quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

O INCOMPARÁVEL JESUS




Vivemos tempos de uma prolongada crise, um momento em que os valores tradicionais têm sido diluídos em meio a um emaranhado cultural cada vez mais cético, humanista e pragmático. A sede e fome de Deus tem sido ludibriada por um empanturramento de futilidades (as igrejas arquitetonicamente parecem cada vez mais shoppings, e os shoppings ganham um ar de pureza e paz religiosa), um assoberbamento de tarefas a cumprir (a adoração genuína e generosa é trocada pelo ativismo religioso que se caracteriza pela competitividade doentia e arrogância vazia), e uma falsa sensação de companhia em virtude das múltiplas conexões digitais (são inúmeros aplicativos de relacionamentos, alto desenvolvimento tecnológico associado às empresas de comunicação, porém, nunca as pessoas estiveram tanto tempo solitárias e isoladas, mesmo quando estão na mesma mesa para refeições).
Estabelece-se assim, uma perigosa ilusão, desenvolve-se um Cristianismo difuso.
Para algumas pessoas a simples identificação com uma determinada comunidade religiosa já lhes concederia o direito de se autodefinirem como cristãs. Esses indivíduos não conseguem discernir a diferença entre seguidor (aquele que empreende longas jornadas em busca de interesses pessoais) e discípulo (aquele que está disposto a moldar-se de acordo com o caráter de Jesus); essa multidão não é capaz de diferenciar o frequentador (aquele que se declara "evangélico nominal", cuja participação semanal nos cultos tem muito mais uma finalidade de "desencargo de consciência" do que de serviço e adoração) e a testemunha (aquele que se identifica tão radicalmente com Cristo que é capaz, se necessário, de morrer por seu Mestre).
Fabrica-se uma subcultura pseudoevangélica com o intuito de produzir nos cristãos nominais uma ilusória sensação de pertença. Daí nasce um dialeto próprio - o "evangeliquês" - com gírias e expressões inteligíveis apenas para os participantes do gueto social; patrocina-se uma moda gospel que, aliada a uma produção artística gospel, gera mais rendimentos financeiros do que qualquer bem-estar espiritual.
O resumo deste estado-de-coisas é que as pessoas vêm às igrejas, mas não tem comunhão (encontramos igrejas-shoppings lotadas de pessoas, no entanto cada uma destas está solitária em seu próprio mundo de ambições, desejos e ganância); os frequentadores de cultos cantam e tocam músicas religiosas, porém estão bem distantes de qualquer adoração (As igrejas-shoppings investem muito em uma sofisticada engenharia sonora, porém o interesse parece mais em manipular as emoções das pessoas do que levá-las a uma comunhão genuína com o salvador); os carros e roupas dessas pessoas trazem slogans ou frases religiosas, todavia, seus corações e caráteres manifestam a decadência de quem nem sabe de fato quem Jesus é.
Nasce assim um perigoso e monstruoso construto social deste tempo: um Cristianismo sem Cristo.
Por fim, um dado extremamente preocupante que caracteriza de modo emblemático toda essa celeuma religiosa de nosso tempo, é que entre os jovens tanto cresce o número de ateus como o de participantes de igrejas-shoppings que anunciam um evangelho-fake. Desta maneira, se nada for feito para mudar essa situação alarmante, em poucas gerações enfrentaremos no Brasil um colapso sem precedentes, com um esvaziamento das igrejas que se comprometem em apresentar o Evangelho com seriedade, bem como um efeito social danoso - em virtude do esfacelamento de princípios ético-morais diretamente associados à vida cristã autêntica.
Pensar sobre Jesus, aprender sobre a vida do Mestre, e de modo especial refletir sobre a maravilhosa obra da salvação que ele estabeleceu em nosso favor, é uma exigência de nosso tempo, assim como um exercício de comprometimento com o futuro saudável da Igreja.
O Evangelho necessita retornar às suas raízes no Brasil, e não há nada mais fundamental no Cristianismo que a compreensão plena de quem é nosso Salvador, pois é através dele que temos acesso ao máximo daquilo que se pode compreender da divindade. Dito de outra forma, Jesus - através de sua vida e ensinamentos - é o próprio mapa do céu; conhecer o Mestre - em virtude de seu amor com que muito nos ama - é a única razão pela qual faz sentido enfrentar todos os desafios da jornada terrena para chegar no céu.
O próprio Redentor preocupou-se em fazer conhecido e compreendido enquanto viveu conosco; o nascimento humilde, a vida comum em Cafarnaum, a participação em inúmeros eventos sociais (como almoços, jantares, casamentos etc.) são algumas provas inquestionáveis de que Jesus queria que as pessoas compreendessem quem ele era. Já o uso de metáforas e parábolas para transmissão de sua mensagem eterna são manifestações não só da sabedoria divina, mas também da compaixão celestial para conosco seus filhos.
Enquanto rodeado de pessoas humildes e simples socialmente, Jesus anunciava o Reino de Deus falando de sementes, pescarias, fermento para bolos; já quando estava na presença de fariseus, sacerdotes ou autoridades civis, o Cristo discursava com a oratória de quem transbordava sabedoria.
O problema relativo ao entendimento de quem era Jesus foi uma questão tão cara ao Mestre que ele próprio em determinado momento questionou os seus amigos - aqueles que ele escolheu separadamente para uma obra específica - sobre o que a população em geral e eles mesmos entendiam sobre a pessoa do Salvador. A sinceridade da resposta de Pedro, tanto para apresentar a ignorância popular quanto para ressaltar o nível da revelação que já tinha alcança dos apóstolos, é algo marcante nas páginas do Evangelho.
Jesus não pode ser confundido com nada ou ninguém; o Redentor não é um mero agitador de multidões, muito menos um simples sábio do Oriente, ele é o ungido de Deus para promoção da salvação das multidões que morreram na expectativa das promessas e daqueles que, ainda não tendo o visto, creem em suas palavras de vida eterna.
De que modo o destino da Juventude brasileira poderá ser transformado? Dados recentes de pesquisas sobre crimes violentos no Brasil apontam que mais de 50% das pessoas que são assassinadas em nosso país tem entre 15 e 29 anos - isto significa um verdadeiro genocídio da população jovem. Se refletirmos bem, a estratégia do império das trevas aplicada no Brasil hoje assemelha-se aquela adotada pelas nações que dominavam o povo de Deus no passado - opressão dos mais frágeis, escravização dos sobreviventes e massacre dos mais jovens.
É urgente que a Igreja brasileira volte seu olhar para a população jovem, evangelização, discipulado, formação e capacitação ministeriais são deveres que a comunidade dos que servem ao Cristo ressuscitado precisa ter com todos; e em tempos de crise, a prioridade precisa ser concedida àqueles que estão mais vulneráveis e frágeis.
Nenhuma igreja local não precisa ser um shopping, uma boate ou um circo para que a juventude interesse-se em estar lá, basta que cada comunidade cumpra sua natureza missional e comprometa-se em alcançar os carentes de salvação.

Thiago BraziL, Líder da AD em Parque Buenos Aires, Ministério Templo Centrai, em Fortaleza (CE), comentarista das Lições Bíblicas de Jovens, doutor em Filosofia, professor efetivo da UECE In: Ensinador Cristão. Rio de Janeiro: CPAD, ano 21, n. 81 p. 15-16, jan-mar. 2020. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário