sábado, 2 de abril de 2022

LIÇÃO 1: O SERMÃO DO MONTE: O CARÁTER DO REINO DE DEUS

INTRODUÇÃO

Não se pode renegar a grande influência e leitura que se faz do Sermão da Montanha, atribui-se a ele as mais diversas nomenclaturas: Cristianismo Essencial, Manifesto de Cristo, O Alvo da Vida, A Vida Cristã Ideal, porém o que se pode realmente dizer é que nos capítulos 5–7 do Evangelho de Mateus o que se tem é a sinopse do ensino ético das exigências de Cristo para aqueles que desejavam fazer parte do seu Reino. Em suas partes há ensinos gerais e impactantes que abrangem as múltiplas áreas da vida religiosa.

Compreendemos que o simples fato de ser o  mais conhecido ensino de Cristo não garante plenamente sua compreensão e prática, pois disso resulta a necessidade da transformação divina, visto que pode realmente valorizar aquilo que é espiritual, procedente de Cristo, quando se é espiritual (1Co 2.15). Essa espiritualidade é possível por intermédio do novo  nascimento, caso não seja assim, tais verdades etéreas serão de pouca monta, como bem foi falado por Jesus a Nicodemos (Jo 3.12). Apesar da mensagem do Mestre divino em Mateus, nos capítulos de 5 a 7, sua praticidade é quase impossível porque primeiramente deve ocorrer uma mudança interior para que se deseje as pepitas de ouro deixadas por Cristo.

Os ensinos propostos por Cristo no Sermão do Monte não são para ser apenas venerados, estudados, analisados e discutidos, como muitos têm feito, antes, em sua difusão, o divino Mestre procura plasmar cada discípulo conforme seus ideais e caráter. Quem deseja alcaçar esse padrão elevado ou a quintessência falada por Cristo, jamais conseguirá viver no periférico natural e carnal, antes, é preciso   abrir sua alma, deixar-se amalgamar por inteiro pela presença do grande Mestre, e, nessa fundição com a Trindade divina, é que se torna possível alcançar a perfeição desejada por Jesus aos seus discípulos (Mt 5.48), desabrochando as mais belas virtudes na vida dos novos conversos. “Eu neles, e Tu em mim, a fim de que sejam aperfeiçoados na unidade, para que o mundo conheça que tu me enviaste e os amaste, como também amaste a mim” (Jo 17.23, NAA).

I - A ESTRUTURA DO SERMÃO DO MONTE

1. Por que Sermão do Monte? - Antes de adentramos especificamene na questão da estrutura do Sermão da Montanha, vamos começar falando sobre o porquê do Sermão do Monte. Na parte de Lucas 6.20-49, o sermão é suscinto e o nome que recebe é Sermão da Planície. Isso se deve à questão da diferente localidade (Lc 6.17). Fazendo um paralelo com Mateus, está  escrito que Jesus subiu a um monte, do qual passou a dar suas instruções (Mt 5.1). No texto grego, Mateus começa assim: Ἰδὼν δὲ τοὺς ὄχλους ἀνέβη εἰς τὸ ὄρος·, Vendo Jesus as multidões, subiu para a montanha (Mt 5.1). Assim, o título sermão é julgado por alguns estudiosos como sendo infeliz. Em relação à aparente discordância existente em Mateus e Lucas, não se pode em momento algum assegurar tal desarmonia, o que é bem explicado no Comentário Bíblico de William Hendriksen, que diz:

De acordo com Lucas, o sermão foi pronunciado “num lugar plano” (6.17),  mas, de acordo com Mateus, “sobre um monte”. A aparente contradição desaparece, seja admitindo que Jesus pronunciou seu discurso num planalto ou que, tendo escolhido seus discípulos no cume do monte, desceu com eles para a planície onde curou os enfermos e, em seguida, com os discípulos, voltou para o cume do monte (ver Mc 3.13; Lc 6.17 e Mt 5.1, nessa ordem). Se o segundo ponto de vista for adotado, tudo indica que na planície ele parou para curar os enfermos; no alto do monte ele se sentou, segundo o costume da época (Mc 4.1; 9.35; 13.3; Lc 4.20), para pronunciar o sermão. Seja qual for o ponto de vista que alguém adote, é evidente que nenhum conflito entre Mateus e Lucas pode ser provado.

Particularmente, posso julgar que alguns acham indevido o uso da palavra “sermão” para os capítulos 5–7 de Mateus. Em primeiro lugar; pelo fato de não constar no próprio texto. Em segundo lugar, os ensinos de Cristo foram diversos discursos abrangendo temáticas diferentes, ao passo que o singular sermão estaria atrelado à prédica de um sacerdote, um pastor, inclusive pelo aspecto figurado, que pode carregar o peso de uma mensagem moralista, por exemplo:não me venha com sermão”. No latim, a palavra sermão é “sermo, onis” e tem o sentido de conversa ou das palavras familiares trocadas em uma conversa. R. V. G. Tasker, falando sobre o assunto esclarece:

A expressão “sermão do monte”, pela qual esta seção é geralmente conhecida, é algo enganosa, desde que parece mais provável que nestes capítulos o evangelista não esteja registando um discurso único pronunciado de uma só vez, mas, sim, reunindo e organizando pequenos grupos de ditos de Jesus sobre o discipulado, exarados em várias ocasiões durante seu ministério. O fato de que muitos dos ditos aqui registrados são encontrados em diferentes contextos na narrativa de Lucas confirma esta conclusão. Tal confirmação vem também da opinião generalizada de que dificilmente qualquer mestre condensaria tanta instrução em um único sermão. É pouco convincente a opinião de Chapman de que o sermão original pode ter durado tanto quanto uma hora inteira, na sua forma condensada, e até três horas, havendo necessidade de desenvolvimentos e explanações.

Há que se dizer que em relação à questão se o assunto foi abordado de uma só vez ou se aconteceu em várias ocasiões no ministério de Cristo, o duelo é grande, pois de um lado existem aqueles que são categóricos em afirmar que há sim unidade nesse sermão, ao passo que outros apresentam seus argumentos assegurando que não existe unidade. Esse debate continua ainda hoje e jamais se chegou a um consenso definitivo. Uma análise meticulosa é apresentada na conhecida Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia de R. N. Champlin e J. M. Bentes. De modo condensado e com um olhar crítico apresentaremos as duas opiniões, contra e a favor da unidade.

Da parte dos que defendem a unidade três argumentos que são apresentados como prova: caráter dos ouvintes, desenvolvimento temático e possibilidades editoriais. Os apologistas dessa linha de pensamento afirmam que os capítulos 5–7 de Mateus são uma unidade literária, isso porque um certo logicismo que se encaminha para um desenvolvimento, como presente no texto. Nessa linha de pensamento é assegurado que quando Jesus subiu ao Monte seu discurso foi direcionado aos discípulos não neófitos que há tempos estavam na companhia do divino Mestre. O fato de Cristo ir ao monte era para não ter contato com a multidão, porém quando Ele estava entregando seus ensinos ao colegiado de discípulos, havia multidões ao redor, mas tudo o que dizia se voltava tão somente para aquele grupo.

Em prosseguimento, os defensores da unidade do Sermão do Monte apresentam ainda mais dois pontos para corroborar suas afirmações, uma é a questão editorial. Nesse particular, asseveram que as narrativas presentes nos dois evangelhos, Mateus e Lucas, ainda que tenham alguma diferença, não há nada de relevante nisso. No demais, os proponentes dessa teoria editorial seguem afirmando que há possiblidades de que, em algum momento, Jesus fez repetição de seus ensinos, de modo que é compreensível que isso gerou narrativas diferentes com situações ínclitas.

Ainda se acrescenta que é falsa a ideia de que os escritores dos evangelhos contaram tudo o que sabiam e que não contaram o que não sabiam. Alegam aqueles da teoria editorial que Lucas desenvolveu sua narrativa afirmando no pano de fundo palestino-judaico, e que se pode crer que Mateus fez sua narração seguida de tais minúcias. Assim, o resultado é que se têm duas fontes distintas para o relato dos capítulos 5–7 de Mateus, de modo que Jesus fez junção do material dos dois sermões que havia ensinado, de maneira que os ensinamentos que chegaram a Mateus foram aqueles que Jesus apresentou naqueles dias.

O último ponto apresentado é o da questão da elaboração temática. Nesse particular, assegura-se que o sermão segue um curso normal, ele tem começo, meio e fim. O Sermão do Monte tem uma ideia central que se espalha no seu todo, sendo desenvolvida até chegar ao seu clímax final, nisso consiste sua unidade. Essa ideia é o Evangelho do Reino (Mt 4.23), de modo que Reino dos céus e e Reino de Deus são semelhantes, sendo a primeira usada por Mateus, e a segunda por Lucas.

Importante ressaltar que há um propósito específico para o uso da palavra reino, tanto presente em Mateus como em Lucas. Nela um aspecto escatológico, pois, por intermédio do ensino de Cristo nesse monte, a ideia que se tem é da concretização do Reino literal, e, com o uso do termo justiça, como falado por Daniel e Lucas (Dn 9.24). Escatologicamente há uma espera pela implantação do Reino literal em que Cristo governará, porém, no Sermão do Monte, ensinado por Cristo, tem-se uma alusão ao Reino no seu aspecto espiritual, o qual se torna presente na vida do cristão quando aceita a Cristo como seu Senhor e  Salvador (Lc 17.21). Os que desejavam viver o Reino espiritual precisam viver segundo os princípios divinos exarados no Sermão do Monte, conforme Cristo ensinara.

Em oposição à unidade do Sermão do Monte, os que se manifestam asseveram que tais ensinos não foram dados de uma só vez ou em um único sermão, por isso apresentam três argumentos: a  questão da natureza do material, as porções desconexas e os paralelos em Lucas. No aspecto material, assegura-se que o que se tem em Mateus 5–7 são sumários dos ensinos de Jesus, o que depois seria examinado mais prolongadamente.

Na questão da desconexão, parece haver certas divisões que não se harmonizam bem, tanto antes como posteriormente. A título de exemplo, pode se notar Mateus 5.31,32 e 7.7-11; 6.1-6 e 6.16-18. Possivelmente, essas partes separadas demonstram que não há ligação entre ambas, mas são pequenas seções de sermões. Nessa concepção, haveria mais ou menos vinte discursos diferentes apresentados por Jesus.

Quanto ao paralelo de Lucas, àqueles que afirmam com a passagem lucana (Lc 6.17-49), denominada de Sermão da Planície, o que se busca é dizer que tal narrativa é um elemento preponderante para se refutar a unidade do Sermão da Montanha. A primeira coisa a se observar é que boa parte do que consta em Mateus não aparece em Lucas. Enquanto em Mateus encontra-se 107 versículos, Lucas menciona somente 30 destes, além do fato de que há 47 versos de Mateus que não tem qualquer ligação com Lucas. Com essa análise, o que se procura dizer é que não há qualquer unidade do Sermão da Montanha, de modo que de Agostinho até a Reforma Protestante julga-se que o Sermão da Montanha de Mateus é diferente do Sermão da Planície de Lucas.

Para fecharmos esse primeiro ponto quanto ao porquê do Sermão do Monte, nada melhor do que fazer uso do Comentário do Novo Testamento Aplicação Pessoal (2009, p. 36), que diz:

Mateus 5–7 é chamado de Sermão do Monte porque foi proferido por Jesus sobre um monte perto de Cafarnaum. É provável que esse sermão seja resultado de vários dias de pregação. Nele, Jesus revelou sua atitude em relação à lei de Moisés, explicando que ela exige uma fiel e sincera obediência, não uma religião cerimonial. O Sermão do Monte desafiava os ensinos dos orgulhosos e legalistas líderes religiosos daquela época. Ele conclamava o povo para ouvir as mensagens dos profetas do Antigo Testamento que, como Jesus, haviam ensinado que Deus quer obediência sincera, e não mera e legalista obediência às leis e rituais.

Portanto, ainda que perdurem os debates quanto à unidade literária de Mateus 5–7, se Jesus proferiu tal sermão em um só momento ou em diversas outras ocasiões, nada disso retira o brilho dos conteúdos ensinados. Se nos prendermos somente aos detalhes da unidade, deixaremos de perceber as riquezas dos ensinos contidos no Sermão do Monte, os quais nos desafiam a sair de uma vida meramente religiosa e hipócrita para desenvolvermos uma vida de atitudes verdadeiras que partem de corações transformados pelo novo nascimento.

2. A estrutura do Sermão do Monte - Para compreendermos com precisão a estrutura do Sermão do Monte, é necessário que se esteja atento à expressão que sempre fecha os cinco discursos como aparecem em Mateus, que é: “Quando Jesus acabou...”. O sermão do Monte é um dos primeiros desses discursos, depois há que se atentar para a narrativa que continua, como bem se nota dos capítulos 8 e 9 em diante. Robert H. Gundry nos uma visão muito ampla do que sejam esses cinco discursos:

Os discursos constantes em Mateus são “sermões” mais ou menos longos, aos quais foram acrescentados ditos isolados de Jesus, em lugares apropriados. Cada discurso termina com esta fórmula: “Quando Jesus acabou de proferir estas palavras...” Os discursos e seus temas respectivos são conforme mostramos abaixo: 1) O Sermão da Montanha (Capítulos 5-7), significado da verdadeira (interna) retidão. 2) A Comissão dos Doze (capítulo 10): Significado do Testemunho em Prol de Cristo (perseguição e Galardões). 3) As parábolas (capítulo 13): Significado do Reino. 4) Sem qualquer título geral  (capítulo 18): Significado da Humildade e do perdão. 5) A Denúncia contra os Escribas e Fariseus (capítulo 23 e o Discurso do monte das Oliveiras, frequentemente chamado “O Pequeno Apocalipse” (capítulos 24 e 25): Significado da Rejeição de Israel. Deus rejeitou a Israel, por haver a nação rejeitado a Jesus, O Messias; ocorrerá um hiato de tempo, Jerusalém será destruída, as nações serão evangelizadas, e então Cristo retornará.

No aspecto teológico, pode se observar que da parte do Mateus uma ligação com o Pentateuco, trazendo destaque especial ao Reino e à forma como o evangelista começa a narrativa sobre Cristo, como criança, envolvendo os diversos desafios enfrentados por seus pais. Esses fatos assemelham-se à história que envolve o libertador de Israel, Moisés, e logo ficará ainda mais claro quando Jesus expõe seus ensinos no Monte, declarando que veio para cumprir toda a Lei (Mt 5.17). É importante observar que Jesus não seria apenas cumpridor da Lei, mas daria uma nova interpretação a esta, a qual, seria  plenamente verdadeira, daí o motivo constante de suas palavras: “Eu,  porém, vos digo”.

Nessa estrutura do Sermão da Montanha, Mateus mostra que Jesus faz uma ponte entre o Reino e a justiça (Mt 5.20; 6.33), sendo o arrependimento a condição para a entrada nesse Reino, não a justiça própria, mas a justiça de Cristo. Em seguida, Jesus passa a falar das bem-aventuranças, e podemos notar que o motivo da segunda cláusula é dependente da primeira, por exemplo: “Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino do céu”. Há uma promessa do Reino para os que são bem-aventurados, sendo essa a agudez das mesmas.

Em prosseguimento, quanto ao aspecto teológico, pode-se  perceber o peso desse Sermão no âmbito geral, mas há que se fazer  menção a três temáticas que exercem grande impacto e influência na  vida do povo de Deus, tanto na consciência como na parte litúrgica, são elas: as bem-aventuranças, a oração do Pai Nosso e a regra áurea (Mt 7.12).

Por intermédio das bem-aventuranças, compreendemos como realmente devem viver os discípulos de Cristo. Por isso que se fala de exigências éticas; elas são condições para que se possa entrar no Reino, envolvendo o aspecto escatológico. Ademais, as exigências éticas dão seguimento a outros temas que irão se desenvolver no corpo do Sermão ensinado por Jesus.

Como acima mencionado, a primeira parte destacada do Sermão da Montanha dirige-se especialmente à consciência, ao passo que a segunda está relacionada à questão da liturgia, na qual Cristo esclarece que a oração feita ao Pai deve ser simples, reconhecer a soberania divina, o endereço da oração e a duplicidade do perdão. Perdão esse que o orante recebe primeiramente de Cristo para com Pai, sendo agora capaz de perdoar a qualquer pessoa.

Na terceira parte, encontramos a regra áurea, que trata do relacionamento envolvendo as pessoas. Já na altura dos ensinos anteriores feitos por Cristo, nesse ponto central seria como um destaque especial para se cumprir tudo cabalmente. Por meio do ensino de Cristo sobre essa regra, o destaque baseava-se em Levítico 19.18, fazendo então uma ligação com Mateus 22.39, que na visão de Cristo seria o grande mandamento e todo o cumprimento da Lei, e dos profetas.

O Mestre divino estava combatendo o sistema de julgamento criado pelos judeus, que era um tipo de estratégia para não cumprir com as responsabilidades assumidas, não agindo com sinceridade e verdade nos negócios. Em Marcos 8.12, podemos ver que o próprio Jesus fez um juramento. Por fim, alguns têm se valido da questão da não resistência para se opor à força militar e policial (Mt 5.39), porém, não era sobre tal procedimento que Jesus estava falando, mas a questão envolvia a forma em que se dava o tratamento entre duas pessoas.

3. A quem se destina o sermão do Monte? -  Quanto à questão da destinação do Sermão do Monte, isto é, a qual público Jesus o direcionou, foi e é ainda algo que muitos se digladiam quanto ao assunto. Exegetas, hermeneutas e teólogos têm debatido incansavelmente quanto ao tema, pois alguns julgam que os princípios exarados por Cristo são padrões tão elevados, absolutos, que se questionam se realmente seriam para os cristãos comuns desta terra. Os luteranos davam um conceito elevadíssimo para o Sermão do Monte, mas faziam isso dizendo que seus ideais eram tão belos que não poderiam ser realizados, de modo que Jesus os ensinou para mostrar a insuficiência humana, servindo apenas como um recurso para preparar os homens para receberem o evangelho de Cristo.

A Igreja Católica no período Medieval via tais ensinos como “conselhos evangélicos”, os quais estavam destinados para poucas pessoas, somente aquelas que procuravam a perfeição, mas não eram mandamentos para todos os cristãos. Por fim, há que se dizer ainda que, para os dispensacionalistas, os ensinos de Jesus no Sermão do Monte seriam para tempos futuros, quando escatologicamente acontecerá a chegada do seu Reino. De modo bem direto podemos dizer que o Sermão do Monte foi destinado tanto para os discípulos de Cristo em particular como também para a multidão que estava em torno dEle.

Lendo Mateus 5.1, parece que somos levados a crer que Jesus abandonou a multidão e foi ao monte e lá apresentou tais ensinos aos discípulos em particular, entretanto quando olhamos para Mateus 7.28, o que se julga é que a multidão ouviu os seus ensinamentos. O mais importante aqui é compreender o real sentido do Sermão do Monte, para que de fato entendamos a quem realmente foi dirigido.

Se analisarmos algumas citações dos versos finais do Sermão de Cristo, entenderemos que Ele desejava que todos tivessem acesso a tais ensinos, razão pela qual faz sua exigência para aqueles que são slavos (Mt 7.13,14,17,21,24,25), para os que não são (Mt 7.13,14,26,27) e incluia também os que fingem ser (Mt 7.15-20,21-23). Os que foram transformados pelo ensino de Cristo e que desejam viver no seu Reino procuram desenvolver sua vida e conduta segundo os ensinos expostos no Sermão do Monte, sem qualquer hipocrisia e fingimento.

Muitas teorias e correntes passaram a dar suas interpretações ao Sermão do Monte, como se prova bem pelo aspecto histórico. Por isso, faz-se necessário frisarmos aqui para não enveredarmos pelo mesmo caminho. Os anabatistas entendiam que as exigências de Jesus eram tão absolutas que os que de fato quisessem obedecer-lhes jamais teriam como fazer parte de instituições políticas e sociais, isso lamentavelmente foi aceito por alguns. Outros julgavam que tais ensinos só poderiam ser desenvolvidos na prática pelo poder oriundo da cruz de Cristo, não pela capacidade humana.

Na concepção de Lutero, era possível que os cristãos colocassem todos os ensinos do Sermão em prática, por isso sua ênfase de que eles deveriam ser guardados. A interpretação da ala do protestantismo liberal é que esses ensinos seriam o coração do evangelho e que tais exposições seriam as bases fundamentais para a reforma da sociedade, conforme a visão de Jesus Cristo.

Amados irmãos, entendemos que a ética de Cristo presente no Sermão do Monte pode ser vivida e praticada por cada um de nós; claro, não por nossa própria força, capacidade, mas, sim, por meio da graça de Deus em nossa vida, pela nova posição que desfrutamos por causa da justiça de Jesus implantada em nós, de modo que não podemos jamais olhar para tais palavras como sendo impossíveis de serem cumpridas. (GOMES, Osiel. Os valores do reino de Deus: a relevância do Sermão do Monte para a Igreja de Cristo. Ruio de Janeiro: CPAD, 2022. p. 13-24.)


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