quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

LIÇÃO 10: O PECADO DO HOMEM SEGUNDO O CORAÇÃO DE DEUS

COMENTÁRIO E SUBSÍDIO I
INTRODUÇÃO

Estudaremos, nesta lição, o “negócio de Urias, o heteu” (I Rs.15:5), certamente o episódio mais lamentável da biografia de Davi, um vergonhoso conjunto de atos pecaminosos que mancharam para sempre a biografia deste rei, já que seu pecado foi expressamente mencionado, no versículo já referenciado, texto escrito depois da cativeiro da Babilônia e quando se relatava fatos ocorridos no reinado de Abião, rei de Judá, bisneto de Davi.
Esta grande falha de Davi, que é até hoje apontada por muitos pregadores, estudiosos e leitores das Escrituras, não deve servir para criticarmos e injuriarmos aquele grande homem de Deus, mas para nos lembrar que “todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (Rm.3:23; 5:12) e que, assim como Davi, mesmo cheios do Espírito Santo, necessitamos vigiar para não cometermos atos de igual ou até maior gravidade que Davi.

I – A GUERRA NÃO DESEJADA CONTRA AMOM

Deixamos Davi no ápice de seu poder político-militar. Havia subjugado os filisteus, os siros, os moabitas, os zobitas, como também havia feito aliança com os fenícios, os gesuritas e os hamatitas, de forma que não tinha qualquer adversário na região da Palestina, entre o Mar Mediterrâneo e o rio Eufrates.
Conta-nos, então, o texto sagrado que morreu o rei de Amom, Naás, tendo, então, Davi mandado uma comitiva para consolar o novo rei, Hanum, visto que Naás havia usado de beneficência com Davi, pois havia dado asilo aos seus familiares quando da perseguição sofrida nos dias de Saul (I Sm.22:3; II Sm.10:2; I Cr.19:1,2). Davi demonstra, com este gesto, toda sua gratidão para com aqueles que lhe haviam feito bem.
Devemos ser gratos a todos quantos nos fazem benefícios. A gratidão é uma característica que não pode faltar na vida daqueles que servem a Deus (Cl.3:12-15). Davi, mesmo no trono e numa posição de superioridade sobre o novo rei de Amom, não deixou de demonstrar sua gratidão pelo bem que tinha recebido quando ainda era um fugitivo de Saul, mostrando que não havia se esquecido de suas origens. Quantos, na atualidade, se comportam desta maneira, mesmo se dizendo cristãos? Devemos ser agradecidos a todos quantos nos fizeram bem no passado, mesmo que as circunstâncias atuais nos sejam amplamente favoráveis.
Davi procurou levar consolo e ajuda a Hanum quando este passava por uma dificuldade, quando havia perdido o seu pai e tinha à frente um grande desafio, que era o de reinar sobre o seu povo. Também, como servos de Deus, devemos estar dispostos a ajudar aqueles que passam por dificuldades. É muito fácil aproximarmo-nos daqueles que passam por momentos de sucesso e de êxito em suas vidas, mas também temos de estar próximos daqueles que estão angustiados, tristes e desolados (Rm.12:15). A propósito, o pregador nos ensina que é bem melhor estarmos na casa onde há luto do que na casa onde há banquete (Ec.7:2) e que é na casa do luto que está o coração dos sábios (Ec.7:4).
Entretanto, o gesto de Davi não foi bem interpretado por Hanum, ou antes, pelos seus príncipes. Ao receber a comitiva de Davi, os amonitas interpretaram que se tratava de espiões que, a pretexto do consolo ao novo monarca, estavam mesmo obtendo informações para que Davi se aproveitasse da mudança de governo e viesse dominar Amom. Diante disto, convenceram Hanum a que ultrajasse a comitiva de Davi, rapando-lhes a metade da barba e a metade dos vestidos até as nádegas, despedindo-os desta maneira (II Sm.10:3,4; I Cr.19:3,4).
Nem sempre, ou, nos dias em que vivemos, quase nunca, os gestos benevolentes dos servos do Senhor serão entendidos por aqueles que vivem no mundo ou, até mesmo, pelos que cristãos se dizem ser que estão ao nosso lado. A malícia reina soberana nos corações dos ímpios e dos pecadores, ou seja, a intenção maldosa, a inclinação para o mal, a maldade, de sorte que sempre as pessoas interpretarão mal os nossos gestos, até porque não se pode sequer exigir destas pessoas que compreendam as nossas atitudes, pois só Deus conhece o coração do homem (I Sm.16:7).
Os servos de Hanum levaram o novo rei, inexperiente, a uma guerra, porque tinham uma intenção maldosa em seus corações, acharam que Davi estava a espionar Amom, quando não era este o intuito de Davi. Ao maquinarem o mal e o retribuírem com uma maldade, acabaram por trazer para si aquilo que temiam. Achando que Davi queria guerra com Amom, acabaram por provocá-la e por trazer a ruína da sua própria nação. Aprendamos esta lição extraída das Escrituras: não façamos o mal para prevenir um mal, pois este “mal preventivo” nada prevenirá, mas trará o mal que tanto tememos (Jó 3:25).
A humilhação de alguém é uma maldade. Hanum e seus príncipes humilharam a comitiva de Davi, rapando-lhes metade da barba e metade dos vestidos até as nádegas e os despediram, fazendo-os ter de andar desta maneira pela estrada, para serem vistos por todos. Davi, ao saber da notícia, mandou que fossem encontrá-los, mas não permitiu sequer que seus enviados fossem naquele estado a Jerusalém, mas mandou que ficassem em Jericó (lugar amaldiçoado e que não tinha ainda qualquer cidade reconstruída), um local isolado e não habitado, até que suas barbas crescessem novamente (II Sm.10:5; I Cr.19:4,5).
Vemos neste episódio que a humilhação não é uma atitude que agrade a Deus. Foram os amonitas quem praticaram esta humilhação, a exposição pública, enquanto que Davi, o homem segundo o coração de Deus, mandou que fossem ao encontro daqueles homens e os mandou a um local desabitado, onde pudessem se recuperar do vexame sofrido, sem que fossem vistos pelo seu povo. Davi não permitiu a exposição pública dos seus servos, nem que passassem vergonha diante do povo.
Muitos, na atualidade, não têm este bom senso, este respeito à dignidade da pessoa humana. Baseados em I Tm.5:20, foi costume das igrejas locais, durante muitos anos, uma exposição indevida, uma humilhação dos que pecavam, entendendo que a “disciplina” exigia a execração pública da pessoa.
Não é isto que vemos, porém, neste episódio bíblico, onde temos um homem que é tipo de Jesus. Repreender o pecador na presença de todos não significa humilhá-lo. Deve-se denunciar o pecado, mostrar o mal que é o pecado, mas se deve preservar a pessoa do pecador. A repreensão é uma fala de correção, mas com objetivo de cura, de restauração. Davi mandou os homens ao encontro daqueles que estavam envergonhados e determinou que se restaurassem, para, então, tornar ao convívio com o povo. A repreensão na presença de todos, prevista em I Tm.5:20, é para conhecimento do que que está acontecendo, para notícia do estado doentio do pecador, a fim de que todos vão ao seu encontro e o ajudem na sua restauração, a ser feita em lugar reservado, livre dos olhos dos curiosos, livre da especulação e da humilhação. Aprendamos esta linda lição com Davi.
Vendo os amonitas que haviam ultrajado Davi e que haviam dado causa a uma guerra, contrataram mercenários entre os siros de Bete-Reobe e os siros de Zobá, como também junto ao rei de Maaca e aos homens de Tobe, num total de trinta e três mil homens ?(I Sm.10:6; I Cr.19:6,7).
Davi, então, enviou Joabe e todo o exército dos valentes. Joabe dividiu o exército em duas linhas, pondo Abisai, seu irmão, sobre uma delas, liderando a outra, tendo obtido grande vitória sobre os inimigos (II Sm.10:9-16; I Cr.19:6-15). Como os siros se reorganizassem, o próprio Davi assumiu o comando do exército e foi guerrear contra eles, impondo-lhes grande derrota, a ponto de todos os servos de Hadade-Ezer, rei de Zobá, dalém do rio, terem feito paz com Davi, que, assim, conseguia aliança inclusive com povos que viviam além do rio Eufrates, aumentando sua área de influência (II Sm.10:17-19; I Cr.19:16-19).

II – O NEGÓCIO DE URIAS, O HETEU

Os mercenários aliados de Amom haviam sido fragorosamente derrotados e decidiram fazer paz com Israel e não mais socorrerem os amonitas (II Sm.10:19; I Cr.19:19). Restava, então, terminar o conflito com a sujeição de Amom, pois os amonitas haviam sido derrotados mas retornado para as suas cidades, não tendo sido feita a paz entre Israel e Amom. A guerra estava, portanto, inacabada.
Decorrido um ano deste embate, quando se tinham as condições climáticas necessárias para o reinício da guerra (pois, durante o inverno, não havia como guerrear), em vez de Davi prosseguir a campanha militar, mandou que Joabe comandasse o exército e liderasse a invasão e sujeição de Amom (II Sm.11:1). Assim como havia feito no início da batalha anterior, Davi omitiu-se, preferindo ficar no palácio do que liderar o seu exército. Joabe, é certo, era o comandante do exército (II Sm.8:16), mas Davi sabia que era sua a função de liderar o povo nesta empresa, tanto que o texto sagrado diz que era aquele “o tempo em que os reis saem”.
Davi estava acostumando-se com o palácio, com as benesses de ser rei e já não demonstrava o mesmo empenho de antes. No tempo de os reis saírem para a guerra, resolveu ficar no palácio, na ociosidade. Este seu gesto foi a porta de entrada para o seu maior fracasso espiritual e nos traz um importante ensino, qual seja, o de que o ócio não é uma conduta que se deva ter entre os servos do Senhor. Jesus jamais foi ocioso, mas disse que trabalhava como o Seu Pai (Jo.5:17). De igual maneira, nós, integrantes do corpo de Cristo, temos de trabalhar constantemente (I Co.15:58), pois não é aqui o nosso descanso, por causa da corrupção que destrói, que destrói grandemente (Mq.2:10).
Vivemos dias em que o ócio é o grande sonho e desejo dos homens. O trabalho tem sido dia após dia aviltado e os trabalhadores cada vez mais explorados e tornados indignos. O que mais se busca é “sombra e água fresca”. Recentemente, uma pesquisa do IBGE revelou que, no Brasil, em 2018, mais de 10,8 milhões de jovens entre 15 a 29 nos são ociosos, não estudam, trabalham ou ajudam em casa. Que fazem estas pessoas senão o que não presta? Como já diziam os antigos, “mente desocupada é oficina do diabo” e isto é uma realidade à luz das Escrituras, visto que é na ociosidade que a mente é recheada de maus pensamentos e de tudo aquilo que desagrada a Deus.
O ócio, por primeiro, fez com que Davi dormisse até tarde. Davi só se levantou do seu leito na hora da tarde e, como não tinha o que fazer, passeava no terraço da casa real, quando viu uma mulher se lavando, mulher mui formosa à vista. O ócio proporciona tais circunstâncias. O rei estava no palácio, onde não deveria estar; acordou num horário em que não deveria acordar e acabou fazendo o que não deveria fazer, que era passar no terraço real. A mulher se lavava e ele passou a observá-la, o que não deveria também fazer.
Muitos procuram dizer que Davi não era o único culpado, porque a mulher também estava a se exibir, a se manter sob a mira dos olhares de Davi, a fim de seduzi-lo. O texto bíblico não nos diz que a mulher estivesse se lavando em local inapropriado, nem que ela o fazia de modo indevido, com intenção de chamar a atenção do rei. O ócio de Davi era a raiz de todas as coisas e, mesmo se a mulher tenha querido se exibir, somente o fez porque Davi deu esta ocasião, deixando de fazer o que lhe era devido, para ficar sem fazer coisa alguma, enroscando-se com as ciladas do adversário. Obs: Sobre o assunto, achamos oportuno aqui registrar o pensamento de Valdenira Nunes Menezes da Silva, que entendemos ser extremamente adequado e apropriado a respeito: “…Estes versículos nos fazem pensar um pouco sobre o caráter da personagem central do nosso estudo - Bate-Seba. A Bíblia nos diz que ela era uma cordeira. E quais são as características de uma cordeira, de uma ovelha? Ela é mansa, seguidora fiel do seu dono, o pastor, calada, nada reclama. O Senhor comparou-a a uma cordeirinha, mas muitos de nós a chamamos de adúltera.E você, amada irmã, como classificaria Bate-Seba? Adúltera ou cordeirinha? Nós não conhecemos o coração de Bate-Seba mas Deus ‘... sabe os segredos do coração’ (Sal 44:21b). Não sabemos e não podemos acusá-la de ter tomado banho no jardim de sua casa, propositalmente, para ser vista pelo rei. Como era para o rei Davi estar no campo de batalha, ficando na cidade apenas os velhos, as mulheres e as crianças, é impossível julgarmos já que a Bíblia não nos revela a intenção dela. Não podemos colocá-la no banco de réus e taxá-la de ADÚLTERA porque não existe prova suficiente para tal acusação. Eu não posso julgá-la mas Deus pode, pois só Ele conhece o coração do homem. Só Ele sabe o que aconteceu naqueles momentos. Uma lição muito importante podemos tirar de toda esta tragédia: O BANHO EXTERIOR É IMPORTANTE E NECESSÁRIO SE, JUNTO A ELE, VIER O BANHO INTERIOR - A PUREZA DA ALMA, UM CORAÇÃO PURO, SINCERO E CHEIO DE AMOR PELO PRÓXIMO. Mesmo o Senhor tendo-a chamado de cordeira, mesmo nós não sabendo se ela foi culpada ou inocente, ela foi castigada: 1- Ela engravidou.; b- Ela perdeu o seu marido Urias que morreu no campo de batalha.; c- Ela perdeu seu filho recém-nascido.…” (Bate-Seba: uma cordeira inocente? Disponível em: http://br.geocities.com/Bereanas/Bate-Seba-UmaCorderinhaInocente.htm Acesso em 13 out. 2009)
Davi viu a mulher e a achou formosa à vista. Olhar não era ruim, mas permanecer olhando e cobiçar a mulher já representou o pecado. Davi nem sabia quem era a mulher, mas sabia que não era nenhuma das suas mulheres, mas a cobiçou, o que já se constituiu em adultério aos olhos do Senhor (Mt.5:28). Não há como escaparmos do pecado, que jaz à porta, ou seja, está “de tocaia” (Gn.4:7), se deixarmos o lugar em que Deus nos pôs para trabalhar. Quem sai de debaixo do esconderijo do Altíssimo, à sombra do Onipotente (Sl.91:1), não tem descanso e tropeçará na vida espiritual.
Não bastasse estar fora do lugar onde deveria estar, pois era tempo de os reis saírem à guerra e Israel estava em guerra contra Amom, Davi ainda se deixou levar pelo olhar. Devemos ter muito cuidado com nossos olhos, pois eles são a candeia do corpo (Mt.5:22,23). Se a candeia do corpo não for luz, mas trevas, diz-nos o Senhor Jesus, quão tenebroso é o nosso estado. Vivemos na “era do audiovisual”, em que a visão é primordial e tem sido uma grande, poderosa arma do adversário contra os que querem servir a Deus. Tomemos cuidado para que não sejamos atingidos pela “concupiscência dos olhos”, como aconteceu com Davi.
Davi quis saber quem era aquela mulher e lhe disseram que era Bate-Seba, filha de Eliã, mulher de Urias, o heteu(II Sm.11:3), um dos valentes de Davi (II Sm.23:39; I Cr.11:41). Davi, mesmo sabendo que se tratava da mulher de um de seus soldados, mandou trazê-la e entrou a ela, deitou-se com ela e manteve com ela um relacionamento amoroso a ponto de engravidá-la (II Sm.11:3-5).
Vemos, nitidamente, que a falta de vigilância que deu origem à “concupiscência dos olhos”, tornou-se, rapidamente, em cobiça da própria mulher, a “concupiscência da carne”. Davi não mais se continha em seu desejo de possuir aquela formosa mulher e, mesmo sabendo que se tratava de uma mulher casada, casada, inclusive, com um de seus valentes, não se controlou e acabou por mandar chamá-la e levá-la ao ato sexual, ao relacionamento amoroso indevido. Bate-Seba, cujo nome significa “filha do juramento” ou “sétima filha”, não se indispôs com o rei, mas consentiu com aquele ato pecaminoso. Consumava-se o adultério, algo completamente desagradável ao Senhor (Ex.20:14; Dt.5:18).
A tradição judaica diz que Bate-Seba era neta de Aitofel, o grande conselheiro de Davi, identificando o Eliã mencionado em II Sm.11:3 com o mencionado em II Sm.23:34, outro dos valentes de Davi. Em razão disto, a literatura rabínica vê Bate-Seba como uma mulher muito sábia e inteligente, que teria sido decisiva na formação de seu filho Salomão e no seu interesse para ser sábio quando assumiu o reino de Israel em lugar de seu pai. Entretanto, segundo os rabinos, Bate-Seba era de mui tenra idade quando foi seduzida por Davi. Dizem alguns que tinha pouco mais de 8 anos e outros, não mais do que 16.
O fato é que Davi pecou com Bate-Seba e esta, ao engravidar, mandou que se desse a notícia ao rei. Davi, então, mostrando que, além de ter cedido à “concupiscência dos olhos” e à “concupiscência da carne”, também havia sido atingido pela “soberba da vida”, não assumindo o pecado cometido, procurou armar um estratagema para que a criança concebida por Bate-Seba fosse considerada como filho de seu marido. Urias estava na batalha contra Amom e, por isso, Davi mandou que fosse chamado para Jerusalém, pois, pensava que, assim fazendo, Urias se deitaria com Bate-Seba e o filho nela existente seria atribuído a seu marido (II Sm.11:6).
Vemos aqui que Davi, de modo arrogante, não se arrependeu de seu pecado, mas procurou maquiá-lo, escondê-lo aos olhos do povo. Triste coisa é a opção por encobrir o pecado em vez de confessá-lo. Quem encobre as transgressões, diz o proverbista, nunca prosperará, mas somente o que confessa e deixa alcança misericórdia (Pv.28:13).
Como bem ensina o pastor e teólogo José Mathias Acácio, não há maior tolice do que tentar esconder um pecado, pois pecado é uma ofensa a Deus e de Deus nada se oculta, pois Ele tudo sabe, Ele tudo vê. Assim, quando se tenta esconder um pecado, daquele que quem o pecado deveria ser escondido, já é manifesto e nenhuma utilidade há ocultar o pecado dos demais, pois pecado é um assunto entre nós e Deus. Gasta-se, pois, energia inutilmente quando se procura ocultar um pecado. Pensemos nisto!
Para se manter o pecado encoberto, praticam-se outros pecados. Davi, não querendo confessar sua culpa, tratou de chamar Urias da batalha, tendo, então, para disfarçar, procurado obter informações de Urias com relação à batalha. Depois de ter recebido as informações de seu fiel valente, mandou que Urias descesse à sua casa e lavasse os seus pés. Entretanto, Urias não foi para a sua casa, preferindo ficar com os servos de Davi no palácio real. Isto fez porque havia um costume entre os soldados de não irem a suas casas enquanto perdurasse a batalha, não se sentindo digno de desfrutar do bem-estar de seu lar enquanto seus companheiros estavam no campo de batalha (II Sm.11:8-11).
Urias mostrava assim sua fidelidade e dedicação para com o rei Davi e seu exército. Tendo informado o rei de tudo o que se passava na guerra, preferiu ficar com os servos do rei no palácio, aguardando a ordem para retornar ao campo de batalha, de que desfrutar de benesses que não seriam jamais alcançados por seus companheiros de luta. Urias era solidário com os seus companheiros, sabia que estava numa guerra, que lugar de soldado era no campo de batalha, e que não poderia se valer de uma circunstância momentânea para sair da disciplina militar, da sua condição de soldado.
Que contraste entre Davi e Urias. Enquanto Davi se encontrava fora do seu devido lugar, no palácio, adulterando em vez de estar no campo de batalha pelejando pelo seu povo, Urias, mesmo no palácio, podendo legitimamente ter a companhia de sua mulher, não saía de sua posição de soldado que está na luta. Como temos procedido: temos nos deixado levar pelas circunstâncias e passado a usufruir das vantagens que se nos oferecem na obra de Deus para nosso deleite próprio, ou temos buscado estar ombro a ombro com os nossos irmãos que, como nós, estão lutando para chegar ao céu? Infelizmente, não são poucos os que têm cedido às ofertas aparentemente legítimas dos Davis, para se esquecerem das necessidades e agruras dos irmãos e entrar no ritmo das benesses e mordomias que tanto têm depauperado a obra do Senhor…
Ainda que entendamos que Urias tenha procurado não escandalizar seus companheiros de luta e se manter firme com os costumes militares então vigentes, não procurando desfrutar daquilo que poderia fazer legitimamente, pois Bate-Seba era sua mulher, não podemos, também, deixar de verificar aqui que Urias, ao se prender a um costume militar (costume, aliás, que não tinha origem judaica, mas dos próprios moradores de Canaã, como ensina Robertson Smith em sua “Religião dos Semitas”, segundo a Enciclopédia Judaica – disponível em: http://www.jewishencyclopedia.com/view.jsp?artid=425&letter=B Acesso em 13 out. 2009), acabou, também, por sobrepor a tradição à sua própria vida familiar. Urias nem sequer, apesar de ter autorização real, foi até sua casa para saber como estava Bate-Seba, sendo, pois, um perfeito tipo daqueles que têm sacrificado suas famílias em prol da vida ministerial e/ou eclesiástica, atitude que não tem respaldo bíblico e que causa a destruição de muitos lares e, por conseguinte, de muitos ministérios, uma das grandes chagas de nossas igrejas locais.
Se é certo que Urias não deveria ter desfrutado da oportunidade para ter um relacionamento íntimo com sua mulher, pois isto escandalizaria seus companheiros militares, não é menos certo que deveria, ao menos, ter ido ver sua mulher, que não se sentiria assim desprezada ou abandonada. Bate-Seba estava, como se vê, numa situação de carência afetiva quando foi chamada por Davi, situação que muito contribuiu para que o adultério se consumasse.
Nos dias hodiernos, não tem sido diferente. Muitos têm, em nome da obra de Deus, negligenciado suas mulheres, as deixado de lado, tornando-as presas fáceis dos “Davis” que estão a observá-las e a considerálas formosas e a lhes oferecer o carinho que tem sido negado por seus maridos. Aliás, nos dias de hoje, não são apenas homens que têm se oferecido para suprir estas carências afetivas, mas muitas mulheres, o que tem contribuído enormemente para o aumento do lesbianismo. Precisamos acordar enquanto é tempo, não permitindo que o desprezo e menosprezo do cônjuge, notadamente da mulher, cuja sensibilidade é mais aguçada, seja a cunha, a porta de entrada para que o inimigo promova a destruição dos lares dos servos do Senhor.
Urias recusou-se a ir até sua casa, mesmo quando indagado por Davi a respeito e, então, Davi partiu para outra armadilha. Convidou Urias para comer e beber, embebedando-o para ver se, embriagado, não se conteria e iria descer à sua casa, a fim de saciar-se com sua mulher. Neste gesto de Davi, altamente reprovável, vemos, porém, uma importante lição: a de que a embriaguez por álcool ou quaisquer outras substâncias faz reduzir o nosso autocontrole, motivo assaz suficiente para que não seja uma conduta a ser seguida pelos que cristãos dizem ser (Pv.23:29-35), que devem produzir o fruto do Espírito, que tem como um dos Gomes a temperança, o autodomínio (Gl.5:22).
Urias embriagou-se, mas a embriaguez não foi tal que o fizesse mudar de propósito. Apesar de ébrio, Urias não desceu à sua casa, mantendo-se entre os servos no palácio real (II Sm.11:12-15). Com esta atitude de fidelidade e lealdade aos costumes e aos companheiros, Urias, sem saber, estava selando a sua própria morte. Vendo Davi que Urias não havia ido até a sua casa, resolveu, então, matá-lo e, numa sordidez terrível, fez com que o próprio Urias fosse o portador da ordem de seu assassinato.
Joabe, ao ler a carta, não pensou duas vezes em seguir as ordens do rei. Fê-lo não por lealdade a Davi, mas, sobretudo, para ter uma “carta na manga”, para ter uma grande vantagem em relação ao rei que, como sabia, não o havia posto no comando do exército voluntariamente e que tinha desaprovado o assassinato de Abner. Joabe viu a grande oportunidade de ver Davi igualar-se a ele em ignonímia, em ver o rei se tornar um criminoso puro e simples. Além do mais, Joabe, como os filhos de Zeruia em geral, tinham enorme prazer em matar.
Urias, então, foi assassinado, com a espada dos amonitas, visto que foi deixado só e abandonado na linha de frente da batalha, não tendo chance alguma para se defender. Aos olhos dos homens, Urias havia morrido por causa de uma fatalidade, em lealdade a seu rei, numa manobra completamente equivocada e que foi até objeto de desaprovação por Davi, ao receber a notícia, até que soubesse que tudo havia sido feito para que Urias fosse morto ( II Sm.11:16-25).
Vemos, de imediato, como a luta para encobrir um pecado fez com que outros pecados fossem cometidos. Davi traiu um de seus melhores soldados e o assassinou, ainda que com a espada dos amonitas. Davi perdeu, ademais, toda a sua autoridade moral perante Joabe, tendo, inclusive, de justificar e desculpar um erro crasso de batalha, a fim de que o pecado encoberto se mantivesse ignorado do povo. O grande rei Davi, o ungido do Senhor, agora era tão somente um adúltero, um assassino, um hipócrita, alguém que tolerava os mais absurdos erros militares. Tudo porque não quisera encobrir o seu pecado.
O mesmo sucede aos que servem a Deus e, ao pecar, em vez de pedirem perdão a Deus por Jesus Cristo, como nos determinam as Escrituras (I Jo.2:1,2), preferem esconder seu erro e criam artifícios e ardis para que o pecado se apresente como uma fatalidade, uma ocorrência normal. Aos israelitas, morrera um valente em uma peleja, uma fatalidade, algo que “não pareceu mal”, como disse Davi ao mensageiro de Joabe. Perdera-se a dignidade, a autoridade e a santidade. O errado parecera certo e o certo, errado. Eis a situação lamentável em que se encontram muitas vidas e igrejas locais nestes dias de apostasia. Que Deus nos guarde!
Urias morreu em batalha. Passados os dias de luto, Davi chamou Bate-Seba e se casou com ela, Bate-Seba deu à luz um filho. Parecia que tudo estava resolvido, que Davi havia muito bem escondido seu pecado e que poderia muito bem continuar a sua vida. “Porém esta coisa que Davi fez pareceu mal aos olhos do Senhor” (II Sm.11:27).

III – A DESCOBERTA DO PECADO DE DAVI E O ANÚNCIO DA SUA PUNIÇÃO

Quando talvez Davi nem se lembrasse mais de todos os males que havia cometido, eis que aparece o profeta Natã e, numa audiência pública, conta ao rei a história de dois homens, um rico, com muitíssimas ovelhas e vacas e outro pobre, que não tinha coisa nenhuma senão uma pequena cordeira, que tinha crescido com ele e com seus filhos igualmente. Vindo um viajante, o rico, ao hospedá-lo, mandou matar a ovelha do pobre, em vez de matar algumas de suas próprias ovelhas. Davi, ao ouvir esta história, não deixou nem que o profeta a concluísse e, enfurecido, disse que o rico era digno de morte e que pela cordeira que tomara teria de restituir o quádruplo, porque havia feito tal coisa e não havia se compadecido do pobre (II Sm.12:1-6).
Vemos, neste ponto, que Davi estava mesmo cauterizado com o pecado cometido. Nem sequer pensou no que havia feito com Urias. Pelo contrário, num desequilíbrio impróprio a um homem prudente como era, nem deixou o profeta terminar a sua história e proferiu o julgamento com grande alarde, considerando o homem rico como autor de furto premeditado, impondo-lhe a pena correspondente a esta espécie de furto (Ex.22:1; Dt.24:7). O tão prudente Davi, depois do pecado, tornara-se um “santarrão”, alguém que fazia questão de se mostrar santo, justo e imparcial.
Devemos tomar muito cuidado com os que se esforçam para aparecer santos, com os “santarrões”, com os “modernos fariseus”, que impõe fardos difíceis de carregar para os outros mas que têm uma vida completamente diferente daquela que pregam. A “santarronice”, ou seja, a “santidade aparente, impiedosa, estridente, escandalosa” não é uma santidade sincera, mas um sinal de hipocrisia, de vida dupla, de corações de duplo ânimo que, para o público, aparece como santo e limpo, mas que, no oculto, são verdadeiras “carniças”, escravos do pecado. Tomemos cuidado com este tipo de gente!
OBS: Por absolutamente oportuno, transcrevemos aqui poema de Gregório de Matos Guerra, um dos principais poetas brasileiros do século XVII, que fala precisamente sobre a hipocrisia, que era tão comum na capital brasileira da época, Salvador, mas que hoje, nos dias em que vivemos, está disseminada em toda a igreja não só no Brasil mas em todo o mundo:

Anjo Bento
                                                           Gregório de Matos

Destes que campam no mundo
Sem ter engenho profundo
E, entre gabos dos amigos,
Os vemos em papafigos
Sem tempestade, nem vento:

Anjo Bento!

De quem com letras secretas
Tudo o que alcança é por tretas,
Baculejando sem pejo,
Por matar o seu desejo,
Desde a manhã té à tarde:

Deus me guarde!

Do que passeia farfante,
Muito prezado de amante,
Por fora luvas, galões,
Insígnias, armas, bastões,
Por dentro pão bolorento:

Anjo Bento!

Destes beatos fingidos,
Cabisbaixos, encolhidos,
Por dentro fatais maganos,
Sendo nas caras uns Janos:
Que fazem do vício alarde:

Deus me guarde!

Que vejamos teso andar
Quem mal sabe engatinhar,
Muito inteiro e presumido,
Ficando o outro abatido
Com maior merecimento:

Anjo Bento!

Destes avaros mofinos,
Que põem na mesa pepinos,
De toda a iguaria isenta,
Com seu limão e pimenta,
Porque diz que o queima e arde:
Deus me guarde!

Davi estava desequilibrado na sua distribuição de justiça. Diz a Bíblia que “se acendeu em grande maneira contra aquele homem”. Era sinal da sua “santarronice”, de sua hipocrisia, algo a que devemos atentar em nosso dia-a-dia, em nossa igreja local.
O profeta, então, numa atitude extremamente corajosa e que é própria de um homem de Deus, sem dar voltas e de forma direta, disse que aquele homem da história era o próprio rei Davi que, apesar de ter sido ungido rei sobre Israel e ter tido a oportunidade de ter tomado para si tantas mulheres e tanto poder, havia desprezado a palavra do Senhor, fazendo mal diante dos Seus olhos, ferindo à espada Urias, o heteu e tomado a sua mulher como mulher e matando Urias com a espada dos filhos de Amom (II Sm.12:7-9).
Numa só tacada, o Senhor revelara todo “o negócio de Urias, o heteu”, algo que ninguém tinha conhecimento até então. Joabe sabia do assassinato, mas não sabia do adultério, porque estava no campo da batalha quando ele aconteceu. Os servos palacianos podiam saber do adultério e das artimanhas para que Urias fosse até sua casa, mas não sabiam do assassinato de Urias, porque viviam no palácio. Somente Davi de tudo sabia e tudo procurara esconder, mas além de Davi outrem também sabia de tudo: Deus, que tudo vê (Jó 31:4; 34:21).
Não nos iludamos, amados irmãos. Tentar encobrir pecado é uma atitude tola e insensata. Pecado é uma transgressão contra Deus. Assim, quando procuramos encobrir o pecado, estamos tentando esconder uma transgressão contra o Senhor. Ora, quem é o único que certamente viu o nosso pecado? Precisamente, o Senhor. Ora, então de que adianta encobrirmos os pecados dos outros homens, se pecado é um assunto entre nós e Deus e Deus sempre nos vê pecar? Não é um desperdício de tempo e de energia sem qualquer sentido? Como diz o profeta Isaías: “Ai dos que querem esconder profundamente o seu propósito do Senhor! Fazem as suas obras às escuras e dizem: Quem nos vê? E quem nos conhece?” (Is.20:15).
Davi parecia ter feito tudo perfeito, ninguém jamais conseguiria descobrir o que havia feito. Enganou-se. Deus tudo viu e tudo revelou, a fim de que o rei pudesse se arrepender. Deus tudo revelou porque não há a mínima possibilidade de escondermos algo do Senhor, que tudo conhece (Sl.139:1-3), como, aliás, o próprio Davi tinha cantado durante a trazida da arca par Jerusalém, segundo Reese (o organizador da Bíblia em ordem cronológica), que considera que Davi compôs este salmo durante a vinda da arca para Jerusalém.
Se se discute se existe crime perfeito, tenha-se a convicção de que não há pecado perfeito. O crime pode não ser descoberto pelo Estado (pois o crime é uma ofensa contra o Estado, contra a sociedade), que é imperfeito e não tem condições de sempre descobrir quem praticou um crime, mas ninguém, absolutamente pessoa alguma conseguirá encobrir qualquer pecado. Assim como aconteceu com Davi, que teve tudo revelado e ainda com chance de se arrepender, assim ocorrerá no dia do juízo do trono branco, quando se abrirão os livros e todos que não participarem da primeira ressurreição serão julgados pelo que fizeram durante sua existência terrena (Ap.20:4-6,11-15). Que possamos ter tudo revelado pelo Espírito Santo e tenhamos condição de nos arrepender a tempo, para que sejamos participantes da segunda ressurreição, antes que venha o juízo, que será sem misericórdia (Tg.2:13).
Natã teve grande coragem. Sabia a mensagem que deveria dar ao rei e, certamente, era grande o risco que o rei, enfurecido, viesse matá-lo. Mas Natã não teve por preciosa a sua vida, mas tinha plena consciência da sua responsabilidade como profeta do Senhor. Era imperioso que transmitisse a mensagem vinda da parte de Deus, ainda que fosse a revelação de um pecado oculto, ainda que fosse a revelação de erros lamentáveis da parte do rei. Que tenhamos a mesma coragem que teve Natã, jamais deixando de falar a verdade ao povo de Deus, custe o que custar, doa a quem doer.
Em seguida à mensagem de revelação do pecado encoberto, Natã também pronunciou a sentença divina: “não se apartará a espada jamais da tua casa, porquanto me desprezaste e tomaste a mulher de Urias, o heteu, para que te seja por mulher; suscitarei da tua mesma casa o mal sobre ti e tomarei tuas mulheres perante os teus olhos e as darei a teu próximo, o qual se deitará com tuas mulheres perante este sol, porque tu o fizeste em oculto, mas eu farei este negócio perante todo o Israel e perante o sol” (II Sm.12:10-12).
Vemos nesta sentença divina, a famosa “lei da ceifa”, que Paulo tratará em Gl.6:7,8 e o profeta Oseias em Os.8:7; 10:12,13, como também o proverbista em Pv.11:18,25; 12:14; 22:8, uma lei existente inclusive na natureza, chamada de Terceira Lei de Newton, que nos diz que “Para cada ação há sempre uma reação, oposta e de mesma e intensidade."
Davi havia usado a espada dos filhos de Amom para destruir uma família e matar Urias. De igual maneira, a espada não sairia de sua casa, destruindo-a e, inclusive, matando seus familiares. Dali para a frente, vemos no relato bíblico como a espada realmente não saiu da casa de Davi: Amnom, seu filho primogênito, foi morto por ordem de seu meio-irmão Absalão, quando estava embriagado pelo vinho (I Sm.13:28). Absalão, por sua vez, também foi morto por ordem de Joabe, o mesmo Joabe que fez com que Urias fosse morto com a espada dos filhos de Amom (II Sm.18:14,15). Por fim, Adonias acabou também morto por ordem de seu meio-irmão Salomão (I Rs.2:23,24). Pela morte causada, três mortes, uma a menos que o quádruplo sentenciado pelo rei ao homem rico.
OBS: “…O agudo grito de angústia com o qual ele [Davi, observação nossa] recebeu a notícia do falecimento de Absalão foi apenas um débil eco da agonia do coração que experimentou aquela morte e muitas outras, como parte da colheita da concupiscência e engano por ele mesmo semeado tantos anos antes…” (JONES, T.H. Davi. In: DOUGLAS, J.D.(org.). O novo dicionário da Bíblia. Trad. de João Bentes, v.1, p.393).
Teria havido misericórdia da parte de Deus e teria Davi perdido um filho a menos que os quatro que ele havia desejado ao rico da história contada pelo profeta? Não, não houve misericórdia. Não devemos nos esquecer que o primeiro a morrer foi o filho de Davi com Bate-Seba, que adoeceu logo após a revelação do pecado. Aqui a espada foi a do próprio Senhor contra Davi, que confirma o quádruplo, visto que Davi havia, certamente, “furtado” a ovelha única de Urias (II Sm.12:15,19).
Davi havia desonrado o leito de Urias, trazendo Bate-Seba para deitar-se com ele no palácio e, inclusive, tentando embebedar Urias para que ele fosse até sua casa e ali se deitasse com sua mulher. Fez isto de modo oculto, pois apenas tomou Bate-Seba por mulher, publicamente, após o luto dela pelo seu marido. Davi haveria de ser desonrado publicamente por um próximo seu. Com efeito, Absalão, assim que entrou em Jerusalém, após ter destronado seu pai, fez questão de desonrar o leito paterno, abusando das dez concubinas que Davi havia deixado no palácio, cumprindo-se assim a profecia de Natã. A desonra clandestina e oculta foi paga com uma desonra pública e notória (II Sm.16:20-22).
Diante desta revelação e da sentença divina, que fez Davi? Como rei, poderia ter mandado matar ou encarcerar Natã, pois tinha poderes para tanto, como, aliás, fizeram posteriormente alguns reis de Israel e de Judá, como Acabe (I Rs.22:25-28), inclusive alguns que eram tementes a Deus, como, por exemplo, Asa (II Cr.16:10). No entanto, Davi, ao receber a mensagem divina, caiu em si e se arrependeu de seu pecado. Publicamente, na mesma hora, reconheceu seu erro, dizendo: “Pequei contra o Senhor” (II Sm.12:13).
Davi mostrou, uma vez mais, que era um homem segundo o coração de Deus. Havia pecado de maneira altamente reprovável, nem parecia ser o homem que Deus havia escolhido para governar o Seu povo. Mas, confrontado com o pecado, reconheceu seu erro e, inclusive, compôs o Salmo 51. Este tema é assunto de nossa próxima lição, mas, desde já, podemos ver que, como homem, Davi pecou, mas, como era segundo o coração de Deus, reconheceu o seu pecado e, por isso, alcançou a misericórdia de Deus. Com Davi aprendemos que não há outro caminho senão o de confessarmos os nossos pecados, pois Deus está pronto a nos perdoar. Como disse Isaías: “Buscai a Deus enquanto se pode achar, invocai-O enquanto está perto. Deixe o ímpio o seu caminho, e o homem maligno os seus pensamentos, e se converta ao Senhor, que Se compadecerá dele; torne para o nosso Deus, porque grandioso é em perdoar” (Is.55:6,7).
No mesmo instante em que Davi confessou o seu pecado, arrependido, o Senhor o perdoou. O profeta Natã foi claríssimo: “Também o Senhor traspassou o teu pecado; não morrerás” (II Sm.12:13). Quem confessa o pecado, não fica sem o perdão divino. O salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna, por Cristo Jesus, nosso Senhor (Rm.6:23). Quando nos arrependemos dos nossos pecados e cremos em Jesus Cristo, passamos da morte para a vida, não entramos em condenação (Jo.5:24).
Davi foi imediatamente perdoado, assim como sua mulher Bate-Seba. Houve arrependimento e, com o arrependimento, sobrevém o perdão. Entretanto, o perdão do pecado não significa que as consequências do pecado não ocorrerão. Deus quis salvar o homem e podia fazê-lo pois é o Senhor de todas as coisas, mas também estabeleceu a lei da ceifa, de sorte que as consequências do pecado teremos de carregar até o final de nossa existência terrena. Deus não Se deixa escarnecer, Deus não abre mão de Sua autoridade e majestade, de Seu senhorio e, por isso, jamais deixa que as consequências do pecado sobrevenham aos pecadores. Deus é amor e, por isso, alcançamos o perdão dos nossos pecados, visto que o preço já foi pago por Jesus na cruz do Calvário (I Jo.2:1,2), mas as consequências de nossos atos pecaminosos nos seguem, pois Deus é um Deus de justiça.
Quais seriam estas consequências? É o que veremos, amiúde, na próxima lição. 
Evangelista Caramuru Afonso Francisco. Disponível em: https://www.portalebd.org.br

COMENTÁRIO E SUBSÍDIO II

INTRODUÇÃO
A Bíblia não se limita a descrever as façanhas de seus heróis, mas revela igualmente seus pecados, erros e fragilidades. Homens como Noé, Abraão e Jacó cometeram graves faltas na caminhada espiritual (Gn 9.20,21; 20.1-6; 27.19), e a Bíblia não as esconde.  Davi, embora ungido do Senhor, deu lugar ao Diabo, e veio a cometer dois gravíssimos pecados. Por isso, Jesus nos alerta a orar e a vigiar constantemente (Mt 26.41). A presente lição procura mostrar que ser escolhido de Deus, para algum propósito, não evita a possibilidade de uma eventual (e evitável!) queda. Por essa razão, não podemos descuidar-nos de nossa vida espiritual. É imprescindível estar cheio do Espírito Santo, para não sucumbir aos desejos da carne, atentando seriamente para este conselho de Paulo: fugi da prostituição (1 Co 6.18; Gl 5.16)[Lições Bíblicas CPAD, Revista Adultos, 4º Trimestre 2019. Lição 10, 8 Dezembro, 2019]
Hoje veremos como escolhas erradas resultam em consequências trágicas e como devemos reagir quando isso acontecer conosco, dado o nosso pecado. Ao longo da lição farei algumas objeções ao comentarista, como julguei equívocos e ou ideia não muito clara. “É muito comum vermos as pessoas fazerem suas escolhas sem pensar nas consequências que elas trarão. Para muitos, e talvez para nós mesmos, o que vale na hora da escolha é o prazer imediato e a vantagem que se obterá. A preocupação com as consequências e implicações é mínima ou, até mesmo, inexistente. Esse imediatismo, infelizmente, tem afetado muitas pessoas e não são poucos os crentes que seguem por esse caminho. O resultado são inúmeros conflitos e dramas familiares. A história de Davi e de seu adultério com Bate-Seba, serve para demonstrar que na vida não podemos fazer nossas escolhas de modo inconsequente. Todas as escolhas que fizermos trarão consequências, que podem ser boas ou ruins. Elas nos aproximarão ou nos afastarão de Deus” (ultimato) Bom estudo e crescimento maduro na fé cristã!
I. SEGUNDO O CORAÇÃO DE DEUS
1. O homem segundo o coração de Deus. A expressão um homem segundo o seu coração fala de alguém que procura agradar ao Senhor. A Bíblia declara que Davi era esse homem (1 Sm 13.14). Davi era rei que agradava a Deus, porque em tudo priorizava a Sua vontade. Davi sabia esperar; seu coração sentia segundo os sentimentos do Senhor. Ele não se apressava, não agia precipitadamente, não frustrava os planos divinos nem buscava sua própria vontade; mas agia consciente e moderadamente (Fp 4.5). O líder segundo o coração de Deus tem intimidade com o Pai. O Senhor quer nos dar pastores segundo o seu coração (Jr 3.15). [Lições Bíblicas CPAD, Revista Adultos, 4º Trimestre 2019. Lição 10, 8 Dezembro, 2019]
- “E, ‘'tendo tirado a este, levantou-lhes o rei Davi, do qual também, dando testemunho, disse: ''Achei Davi, filho de Jessé, homem segundo o meu coração, que fará toda a minha vontade.” (At 13.22). Lucas registra em Atos o testemunho de Paulo em Antioquia, onde em seu discurso, nos mostra a resposta concreta da pergunta: ‘Por que Davi foi um homem segundo o coração de Deus?’ Davi em toda a sua jornada, procurou executar toda a vontade divina! Alguns poderiam questionar a aplicação dessa verdade a Davi porque às vezes deu provas de ser pecador (1Sm 11.1-4; 12.9; 21.10—22.1). Nenhum homem segundo o coração de Deus é perfeito; no entanto, reconhecerá o seu pecado e se arrependerá do mesmo, como Davi fez (Sl 32; 38; 51). Em vez de Saul Deus escolheu um homem com o coração segundo o Seu, ou seja, alguém que tivesse vontade de obedecer a Deus.
- Nenhum homem é capaz de frustrar os planos divinos! “Bem sei que tudo podes, e nenhum dos Teus planos pode ser frustrado” (Jó 42.2). Todos nós somos pecadores, inimigos de Deus, destinados ao inferno até que Deus nos alcance por Sua infinita misericórdia, mas mesmo tendo sido justificados por Cristo, ainda assim estamos sujeitos ao pecado, de modo que, se caímos não frustramos a Deus.
2. Davi era o escolhido de Deus, mas deu lugar ao Diabo. Davi era o escolhido de Deus, mas, infelizmente, cometeu pecados graves; não foi um exemplo de perfeição absoluta como líder espiritual nem como homem público. A grande diferença entre Davi e Saul foi o arrependimento. O Salmo 51 revela a confissão de Davi, sua súplica por perdão e seu rogo por renovação espiritual. Ele não escondeu as suas transgressões; confessou-as e buscou o perdão. Enquanto o nosso corpo não for plenamente redimido lutaremos contra a tentação e o pecado. Mas chegará o dia que o que é “mortal se revestirá de imortalidade e o que é corrupto, de incorruptibilidade” (1 Co 15.54). Enquanto isso, trilhemos o caminho da santidade, da oração, da leitura da Bíblia e da fuga da aparência do mal (1 Ts 5.22; 4.12). Deixo, porém, este alerta: é possível, sim, termos uma vida irrepreensível tanto diante de Deus quanto diante dos homens[Lições Bíblicas CPAD, Revista Adultos, 4º Trimestre 2019. Lição 10, 8 Dezembro, 2019]
O Salmo 51 registra as palavras de arrependimento de Davi depois do confronto com Natã a respeito do seu pecado com Bate-Seba; também o Salmo 32 registra Davi exprimindo sua agonia depois da confrontação de Natã. Nesse confronto é notável a astúcia do profeta (2Sm 12.1-4) “dois homens... um rico e outro pobre” - para entender essa parábola, basta apenas reconhecer que o homem rico representava Davi, o homem pobre, Urias e a ovelha era Bate-Seba. De acordo com Êx 22.1, a pena por roubar e matar um boi ou uma ovelha não era a morte, mas a sua restituição. Entretanto; na parábola, o roubo e o assassinato da ovelha representavam o adultério com Bate-Seba e o assassinato de Urias por Davi. De acordo com a lei mosaica, tanto o adultério (Lv 20.10) quanto o assassinato requeriam a pena de morte. Ao pronunciar esse julgamento sobre o homem rico na história, Davi, inconscientemente condena-se à morte! Em Êx 22.1 há a exigência de que para o roubo de cada ovelha fosse feita uma restituição de cinco ovelhas. Existe aqui uma alusão às mortes subsequentes de quatro dos filhos de Davi: o primogênito de Bate-Seba, Amnom, Absalão e Adonias.
Em 2Sm 12.9 Natã faz a acusação: ‘'Por que, pois, desprezaste a palavra do Senhor, fazendo o que era mau perante ele?’. Desprezar a palavra do Senhor era como violar os seus mandamentos, portanto passível de castigo (Nm 15.31). Ao resumir as violações de Davi, a sua culpa foi divinamente afirmada. Veja que o homem segundo o coração de Deus chegou ao nível de desprezar a palavra do Senhor! Mas esta falha não frustrou os planos de Deus, pelo contrário, reafirmou-os: Davi não procurou racionalizar nem justificar o seu pecado. Quando foi confrontado pelos fatos - Pequei contra o SENHOR.
Esse ‘alerta’ do comentarista não é apenas um ‘alerta’, mas para o cristão é uma obrigação! Em Efésios 4.1 Paulo descreve tanto o propósito quanto o resultado da escolha de Deus daqueles que são salvos. Homens iníquos são declarados justos, pecadores indignos são declarados dignos da salvação, tudo porque são escolhidos em Cristo. Paulo fala da justiça imputada de Cristo concedida a nós, a justiça perfeita que coloca os cristãos numa posição santa e irrepreensível diante de Deus (Cl 2.10), embora no viver diário não consigamos atingir o seu padrão santo, em amor. Mas, por sabermos a nossa nova posição em Cristo, temos a obrigação de vivermos neste mundo de maneira sóbria, justa e piedosa.
SUBSÍDIO DIDÁTICO-PEDAGÓGICO

Inicie o estudo desta semana falando a respeito da natureza humana e sua inclinação para o pecado. As Escrituras Sagradas não escondem o lado negativo do ser humano. Certo escritor cristão dizia que, talvez, o pecado original seja a única parte da teologia que pode ser provada empiricamente, isto é, a todo instante o ser humano executa uma ação pecaminosa contra Deus e contra o outro. Por isso, neste primeiro tópico explore um pouco essa reflexão, reforçando a ideia de que só a graça divina, no poder e na força do Espírito Santo, pode-nos demover da prática do pecado. Exorte a sua classe a resistir ao pecado.
II. O AMBIENTE QUE DAVI PECOU
1. Criando um ambiente propício ao pecado. O texto inicia dizendo que Davi não partiu para guerra, quando deveria ter ido (1 Sm 11.1). A indolência do rei era o primeiro passo que lhe preparava para a queda, pois quanto mais tempo desocupado, mais chance de ser tentado. Davi não pecou apenas por ter visto Bate-Seba, mas porque seu olhar foi pecaminoso; ele não procedeu como Jó, que fez concerto com os seus olhos para não pecar (Jó 31.1). No lugar de andar ocioso pelo palácio, Davi deveria ter fugido da aparência do mal. Ser tentado não é pecado, mas ceder à tentação é. Jesus foi tentado, mas não cedeu à tentação; repreendeu o Diabo com as Escrituras (Mt 4.1; Hb 2.18). A tentação pode vir tanto de fora (do mundo e do Diabo) quanto de dentro de nós (Tg 1.14)[Lições Bíblicas CPAD, Revista Adultos, 4º Trimestre 2019. Lição 10, 8 Dezembro, 2019]
É interessante estudarmos o contexto histórico do oriente próximo daquela época. Havia um costume dos reis batalharem somente em determinada época do ano. Veja que a narrativa de 2Sm 11 inicia dizendo: “no tempo em que os reis costumam sair para a guerra”. No Oriente Próximo, os reis normalmente saíam para a guerra na primavera, por causa do bom tempo e da abundância de alimentos disponíveis ao longo do caminho. No entanto, segue o escritor de 2º Samuel, Davi despachou Joabe, capitão de seu exército, com seus soldados mercenários e o exército de Israel para continuar a guerra contra Amom iniciada no ano anterior (2Sm 10.14). No ano anterior, Abisai havia derrotado o exército amonita em campo aberto; em seguida, os amonitas remanescentes haviam fugido para trás dos muros da cidade de Rabá em busca de proteção (10.14). Joabe retornou no ano seguinte para sitiar a cidade, porém Davi ficou em Jerusalém. Talvez tenha julgado desnecessário sua presença nesta missão ta pequena, no entanto, permanecer em casa numa situação como essa não era o costume de Davi (2Sm 5.2; 8.1-14; 10.17); Interessante notar que esse comentário explícito do autor é uma crítica a Davi por ter ficado para trás, bem como um modo de criar o cenário para sua devastadora iniquidade.
A posição mais elevada do telhado do palácio permitiu que Davi enxergasse o que acontecia no pátio da casa vizinha. Mais tarde, esse mesmo telhado se tornaria palco de outras imoralidades pecaminosas (2Sm 16.22).
Também é interessante notar que tanto Davi como Bate-Seba eram culpados pelo adultério. Podemos ver também, na ótica atual, um caso de abuso e assédio. Sobre este assunto e como tratá-lo hoje em nosso meio – mulheres que sofrem assédio e abuso no meio da igreja – leia aqui este excelente artigo baseado na experiência de Bate-Seba: (reforma21)
2. Os meios que contribuem para a prática do pecado. Em geral, quando uma pessoa começa a desejar o pecado, ela aprofunda esse desejo, fecha-se para as coisas de Deus, levando o Espírito Santo a retirar-se dela. Assim foi com Davi. Ele indaga sobre a mulher que se banhava e, por meio de seus poderes reais, ordenou que a buscassem (2 Sm 11.4). Ele mandou buscá-la, mesmo sabendo que se tratava de uma senhora casada. Nada mais podia detê-lo no caminho do pecado, mesmo a informação de que Bate-Seba era mulher de um dos seus oficiais mais fiéis. Nessas condições, Davi já estava longe de Deus. Todas as ações descritas no texto mostram que ele abriu a porta do coração para o pecado e não desviou os olhos da vaidade (Sl 119.37). Frente ao mau exemplo de Davi, e de acordo com as Escrituras, o cristão deve fugir do pecado e resguardar-se em Cristo, pois somente nEle é que se consegue vencer os ataques do Maligno. [Lições Bíblicas CPAD, Revista Adultos, 4º Trimestre 2019. Lição 10, 8 Dezembro, 2019]
O Espírito Santo pode em algum tempo abandonar o Cristão? Há um equívoco aqui que precisa ser esclarecido, isso porque se entendermos que o Espírito Santo abandona o crente, Deus retirou Seu selo dele, e não há nas Escrituras nenhum texto que corrobore com essa afirmativa do comentarista. O Espírito Santo nunca abandona um crente, pelo menos, é o que temos em muitas passagens diferentes no Novo Testamento: “E, se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele” (Rm 8.9). Aqui claramente afirma que se alguém não tem o Espírito Santo habitando dentro de si, não é salvo; portanto, se o Espírito Santo fosse deixar um crente, este teria perdido seu relacionamento com Cristo e perdido sua salvação. A não ser que, este seja o caso! Veja ainda outros textos: Jo 14.16; Ef 1.13-14 (O retrato de ser selado com o Espírito Santo é um de posse e propriedade – Pertencemos ao Senhor!); 2Co 1.22; Ef 4.30.
O Rei de Israel está onde não devia! E eu não me refiro ao passeio no telhado de sua casa mas à sua presença na cidade. A sentença adversativa no fim do primeiro verso claramente expressa que Davi, ao contrário do que se esperava de todos os outros reis, estava ocioso, aproveitando o clima pacífico de Jerusalém, enquanto seu valentes generais e corajosos soldados estavam derramando seu sangue e arriscando suas vidas pelo reino. Enquanto Davi relaxava e chochilava tranquilamente em suas dependências reais, seus exércitos dormiam em tendas improvisadas no campo de batalha sem qualquer tipo de conforto (2 Sm 11.9). Ao cair da tarde, Davi retirou-se de seus aposentos e foi para o terraço de sua casa, talvez para aproveitar a brisa fria das regiões desérticas da Palestina. Essa construção era provavelmente a mais alta da cidade, proporcionando ao Rei uma visão clara e privilegiada do seu reino. É desse local que Davi avista uma formosa mulher. Ele não sabe quem ela é. Um de seus servos a identifica como: “a filha de Eliã e a mulher de Urias” (2 Sm 11.3). Mas para Davi pouco importa se ela é filha de alguém, pouco importa se ela é a esposa de alguém. Tamanho é seu desejo por ela que ele ignora completamente tanto a lei moral, que claramente proíbe adultério, quanto a lei civil de Israel, que condena à morte por apedrejamento os adúlteros, mesmo que seja o próprio rei. Davi envia-lhe mensageiros e a toma para si (2 Sm 11.4a)” (reforma21)
SUBSÍDIO HISTÓRICO-TEOLÓGICO
“Quando o inverno e sua estação chuvosa passaram, Davi enviou Joabe e o exército israelita para renovar a guerra contra Amom e estabelecer o cerco à capital, Rabá – porém Davi ficou em Jerusalém
(1) Como teria sido muito melhor se ele tivesse ido com as tropas para o campo de batalha! A ociosidade abre a porta para todos os tipos de tentações. Durante este período, Davi se levantou depois que o calor do dia havia passado, e enquanto caminhava pelo terraço de sua casa, viu uma mulher que se banhava no pátio de sua casa na cidade baixa. A tarde
(2) começava às 3 horas, de acordo com a nossa maneira de medir o tempo, e continuava até depois do escurecer. A consulta do rei tornou o nome da mulher conhecido: Bate-Seba, filha de Eliã e mulher de Urias, o heteu
(3). O rei assim tinha o conhecimento completo de que a mulher era casada. Seu esposo era um homem da guarda de elite do rei (23.39). O fato de ser heteu não o impediria de se tornar um seguidor do Deus de Israel, embora este povo estivesse incluído entre os cananeus que deveriam ser expulsos pelos israelitas” (Comentário Bíblico Beacon: 2 Josué a Ester. Rio de Janeiro: CPAD, 2005, p.244,45)

III. O ADULTÉRIO E O HOMICÍDIO DE DAVI
1. Pecado gera pecado. No Salmo 42.7, é dito que um abismo chama outro abismo. A prática pecado gera mais pecado. Ao tomar ciência de que Bate-Seba estava grávida, Davi engendra um plano. Para esconder a gravidez adulterina de Bate-Seba, Davi força Urias a deitar-se com a esposa, a fim de se lhe atribuir o filho ali gerado. Ele fez isso por duas vezes, porém, sem sucesso (2 Sm 11.8,10). Em outra tentativa ele se dispõe a embriagá-lo, mas, mesmo assim, Urias não foi para casa (2 Sm 11.13). O oficial se revela um soldado fiel, honrado, leal, contrastando com as atitudes do próprio rei Davi. Por fim, Davi revela sua face mais cruel: escreve uma carta, e ordena que Urias a entregue a Joabe; na carta, o rei ordena ao general que coloque o valente soldado num front temerário, imprudente e belicamente infrutífero. Uma das faces do pecado é a dissimulação; leva-nos a situações inimagináveis. Atentemos, pois, para o que o apóstolo disse: “o salário do pecado é a morte” (Rm 6.23). [Lições Bíblicas CPAD, Revista Adultos, 4º Trimestre 2019. Lição 10, 8 Dezembro, 2019]
O autor de 2 Samuel é criterioso nos detalhes, veja que ele salienta o fato da mulher ter acabado o período da sua imundície. Nos últimos dias ela havia menstruado e conforme Levíticos 15.19-30, isso exigia uma purificação cerimonial; ao invés disto, foi seguida por uma relação adúltera. O fato de ela ter acabado de menstruar deixa claro que Bate-Seba não estava grávida de Urias quando foi se deitar com Davi.
As únicas palavras de Bate-Seba com respeito a esse incidente reconhecem a condição que resultou do seu pecado, que se tomou evidente pela sua gravidez e que, segundo a Lei (Lv 20.10; Dt 22.22), seria passível da pena de morte. Sagazmente, Davi manda chamar Urias como um subterfúgio para fazê-lo ir para casa, a fim de que dormisse com sua mulher, de modo a parecer que ele a havia engravidado, assim evitando a vergonha pública de Davi e a possível morte de Bate-Seba. Note o linguajar lascivo de Davi ao orientar Bate-Seba no texto de 2Sm 11.8: “lava os pés”; Como isso era algo feito antes de ir para a cama, essa expressão significa ir para casa e ir para a cama. Para um soldado vindo do campo de batalha, significava claramente: "aproveite a sua mulher sexualmente". Se isso desse certo, o encontro de Davi com Bate-Seba seria encoberto pela união dela com Urias. Contrariando os planos do rei, Urias foi um exemplo de lealdade para seus soldados, que ainda estavam no campo, Urias não se aproveitou da oferta menos que honrosa do rei (2Sm 11.11). Depois que suas duas tentativas de encobrir o seu pecado com Bate-Seba falharam, Davi entrou em pânico e planejou o assassinato de Urias, aproveitando-se da lealdade inabalável deste para com ele, o rei, até mesmo fazendo com que Urias entregasse a própria sentença de morte. Desse modo, Davi se envolveu em outro crime passível da pena de morte (Lv 24.17). Essa é uma vivida prova dos extremos a que as pessoas chegam quando em busca do pecado e na ausência da graça limitadora. Seu nefasto plano desta vez logrou êxito. Joabe enviou um mensageiro com uma mensagem velada para informar a Davi que seu desejo havia sido executado. Joabe devia saber qual era o motivo por trás da insensata missão militar.
2. O homicídio de Davi. O pecado de Davi vai tomando grandes proporções. O rei entrega Urias nas mãos de Joabe que, por seu turno, coloca-o à frente de uma peleja suicida. Esse ato não matou apenas Urias, mas também outros soldados (2 Sm 11.17). Ao ser informado da morte de seu fiel oficial, Davi se manifestou de modo brando, impassível e calculista, afirmando que tais coisas ocorrem na guerra − a espada ora devora de um lado, ora do outro (2 Sm 11.25). Davi plantou uma grande injustiça e colherá uma grande amargura. Ele sentirá o peso da espada, enviada da parte de Deus, sobre sua casa. O pecado destrói, transtorna e desfigura espiritualmente uma pessoa. O homem segundo o coração de Deus agora fazia a vontade do Diabo[Lições Bíblicas CPAD, Revista Adultos, 4º Trimestre 2019. Lição 10, 8 Dezembro, 2019]
Davi, de maneira hipócrita, demonstrou indiferença por aqueles que morreram, e consolou Joabe, autorizando-o a continuar a peleja contra Rabá. Isso traria conseqüências malignas; O trágico castigo de Davi seria prolongado. Como Urias fora morto violentamente, a casa de Davi seria afligida continuamente pela violência. Natã em sua sentença contra Davi, diz: “não se apartará a espada jamais da tua casa”(2Sm 12.10). Essas palavras prenunciaram as mortes violentas de Amnom, Absalão e Adonias. Davi havia feito mal à família de outro homem. portanto, ele receberia o mal em sua própria família, como a violação de Tamar por Amnom, o assassinato de Amnom por Absalão e a revolta de Absalão contra Davi.
3. Davi e seu comandante. Experiente em guerra, Joabe sabia que o pedido de Davi era uma trama maldosa. Ali, a máscara de Davi cai diante de Joabe. Este não o verá mais como um rei santo, mas como alguém de caráter duvidoso, que acabara de fazer um pedido sujo. Joabe era um assassino, pois havia tirado a vida de Abner (2 Sm 3.26,27). Davi acabara de se igualar ao seu comandante. O rei de Israel não era mais o rei-modelo, espiritual e excelente. Joabe, não somente poderia blasfemar de Davi, como não mais poderia ser repreendido pelo rei a respeito de Abner (2 Sm 3.28,29). A história de Davi e seu comandante, Joabe, nos mostra que os servos do Senhor devem proceder fielmente em tudo para que o nome de Cristo não seja blasfemado. [Lições Bíblicas CPAD, Revista Adultos, 4º Trimestre 2019. Lição 10, 8 Dezembro, 2019]
Joabe foi um dos três filhos de Zeruia, a irmã de Davi. Seus dois irmãos foram Abisai e Asael, este último foi morto por Abner (2Sm 2.13-32), a quem Joabe depois matou traiçoeiramente (2Sm 3.22-27). Esta morte não teve o apoio de Davi e Joabe foi repreendido por matar traiçoeiramente. Note que, provavelmente sabendo o intento perverso de Davi ao colocar Urias onde a batalha era mais renhida, seu caráter foi profundamente manchado pela participação que ele voluntariamente teve no assassinato de Urias. O próprio Davi, já próximo da morte, orientou Salomão a executar Joabe, o que aconteceu sob a espada de Benaia (2Sm 3.29; 20.5-13).
4. A tentativa de Davi para evitar as suspeitas do seu pecado. Em seu atoleiro pecaminoso, depois de sete dias de luto, imediatamente Davi tomou Bate-Seba como esposa. Ele pensava afastar quaisquer suspeitas de um relacionamento extraconjugal. É importante dizer que Bate-Seba teve grande participação no pecado de Davi. Ela não se resguardou; mostrou-se pecaminosamente. Era uma mulher ambiciosa, cheia de planos. Isso pode ser comprovado pelo texto de 1 Reis 1.11-31. Tudo poderia ter passado despercebido perante o povo e logo esquecido, mas o autor sagrado o contraria dizendo: “Porém essa coisa que Davi fez pareceu mal aos olhos do SENHOR” (2 Sm 11.27). Deus é onisciente, Ele sabe de tudo. Os que pecam às ocultas, pensando que Ele não vê, enganam-se; as Escrituras declaram que “todas as coisas estão nuas e patentes aos olhos daquele com quem temos de tratar” (Hb 4.13; cf. Sl 33.13,14; 90.8; 139.11,12)[Lições Bíblicas CPAD, Revista Adultos, 4º Trimestre 2019. Lição 10, 8 Dezembro, 2019]
O período habitual de luto era, provavelmente, de sete dias (Gn 50.10; 1Sm 31.13). De modo bastante significativo, o texto não cita luto da parte de Davi.
Farei aqui uma defesa de Bate-Seba, creio não ser pertinente o comentário da lição no que se refere ao caráter dessa mulher. O que está registrado em 1 Reis 1.11-31, aponta apenas para um caráter preocupado em que se cumpra o juramento do rei anti a possível tomada do trono por Adonias. Bate-Seba foi até Davi para relatar o que estava acontecendo, e a quem depois ele seguiria. A rainha-mãe tinha uma posição de influência na corte real. Se Adonias tivesse se tornado rei, as vidas de Bate-Seba e de Salomão teriam sido postas cm risco, porque, muitas vezes, no Oriente Próximo aqueles que tinham potencial para reivindicar o trono, bem como suas famílias, eram mortos (1Rs 15.29; 16.11; 2Rs 10.11). Davi havia feito uma promessa em particular (não foi registrada na Escritura), talvez tanto a Natã como a Bate-Seba. Davi fez outro juramento de cumprir o primeiro juramento que havia feito de tornar Salomão o rei.
Teria Bate-Seba premeditado ser vista por Davi? “Uma rápida pesquisa sobre banhos durante esse período na região da Palestina nos revela que enquanto é possível que ela estive no quintal de sua casa, protegida por quatro paredes, dando-lhe a necessária sensação de privacidade. É também possível que ela estivesse tomando banho em uma das fontes públicas de Jerusalém, o que implica que ela estaria usando algum tipo de roupa de banho. O fato é que o escritor, inspirado pelo Santo Espírito, não nos revela essas informações. As possibilidades são diversas e precisamos nos ater aquilo que está escrito. O texto simplesmente nos informa que Davi à viu enquanto ele estava em seu próprio telhado. Especulações de qualquer natureza nos fazem fugir do foco do texto e terminam levando à interpretações que não foram pretendidas pelo autor original. O texto também não nos revela nada sobre o caráter ou personalidade de Bate-Seba ao ponto de podermos afirmar que sua exposição foi proposital. Na verdade, é muito provável que Bate-Seba contasse com a ausência de Davi de suas dependências reais. Não é essa a expectativa do próprio autor? Não é o próprio narrador quem esperava que Davi estivesse no campo de batalha juntamente com os outros reis? Como cidadã de Israel, e sendo seu marido um dos valentes soldados da nação, Bate-Seba possivelmente também esperava que o comandante-supremo das forças armadas de Israel estivesse lutando juntamente com seus exércitos. E o que exatamente viu Davi? Será que ele viu Bate-Seba totalmente despida? Ou será que ele viu apenas o rosto da bela Israelita enquanto ela banhava-se por trás de algum tipo de cortina? Simplesmente não sabemos. O texto diz, literalmente, que Bate-Seba “era boa de se ver”. Apenas uma expressão idiomática corretamente traduzida do Hebraico pela ARA como “era ela mui formosa”. Uma última opinião contra Bate-Seba vem daqueles que acham que ela estava em posição de dizer “não” para Davi. “Ela deveria ter resistido,” dizem eles. “Afinal de contas, ela era casada!”. O curioso é que esses não fazem a mesma exigência de Sara, em Gênesis 20, que em uma situação muito semelhante permite que Abimeleque, rei de Gerar, mande buscá-la para seu harém pensando ser ela irmã de Abraão (Gn 20.2).  Aqueles que atribuem alguma parcela de culpa a Bate-Seba por não ter dito “não” a Davi devem ser consistentes e também considerar Sara culpada por não ter resistido a Abilimeque e por não ter-lhe dito toda a verdade. Por outro lado, a despeito da inconsistência, a pergunta permanece. Será que Bate-Seba não poderia ter resisido? Será que ela não poderia ter dito não? Precisamos considerar essas perguntas do ponto de vista de Bate-Seba. O rei de Israel, a autoridade máxima do reino, manda buscá-la. Será que ela deveria dizer “não”? Não bastasse Davi ser rei, era ele temente ao Senhor, representante de Javé no meio do seu povo, homem segundo o coração de Deus. Por que ela haveria de temer ir ao palácio real? Talvez Davi tivesse notícias de seu marido. Talvez Urias tive sido terrivelmente ferido, ou até morto em batalha, e agora o rei queria avisá-la pessoalmente. E ao chegar no palácio, após descobrir as intenções de Davi, será que ela não poderia ter dito “não”?  Certamente que sim. Mas uma outra pergunta também pode ser feita nesse mesmo contexto. Será que ela de fato não disse “não”? Será que ela não lembrou a Davi seu estado civil e a lei de Israel? Talvez sim e, por consequência, a acusação de que Bate-Seba foi conivente cai por terra. Entretanto, nada disso nos foi revelado. O que nos lembra mais uma vez que precisamos nos ater ao texto. Quando nos prendemos a narrativa, é fácil perceber que seu foco é Davi e suas ações enquanto governante. Bate-Seba é retratada como agente ativo somente em quatro momentos: na sua ida ao palácio e ao voltar para sua casa (v.4), ao enviar a notícia de sua gravidez (v.5), e ao lamentar a morte do seu marido (v.26). É Davi que a vê, é ele quem pergunta a seu respeito, é ele quem a chama para si, é ele quem deita-se com ela. Perceba que Bate-Seba é quem sofre todas as ações de Davi. Gramaticalmente, Bate-Seba é somente um objeto. E a verdade gramatical não está longe de ser diferente da factual. Davi não tem a menor pretensão de ter um relacionamento duradouro com Bate-Seba e seu comportamento é marcado por abuso de poder e manipulação. É ele quem envia os mensageiros reais à casa de Bate-Seba. Por sua autoridade, ele retira Urias do campo de batalha (v.7) e o incita a ter relações com ela (v.8) para que o filho bastardo que crescia no seu ventre se tornasse o filho legítimo e prematuro do soldado. A narrativa deixa claro que para Davi, Bate-Seba não passou de uma mera diversão. Ele havia friamente utilizado de sua posição, de sua autoridade real, para conseguir o que queria. Bate-Seba foi uma triste vítima de abuso de poder, que depois de ter sido assediada sexualmente, foi descartada como um objeto qualquer, como aquele brinquedo com o qual uma criança já cansou de se entreter.” (reforma21)
SUBSÍDIO BIBLIOLÓGICO
“Davi igual a Saul? (11.4). Em ordenar a Joabe para expor Urias ao perigo, o rei estava usando um meio que Saul usara em um esforço para se desfazer do próprio Davi (cf. 1 Sm 18.24,25). Qual então é a diferença entre Saul e Davi? Cada um sucumbiu à tentação e pecou terrivelmente. A diferença é que, quando descoberto, Saul pediu desculpas e rogou a Samuel para não o expor diante do seu povo. Ele estava mais interessado na opinião pública do que em seu relacionamento com Deus (cf.15.15-24). Em contraste, Davi estava tão interessado em seu relacionamento com o Senhor que tomou a iniciativa e fez uma confissão pública, que podemos ler em Salmo 51. Todos os seres humanos são falhos, e qualquer um de nós pode cair. A maneira como resistimos à tentação e a maneira como lidamos com os nossos pecados são ambos indicadores de santidade” (RICHARDS, Lawrence O. Guia do Leitor da Bíblia: Uma análise de Gênesis a Apocalipse capítulo por capítulo. Rio de Janeiro: CPAD, 2005, p.210).
CONCLUSÃO
O registro do pecado de Davi revela a perfeita justiça de Deus e de sua Palavra. As Escrituras mostram que a prática do pecado é sempre desastrosa. Portanto, evitemos a ociosidade, desenvolvamos os dons úteis à obra de Deus. Confessemos o nosso pecado, pois quem o oculta, torna-o mais grave ainda. Se este for o seu caso, procure o seu pastor; peça-lhe a ajuda. Quem confessa a sua transgressão e a deixa, alcançará a misericórdia[Lições Bíblicas CPAD, Revista Adultos, 4º Trimestre 2019. Lição 10, 8 Dezembro, 2019]
A história do adultério de Davi nos ensina como é necessário cuidarmos de nossa vida espiritual, mantendo constante vigilância, para não fazermos escolhas erradas. Não podemos subestimar o perigo ou confiar demais em nossa condição enquanto crentes espirituais (o espírito está pronto, mas a carne é fraca – Mt 26.41). O pecado não deve ser encoberto, e sim, confessado. A confissão contínua de pecados é uma indicação da salvação genuína. O cristão genuíno deve admitir, confessar e abandonar seu pecado (Sl 32.3-5; Pv 28.13). O termo "confessar" significa dizer o mesmo que Deus diz acerca do pecado e reconhecer a perspectiva divina sobre o pecado. A confissão de pecados é uma característica dos cristãos genuínos, e Deus sempre limpa aqueles que confessam (1Jo 1.7).
Francisco Barbosa
Disponível no blog: auxilioebd.blogspot.com.br

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