escrito. Embora os registros escritos desses três profetas pudessem ter sido usados como fonte de informação para escrever 1 e 2Samuel, o autor humano desses livros é desconhecido. Essa obra chega ao leitor como uma composição anônima, ou seja, o autor humano fala em nome do Senhor e dá a interpretação divina dos acontecimentos narrados. Os livros de Samuel não contêm qualquer indicação clara da data de sua composição. Que seu autor os escreveu depois da divisão do reino entre Israel e Judá em 931 a.C., é evidente por causa das muitas referências feitas a Israel e Judá como entidades distintas (ISm 11.8; 17.52; 18.16; 2Sm 5.5; 11.11; 12.8; 19.42-43; 24.1,9). Também, a declaração de que "Ziclague pertence aos reis de Judá, até ao dia de hoje" em 1Sm 27.6 nos apresenta uma clara evidência de que este foi escrito em data pós-salomônica. Entretanto, não existe essa clareza sobre qual seja a data mais tardia possível para a composição. Entretanto, no cânon hebraico, 1 e 2Samuel foram incluídos nos Profetas Anteriores, junto com Josué, Juízes e l e 2Reis. Se os “Profetas Anteriores foram compostos como uma unidade, então Samuel deve ter sido escrito durante o cativeiro babilônio (c. 560-540 a.C.), já que 2Reis termina durante d exílio (2Rs 25.27-30). Contudo, como Samuel possui um estilo literário distinto do de Reis, é muito provável que tenha sido escrito antes do exílio, durante o período do reino dividido (c. 931-722 a.C.) sendo que posteriormente passou a fazer parte dos Profetas Anteriores.” (Bíblia de Estudo MacArthur, SBB. Introdução ao Primero Livro de Samuel, pág 435).
2. A data dos livros. Os estudiosos apresentam as datas entre 1.100 e 970 a.C. Essa data marca os acontecimentos históricos desde o nascimento de Samuel ao término do reinado de Davi. Assim, crê-se que Samuel nasceu em aproximadamente 1.100 a.C., e começou a exercer a função de líder provavelmente no ano 1.070, depois de cinco anos que o sacerdote Eli havia morrido. Os especialistas do Antigo Testamento afirmam que o reinado de Davi foi entre 1.010 e 970 a.C., assim, podemos avaliar que o período geral dos livros de 1 e 2 Samuel é de aproximadamente 130 anos. [Lições Bíblicas CPAD, Revista Adultos, 4º Trimestre 2019. Lição 1, 6 Outubro, 2019]
Originalmente, os livros de 1 e 2 Samuel eram um só livro. Os tradutores do Septuaginta os separaram, e desde então temos mantido essa separação. Os eventos de 1 Samuel ocorreram durante um período de 135 anos, a partir de 1105 a.C. com o nascimento de Samuel (1Sm 1.1-28), até aproximadamente o ano de 971 a.C., com as últimas palavras de Davi (2Sm 23.1-7).
3. A situação espiritual. Samuel cresceu em Siló. Nesse lugar praticavam-se os mais degradantes pecados pelos filhos do sacerdote Eli. A idolatria e a imoralidade eram os pecados dominantes na nação (1 Sm 7.3). Em Israel, o sacerdote do povo era Eli, mas ele se deixou levar pelos filhos, honrando-os mais que ao Senhor Deus. Ele não lhes aplicou a disciplina necessária, mesmo sabendo de todos os atos pecaminosos de seus filhos (1 Sm 2.29). Esse quadro desolador gerou consequências espirituais irreparáveis ao povo de Israel: religiosidade aparente, espiritualidade superficial e um sacerdócio descomprometido com Deus (1 Sm 2.22,23). [Lições Bíblicas CPAD, Revista Adultos, 4º Trimestre 2019. Lição 1, 6 Outubro, 2019]
Note que pela exortação de Samuel no capítulo 7.3, o povo andava desviado do Senhor e seguindo os baalins [Divindades cultuadas por alguns povos antigos, especialmente pelos Cananeus, habitantes de Canaã, terra prometida a Abraão, antes da chegada dos judeus. Etimologia (origem da palavra baalins). Plural de baalim, de baal, do hebraico Bahal. (DICIO)] e os astarotes [Astarote era o nome da principal divindade fêmea adorada na antiga Síria, Fenícia e Canaã. Os fenícios a chamavam de Astarte, os assírios a adoravam como Ishtar, e os filisteus tinham um templo de Astarote (1 Samuel 31:10). Por causa da conquista incompleta de Israel da terra de Canaã, a adoração de Astarote sobreviveu e atormentou Israel, começando assim que Josué foi morto (Juízes 2:13).(GOTQUESTIONS)]. Predominantes no panteão cananeu, essas divindades eram deuses da fertilidade que infestavam Israel. "Baal" e “Astarote" representam a pluralidade da majestade, representando a suprema autoridade sobre as demais divindades dos cananeus. Astarote representava a deusa feminina, enquanto Baal representava o deus masculino do céu que fecundava a terra. Essa prostituição cultual está bem clara no capítulo 2.22,23 quando é retratado que os filhos de Eli se deitavam com as mulheres. Fazia parte do comportamento depravado dos filhos de Eli manter relações sexuais com as mulheres que ministravam no tabernáculo (veja Êx 38.81). Esse tipo de prostituição religiosa era comum entre os vizinhos de Israel, os cananeus. Não era apenas uma “religiosidade aparente, espiritualidade superficial e um sacerdócio descomprometido com Deus”, mas era sinal claro de desvio do Senhor e de uma religião mista, unindo elementos cúlticos pagãos com os elementos do culto ao Senhor.
SUBSÍDIO DIDÁTICO-PEDAGÓGICO
Reproduza o esquema abaixo a fim de apresentar os dois livros de Samuel:
1 SAMUEL
2 SAMUEL
I. O Ministério de Samuel (1 Sm 1.1-8.22);
II. Saul tornou-se rei (1 Sm 9.1-15.35);
III. Saul e Davi (1 Sm 16.1-31.13).
I. O Reino de Davi (2 Sm 1.1-20.26);
II. Um apêndice (2 Sm 21.1-24.25)
III. A TEOLOGIA NOS LIVROS DE SAMUEL
1. Profecias cumpridas. Eruditos concordam que há ensinos robustos na estrutura textual dos livros de 1 e 2 Samuel. Por exemplo, profecias cumpridas na história e mudanças que ocorreram na estrutura social da nação estão patentes em 1 Samuel 7 e 12, e 2 Samuel 17. [Lições Bíblicas CPAD, Revista Adultos, 4º Trimestre 2019. Lição 1, 6 Outubro, 2019]
A mudança maior e principal foi na estrutura espiritual, marcando o momento em que Israel negligenciou a Deus e correu atrás de deuses estrangeiros e quando voltou para o Senhor. Evidencia disso está em 1Sm 7.3 com a exortação: “preparai o coração ao SENHOR... e ele vos livrará”. Essa declaração relembra o ciclo registrado no livro de Juízes: apostasia, opressão, arrependimento e livramento. Depois do arrependimento nacional e volta ao Senhor, os filisteus são vencidos, eles pedem um rei, Samuel unge a Saul rei de Israel; evidência de transformação social como fruto da transformação espiritual. Se quisermos ver uma diferença neste mundo tenebroso, precisamos testemunhar de Cristo, para que haja uma transformação espiritual, em consequência, virá uma transformação social. Também fica um convite a pensarmos em que tipo de evangelho temos pregado em nossa nação, no Novo Testamento onde o Evangelho chegou, houve transformação na sociedade; que transformação temos produzido na Brasil?
2. Em busca de um rei. Samuel era um líder preocupado com o crescimento espiritual da nação. Por isso ele está presente no momento em que o povo israelita pede para si um rei. Como homem de Deus, Samuel declara sua sinceridade, transparência e retidão no exercício sacerdotal (1 Sm 12.1-5). Assim, ele pediu que o povo considerasse o que o Altíssimo havia feito por eles, mesmo diante do ato de rebelião contra Deus (1 Sm 12.24). [Lições Bíblicas CPAD, Revista Adultos, 4º Trimestre 2019. Lição 1, 6 Outubro, 2019]
O povo de Israel olha para os seus vizinhos e desejam ser como eles, deseja ter um rei (1Sm 8.5). Samuel, insatisfeito com esse pedido do povo, recorre ao Senhor e obtém a resposta: não é a liderança de Samuel que o povo rejeitou com esse pedido, mas a liderança do Senhor o Rei de Israel em última instância! Depois de alertar o povo do que implicaria ter um rei, Samuel unge Saul, coroando-o em Mispa (1Sm 10.17-25). De acordo com Dt 17.14, Deus sabia que esse seria o desejo do povo e permitiria que assim o fosse. No entanto, 1Sm 8.20 revela um motivo que era definitivamente contrário à vontade do Senhor: o desejo de Israel era substituir seu Rei, o Senhor, por um rei como o das outras nações. Foi assim que Israel rejeitou o Senhor. O problema não era ter um rei, mas sim a razão pela qual o povo queria um rei, ou seja, para ser como as outras nações. De maneira insensata; também achavam que haveria mais poder se tivessem um rei para liderá-los nas batalhas.
3. Os alicerces da dinastia davídica. No capítulo 7 de 2 Samuel há o estabelecimento profético da dinastia de Davi. Ela surge pela ordem do Senhor. A Bíblia mostra que não obedecer a vontade de Deus levou muitos reis a tornarem-se escravos deportados e, depois, assassinados, como aconteceu com Joaquim e Zedequias (2 Rs 24.12; Jr 39.7). Assim, a quebra da aliança no período monárquico trouxe graves consequências para o povo de Deus: o templo foi destruído, assim como as muralhas da cidade, e os israelitas foram humilhados em terras estranhas. [Lições Bíblicas CPAD, Revista Adultos, 4º Trimestre 2019. Lição 1, 6 Outubro, 2019]
O estabelecimento da aliança davídica está registrada em 2Sm 7.1-17, com a promessa incondicional do Senhor a Davi è sua posteridade.
Embora não seja chamada de aliança aqui, o será mais adiante (23.5). Essa promessa é de vital importância para o entendimento da promessa irrevogável de Deus em que um rei da linhagem de Davi governará para sempre (v. 16). É estimado que mais de 40 passagens bíblicas individuais estejam diretamente relacionadas a esses versículos (cf. SI 89; 110; 132); portanto, essa passagem é de especial importância no AT. Seu cumprimento definitivo acontecerá na segunda vinda de Cristo, quando ele estabelecer o reino do milênio na terra (cf. Ez 37; Zc 14; Ap 19). Essa é a quarta das cinco alianças irrevogáveis e incondicionais feitas por Deus. As primeiras três são: 1) A aliança noaica (Gn 9.8-17); 2) A aliança abraâmica (Gn 15.12-21) e 3) a aliança levítica ou sacerdotal (Nm 3.1-18; 18.1-20; 25.10-13). A nova aliança, que realmente proveu a redenção, foi revelada mais tarde por intermédio de Jeremias (Jr 31.31-34) e foi cumprida pela morte e ressurreição de Jesus Cristo. (Bíblia de Estudo MacArthur, SBB. Nota textual 2Sm 7.1-17, pág 402).
SUBSÍDIO TEOLÓGICO
"A linha teológica que traspassa Samuel e Reis é a escolha divina de um líder para representá-Lo, enquanto o Senhor implementa os concertos com Israel. Essa nação existia na terra por causa do concerto incondicional que Deus fez com Abraão. O Senhor implementou o concerto abraâmico quando Ele resgatou o seu povo do Egito e fez deles uma nação. Mas as bênçãos da terra eram condicionais. A bênção de Deus era dada por obediência, como declaradamente em Deuteronômio" (Roy B. Zuck (Ed). Teologia do Antigo Testamento. Rio de Janeiro: CPAD, 2018, p.135).
IV. SAMUEL: O DIVISOR DE ÁGUAS
1. Um momento de crise espiritual. Samuel aparece no cenário bíblico veterotestamentário num momento de uma grande crise espiritual. O trabalho desse servo do Senhor não seria fácil, pois ele desempenharia um papel fundamental na transição do período dos juízes para a monarquia. Assim, ele orientou o povo para promover a construção de uma unidade nacional e espiritual. O profeta, juiz e sacerdote Samuel foi o homem a quem Deus escolheu para falar, julgar e representar a nação de Israel, o povo escolhido por Deus (Lv 20.24,26)||. [Lições Bíblicas CPAD, Revista Adultos, 4º Trimestre 2019. Lição 1, 6 Outubro, 2019]
No início de 1º Samuel, Israel encontrava-se espiritualmente desviado. Havia corrupção no meio dos sacerdotes (1Sm 2.12-17,22-26), a mobília principal do tabernáculo, a arca da Aliança havia sido tomada pelos filisteus (1Sm 4.3-7.2), o povo estava entregue à idolatria (1Sm 7.3-4), seus juízes desonestos (1Sm 8.2-3). O Senhor usou a piedade de Samuel para influenciar o povo e promover mudanças (1Sm 12.23). Terminando com Davi (1Sm 13.14), essas condições foram revertidas. O livro de 2Samuel termina com a ira do Senhor sendo afastada de Israel (2Sm 24.25).
Samuel teve importância singular na história de Israel. Ele foi o último dos juízes a exercer autoridade civil sobre o povo. Embora não pertencesse à linhagem de Arão, oficiava os rituais como principal sacerdote. Foi também reconhecido como profeta e criou escolas de profetas que influenciaram as futuras gerações dos reis de Israel.(ICNVFREGUESIA)
Ele liderou Israel como sacerdote e como chefe militar e político. Samuel foi um exemplo de fidelidade e obediência a Deus(RESPOSTAS)
2. O líder Samuel. Samuel fechou o ciclo dos juízes. Ele contribuiu grandemente para a nação de Israel ao estabelecer os alicerces do ofício profético, preservar o sacerdócio e estruturar a base espiritual do sistema monárquico (1 Sm 3.15-21; 2.18; 8.10-22). Posteriormente, profetas mais novos herdariam o modelo espiritual deixado por Samuel, bem como todo um conjunto de conselhos para a casa real de Israel. Com Samuel, aprendemos que a chave para alcançar estabilidade e prosperidade no ministério é confiar em Deus e depender de seu favor. [Lições Bíblicas CPAD, Revista Adultos, 4º Trimestre 2019. Lição 1, 6 Outubro, 2019]
Samuel promoveu uma grande reforma nacional, renovando a aliança e trazendo o povo de volta à adoração à YHWH, o Deus de Israel. Baniu os rituais de adoração cananéia e estabeleceu um estilo sacerdotal inovador, percorrendo rotineiramente as cidades de Mispa, Ramá, Gilgal, Belém, Betel e Berseba, para realizar suas tarefas sacerdotais e desenvolver um ministério de ensino eficiente. Foi grande líder militar, subjugou os filisteus em Mispa, e ali ergueu uma pedra; e deu-lhe o nome “Ebenézer”, por que, disse ele, “Até aqui nos ajudou o Senhor” (1Sm 7.12). Até sua morte, exerceu o papel de juiz de Israel (1Sm 7.15). Ungiu, a pedido do povo, o primeiro rei, Saul, que por ter se apossado indevidamente da responsabilidade sacerdotal, foi rejeitado pelo Senhor. Seguindo a ordem de Deus, Samuel ungiu Davi como rei no lugar de Saul. Toda a sua vida é evidenciada pela retidão diante do Senhor (1Sm 12.5), e legou ao povo a receita do sucesso: obediência ao rei e sujeição à lei de Moisés.
SUBSÍDIO TEOLÓGICO
"Um dos maiores líderes de Israel (2 Cr 35.18; Sl 99.6; Jr 15.1; At 3.24; Hb 11.32). Samuel veio a Israel em uma das horas mais sombrias da nação. Os filisteus, que por um longo período haviam intimidado os israelitas, estavam ameaçando tragá-los. Mas Ana, a esposa de Elcana, de Ramataim-Zofim, da montanha de Efraim, estava mais preocupada com o fato de não ter filhos. Enquanto adorava no Tabernáculo em Siló, ela rogava que o Senhor lhe desse um filho, o qual ela ofereceria para ser um nazireu de Deus (Nm 6) por toda sua vida. Este filho foi Samuel, aquele que ungiu reis, o último dos juízes, e o primeiro dos profetas depois de Moisés" (Dicionário Bíblico Wycliffe. Rio de Janeiro: CPAD, 2010, p.1753).
CONCLUSÃO
Os livros de 1 e 2 Samuel apresentam a narrativa histórica da transição do período dos juízes para a monarquia dinástica. As muitas histórias apresentadas nesses livros revelam os erros e os acertos de líderes humanos, mas, ao mesmo tempo, revela o quanto Deus trabalha pelo seu povo. [Lições Bíblicas CPAD, Revista Adultos, 4º Trimestre 2019. Lição 1, 6 Outubro, 2019]
Os livros de Samuel proporcionam-nos um capítulo indispensável nos anais do trato de Deus com seu povo Israel, e sua preservação e preparação para seus duplos fins: serem depositários dos oráculos de Deus e trazerem à luz, no seu devido tempo, "o mais importante Filho do grande Davi"”. (BIBLIOTECABIBLICA)
Os livros de 1 e 2 Samuel estão no âmago do relato bíblico sobre a história de Israel. Interessante que o livro de Juízes terminam atribuindo a decadência moral da nação à falta de um rei (Jz 21.25); em 1Sm este problema é resolvido com o Senhor concedendo um rei à nação, mas logo fica evidente que a situação moral não se sustenta com um rei qualquer, mas com um rei que seja segundo o coração de Deus (1Sm 13.14)! A promessa de Deus feita a Davi é central na narrativa Bíblica e uma garantia de que os propósitos de Deus para seu povo se cumprirão. Ao concluir a leitura de 2 Sm, podemos continuar o percurso histórico bíblico, certos de que Deus tem um plano para o seu povo e o realizará por meio de seu servo escolhido, ainda que imperfeito, Davi. Sejamos abençoados neste 4º trimestre!

Francisco Barbosa
Disponível no blog: auxilioebd.blogspot.com.br

Nenhum comentário:

Postar um comentário