sábado, 10 de outubro de 2020

LIÇÃO 2: QUEM ERA JÓ

COMENTÁRIO E SUBSÍDIO I

   INTRODUÇÃO

O autor sagrado não elabora uma biografia de Jó, mas traça um perfil que diz muito sobre esse gigante da fé. Jó foi um homem diferente, não em natureza, pois ele era igual aos demais de sua época. Todavia, foi, sem dúvida, distinto na espiritualidade. Ele foi um homem que não apenas possuía bens materiais e uma família sólida, mas mantinha profunda comunhão com Deus. Assim, nesta lição destacaremos alguns traços da vida e espiritualidade de Jó. – A história de Jó começa aqui com um relato: (I). De sua grande devoção em geral (v. 1), e com um exemplo particular, v. 5. (II). De sua grande prosperidade, w. 2-4. (III). Da malícia de Satanás contra ele, e da permissão que obteve para testar a sua constância, w. 6-12. (IV). Dos surpreendentes problemas que lhe aconteceram, a perda das suas posses (w. 13-17), e a morte de seus filhos, w. 18,19. (V). De sua paciência e devoção exemplares sob essas vicissitudes, vv. 20-22. Em tudo isso ele é apresentado como um exemplo de sofrimento e aflição, dos quais nenhuma prosperidade pode nos proteger, mas ao longo dos quais a integridade e a retidão nos preservarão.

   I. UM HOMEM DE CARÁTER IRRETOCÁVEL

1. Íntegro (sincero) (v.1). O caráter define o que uma pessoa é de verdade. Ela é vista a partir dos valores que governam a sua vida interior. O “mau-caráter” define uma pessoa que não merece confiança, que é desonesta e que, portanto, não possui valores nobres. Jó não era um homem sem pecado, mas tinha um caráter irretocável. Nesse sentido, os primeiros versículos do livro possuem vários adjetivos que descrevem o seu caráter. No primeiro, o autor o apresenta como um homem íntegro. A palavra “íntegro”, que traduz o hebraico tām, possui o sentido de inocente, sem culpa. No grego, segundo a Septuaginta, a palavra alethinós remete ao que é verdadeiro. Assim, podemos afirmar que Jó era sincero nas intenções, afeições e diligente nos esforços para cumprir seus deveres para com Deus e os homens.

2. Reto (v.1). Ele também era um homem reto que, no hebraico yāšār, tem um sentido de alguém justo, direito. Na Septuaginta, de acordo com o grego amemptos, possui o sentido de irrepreensível. Portanto, o homem de Uz era justo, reto, direito e se comportava de maneira irrepreensível.

3. Temente a Deus e desviava-se do mal (v.1). Jó é descrito como alguém temente a Deus, que desviava-se do mal. Estas palavras, de acordo com os termos relativos ao hebraico, sur e yare, traduzem a ideia de alguém que prestava reverência a Deus e evitava o mal. Já na Sepetuaginta, os termos relativos ao grego, theosebés e apecho, trazem o sentido de alguém devotado ao culto e à adoração a Deus e que, por isso, mantinha o mal sempre à distância.

As Escrituras mostram que, muito antes de Salomão, Jó praticava o que o homem mais sábio do mundo, posteriormente, ensinaria: “Teme ao SENHOR e aparta-te do mal” (Pv 3.7). – Jó é apresentado no estilo simples e direto das narrativas patriarcais. Jó não é um israelita, assim parece, pois a sua terra natal, Uz, é muito provavelmente Edom (cf. o nome próprio Uz nas genealogias dos descendentes de Edom; Gn 36.28; 2Cr 1.42), embora algumas passagens tenderiam a identificá-la com Arã (cf. Gn 10.23; 22.21), a nordeste de Israel. Todavia, Jó é um adorador do verdadeiro Deus, embora se refira a ele principalmente como Elohim, “Deus”, e não como “Javé”, o nome próprio de Deus. Que Jó é um homem íntegro e justo, i.e., irrepreensível, e não que ele é perfeito e sem pecados, é a afirmação que encontramos na boca do narrador, de Deus (1.8) e do próprio Jó. – Jó era um homem muito bom, extremamente piedoso, e melhor do que os seus vizinhos: Ele era correto e honrado. Isso tenciona nos mostrar, não apenas a reputação que tinha entre os homens (ele era, de um modo geral, considerado um homem honesto), mas qual era realmente o seu caráter; pois este é o julgamento de Deus com respeito a ele, e por esta razão temos a certeza de que está de acordo com a verdade. (1). Jó era um homem religioso, alguém que temia a Deus, isto é, o adorava de acordo com a sua vontade, e comportava-se em todos os sentidos com base nas regras da lei divina. (2). Ele era sincero em sua religião: Ele era perfeito; não sem pecado, como ele mesmo reconhece (cap. 9.20): Se reto me disser, serei declarado perverso. Mas, tendo respeito por todos os mandamentos de Deus, visando a perfeição, ele era realmente tão bom quanto parecia ser, e não dissimulava em sua profissão de devoção; seu coração era puro e seus olhos sinceros. A sinceridade é a perfeição do Evangelho. A religião em que não há sinceridade não pode ser considerada uma religião verdadeira. (3). Ele era correto tanto em seus procedimentos com relação a Deus quanto com os homens, era fiel às suas promessas, sereno em seus conselhos, fiel nos mínimos detalhes à confiança nele depositada, e tinha consciência de tudo o que dizia e fazia. Veja Isaías 33.15. Embora não fosse de Israel, Jó era realmente um israelita em quem não havia dolo. (4). O temor a Deus que reinava em seu coração era o princípio que determinava todas as suas relações. Isso o tornou perfeito e justo, por dentro e por inteiro para Deus. Ilimitado e invariável na religião; isso o manteve próximo e fiel ao seu dever. Ele temia a Deus, respeitava o seu poder e a sua autoridade, e temia a sua ira. (5). Ele temia a ideia de fazer algo que fosse errado; com a máxima aversão e ódio, com cuidado e uma vigilância constantes, conservava-se longe do mal e evitava todos os aspectos do pecado e a aproximação dele, e isso por causa do seu temor a Deus, Neemias 5.15. Temer ao Senhor é odiar o mal (Pv 8.13); e então, pelo temor do Senhor os homens desviam-se do mal, Provérbios 16.6.

SUBSÍDIO DIDÁTICO-PEDAGÓGICO

Inicie o tópico fazendo uma reflexão acerca do “temor do Senhor” e sua relação com uma vida sabiamente vivida. Fale aos alunos que os livros de sabedoria do Antigo Testamento, como Provérbios, e o próprio Livro de Jó, colocam o “temor do Senhor” como princípio primeiro para uma vida de sabedoria. Para auxiliá-lo nessa reflexão, leve em conta o seguinte fragmento textual: “Sabedoria e o temor do Senhor. […] ‘O temor do Senhor’ é central à literatura sapiencial, ocorrendo 14 vezes em Provérbios e várias vezes em Jó. […] Além de ser o ponto de partida ou início da sabedoria, o temor do Senhor também é ‘o princípio primeiro e controlador’, ou ‘a essência e o coração’ da sabedoria” (ZUCK, Roy B. Teologia do Antigo Testamento. Rio de Janeiro: CPAD, 2018, p. 287).

  II. UM HOMEM SÁBIO E PRÓSPERO

1. Um conselheiro sábio. Há pessoas ricas que nem são sábias nem tampouco prósperas. Possuem conhecimento, mas não entendimento; riquezas, mas não prosperidade. Jó distingue-se nesse aspecto.

Ele foi um homem sábio, rico e próspero. A Bíblia afirma que Jó era “maior do que todos os do Oriente” (Jó 1.3). “Maior” aqui não pode ser entendido apenas como uma referência a bens materiais, mas também à sua sabedoria. Estudiosos destacam que Jó era mais importante em sabedoria, riqueza e piedade do que qualquer outra pessoa daquela região e ressaltam o reconhecimento da sabedoria de Jó conforme se destacava a sabedoria dos orientais expressa em provérbios, canções e histórias. Isso fazia dele um homem proeminente, a quem as pessoas recorriam com frequência em busca de conselho e orientação (Jó 29.21,22). – Na concepção hebraica, a sabedoria não se limitava ao conhecimento, mas à habilidade de ter a vida piedosa que Deus planejou para o homem (Dt 4.5-8). Sabedoria, na mentalidade hebraica, significa bom senso ou habilidade de governar-se a si mesmo pela escolha; a habilidade de conformar-se à vontade e ao padrão de Deus; uma retidão prática que se coaduna com a postura de retidão adotada pelo homem irregenerado. Jó gozava de uma posição elevada segundo qualquer padrão. Salomão teve uma reputação semelhante: "Era a sabedoria de Salomão maior do que a de todos os do Oriente..." (IRs 4.30). – “Os homens do Oriente eram notórios por sua grande sabedoria, que eles expressavam artisticamente em provérbios, cânticos e histórias… Jó era altamente respeitável (ver Jó 29.7-li); sábio conselheiro (29.21 -24); empregador honesto (31.13-15,38,39); hospitaleiro e generoso (31.16-21,32); e fazendeiro próspero (31.38-40)” (Roy B. Zuck, in loc.). No entanto, esse homem foi ferido pela tragédia, por razões desconhecidas”

2. Um homem próspero. O homem de Uz não era apenas rico, mas, sobretudo, próspero. O texto sagrado destaca que, além de sua esposa, ele tinha sete filhos e três filhas (v. 2). Para os padrões da época, possuía uma família com o formato ideal. Ele também era um fazendeiro bem sucedido. Em sua fazenda havia sete mil ovelhas, três mil camelos, quinhentas juntas de bois, e quinhentas jumentas; e tinha também muitíssima gente a seu serviço (v. 3). – Andersen Francis vai dizer que “Jó tinha uma família ideal de sete filhos e três filhas, sendo que os dois números, e a soma deles, são símbolos da perfeição, um claro sinal do favor divino. Como era comum no antigo Oriente Próximo, a riqueza de Jó não era medida pelo dinheiro ou pelas terras que ele tinha, mas pelo grande rebanho, como era com os patriarcas (Gn 13.7), e pela família numerosa, que, no caso de Jó, a soma deles simbolizava a perfeição e o favor divino. – Russell Champlin diz que “Jó tinha uma família feliz, uma boa esposa, sete filhos e três filhas. Eles formavam uma unidade familiar feliz, livre de preocupações, seja no campo econômico, seja no campo da saúde, seja em qualquer outro campo da vida diária. “Herança do Senhor são os filhos; o fruto do ventre, seu galardão” (Sl 127.3)” (Samuel Terrien, in toe). Para a mente dos hebreus, Jó tinha todas as indicações da aprovação divina” 

3. Uma prosperidade baseada no “ser”. Jó, portanto, possuía um grande patrimônio e uma bela família. Sua prosperidade se refletia na relação harmoniosa entre ele, sua família, seus negócios e, sobretudo, Deus. Não era uma prosperidade estabelecida somente no “ter”, mas, principalmente, no “ser”. – “Entretanto, a prosperidade e a felicidade que possuem não dependem deles, tampouco está segura em suas mãos. Portanto, longe de mim o conselho dos ímpios!” (Jó 21.16). Como escreve o Pr Claudionor de Andrade: “Na verdade, não era Jó um simples fazendeiro, nem um sheik qualquer. Se levarmos em conta a utilização de seus camelos no transporte de mercadorias tanto para o Oriente quanto para o Ocidente, e se considerarmos a utilização da lã de suas ovelhas na confecção de tapetes e roupas, concluiremos ter sido o patriarca um grande capitão de indústrias e um respeitável financista internacional. Apesar de todas essas riquezas, Jó não se deixava dominar por elas, pois o seu maior bem era Deus: o Sumo Bem. Logo: não passava ele de um simples mordomo de quanto possuía. J. Caird alerta quanto aos perigos dos haveres materiais: “O que impede o homem de entrar no Reino de Deus não é o fato de possuir riquezas, mas o fato de as riquezas o possuírem”. Jó era um homem rico de espírito pobre; nada presumia de si mesmo. Nas riquezas terrenas, via apenas pobreza. Mui acertadamente, afirmou Agostinho: “As riquezas terrenas acham-se repletas de pobreza”. Mais tarde, viria o patriarca confessar que, em momento algum de sua vida, confiara nas riquezas”. 

SUBSÍDIO BÍBLICO-TEOLÓGICO

“As posses de Jó, incluindo seus filhos […] e filhas, são registradas para provar a retidão desse homem (2-3). O ponto principal de discussão entre Jó e seus amigos vai ser o significado da prosperidade material. Acreditava-se naquela época que a família e os rebanhos eram bênçãos de Deus para uma pessoa reta. A riqueza de Jó significava que ele desfrutava do favor de Deus de uma maneira excepcional. Os números usados (sete, três e cinco), enumerando os filhos de Jó e seus rebanhos, são expressões adicionais da sua integridade.

Cada filho tinha sua própria casa. As filhas provavelmente moravam na casa do pai. Cada filho realizava uma festa, em casa de cada um no seu dia (4). Não está claro aqui se esses banquetes eram realizados no dia do aniversário de um deles ou, visto que havia sete filhos, o autor estaria descrevendo uma vida tão ideal que os filhos de Jó estavam frequentemente celebrando e se entretendo mutuamente em uma comunhão harmoniosa. Em cada evento, a piedade de Jó é ilustrada pelo fato de que ele sempre oferecia holocaustos (5) pelos seus filhos, se caso um deles pudesse ter pecado inadvertida ou secretamente. Essa frase, e os santificava, ilustra um uso comum no Antigo Testamento de santificação como um cerimonial de consagração ou separação” (CHAPMAN, Milo L.; PURKISER, W. T.; WOLF, Earl C. (et al). Comentário Bíblico Beacon: Jó a Cantares de Salomão. Rio de Janeiro: CPAD, 2014, p. 25).

  III. UM HOMEM DE PROFUNDA PIEDADE PESSOAL

1. Um homem dedicado à família. O primeiro capítulo de Jó diz: “Iam seus filhos e faziam banquetes em casa de cada um no seu dia; e enviavam e convidavam as suas três irmãs a comerem e beberem com eles” (1.4). O ambiente descrito aqui é de uma família em harmonia que, de forma feliz, festejava a vida. De forma alguma o texto sugere dissolução, bebedice ou licenciosidade nessas comemorações. Eram confraternizações feitas no ambiente familiar. – Um em cada dia da semana (sete filhos); essa referência aos banquetes nos dias de semana, que aconteciam de casa em casa, demonstra que havia amor e harmonia entre os membros da família. As irmãs receberam um destaque especial a fim de demonstrar que eram tratadas com amor. – “Os filhos desse príncipe edomita eram, ao que tudo indica, solteiros, e, no entanto, cada um deles mantinha sua casa de uma maneira real (cf. II Sam. 13.7; 14.28 ss.). Tão incomum era a harmonia fraterna, que regularmente eles se reuniam para ter banquetes em família, para os quais convidavam seus irmãos, costume excepcional no antigo Oriente” (Samuel Terrien, in loc.). – “Parece que os banquetes eram uma forma de vida dos jovens ricos, de modo que, cada semana, diríamos, um oferecia a seus irmãos o banquete semanal, e neles cometiam pecados contra Deus em seus corações (v. 5). Vê-se que era uma família rica, feliz e religiosa, sendo o pai o seu sacerdote. Não temos muita informação a respeito dessa norma familiar antiga; entretanto, sendo pequenas as comunidades, e o intercurso social, muito reduzido, levaria as famílias ricas a se reunirem, para fins religiosos e sociais, por meio de banquetes”. 

2. Um homem de moral e piedade. Jó foi um homem que possuía uma forte moralidade e uma sólida espiritualidade. Além de seu caráter irretocável, o texto deixa claro que ele tinha uma vida piedosa (Jó 1.5). Essa piedade está presente não apenas nos primeiros capítulos, mas em todo o livro. Mesmo nos momentos de desespero, como consequência de sua provação, ele sempre mantinha seus olhos em Deus. Essa piedade era a causa da dedicação de Jó à família. – Ao final de cada semana, Jó oferecia tantos sacrifícios quanto o número de seus filhos (Lv 1.4), oficiando semanalmente ("continuamente") como um sacerdote familiar, numa época anterior ao estabelecimento do sacerdócio araônico. Essas ofertas eram para cobrir qualquer pecado que seus filhos pudessem ter cometido durante semana, indicando como era profunda a sua devoção espiritual. Esse registro está incluído a fim de demonstrar a retidão e a virtude de Jó e de sua família, o que torna o seu sofrimento ainda mais impressionante. – “O autor sagrado nos diz que Jó era próspero e piedoso, e que a tragédia atingiria um homem inocente; de nós espera-se que perguntemos: “Por quê?”. Jó era um homem muito rico, porquanto era rico tanto espiritual quanto materialmente. A prosperidade sempre arrasta sua própria ameaça. Os ricos acabam por voltar-se à idolatria de muitas espécies, literais e espirituais. Mas não era esse o caso de Jó. Ele provou que é melhor um crente ser rico do que pobre, e que o homem espiritual não tem dificuldade para manusear dinheiro, que, afinal, pode ser uma fonte de serviço espiritual”. 

3. Um homem de vida consagrada. A piedade de Jó está evidente no cuidado espiritual que ele tinha com os filhos. Jó sempre orava por eles: “Sucedia, pois, que, tendo decorrido o turno de dias de seus banquetes, enviava Jó, e os santificava, e se levantava de madrugada, e oferecia holocaustos segundo o número de todos eles; porque dizia Jó: Porventura, pecaram meus filhos e blasfemaram de Deus no seu coração. Assim o fazia Jó continuamente.” (Jó 1.5).

Como sacerdote de seu lar, Jó cumpria o ritual do culto em favor de sua família. O levantar cedo ou de madrugada, como expressão idiomática do hebraico bíblico, é uma forma de enfatizar a piedade de Jó. Essa devoção é demonstrada pela consagração vivida por ele. O texto diz que ele se “santificava”. O vocábulo português “santificava” traduz o termo hebraico, qadash, que possui o sentido de ser separado ou consagrado. Uma pessoa que é consagrada é uma pessoa que ora, uma pessoa que ora é uma pessoa consagrada. Portanto, à luz da vida de Jó, somos instados a viver uma vida consagrada diante de Deus e dos homens. – “Os Sacerdotes da Família. Sabemos que originalmente o pai era o sacerdote da família. Mais tarde, entre o povo hebreu, surgiu o clã sacerdotal, os levitas, o que transformou a tribo deles em uma casta religiosa. Portanto, muitos dos deveres que cabiam antes aos sacerdotes foram formalizados em adoração pública. Mas a história de Jó é posta dentro do período patriarcal, quando o chefe de uma família era também o sacerdote da família. Sem dúvida, é isso o que está por trás da cena referida neste versículo, onde Jó oferece pessoalmente os devidos sacrifícios. Presumimos que o autor sacro esteja atribuindo à sociedade árabe o tipo de condições que existiam na sociedade hebreia. Os árabes, afinal, eram filhos de Abraão e tinham as mesmas tradições essenciais dos hebreus. E blasfemado contra Deus em seu coração. Cf. Jó 2.6,9. Satanás supunha que os homens dotados de riquezas, até mesmo o piedoso Jó, privados de seus bens materiais e de seus familiares, transformar-se-iam em amaldiçoadores de Deus.” 

SUBSÍDIO BÍBLICO-TEOLÓGICO

“Jó não teve de isolar-se para tornar-se piedoso. Foi justamente como pai de família, homem de negócios e membro de uma sociedade politicamente organizada, que ele pontificou-se como o melhor ser humano de seu tempo. Ninguém precisa isolar-se para tornar-se santo; santo nasce exatamente em meios às tentações.

Todos os heróis da fé destacaram-se como membros participativos da sociedade. O que dizer de Noé? Ou de Abraão, Isaque e Jacó? Ou dos profetas? Isaías e Ezequiel eram casados. E o exemplo do próprio Cristo? Ele não se afastou dos homens para redimi-los; Emanuel resgatou-nos estando entre nós e fazendo-se como um de nós

Enganam-se os que julgam ser a santidade o produto de uma vida solitária. Santidade é serviço; é dedicação integral ao Senhor Jesus; é desviar-se do mal e ter a parecença do Cordeiro de Deus” (ANDRADE, Claudionor de. Jó: O Problema do Sofrimento do Justo e o seu Propósito. Rio de Janeiro: CPAD, 2002, p. 37).

  CONCLUSÃO

Destacamos três aspectos importantes acerca da vida de Jó: caráter, prosperidade e piedade. Só compreenderemos devidamente a vida desse gigante da fé do Antigo Testamento a partir dessa matriz. 

É possível que alguém seja rico, mas não possua caráter algum; da mesma forma é possível que alguém possua valores morais sem, contudo, esboçar piedade alguma. Todavia, ninguém terá um caráter irretocável, não apenas fragmentos ético-morais; prosperidade, não apenas posses; piedade, não apenas religiosidade se não conhecer a Deus na intimidade. Jó era assim: íntegro, reto, temente a Deus e se desviava do mal. – O comentarista destaca três virtudes do patriarca a fim de compreender a vida de Jó; no entanto, uma só virtude seria necessária para uma perfeita compreensão: Temos ao Senhor. – Como escreve o Pr Claudionor de Andrade: “Assim era Jó! Um homem em todas as coisas perfeito, porque perfeito era o seu Deus. E chegado o momento de os crentes sermos conhecidos não somente por nossas palavras, mas principalmente por nossas boas obras. Como destaca o apóstolo Tiago, de nada vale a nossa fé se estiver desprovida de obras; é através destas que demonstramos a nossa confiança no Todo-Poderoso. Que o Senhor nos ajude a alcançar o mesmo padrão de excelência que fez de Jó um dos homens mais perfeitos e íntegros de toda a História Sagrada. Não é um ideal inatingível, porque o próprio Cristo nos exorta a persegui-lo: “Sede perfeitos como vosso Pai que está nos céus é perfeito!””

REFERÊNCIAS

ANDRADE. Claudionor Corrêa de, Jó O Problema do Sofrimento do Justo e o seu Propósito. Série Comentário Bíblico. Editora CPAD. pag. 37-38.

BARBOSA, Francisco. Lição 1: O livro de Jó. Disponível em: https://auxilioebd.blogspot.com. Acesso em 02.10.2020

BRUCE, F. F. Comentário Bíblico NVI: Antigo e Novo Testamento - Jó. p. 714, São Paulo: Vida, 2009.

CHAMPLIN, Russell Norman. Antigo Testamento Interpretado versículo por versículo. Editora Hagnos. p. 1863.

FRANCIS, I. Andersen. Jó Introdução e Comentário. Editora Mundo Cristão. p. 77).

HENRY, Matthew. Comentário Bíblico Antigo Testamento: Jó p. 3.  Rio de Janeiro: CPAD, 2010.

LIÇÕES BÍBLICAS. 4º Trimestre 2020 - Lição 2. Rio de Janeiro: CPAD, 11 outubro, 2020.

MESQUITA. Antônio Neves de. Jó Uma interpretação do sofrimento humano. São Paulo: JUERP, 2013.

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

LIÇÃO 1: O LIVRO DE JÓ

 

 

COMENTÁRIO E SUBSÍDIO I

   INTRODUÇÃO

Neste trimestre estudaremos o Livro de Jó, uma das obras mais fascinantes da Bíblia. Não há em toda Literatura bíblica outra obra semelhante. Diferente na sua estrutura, no estilo e, sobretudo, no conteúdo, o Livro de Jó demonstra a grandeza de Deus diante da finitude humana. É, portanto, uma obra que alimenta a nossa esperança quando tudo mais parece ter perdido o sentido. – O livro recebe este nome por causa de Jó, cuja prosperidade, aflição e restauração estão nele registradas. Ele viveu pouco depois de Abraão, ou, quem sabe, antes deste patriarca. É o livro mais antigo que existe. As instruções que se devem aprender da paciência de Jó e de suas provas, são tão úteis agora e tanto mais necessárias, como sempre o foram. Vivemos sob a mesma providência, temos o mesmo Pai que disciplina, e existe a mesma necessidade de correção para a justiça. A fortaleza e a paciência de Jó, que não foram poucas, cederam em seus graves problemas; porém, sua fé estava fixada na vinda de seu Redentor e isto lhe deu firmeza e constância, ainda que outra dependência, particularmente o orgulho e a jactância de um espírito de justiça própria, foram provados e consumidos.

   I. AUTORIA, LOCAL E DATA DO LIVRO

1. O autor de Jó. Quem escreveu o Livro de Jó é motivo de longos debates. As opiniões passam por Moisés, Eliú, Salomão, Ezequias, lsaías e, até mesmo, Esdras. Os que não acreditam no mover sobrenatural de Deus sobre os autores bíblicos fazem do livro uma colcha de retalhos. Afirmam ser ele a produção de vários autores e em diferentes épocas. Entretanto, o cristianismo histórico e conservador não tem o livro de Jó como uma ficção religiosa, mas como uma narrativa poética inspirada por Deus e redigida por um único autor. A própria Bíblia não apresenta indicações do autor do livro, mas o fato é que o autor conhecia a forma poética e nela expressou a maior parte do livro. – As discussões sobre a autoria de Jó da maior parte dos críticos são complicadas pelas dúvidas que os críticos têm quanto à unidade do livro tal como o temos atualmente. A prova não é primordialmente externa, pois embora o texto de Jó na LXX seja um quinto mais curto do que o texto massorético, suas omissões são claramente secundárias. As partes que mais amplamente têm sido consideradas como acréscimos à obra básica original são o prólogo e o epílogo, o poema sobre a sabedoria (cap. 28), o material sobre Eliú (caps. 32-37) e parte ou todos os discursos do Senhor (caps. 38-41). Também, os capítulos 24-27 são considerados como seriamente alterados. Contudo, encontramos forte defesa da integridade de nosso texto atual na unidade magistralmente estrutural do tudo e no rico inter-relacionamento de todas as partes.

2. A pessoa histórica de Jó. A Bíblia mesma atesta que Jó foi uma pessoa histórica. O profeta Ezequiel confirma que ele, de fato, foi uma pessoa real, correlacionando-o ao lado de Noé e Daniel (Ez 14.14). Tiago, por exemplo, atesta a realidade histórica do principal personagem do Livro, bem como sua autenticidade textual, quando destaca a perseverança de Jó (Tg 5.11). – Em Ezequiel 14.14, Deus usa Jó, Daniel e Noé como exemplos de retidão. Essa profecia de Ezequiel foi dada um pouco antes de Nabucodonosor destruir Jerusalém e levar o povo para o exílio na Babilônia. Isso mostra que o livro de Jó já era bem conhecido entre os judeus dessa época. Portanto, o livro de Jó deve ter sido escrito antes do exílio na Babilônia. – “Se Jó foi uma figura humana literal, conforme cremos, então ele pode ter sido um xeque que vivia perto do deserto da Arábia, nos tempos dos patriarcas do Antigo Testamento (não há qualquer menção à lei mosaica, nesse livro de Jó). É possível que Jó fosse uma personagem histórica, e que um autor posterior, conhecendo a história mediante a tradição oral, a tenha reduzido à forma escrita. Mas, por essa altura, a genealogia e o arcabouço histórico de Jó se tinham perdido, pelo que esses detalhes não foram registrados, ainda que importantes para a mentalidade dos hebreus.” (CHAMPLIN, Russell Norman, Antigo Testamento Interpretado versículo por versículo. Editora Hagnos. pag. 4546)

3. A terra de Jó. Já no início do seu texto, o Livro de Jó destaca que ele era da “terra de Uz” (Jó 1.1). Como Jó, Uz era uma terra real. Os comentaristas situam Uz ao sul de Edom e a oeste do deserto da Arábia, se estendendo a Leste, indo até a Babilônia (Jr 4.21; 25.20). – Jó aparece como habitante da terra de Uz (Jó 1.1), era uma cidade murada e com portões (29.7-8), onde ele desfrutava de uma posição de grande respeito. A cidade ficava na terra de Uz, ao norte da Arábia, adjacente a Midiã, onde Moisés viveu por 40 anos (Êx 2.13). - “A terra de Uz, onde dizia-se que Jó vivia (Jó 1.1). A Bíblia fornece várias observações que nos ajudam a localizar essa terra: era um país (território) localizado próximo aos sabeus e caldeus (Jó 1.1, 1517). Era acessível aos temanitas e naamitas (Jó 2.11). Os buzitas estavam relacionados a ela (Jó 32.2). Os edomitas governaram o lugar em épocas passadas (Jer. 24.20; Lam. 4.21). Ficava próxima a um deserto (Jó 1.19). Teve vários xeques, chefes de tribos, povos semitas (Jer. 25.20, 23). Na terra de Uz ficava a colônia de Edom, que é uma “filha” do local (Lam. 4.21). Além das observações da Bíolia, temos o testemunho de Josefo, que situava o lugar no nordeste da Palestina, dizendo “Uz fundou Traconites e Damasco” (Ant. 1.6.4). As tradições árabes estão de acordo com isso. Talvez o wadi Sirhan moderno, ao sul de Jebel ed Druz, seja situado no antigo território. Essa é uma grande depressão rasa, parecida com uma planície de cerca de 300 km de extensão e com uma média de 30 km de largura. Possui terra pastoril abundante, o que se ajusta a Jó 1.3. Há água suficiente para suportar animais silvestres e domesticados, além de uma população humana razoável, especialmente se os povos envolvidos fossem tribos nômades de números pequenos de indivíduos. Os mapas da Zondervar Pictorial Encyclopedia of the Bible localizam Uz próximo a Damasco, mas o Wadi Sirhan, a leste do mar Morto, de forma que contradiz os aspectos das informações dadas acima. A localização a leste do mar Morto parece ser mais lógica.” (CHAMPLIN, Russell Norman, Antigo Testamento Interpretado versículo por versículo. Editora Hagnos. pag. 5416).

4. A época de Jó. A maioria dos comentaristas situa os fatos narrados no Livro de Jó dentro do período patriarcal (Abraão, Isaque e Jacó). Dentre outros, alguns fatos contribuem para esse entendimento: O sacerdócio como instituição ainda não existia, visto que Jó era o sacerdote de sua própria casa (Jó 1.5); as filhas de Jó eram coerdeiras juntamente com seus irmãos (Jó 42.15), o que não era permitido pela lei mosaica (Nm 27.8); a palavra hebraica qesitah, traduzida como “uma peça de dinheiro” (Jó 42.11), só aparece em outras duas ocasiões na Bíblia: uma em Gênesis 33.19 e a outra em Josué 24.32. – A época retrata no livro de Jó parece ser o tempo dos patriarcas. Não há nenhuma referência a reis, nem ao templo, nem à Lei de Moisés. A data da autoria do Livro de Jó seria determinada por quem foi o seu autor. Se Moisés foi o autor, a data seria por volta de 1440 AC. Se Salomão foi o autor, a data seria em torno de 950 a.C. Já que não sabemos de certeza quem foi o autor, não podemos saber exatamente quando foi escrito. – A data de redação do livro pode ser bem posterior aos acontecimentos que ele relata. Essa conclusão se baseia:

a. na idade de Jó (42.16);

b. ele chegou perto dos 200 anos de idade, o que está de acordo com o período patriarcal (Abraão viveu 175 anos; Gn 25.7);

c. na unidade social, que era a de família patriarcal;

d. no fato de que os caldeus que mataram os servos de Jó (1.17) eram nômades e ainda não haviam se estabelecido em cidades;

e. no fato de que a riqueza de Jó era medida pelos seus rebanhos em vez de pelo ouro e prata (1.3; 42.12); f. nas funções sacerdotais de Jó dentro de sua família (1.4-5); e

g. no silêncio básico sobre assuntos como a aliança de Abraão, Israel, o êxodo e a lei de Moisés. Os acontecimentos da odisséia de Jó parecem ser patriarcais. Jó, por outro lado, parecia conhecer a história de Adão (31.33) e o dilúvio dos dias de Noé (12.15). Esses detalhes históricos/culturais parecem situar os acontecimentos cronologicamente numa provável época após Babel (Gn 11.1-9), mas anterior a Abraão ou contemporânea dele (Gn 11.27ss.)

SUBSÍDIO BÍBLICO-TEOLÓGICO

“Jó é um dos livros sapienciais e poéticos do AT; ‘sapiencial’, porque trata profundamente de relevantes assuntos universais da humanidade; ‘poético’, porque a quase totalidade do livro está elaborada em estilo poético. Sua poesia, todavia, tem por base um personagem histórico e real (ver Ez 14.14,20) e um evento histórico e real (ver Tg 5.11). Os fatos do livro se desenrolam na ‘terra de Uz’ (1.1), que posteriormente veio a ser o território de Edom, localizado a sudeste do Mar Morto, ou norte da Arábia (cf. Lm 4.21). Assim sendo, o contexto histórico de Jó é mais árabe do que judaico.

[…] Se não foi o próprio Jó, o escritor deve ter obtido informações detalhadas, escritas ou orais, oriundas daqueles dias, as quais ele utilizou sob o impulso da inspiração divina para escrever o livro na feição em que o temos. Certas partes do livro vieram evidentemente da revelação direta de Deus (e.g. 1.1-2.10)” (Bíblia de Estudo Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 1995, p.767).

  II. ESTRUTURA LITERÁRIA DO LIVRO DE JÓ

1. Prosa e poesia. O leitor que deseja ler o Livro de Jó precisa dar-se conta de que diante dele há uma obra de natureza poética. Isso não torna o livro de Jó menos inspirado do que outros da Bíblia, mas revela que ele pertence a um diferente gênero literário. Jó precisa ser lido dessa forma. A estrutura dessa obra demonstra isso. O texto é uma combinação de prosa-poesia-prosa (nessa ordem). Ele está literariamente organizado assim: Uma prosa nos primeiros capítulos; uma longa poesia no meio; mais uma prosa no último capítulo. Assim, o prólogo (Jó 1.1-2.13) e o epílogo (Jó 42.7-17) estão em prosa; o texto intermediário em poesia (Jó 3.1-42.6). – A essência do livro é poesia, engastada como uma pedra preciosa entre um prólogo e um epílogo de prosa épica. Tal estrutura A B A encontra-se em outras peças de literatura antiga. Como, por exemplo, Hamurabi que colocou suas leis entre um prólogo e um epílogo poéticos. E uma obra egípcia, The Eloquent Peasant, emoldura os nove protestos semipoéticos do camponês entre a prosa do prólogo e do epílogo. – Junto com os Provérbios, o Eclesiastes e, sob um certo aspecto, os Cantares de Salomão, Jó pertence ao gênero da Sabedoria (hokmâ), um tipo de obra amplamente ilustrada em uma variedade de formas na literatura antiga do Oriente Próximo. Dentro do cânon das Escrituras do Velho Testamento, a contribuição característica dos livros da Sabedoria é que eles expõem a relação que existe entre a revelação da aliança fundamental dada através de Moisés e os grandes problemas da vida do homem neste mundo, mais especificamente, da vida do homem à parte do conteúdo peculiarmente teocrático da história de Israel. Existe muita semelhança formal entre Jó e as diversas obras da Sabedoria extra-bíblica; como, por exemplo, o estilo coloquial, e motivos tais como o problema do sofrimento e o anseio pela morte. Não obstante, em seus ensinamentos essenciais, Jó difere completamente da literatura da Sabedoria extra-bíblica porque representa a mensagem única da revelação redentiva, a sabedoria de Deus que torna tola a sabedoria dos homens. Mesmo em sua estrutura literária, considerada como um todo, ele é único – uma obra prima universalmente aclamada

2. Organização. No texto em poesia há a seguinte organização: Um monólogo feito por Jó; três ciclos de diálogos entre Jó e seus amigos (Elifaz, Bildade e Zofá); quatro outros discursos de um quarto amigo jovem, Eliú; seguido pela revelação de Deus onde Ele manifesta o seu poder e graça; e, finalmente, a humilhação de Jó diante da revelação divina e sua restauração completa. – “Neste livro temos: (1) A história dos sofrimentos de Jó, e sua paciência nessas circunstâncias (caps. 1-2, não sem uma mistura de fragilidade humana, conforme o cap. 3). (2) Uma discussão entre Jó e os seus amigos, sobre eles, na qual: [1] Os oponentes eram Elifaz, Bildade e Zofar. [2] O indagado era Jó. [3] Os moderadores eram: Primeiro, Eliú, caps. 32-37. E, mais adiante, o próprio Deus, caps. 38-41. (3) A conclusão de tudo na honra e na prosperidade de Jó, cap. 42. No todo, aprendemos que muitas são as aflições dos justos, mas que quando o Senhor os livra delas, toda provação da sua fé redundará em louvor, honra e glória”. (HENRY. Matthew. Comentário Matthew Henry Antigo Testamento Jó a Cantares de Salomão. Editora CPAD. pag. 2)

3. Abundância de figuras de linguagens. O livro é rico em metáforas. Esse recurso estilístico é usado pelo autor bíblico quando ele quer dar mais expressividade e maior vivacidade ao texto. O autor almeja que seu texto seja “colorido” ao invés de “preto e branco”. Jó, por exemplo, usa a figura do “vai-e-vem” do Tecelão para demonstrar a brevidade da vida (Jó 7.6; cf. “vento” Jó 7.7; “nuvem” 7.9; “sombra 8.9,14.2; “uma corrida”, “uma águia”, “uma flor” 9.25,26, 14.2). No livro também há o recurso estilístico de paralelismos onde os elementos literários repetem-se na mesma ordem. – “Chamamos de figura de linguagem os recursos expressivos empregados para gerar efeitos nos discursos, ampliando a ideia que se pretende passar e que não seria possível com o uso restrito e literal das palavras. Esses recursos podem dar o efeito de exagero, ausência, similaridade, lirismo ou estranheza, priorizando a alteração da construção das sentenças ou a semântica (o significado) ou a sonoridade (a forma)” (mundoeducacao.uol.). As principais Figuras de Linguagem são Metáfora, Símile, Analogia, Metonímia, Perífrase, Sinestesia, Hipérbole, Elipse (ou Zeugma), Silepse, Hipérbato (ou Inversão), Polissíndeto, Antítese, Paradoxo, Gradação (ou Clímax) e Personificação (ou Prosopopeia). – “Há abundantes figuras de pensamento ou de linguagem de vários tipos na poesia: símile, metáfora, personificação, hipérbole, apóstrofe, etc. Elas são, em primeiro lugar, uma outra forma de expressão. Mas também visam desafiar o leitor na interpretação, conseguida por meio de relacionamentos. Uma figura de linguagem ocorre quando utilizamos uma palavra com um sentido secundário”. (Carneiro. Moisés,. Livros Poéticos, Curso Básico em Teologia. Instituto Belém. pag. 11)

SUBSÍDIO DIDÁTICO-PEDAGÓGICO

“Neste tópico, após expor o assunto, apresente o esboço do Livro de Jó. É importante para o aluno ter contato com a visão estrutural de todo o livro. Nesse sentido, sugerimos que reproduza o seguinte esquema:

LIVRO DE JÓ

I – Prólogo: A Crise     1.1-2.13

II – Diálogos entre Jó e Seus Amigos (Elifaz, Bildade e Zofar): A Busca de Resposta Humanista 3.1-31.40

III – Discursos de Eliú: O Começo do Entendimento        32.1-37.24

IV – O Senhor Responde a Jó Diretamente 38.1-42.6

V – Epílogo: Desfecho da Prova 42.7-17

  III. NATUREZA E MENSAGEM DO LIVRO DE JÓ

1. Por que os justos sofrem? Algumas das questões mais importantes levantadas no Livro de Jó são eminentemente de natureza teológica e, também, filosófica. A questão do sofrimento do inocente é a principal delas. Por que sofre o justo? Ou ainda, por que os ímpios prosperam enquanto o justo sofre?

Ao longo dos anos, tanto teólogos quanto filósofos têm procurado dar explicações para esse dilema humano. No contexto de Jó, a ideia que prevalece é a de que somente os maus sofriam em consequências de seus pecados. Se havia sofrimento era porque havia culpa do sofredor. Nesse aspecto, ao longo de seus 42 capítulos, o autor procura demonstrar um novo olhar sobre essa questão. – “Sellin-Fohrer fazem uma preciosa contribuição em perceber que "o poeta de Jó não aborda o problema da Teodicéia, sob a forma do sofrimento merecido do justo, ou sob a forma da justiça de Deus, em contraposição com a experiência humana. Isto estaria em contradição com o pensamento concreto e subjetivo do israelita. Também ele não apresenta pura e simplesmente um acontecimento. Pelo contrário: trata-se aí de um problema vital: o problema da existência humana vivida no sofrimento; trata-se da questão sobre o modo de proceder corretamente dentro dessa existência. Jó vive o comportamento que lhe parece possível e correto. Os amigos querem ensinar-lhe um comportamento que, no seu parecer, é o melhor, e Deus o coloca diante do problema decisivo no que respeita a seu comportamento. (...) A narrativa que enquadra o poema interpreta o sofrimento como provação do homem que deve, por este meio, confirmar a sua piedade que alimentar até então. Os amigos de Jó atribuem a infelicidade às culpas do homem, e o convidam a se desviar do mal, a se voltar humildemente para Deus e a se converter radicalmente. (...) Passando por cima de todas estas opiniões – as ortodoxas e as heréticas -, o poeta de Jó, que faz Deus condenar, inclusive, os amigos de Jó, apesar de sua fé imaculada, e recomendá-los à intercessão daquele Jó que antes parecia tão herético, parte em busca de sua própria solução, a qual atesta a profunda influência da fé profética: a atitude correta do homem no sofrimento é o silêncio humilde, na plena entrega de si mesmo, brotando da paz com Deus, e baseada não somente na intuição de que o sofrimento decorre de uma intervenção misteriosa, impenetrável, mas inteiramente lógica de Deus, mas também na certeza da comunhão com Deus, a qual faz com que tudo o mais seja secundário."” (E. Sellin, G. Fohrer, Introdução ao Antigo Testamento, vol. 2, pp. 496-497)

2. Existe bondade desinteressada? Para muitas pessoas qualquer prática religiosa não passa de barganha. Essa era também a tese do Diabo. Para ele, Jó só permanecia fiel a Deus porque recebia benefício em troca: Jó era um homem agraciado com muitos bens; com uma família formidável; cercado de muitos amigos; e gozava de boa saúde. Nessas condições, como disse Satanás, todos são devotos. Todavia, vindo o infortúnio, a tragédia e a calamidade, será que esse fervor religioso permaneceria? Satanás estava disposto a apostar que a espiritualidade de Jó não subsistiria a uma prova de fogo. 0 livro mostra como Jó se comportou nessa prova. – É comum ouvirmos o jargão “Deus tem um plano na vida de cada homem”, e assim, sem compreensão adequada, afirma-se a soberania divina. O propósito teológico do livro de Jó é mostrar a soberania de Deus. Deus usa os piores ataques de Satanás para o cumprimento do seu santo decreto (Jó 42:2). O soberano Deus ilustra através da vida de Jó, que “todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (Rm 8.28). Para que não haja qualquer dúvida sobre o papel de Deus nessa experiência, foi ele quem iniciou o diálogo com o adversário. Não era o adversário quem estava presidindo. De qualquer maneira, Satanás levantou a questão crucial que poderia muito bem ter sido levantada por qualquer outra pessoa, talvez até pelo próprio Jó: será que Jó serve a Deus por motivos puros ou será que ele só o faz porque é abençoado? – Esta é uma questão tão atual e comum em nosso meio que, esquecemos de confrontar nossa real intenção em servir ao Senhor. Qual a sua motivação em servir a Deus? A partir do momento em que o homem for capaz de servir a Deus por nada, simplesmente por que Ele é Deus, aí ele encontra o sentido maior da devoção, o centro da espiritualidade, o coração como fonte dos afetos

3. Pode o homem compreender Deus? Os últimos capítulos de Jó mostram os impactos que a revelação divina tem sobre os homens. Como Paulo, que foi verdadeiramente mudado quando contemplou o Senhor numa visão (At 9.1-17), assim também Jó é totalmente transformado quando contempla a majestade do Senhor (Jó 38-42). A questão para Jó não foi tanto o entender Deus, mas experimentá-Lo. Viver e experienciar Deus mudou completamente a vida de Jó! Eis uma grande lição deixada por esse precioso livro. – O Pastor Antônio Neves de Mesquita comenta: “O esforço de Satanás para convencer a Deus de que ninguém o serve desinteressadamente. Todos têm, de um modo ou de outro, os seus interesses ligados ao culto a Deus (caps. 1 e 2). Nesse campo de cogitações, Satanás insinua que a religião de Jó é consequência da sua prosperidade; portanto, uma vez privado da mesma, renunciará imediatamente ao culto a Deus. Deus aceitou o desafio e autorizou Satanás a destruir a fortuna de Jó, para verificar que a sua piedade não resultava da riqueza, mas, sim, do amor e reconhecimento do próprio Jó. A seguir vem a outra prova. Se Deus lhe tirasse a saúde, Jó amaldiçoaria a Deus. Satanás tem permissão para destruir a saúde de Jó, porém este continuou firme na sua crença em Deus. Desta prova resultou o drama que constitui o Livro de Jó” (Mesquita. Antônio Neves de,. Jó Uma interpretação do sofrimento humano. Editora JUERP).  

SUBSÍDIO BÍBLICO-TEOLÓGICO

“Sete características principais assinalam o livro de Jó. (1) Jó, um habitante do norte da Arábia, foi um não israelita justo e temente a Deus […] (1.1). (2) Este Livro é o mais profundo que existe sobre o mistério do sofrimento do justo. (3) Revela uma dinâmica importante, presente em toda prova severa dos santos: enquanto Satanás procura destruir a fé dos santos, Deus está operando para depurá-la e aprofundá-la. A perseverança de Jó na sua fé permitiu que o propósito de Deus prevalecesse sobre a expectativa de Satanás (cf. Tg 5.11). (4) O livro é de valor inestimável pela revelação bíblica que contém sobre assuntos-chaves tais como: Deus, a raça humana, a criação de Satanás, o pecado, o sofrimento, a justiça, o arrependimento e a fé. (5) Boa parte do livro ocupa-se da avaliação teológica errônea no Livro talvez indique tratar-se de um erro comum entre o povo de Deus; erro este que exige correção. (6) O papel de Satanás como “adversário” dos justos, o livro de Jó o demonstra mais do que em qualquer outro livro do AT. Entre as dezenove referências nominais a Satanás no AT, quatorze ocorrem em Jó. (7) Jó demonstra com toda clareza o princípio bíblico de que os crentes são transformados pela revelação, e não pela informação (42.5,6)” (Bíblia de Estudo Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 1995, p.768).

  CONCLUSÃO

Nesta lição apresentamos algumas informações básicas sobre o contexto histórico e literário de Jó. Quanto ao seu gênero o livro é de natureza poética. Isso é importante para a compreensão da própria estrutura como o livro foi organizado. Vimos que o livro apresenta princípios teológicos que transcendem o espaço e o tempo. Esses princípios são para todas as épocas e culturas. O que é demonstrado é que o conhecimento de Deus é o anseio de todo ser humano. – Pode parecer desnecessário, mas uma lição introdutória como esta é crucial para uma compreensão definitiva do conteúdo do livro estudado. Jó é um daqueles livros chamados de poéticos e de sabedoria e faz parte de todo o contexto da história do povo de Israel, desde os tempos da formação inicial com Abraão e vai até o final dos livros proféticos que formam o Antigo Testamento. Este livro tem encantado muitas gerações de crentes piedosos que o leem buscando conhecer mais sobre a misericórdia de Deus e como nós devemos sempre depender Dele. Jó em sua narrativa nos apresenta um modelo de fé e fidelidade a Deus que nos serve como um farol de esperança, pois o sofrimento é um processo do próprio desdobramento da vida. Vamos aprender ser crentes incansáveis como Jó, pois a sabedoria procedente de Deus, possibilita-nos a conhecê-lo verdadeiramente até mesmo em nossas reclamações e murmurações contra Ele. Bom estudo a todos!

REFERÊNCIAS

BARBOSA, Francisco. Lição 1: O livro de Jó. Disponível em: https://auxilioebd.blogspot.com. Acesso em 02.10.2020

HENRY, Matthew. Comentário Bíblico Antigo Testamento: Jó p. 1.  Rio de Janeiro: CPAD, 2010.

LIÇÕES BÍBLICAS. 4º Trimestre 2020 - Lição 1. Rio de Janeiro: CPAD, 04 outubro, 2020.

PFEIFFER, Charles F. Comentário Bíblico Moody. Vol. 1: Jó. p. 1: Batista Regular, 2019.