quinta-feira, 5 de março de 2020

LIÇÃO 10: SÓ O EVANGELHO MUDA A CULTURA HUMANA

COMENTÁRIO E SUBSÍDIO I
INTRODUÇÃO
Nesta lição, veremos uma definição de cultura; pontuaremos algumas características da cultura humana marcada pelo pecado; estudaremos algumas considerações gerais sobre a cultura humana à luz das Escrituras Sagradas; notaremos como o cristão deve se relacionar com a cultura; e por fim, mostraremos o evangelho influenciando a cultura humana.

I – DEFINIÇÃO DO TERMO CULTURA

1.1 Conceito da palavra cultura. A palavra “cultura” significa: “o conjunto de comportamentos e ideias característicos de um povo, que se transmite de uma geração a outra e que resulta da socialização e aculturação verificadas no decorrer de sua história (BURNS, 1995, p. 15). Segundo o dicionarista Houaiss (2001, p. 888) cultura é: “conjunto de padrões de comportamento, crenças, conhecimentos e costumes que distinguem um grupo social; forma ou etapa evolutiva das tradições e valores intelectuais, morais, espirituais de um lugar ou período específico”. Portanto, podemos dizer que, fazem parte da cultura de um povo as seguintes atividades e manifestações: música, teatro, rituais religiosos, língua falada e escrita, mitos, hábitos alimentares, danças, arquitetura, invenções, pensamentos, formas de organização social, etc. A cultura resume todos os costumes ligados à família, à nacionalidade, ao trabalho e ao modo do ser humano encarar a vida.

II – CARACTERÍSTICAS DA CULTURA HUMANA MARCADA PELO PECADO

2.1 Relativista. Relativismo é o ensino que faz a verdade depender do indivíduo ou do grupo, do tempo ou do lugar. Ou seja, aquilo que é visto como correto para um, pode ser visto como errado para outro (Jz 21.25; Is 5.20). A palavra de Deus no entanto, como “regra de fé e prática” do cristão, não admite posições relativistas, no que concerne a moral ou a ética. Nela encontramos princípios divinos que direcionam e guiam a vida do cristão, independente de sua cultura, status ou época (Sl 119.9,11,105; Jo 17.17; 1Co 6.12; 10.23). Numa sociedade corrompida e perversa (Fp 2.15) em que o “mundo jaz no maligno” (1Jo 5.19), não é de se estranhar que a humanidade viva no seu dia-a-dia, “uma inversão dos valores e dos padrões morais” (Is 5.20).
2.2 Materialista. A cultura humana tem sido marcada pelo materialismo, onde se tira totalmente a ideia do espiritual, tudo se limita ao físico, ao terreno, ao transitório (1Tm 6.7; Jó 1.21). Cultura que se valoriza, pelo que se tem, em detrimento da vida espiritual e da vindoura (Lc 12.20,21). Paulo se contrapõem a esse pensamento ao dizer: “Se esperamos em Cristo só nesta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens” (1Co 15.19). A cultura cristã embora não anule a realidade física da existência com suas necessidades mais pessoais (Mt 6.31-33), enfatiza a realidade espiritual como sendo o ideal de quem passou pelo novo nascimento (Mt 6.19,20; Cl 3.1-3). Devemos fazer a diferença em nossa cultura como nos ensina a Bíblia (Fp 1.27 ver ainda Rm 12.2; 1Co 10.32), seguindo o exemplo dos nossos pais: “Segundo a tradição que de nós recebeu” (2Ts 3.6).
2.3 Antropocêntrica. O antropocentrismo tem sido outra marca da cultura atual marcada pelo pecado. É uma Ideologia ou doutrina, de acordo com a qual o ser humano é o centro de tudo, sendo ele rodeado por todas as outras coisas; dentro dessa perspectiva tudo converge para o homem (Dn 4.30; Lc 12.17-19). Esta ideia porém, choca-se frontalmente com o teocentrismo ensinado nas Escrituras, ou seja, Deus é o centro de todas as coisas: “Porque dele, e por ele, e para ele são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém!” (Rm 11.36).

III – CONSIDERAÇÕES GERAIS SOBRE A CULTURA HUMANA À LUZ DAS ESCRITURAS

3.1 Quando a cultura contradiz as Escrituras, deve ser rejeitada e combatida. Podemos ver no AT que os costumes dos povos deveriam ser rejeitados pelos israelitas porque estavam ligados a uma religião idólatra e cruel (Lv 18.24-29). Estes costumes incluíam práticas que abrangiam as diversas áreas da vida como a família, a vestimenta, a religião, a arquitetura, direito, etc (Dt 2.5). Em certas situações toda a cultura de um povo deveria ser completamente destruída (Dt 25.17-19; 1Sm 15.2-3). Os filhos de Israel deveriam cumprir o mandamento de não cortar o cabelo em redondo, nem danificar as extremidades da barba (Lv 19.27). É provável que aquele costume cultural identificasse a pessoa com o paganismo e por isso deveria ser rejeitado (Rm 12.2). É a Igreja que influencia os padrões de vida e costumes do mundo, porque ela é “o sal da terra” e “a luz do mundo” (Mt 5.13,14). O povo de Deus é um povo diferente no mundo, no sentido espiritual, moral e social (1Co 10.32). A Igreja é um grupo social, dentro de um contexto maior, chamado sociedade, repleto de padrões culturais antibíblicos, onde quer que a Igreja se encontre e por isso precisa fazer a diferença (1Co 6.20; Tt 2.10).
3.2 O que da cultura não contradiz as Escrituras, deve ser utilizada com sabedoria. Apesar da cultura estar contaminada pelo pecado, ela pode ser uma fonte da verdade, se não vier a contradizer os princípios bíblicos. Daniel e seus amigos na corte babilônica é um grande exemplo. Eles foram dotados por Deus com o conhecimento e inteligência em toda literatura e sabedoria (Dn 1.17-21). Isto quer dizer que ele tinha conteúdo cultural e sabia usar aquele conhecimento com equilíbrio e sabedoria. Apesar deste conhecimento Daniel e seus companheiros não permitiram que, no que a cultura babilônica feria os princípios divinos comprometessem sua fé (Dn 1.8). Quando o costume cultural está de acordo com a verdade bíblica, ele deve ser preservado e seguido; porém, quando contraria os princípios estabelecidos na Palavra de Deus, deve ser rejeitado e combatido pela Igreja de Cristo (At 5.29; Fp 4.8). Logo, a cultura até certo ponto não é nociva, desde que não venha a ferir os princípios da Palavra de Deus. Quando uma respectiva nação praticava um costume fora da vontade de Deus, a Bíblia é bem clara: “E não andeis nos costumes das nações que eu expulso de diante de vós, porque fizeram todas estas coisas; portanto fui enfadado deles” (Lv 20.23 ver ainda Dt 22.5).

IV – COMO O CRISTÃO DEVE SE RELACIONAR COM A CULTURA

4.1 O exemplo do apóstolo Paulo. Ele também foi um cristão que entrou em contato com a cultura do seu tempo, mas não deixou se corromper por nenhuma prática cultural. Seus escritos revelam conhecimentos razoáveis em variadas áreas da cultura (At 17.15-34). Paulo podia levar os princípios eternos da revelação especial que ele recebia a sua prática? Sim! Porque conhecia bem os costumes judaicos em que ele fora criado, bem como os costumes dos povos que ele estava evangelizando (1Co 11.1-16). Apesar deste conhecimento cultural, o apóstolo Paulo não negociava com a cultura de sua época se esta prejudicasse a Palavra que ele pregava. Para Paulo, o meio de salvação dos perdidos era a pregação do evangelho. Ele rejeitou a retórica dos gregos para que a fé daqueles irmãos não repousasse sobre a sabedoria humana, mas sobre o poder de Deus (1Co 2.1-5).
4.2 Jesus Cristo, o mais sublime de todos os exemplos. O Senhor Jesus é o maior e melhor exemplo de alguém que não deixou ser influenciado pela cultura prevalecente de seus dias. Ele veio ao mundo como homem (Jo 1.14; Fp 2.5-11), foi circuncidado e apresentado no templo (Lc 2.21-38), participou das festas judaicas (Lc 2.39-43), demonstrando estar em contato com sua cultura. Porém, não se rendeu a ela para ir de encontro aos princípios da Palavra de Deus (Mc 7.1-16). Os cristãos devem ser agentes transformadores da sociedade. Nossa responsabilidade de transmitir e viver adequadamente o evangelho em qualquer cultura é bíblica. Escrevendo aos coríntios o apóstolo Paulo diz: “Portanto, quer comais quer bebais, ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo para glória de Deus” (1Co 10.31). Significa dizer que tudo o que fazemos na vida, até as coisas mais instintivas, como o comer e o beber, deve ser feito com a plena conscientização da glorificação a Deus. Não podemos, portanto, simplesmente aceitar uma cultura como ela é sem ter a visão clara do que ela tem contrário à Palavra de Deus.

V – O EVANGELHO INFLUENCIANDO A CULTURA HUMANA

5.1 A igreja e a pregação do Evangelho. Uma das principais atribuições da igreja é a de influenciar a cultura e a sociedade onde ela está inserida (Mt 5.13-16; Mc 9.49; Lc 14.34-35; Mc 4.21; Lc 8.16; 1Pd 2.12). E como ela pode fazer isto? Priorizando os princípios da Palavra de Deus, independente do modelo cultural da sociedade. Na prática, significa combater o pecado, mesmo que este seja visto como uma questão cultural. É ensinar sobre a fidelidade conjugal (Hb 13.4), mesmo quando a infidelidade já se tornou comum; combater a mentira e o engano (Ef 4.25; Rm 12.17), ainda que sejam vistas como coisas normais ou naturais; pregar contra o paganismo e a idolatria (Rm 2.22; 1Jo 5.21), mesmo quando ela é vista como mera religiosidade, etc. Recebemos do Senhor Jesus uma responsabilidade para produzir uma cultura debaixo do Senhorio de Cristo (2 Co 10.4,5), ou seja, promover a cosmovisão cristã em um mundo pluralista (Rm 12.1,2), onde as culturas estão afetadas em suas estruturas e práticas do pecado, necessitando assim, que a Igreja exerça sua função profética (1Pd 2.9,10), mostrando o caminho que Deus planejou para vivermos como seres humanos, julgando nossas vidas por essas normas. 5.2 O evangelho na cidade de Éfeso. Esta era a capital da província romana da Ásia. A cultura era extremamente influenciada pelo paganismo e hedonismo (busca desenfrenada pelo prazer) ali estava o foco de adoração da deusa da fertilidade, Ártemis ou Diana (At 19.27) que possuía um templo (At 19.28) que foi considerado uma das sete maravilhas do mundo antigo. Historiadores calculam que a população da cidade de Éfeso no primeiro século era cerca de 250 a 500 mil habitantes. Paulo na unção do Espírito Santo (At 19.11,12), começou a pregar nesta cidade e o impacto do evangelismo foi tão grande que agitou a cidade, provocando muitas conversões até mesmo de pessoas ligadas ao ocultismo (At 19.18); de modo que Lucas relata: “assim a palavra do Senhor crescia poderosamente e prevalecia” (At 19.19). Durante o tempo que ali passou, Deus operou poderosamente através do apóstolo (At 19.11), em Éfeso houve várias conversões (At 19.18,19), batismo no Espírito Santo (At 19.6,7), curas divinas e expulsão de demônios (At 19.12), e a propagação do evangelho (At 19.10,20,26), resultando no temor a Deus e a glorificação do nome do Senhor Jesus (At 19.17).
5.3 O evangelho na cidade de Corinto. O apóstolo Paulo escrevendo aos coríntios deixou muito claro que a cultura não está acima das Escrituras (1Co 10.12,23,31). Tudo o que o crente fizer deve objetivar a glória de Deus, pois para isto é que fomos criados (Ef 1.12). A Bíblia adverte-nos: “Tende cuidado para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs sutilezas [...]” (Cl 2.8). Um dos maiores desafios da igreja nestes últimos dias é lutar contra os enganos e os ardis do Inimigo na nossa cultura. Os costumes e cultura nunca têm o peso de doutrina, porém, a doutrina bíblica é que gera os bons costumes nas culturas (Dt 7.6). Paulo ensinou que há coisas que em si mesmas não são pecado, mas são moldadoras, dominadoras, controladoras e por isso, devem ser evitadas: “Nem todas as coisas me convêm” (1Co 6.12a), por este motivo a recomendação bíblica: “Não me deixarei dominar por nenhuma” (1Co 6.12b). Há coisas que em si mesmas não são pecado, mas são embaraçosas (Hb 12.1). Há coisas que em si mesmas não são pecado, mas dão a aparência de pecado (1Ts 5.2). Nossos usos e costumes não devem provocar escândalos (1Pd 3.3-5).

CONCLUSÃO

Vimos que cultura é a atividade humana que intenciona o uso, o prazer e o desenvolvimento da raça humana. A Bíblia nos fala a respeito da cultura. Ela diz que, quando a cultura contradiz a verdade revelada, ela deve ser combatida; ensina também que, quando um costume cultural está de acordo com os princípios eternos, ele deve ser seguido. E, acima de tudo ela relata diversos exemplos de pessoas que, mesmo estando inseridas em diversas culturas, elas permaneceram fiéis a Deus

Prof. Paulo Avelino. Disponível em: https://www.portalebd.org.br
COMENTÁRIO E SUBSÍDIO II

   INTRODUÇÃO
Na lição de hoje, estudaremos a cultura humana através do prisma da Bíblia Sagrada. Nosso intento é mostrar que nenhuma cultura pode ser tida como neutra, ou inofensiva, porque todas elas acham-se contaminadas pelo pecado de Adão.
Em seguida, veremos que a cultura humana tornou-se o abrigo natural do homicídio, do sexo depravado, da usura e da rebelião contra Deus. Mas a boa notícia é que o Evangelho de Cristo pode transformar qualquer cultura.
Quanto a nós, Igreja de Cristo, não nos conformemos com este mundo que jaz no Maligno, como fez Israel e Judá. Por aceitar todas as impurezas das culturas vizinhas e longínquas, ambos os reinos foram destruídos. Mantenhamos nossas propriedades como povo de Deus. Os irmãos de Tessalônica são um exemplo para todos nós por terem colocado em prática a sua fé no Senhor, testemunhando de Cristo em diversos lugares. [Lições Bíblicas CPAD, Revista Adultos, 1º Trimestre 2020. Lição 10, 8 Março, 2020]
Os cristãos vivem grandes desafios todos os dias e, um deles, sem dúvidas, é a sua relação com a cultura onde estão inseridos. A cultura sempre foi, e sempre lhes será, um grande desafio. Ao enfrentá-lo, algumas opções lhes são apresentadas: Amoldar-se a ela, rejeitá-la completamente, ou tentar viver de maneira a lhe trazer redenção. O Brasil é um país de rica e diversificada cultura. A miscigenação do povo brasileiro é algo que não se repete em outros povos com tamanha intensidade e evidência. O resultado disso é uma cultura eclética que traz consigo traços dos mais diversos povos que construíram a população – europeus, africanos e os nativos indígenas. Segundo o Dr. Augustus Nicodemus, toda cultura é “uma mistura de coisas boas decorrentes da imagem de Deus no ser humano e da graça comum, e coisas pecaminosas resultantes da depravação e corrupção do coração humano. Toda cultura, portanto, por mais civilizada que seja, traz valores pecaminosos, crenças equivocadas, práticas iníquas que se refletem na arte, música, literatura, cinema, religiões, costumes e tudo mais que a compõe”. Por causa dessas questões, os cristãos que levam a Bíblia a sério costumam ter uma atitude, no mínimo, cautelosa em relação à cultura, exatamente por perceberem nela traços da corrupção humana. Contudo, é bom ressaltar que, nem tudo que envolve a cultura é pecaminoso e mal. O homem, como expressão da imagem de Deus, foi dotado de criatividade para exercer o domínio sobre a criação e ser uma bênção na edificação de uma sociedade segundo a vontade de Deus (Gn 1.26-30; 2.1-15). Este “mandato cultural”, bem como suas prerrogativas, foi determinado a todos os homens, independente de sua fé. Chama-se esta bênção de “graça comum”, uma vez que ela age tanto em cristãos quanto em não cristãos. Os servos de Deus precisam ter discernimento para julgar a cultura e, biblicamente, refletir sobre tudo o que a envolve a fim de não praticar ou apoiar aquilo que, pode ser bom e bonito aos olhos humanos, porém, reprovado diante do Senhor. As advertências bíblicas atestam que, a liberdade que o cristão tem no Senhor, não deve ser usada para justificar quaisquer práticas pecaminosas (Gl 5.13) e, a despeito de tudo ser lícito, nem tudo lhe convêm fazer (1Co 6.12)” (ultimato).
   I. O QUE É A CULTURA
De acordo com a Bíblia Sagrada, o ser humano foi criado para fazer e produzir cultura, a partir da criação divina. Neste tópico, veremos, ainda, a cultura dos gentios e a cultura do povo de Deus.
1. Definição de cultura. No princípio, a cultura tinha a ver apenas com o cultivo da terra, visando a produção de alimentos (Gn 4.2). Depois, passou a ser considerada como a soma de todas as realizações humanas: espirituais, intelectuais, materiais etc. Semelhante tarefa foi considerada enfadonha por Salomão (Ec 1.1-13).
A cultura pode ser definida também pela maneira como uma nação encara as demandas e reivindicações divinas (Lv 20.23). [Lições Bíblicas CPAD, Revista Adultos, 1º Trimestre 2020. Lição 10, 8 Março, 2020]
Segundo o Dicionário online Michaelis, Cultura é o conjunto de conhecimentos adquiridos, como experiências e instrução, que levam ao desenvolvimento intelectual e ao aprimoramento espiritual; instrução, sabedoria. Somente no sentido agrícola o termo toma a forma como o comentarista inicia o subtópico: “, a cultura tinha a ver apenas com o cultivo da terra, visando a produção de alimentos (Gn 4.2)”, o que não se aplica à Cultura como definida pela antropologia, que é a proposta da lição: “Conjunto de conhecimentos, costumes, crenças, padrões de comportamento, adquiridos e transmitidos socialmente, que caracterizam um grupo social.
Cultura significa todo aquele complexo que inclui o conhecimento, a arte, as crenças, a lei, a moral, os costumes e todos os hábitos e aptidões adquiridos pelo ser humano não somente em família, como também por fazer parte de uma sociedade da qual é membro. Cultura também é definida em ciências sociais como um conjunto de ideias, comportamentos, símbolos e práticas sociais, aprendidos de geração em geração através da vida em sociedade[1]
O termo cultura, que provém do latim cultus, faz referência à ação de cultivar o espírito humano e as faculdades intelectuais do homem. A sua definição foi evoluindo ao longo dos anos: desde a época do Iluminismo, a cultura passou a ser associada à civilização e ao progresso. Em geral, a cultura é uma espécie de tecido social que abarca as diversas formas e expressões de uma determinada sociedade. Como tal, os costumes, as práticas, as maneiras de ser, os rituais, a indumentária (forma de se vestir) e as normas de comportamento são aspectos incluídos na cultura
Também, não se aplica ao proposto na lição o texto de Provérbios 1.13, onde Salomão fala da sabedoria. O uso que Salomão faz desse termo, de uma maneira tipicamente hebraica, e mais prático do que filosófico, e suas implicações vão muito além do simples conhecimento. O termo carrega noções de capacitação para o comportamento adequado, sucesso, bom senso e perspicácia. A busca do homem pelo conhecimento as vezes é difícil e de enfadonho trabalho mesmo quando dada por Deus. O texto não se refere à busca de cultura ou fazer cultura como enfadonha, como se sugere no comentário.
2. A cultura dos gentios. Por haverem perdido o verdadeiro conhecimento de Deus, que lhes havia transmitido o patriarca Noé, logo após o Dilúvio, os seres humanos passaram a adorar a criatura em lugar do Criador (Rm 1.18-25). E, a partir daí, puseram-se a imaginar coisas vãs e soberbas (Gn 11.6; Sl 2.1).
Hoje, a antropologia cultural vê, como meros fenômenos sociológicos e culturais, a prostituição, o homicídio, a corrupção e até mesmo o infanticídio (2Rs 23.7; Lv 20.1-5; Ed 9.11). [Lições Bíblicas CPAD, Revista Adultos, 1º Trimestre 2020. Lição 10, 8 Março, 2020]
A Antropologia Cultural é um dos quatro grandes ramos da Antropologia Geral e estuda a diversidade cultural humana, tanto de grupos contemporâneos, como extintos. Ocupa-se do estudo da identificação das formas como os diferentes grupos habitam, alimentam-se, vestem-se, como estes organizam suas relações sociais, suas manifestações religiosas e como compreendem o significado dos seus símbolos.
Depois da queda e expulsão do Édem, tudo o que o homem cria está manchado pelo pecado. Não foi após Noé, mas com o primeiro casal, toda ação humana está manchada. Assim sendo, inclusive as ciências sociais como esta analisa a dicotomia humana sob uma ótica deturpada pelo estado de pecado. A afirmativa do comentarista “a antropologia cultural vê, como meros fenômenos sociológicos e culturais, a prostituição, o homicídio, a corrupção e até mesmo o infanticídio” carece de mais pesquisa, até onde cheguei, não encontrei nenhum artigo que dissesse o mesmo.
Imagine que você está em uma sala de concerto, apreciando uma linda orquestra interpretando a majestosa obra de J.S. Bach, Concerto de Brandemburgo No. 1, em F maior. Duas trompas, três oboés, um fagote, três violinos, uma viola, um violoncelo e um cravo. Todos esses instrumentos soam a boa música barroca que transcende o ambiente. De repente, surgem, no palco, alguns indivíduos que desafinam todas as cordas, e obstruem todos os instrumentos de sopro. Uma grande catástrofe dissonante e desafinada atinge os ouvidos da plateia, que não suporta o som desarmônico.  No entanto, você está ouvindo, mesmo de maneira desconfortável, os instrumentos com seus timbres  – violino com som de violino, oboé com som de oboé. Assim é a boa criação que Deus fez – como uma bela orquestra onde os instrumentos afinados desempenham a boa melodia, harmonizando-se com o conjunto e revelando a mais bela obra musical jamais vista. O pecado, no entanto, entrou no palco da criação e direcionou-a para um fim que não se harmoniza e não se adequa com o bom propósito de Deus. Mas, em sua natureza intrínseca, e de acordo com os desígnios de Deus para com a criação, os relacionamentos, a criatividade, a natureza, o conhecimento, são como os instrumentos da orquestra que desempenham sua função, mesmo eu desafinado, ou melhor, mesmo que afetado pelo pecado. [...]As cidades, na Bíblia, como Babel, Sodoma e Gomorra, Egito, Canaã, Babilônia e Roma – foram cidades que apresentaram a máxima expressão de perversidade humana (GOLDSWORTHY, 2018). Os descendentes de Caim e as pessoas de Babel, por exemplo, desenvolveram o mandato cultural: domesticação de animais, música, engenharia, tecnologia e arte. Mas, no meio desse desenvolvimento, os efeitos parasitários do pecado como a violência, o orgulho e a autonomia de Deus, acarretou juízo Todo o desenvolvimento cultural, para não entrar em colapso e caos, é sustentado pela graça comum de Deus – essa graça é a “dádiva da preservação da raça durante um tempo, mas não é a graça que age para redimir um povo e lhe restaurar a amizade com Deus” (GOLDSWORTHY, 2018).3
3. A cultura do povo de Deus. A visão do povo de Deus, quanto à cultura, tem como fundamento a Bíblia Sagrada, a inspirada, inerrante e completa Palavra de Deus (2Tm 3.16,17). Por essa razão, tudo quanto fazemos tem como base esta proposição: a Terra é do Senhor (Sl 24.1). Haja vista os filhos de Israel. Eles consagravam ao Senhor até mesmo suas colheitas (Lv 23.10).
Portanto, tudo quanto fizermos tem de ser aferido por este mandamento apostólico: “Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo para a glória de Deus” (1Co 10.31). [Lições Bíblicas CPAD, Revista Adultos, 1º Trimestre 2020. Lição 10, 8 Março, 2020]
A cultura do povo do Antigo Testamento, assim como o gentio, estava manchada pelo pecado, corrompida porque era produzida por um coração que não estava inteiramente reto diante de Deus. O mesmo é verdadeiro na Nova Aliança, não esqueçamos disso. No entanto, o nascido de Deus procura colocar em prática 1Co 10.31, procurando em sua liberdade crista, bem como o comportamento mais comum, e ser conduzido de maneira a honrar a Deus (E36.23).
Por muito tempo foi ensinado em nosso meio uma espécie de dicotomia de mundo, onde dividia-se o mesmo em “sagrado” e “secular” ou “mundano”, como a política, a arte, o esporte, o entretenimento, o conhecimento secular etc. Essa dicotomia é uma “tendência gnóstica profundamente arraigada de depreciar um domínio da criação (sociedade e cultura) com relação a outro” (WOLTERS, 2006, p. 74). Para o cristão, só há o sagrado, tudo pertence ao Senhor – “Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém!” (Rm 11.36). Deus e a fonte, o sustentador e o justo fim de tudo o que existe. Assim, é bom ressaltar que, nem tudo que envolve a cultura é pecaminoso e mal, sendo possível ao cristão apreciar o que é produzido culturalmente, desde que estas, logicamente, não firam o princípio bíblico.
De maneira geral, a cultura se define como “o conjunto de valores, crenças e práticas de uma sociedade em particular, que inclui artes, religião, ética, costumes, maneira de ser, divertir-se, organizar-se, etc”. Toda esta mescla de ingredientes constitui a beleza da cultura, mas também a torna potencialmente perigosa, especialmente no tocante ao relacionamento do cristão com a mesma. Por quê? Porque não existe cultura neutra, pura ou inocente. Toda expressão cultural traz consigo o reflexo da situação moral e espiritual de todos que a compõem. Segundo o Dr. Augustus Nicodemus, toda cultura é “uma mistura de coisas boas decorrentes da imagem de Deus no ser humano e da graça comum, e coisas pecaminosas resultantes da depravação e corrupção do coração humano. Toda cultura, portanto, por mais civilizada que seja, traz valores pecaminosos, crenças equivocadas, práticas iníquas que se refletem na arte, música, literatura, cinema, religiões, costumes e tudo mais que a compõe”. Por causa dessas questões, os cristãos que levam a Bíblia a sério costumam ter uma atitude, no mínimo, cautelosa em relação à cultura, exatamente por perceberem nela traços da corrupção humana. Contudo, é bom ressaltar que, nem tudo que envolve a cultura é pecaminoso e mal. O homem, como expressão da imagem de Deus, foi dotado de criatividade para exercer o domínio sobre a criação e ser uma bênção na edificação de uma sociedade segundo a vontade de Deus (Gn 1.26-30; 2.1-15). Este “mandato cultural”, bem como suas prerrogativas, foi determinado a todos os homens, independente de sua fé. Chama-se esta bênção de “graça comum”, uma vez que ela age tanto em cristãos quanto em não cristãos. Os servos de Deus precisam ter discernimento para julgar a cultura e, biblicamente, refletir sobre tudo o que a envolve a fim de não praticar ou apoiar aquilo que, pode ser bom e bonito aos olhos humanos, porém, reprovado diante do Senhor. As advertências bíblicas atestam que, a liberdade que o cristão tem no Senhor, não deve ser usada para justificar quaisquer práticas pecaminosas (Gl 5.13) e, a despeito de tudo ser lícito, nem tudo lhe convêm fazer (1Co 6.12).” 4
Como escreve Michael Horton, em “O Cristão e a Cultura”, publicado pela Cultura Cristã: “Para iniciar, quero definir alguns termos, Primeiro, estarei usando o termo “cultura” no seu senso mais amplo, referindo-me tanto à cultura popular (esportes, política, ensino público, música popular e diversões, etc. e a alta cultura ( horticultura, academicismo, música clássica, ópera, literatura, ciências, etc.). Uma definição útil e abrangente de “cultura” para nossa discussão pode ser “a atividade humana que intenciona o uso, prazer e enriquecimento da sociedade”. Segundo, por “igreja” estou dizendo a igreja institucional, -- “onde a Palavra de Deus é pregada e os sacramentos são administrados corretamente”, como diziam os reformadores. Quando, por exemplo, se diz que a igreja não deve confundir sua missão com as esferas da política, arte, ciência, etc., não se está sugerindo que os cristãos como indivíduos devessem abandonar esses campos (muito pelo contrário), mas que a igreja como instituição deve observar a sua missão divinamente ordenada. Essa igreja institucional deve ser entendida como expressão visível do corpo universal de Cristo através de todos os séculos e em todo lugar. A igreja institucional recebeu a comissão única de pregar a Palavra e fazer discípulos, Meu emprego da palavra “igreja”, portanto, não é apenas uma referência ao corpo coletivo de cristãos individuais, mas ao organismo vivo fundado por Cristo, ao qual foi confiado o seu próprio ministério pessoal.” 
SUBSÍDIO DIDÁTICO-PEDAGÓGICO
Inicie a aula de hoje fazendo a seguinte pergunta: O que é cultura? Deixe que seus alunos respondam livremente. Após a escuta atenta, passe a responde-los conforme a exposição deste tópico. A fim de enriquecer a sua explicação sobre a definição de cultura, leve em conta o seguinte fragmento textual: “‘Cultura’, derivado do latim cultura, refere-se aos costumes e produtos sociais inventados pelos seres humanos e refletindo suas crenças e valores. Segundo é interpretada nos dias de hoje, a cultura é caracterizada pelas artes, hábitos e comportamentos de um grupo social” (PALMER, Michael (Ed.). Panorama do Pensamento Cristão. Rio de Janeiro: editora CPAD, p.393).
  II. UMA CULTURA DOMINADA PELA INIQUIDADE
O homem foi posto no Éden, para lavrar a terra e fazer cultura, a partir da criação divina (Gn 1.26; 2.5). Mas, devido ao pecado, toda a cultura humana pôs-se contra Deus.
1. A cultura original. Se a Terra é do Senhor, todos deveriam saber que, neste mundo, não passamos de servos de Deus (Sl 24.1). Logo, tudo quanto produzimos deveria ser um reflexo da glória do Criador.
Se não tivéssemos caído em pecado, nossa cultura seria uma extensão da divina. Mas, por causa da Queda, a humanidade passou a trabalhar contra Deus (Ec 7.29).  [Lições Bíblicas CPAD, Revista Adultos, 1º Trimestre 2020. Lição 10, 8 Março, 2020]
A aquisição empírica da sabedoria, que é o homem buscando a justiça pelos seus próprios meios, falha. O homem só consegue ser reto mediante a ação de Deus. Todo intento do coração reflete as maquinações de todos os seres humanos desde Adão e Eva.
O Salmo 24 enaltece a soberania divina, seu senhorio sobre as coisas criadas. A afirmação de que Deus é absolutamente soberano na criação, na providência e na salvação é básica à crença bíblica e ao louvor bíblico. A visão de Deus reinando de seu trono é repetida muitas vezes (1Rs 22.19; Is 6.1; Ez 1.26; Dn 7.9; Ap 4.2; conforme Sl 11.4; 45.6; 47.8-9; Hb 12.2; Ap 3.21). O salmo inteiro expressa alegria, esperança e confiança no Todo-Poderoso.
“todos deveriam saber que, neste mundo, não passamos de servos de Deus” – à luz desta afirmativa do comentarista resta a pergunta: “E como crerão naquele de quem nada ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados?” (Rm 10.14,17).
2. A cultura do homicídio. Como resultado da apostasia de Adão, o homicídio é rapidamente incorporado à cultura humana. Haja vista que Lameque, para celebrar a morte de dois homens, escreveu um poema (Gn 4.23).
Os heróis daquele tempo eram os vilões que se davam à opressão e à matança (Gn 6.4,11). Hoje, vemos aqueles dias replicarem-se em todos os segmentos sociais; a cultura da morte não mudou. O que dizer do aborto, da eutanásia e da cruel indiferença ao próximo?. [Lições Bíblicas CPAD, Revista Adultos, 1º Trimestre 2020. Lição 10, 8 Março, 2020]
Lameque matou uma pessoa em legítima defesa. Ele disse às suas esposas que não precisavam ter medo de serem alvos de algum mal resultante da morte que ele havia provocado porque, se alguém tentasse retaliar, Lameque retaliaria e mataria o agressor. Ele achava que, se Deus havia prometido vingar-se sete vezes de alguém que matasse Caim, Deus se vingaria setenta vezes sete de quem atacasse Lamaque. A descendência de Satanás, os decaídos rejeitadores de Deus, enganadores e destrutivos, tinham dominado o mundo, corrompendo-o e enchendo-o de violência (Gn 6.11).
3. A cultura do erotismo. O erotismo também impregnou rapidamente a cultura humana; o casamento foi logo banalizado (Mt 24.37-39). A fraqueza moral, iniciada pelo homicida Lameque, fez-se cultura (Gn 4.23). A promiscuidade precisou apenas de um exemplo, a fim de espalhar-se. Que Deus tenha misericórdia de nossa geração. [Lições Bíblicas CPAD, Revista Adultos, 1º Trimestre 2020. Lição 10, 8 Março, 2020]
Em Gn 4.19 Lameque toma duas esposas. Não é dada a razão por que Lameque tomou duas esposas, tornando-se o primeiro exemplo de bigamia. Por causa da sua violação da lei do casamento, Lameque conduziu sua descendência em rebelião aberta contra Deus. Lembremos que esta era a descendência de Caim, homens decaídos e corruptos.
4. A cultura do consumo irrefreado. A cultura do mundo pré-diluviano, quanto ao consumo desenfreado, em nada diferia da nossa. Naquele tempo, as pessoas, já tomadas pela apostasia, não faziam outra coisa senão comer e beber (Mt 24.37,38). Hoje, gasta-se exageradamente naquilo que não satisfaz; é o consumo pelo consumo (Is 55.2). Eis o resultado de toda essa gastança: famílias endividadas e muita gente à beira da miséria. Sejamos próvidos e não pródigos. [Lições Bíblicas CPAD, Revista Adultos, 1º Trimestre 2020. Lição 10, 8 Março, 2020]
Apostasia se refere à pessoa que renuncia ou renega uma crença ou religião da qual fazia parte, a descendência ímpia de Caim não negou uma fé, eles estavam já totalmente apartados de Deus. Em Mt 24.37 “assim como foi nos dias de Noé”, a ênfase de Jesus não é tanto na extrema impiedade dos dias de Noé (Gn 6.5), mas na preocupação das pessoas com os assuntos corriqueiros do dia a dia ("comiam e bebiam, casavam e davam-se em casamento"; v. 38), quando o castigo sobreveio repentinamente. A passagem não fala de consumismo mas de uma atitude relapsa para com as advertência do pregador Noé. Eles haviam recebido advertências, na forma da pregação de Noé (2Pe 2.5) e mediante a arca em si, que era um testemunho do castigo que estava próximo. Mas eles não se preocupavam com tais assuntos e, portanto, foram destruídos inesperadamente no meio de suas próprias atividades diárias.
De fato, a cultura consumista hoje está em voga. “As pessoas sempre gostaram de adquirir bens e sempre houve uma tendência de se viver para o mundo material em vez de se viver para Deus. Se temos “bens” suficientes, nos sentimos seguros e até autossuficientes. Todavia nem mesmo o rico insensato na parábola de Jesus em Lucas 12 teve a infinidade de opções com a qual nos deparamos em nossa sociedade sobre onde podemos gastar o nosso dinheiro.”
SUBSÍDIO BÍBLICO-TEOLÓGICO
“Cultura Popular e Igreja
George Lucas, diretor do filme Guerras nas Estrelas e, por conseguinte, moderno fabricante de mitos, declara que o cinema e a televisão suplantaram a igreja como grandes comunicadores de valores e crenças. [...] A possibilidade de que a mídia substitua o papel historicamente vital desempenhado pela igreja na formação dos valores de uma comunidade é desconcertante, mas compreensível. Para muitos, o cinema se tornou uma igreja virtual. Mesmo dentro de nossa casa, verificamos que as devoções familiares são suplantadas pelos deuses eletrônicos. A televisão pode funcionar como santuário privado ao deus das imagens – um deus do lar grego ou olímpico da ESPN, um Buda pessoal da Televisão Pública ou um deus dionísio da TV a cabo. Cada um oferece sua própria visão da vida boa. E frequentemente jazemos prostrados diante de nosso deus, ficando preguiçosos e indolentes” (PALMER, Michael (Ed.). Panorama do Pensamento Cristão. Rio de Janeiro: editora CPAD, p.394).
  III. O EVANGELHO TRANSFORMA A CULTURA
Agora, precisamos responder a esta pergunta: “É possível transformar uma cultura dominada pela iniquidade?”.
1. Jesus nasceu num contexto cultural. Nenhum homem é capaz de viver à parte de uma cultura; somos seres culturais. Aliás, o próprio Filho de Deus, quando de sua encarnação, foi acolhido numa sociedade dominada por três grandes culturas — a judaica, a grega e a romana (Jo 19.20). Todavia, a sua mensagem transformou milhões de pessoas oriundas de todas as culturas do mundo, conduzindo-as a viver num só corpo (Rm 10.12). [Lições Bíblicas CPAD, Revista Adultos, 1º Trimestre 2020. Lição 10, 8 Março, 2020]
Transcrevo a seguir, parte do artigo “Encontros do Evangelho com a cultura nos ministérios de Jesus, da igreja primitiva e de Paulo | Por Marcos Orison Nunes de Almeida”, disponível em Práxis Missional: “Jesus não somente esvazia-se da condição divina, mas assume a forma cultural de um judeu da época. Alguns poderiam até pensar que dada a eleição de Israel por Deus e aliança histórica com esse povo, essa seria a cultura do próprio Deus. Esse equívoco, inocente e exclusivista, significa o mesmo que desprezar a posição de Deus como criador e senhor de todos os povos e culturas. Sabemos que a esperança e promessa messiânica eram provenientes da aliança com o povo de Israel e sua revelação escriturística, mas a divindade não está restrita a qualquer cultura, e ao assumir a cultura judaica ela o faz com a intenção de continuar o seu processo comunicativo de proclamação do Evangelho.
2. Encontros no ministério de Jesus - Partindo, então, do pressuposto de que Jesus assume a cultura judaica para se comunicar primeiro com os judeus e imediatamente depois com aqueles com quem convivia naquele contexto, analisaremos algumas passagens interessantes, que relatam encontros de Jesus com pessoas, em que ocorre a interação entre o Evangelho e aspectos daquela cultura.
Nos relatos dos evangelhos podemos perceber que Jesus é plenamente judeu no que concerne às situações mais comuns e gerais da cultura. Nascido em uma família da tribo de Judá, na cidade de Belém, desenvolveu a sua infância e adolescência em Nazaré da Galileia como filho de um carpinteiro. Foi circuncidado, consagrado como primogênito no templo de Jerusalém e novamente levado ao templo aos doze anos, na transição para a adolescência. Induzimos que ele falava, se vestia, se comportava e agia conforme qualquer judeu galileu
Uma forma bastante significativa de percebermos sua integração na cultura é no comparecimento às festas tradicionais do povo. Vale ressaltar que as festas, ao mesmo tempo em que tinham origem e componente religiosos, extrapolavam o ambiente da religião tornando-se uma expressão da cultura popular ao incluir a peregrinação para Jerusalém, a ocupação dos espaços públicos, o uso de músicas, danças, comidas, etc. Os evangelhos comentam a participação de Jesus, ao longo dos seus anos de ministério, nessas festas (João 2:23; 4:45; 5:1; 10:22; 11:55; 13:1). Provavelmente, ele não participava apenas das festas de fundo religioso, mas também das festividades menores, típicas de qualquer cultura, além de refeições especiais, como convidado. Essa característica da vida de Jesus era tão marcante que ele diz ter sido estereotipado como “comilão e beberrão” (Lucas 7:34). O bom exemplo dessa integração plena na cultura talvez seja o relato do início de seu ministério ocorrido no casamento de Caná, registrado no capítulo 2 do livro de João. Essa rica passagem indica que a família de Jesus foi convidada para o casamento e que eles não apenas foram, mas, principalmente, impediram que a família do noivo fosse envergonhada diante dos convidados pela falta de vinho na festa. Toda a significância desse milagre, quase sem importância, parece voltar-se para uma questão cultural. Naquela cultura, havia grande expectativa sobre o anfitrião para que servisse da melhor forma possível, e com abundância, aos seus hóspedes.
Explorando um pouco mais esse hábito de Jesus de participar de refeições, temos o relato do encontro que ele teve com o chefe dos cobradores de impostos chamado Zaqueu (Lucas 19:1-10). O protocolo da cultura judaica pressupunha que um mestre, como Jesus, sendo uma pessoa temente a Deus e modelo para seus discípulos, não se sentasse à mesa com um cobrador de impostos. Sentar-se à mesa com alguém, naquela cultura, significava compartilhar a comida e a casa, um sinal de aproximação, aceitação e comunhão entre o anfitrião e o convidado. O cobrador de impostos, ou publicano, era considerado um pecador e traidor por representar a opressão romana sobre o povo judeu e por ser corrupto. Já um mestre judeu era uma pessoa destacada socialmente por seu conhecimento e capacidade de atrair e ensinar pessoas. Esperava-se dos mestres um comportamento exemplar e conforme a moral da cultura judaica. O comportamento de Jesus, no entanto, é contrário ao estipulado pela convenção cultural.
Antes de tentarmos concluir qual o critério adotado por Jesus para que em determinadas situações ele se adaptasse plenamente à cultura e em outras ele a confrontasse, vejamos outros encontros interessantes ocorridos em sua caminhada ministerial. João 4:1-30 narra o encontro de Jesus com uma mulher samaritana com muitas nuances e temas transversais. Particularmente, gostaria de atentar para pelo menos dois padrões culturais confrontados por Jesus nesse episódio. O primeiro padrão consistia no costume de não ser considerado de bom grado homens conversarem com mulheres desconhecidas em ambientes públicos (João 4:27). Uma abordagem furtiva poderia ser interpretada como assédio ou coisa pior.
O segundo padrão cultural, para os judeus, era o de não se relacionar com os samaritanos, considerados como impuros. A condição cultural era tão séria que em uma viagem, como a que Jesus estava fazendo, conforme narrado no texto, entre a região da Judéia e da Galileia, embora o caminho mais curto fosse cruzando o território de Samaria, os judeus preferiam contorná-lo (João 4:9). Jesus, no entanto, quebra esses dois protocolos culturais tanto passando por Samaria quanto conversando com uma mulher daquela região junto ao poço público ao meio-dia.
- Ainda outra situação de confronto cultural se deu no encontro de Jesus com as crianças. Naquele contexto, as crianças eram desprezadas e alijadas da maioria das situações e ambientes da sociedade, principalmente dos espaços públicos ou dos que envolviam autoridades, pessoas de destaque e atividades de adultos. Na passagem de Lucas 18:15-17, vemos pessoas, talvez mães, tentando levar suas crianças para serem tocadas ou abençoadas por Jesus. Não sabemos se a intenção era a expectativa de cura de alguma enfermidade ou a simples bendição vinda do mestre, mas o fato é que como a situação feria o padrão cultural, os discípulos tentavam rechaçar as crianças. Jesus, então, não apenas repreende essa atitude dos discípulos como acolhe as crianças e as usa como referência metafórica no seu ensino.
Procurando encontrar algum princípio conclusivo que governa a atitude de Jesus ora integrando-se à cultura, ora contrapondo-se a ela, podemos afirmar que toda vez que uma prática cultural se interpõe ao acesso de Jesus às pessoas, ele se permite romper com o padrão visando o bem maior que é a comunicação do seu Evangelho. Nos casos em que as práticas culturais não passam de atividades cotidianas, que não ferem qualquer valor do Evangelho, Jesus se adapta plenamente a elas. O que percebemos é que, para Jesus, tudo aquilo que culturalmente estabelece uma barreira para o seu relacionamento com as pessoas passa a ser reorientado, para não dizer confrontado, mesmo que como consequência ele esteja passivo de receber algum tipo de censura.”
2. O Evangelho transforma a cultura. Conquanto não nos seja possível converter toda uma sociedade, podemos influenciá-la com a mensagem do Evangelho. Haja vista o que aconteceu em Éfeso, durante a terceira viagem missionária de Paulo, quando praticantes de artes mágicas queimaram seus livros em público (At 19.19).
Se quisermos, de fato, transformar o nosso país, devemos evangelizá-lo de acordo com o modelo de Atos dos Apóstolos (At 1.8). [Lições Bíblicas CPAD, Revista Adultos, 1º Trimestre 2020. Lição 10, 8 Março, 2020]
Lemos em Romanos 12.2 a evocação de Paulo: “E não vos conformeis a este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente”. "Conformeis" diz respeito a assumir uma expressão exterior que não reflete o que realmente há no interior, um tipo de embuste ou representação. A forma da palavra sugere que os leitores de Paulo já estavam permitindo que isso acontecesse e deveriam parar. Nesta passagem ‘este século’ é melhor traduzido por "geração", referindo-se ao sistema de crenças, valores, ou ao espírito da época — cultura. Esse resumo do pensamento contemporâneo e de seus valores forma a atmosfera moral do nosso mundo, e é sempre dominado por Satanás (2Co 4.4). A ordem é ‘transformai-vos’. A palavra grega da qual deriva a palavra "metamorfose", indica uma mudança na aparência externa. Mateus usa a mesma palavra para descrever a transfiguração (Mt 17.2). Assim como Cristo exibiu, de maneira breve e limitada, a sua natureza interior divina e a sua glória na transfiguração, os cristãos devem manifestar, exteriormente, a sua natureza interior redimida, não uma vez, mas diariamente (2Co 3.18; Ef 5.18). A renovação da mente exigida nessa metamorfose ocorre somente à medida que o Espírito Santo transforma os nossos pensamentos por meio do estudo perseverante da Escritura e da meditação nela (Sl 119.11; cf. Cl 1.28; 3.10,16; Fp 4.8). Influenciar uma cultura de modo a transformá-la exige santidade em tudo, mesmo que isso nos traga prejuízo e perseguição ferrenha!
“O cristão como agente transformador da cultura - A cultura deve ser levada cativa ao senhorio de Cristo. Sem desconsiderar a queda e o pecado, mas enfatizando que, no princípio, a criação era boa, os que estão nesse grupo enfatizam que um dos objetivos da redenção é transformar a cultura. Sendo assim, por mais iníquas que sejam certas instituições, elas não estão fora do alcance da soberania de Deus. Ou seja, mesmo sabendo da queda, o cristão não abandona a cultura (o cristão contra a cultura), mas busca redimi-la, levá-la aos pés de Cristo. Agostinho (354-430), João Calvino (1509-1564), John Wesley (1703-1791) e Abraham Kuyper (1837-1920) são alguns dos que entenderam que os cristãos são agentes de transformação da cultura, posição que é exposta nesta obra de Niebuhr. Em Apocalipse, vemos que Deus redime tanto a pessoa, como a diversidade cultural. Nesta posição, não há divisão entre o sagrado e o profano – essa é uma dicotomia católica (a divisão sagrado/profano afirma que na igreja fazemos atividades sagradas e, no mundo, atividades profanas; ou seja, rezar, ser padre é algo sagrado, mas construir um prédio e ser um engenheiro são coisas profanas). A divisão bíblica é entre o que é santo e está em pecado; e que está em pecado deve ser santificado”
3. Os crentes de Corinto, um exemplo da influência do Evangelho. Corinto era uma das cidades mais promíscuas no período do Novo Testamento. Não obstante, Paulo, ao levar-lhe o Evangelho, resgatou preciosas almas aprisionadas a um contexto moralmente doentio (1Co 6.9-11).
Apesar de seus graves problemas, a igreja coríntia detinha todos os dons espirituais (1Co 1.7). O mais importante, porém, é que os seus membros, dantes escravizados por Satanás, eram agora chamados de santos em Jesus Cristo (1Co 1.1,2). [Lições Bíblicas CPAD, Revista Adultos, 1º Trimestre 2020. Lição 10, 8 Março, 2020]
Até mesmo pelos padrões pagãos de sua própria cultura, a cidade de Corinto tornou-se tão corrupta moralmente que o seu próprio nome virou sinônimo de depravação; "corintianizar" representava imoralidade flagrante e libertinagem acompanhada de embriaguez. Em 1Co 6.9-10, Paulo lista alguns dos pecados específicos pelos quais a cidade era conhecida e que, anteriormente, tinham caracterizado muitos cristãos dessa igreja. Tragicamente, alguns dos piores pecados ainda eram encontrados entre alguns membros da igreja. Um desses pecados, o incesto, era condenado até mesmo pela maioria dos gentios pagãos (1Co 5.1).
Incapaz de romper totalmente com a cultura da qual vinha, a Igreja de Corinto não cumpriu seu papel de agente transformador. Com seu espírito faccioso e divisionista, a despeito de sua pretensa espiritualidade, ficou na história como um alerta às igrejas cristãs de todo o mundo, registrado na carta que Paulo lhes escreveu. Antes, o apóstolo mostrou que a causa de existirem divisões na igreja de Corinto era o mundanismo – eles continuavam a prezar a sabedoria humana. Agora, ele aponta a carnalidade como a razão de criarem partidos.
O problema mais sério da igreja de Corinto era o mundanismo, uma relutância em se separar da cultura que os rodeava. A maioria dos cristãos não conseguia deixar, de maneira consistente, sua conduta antiga, egoísta, imoral e pagã. A carta que Paulo escreveu visava corrigir esses desvios. Foi necessário que Paulo escrevesse a eles para corrigir isso, bem como ordenar aos cristãos fiéis que não somente rompessem a comunhão com os membros desobedientes e não arrependidos, como também os expulsassem da igreja (5.9-13). Sinceramente, não creio que esta igreja sirva como exemplo da influência do Evangelho.
SUBSÍDIO BÍBLICO-TEOLÓGICO
”Os cristãos são chamados filhos da luz, mesmo quando buscamos introduzir luz num mundo de trevas lúgubres e fomentar os resultados da luz. Paulo era adepto de achar aberturas para o Evangelho na cultura popular de sua época. Sua estratégia comunicativa de ser ‘tudo para todos’ foi posta em prática no Areópago, onde uma obsessão grega, a adoração a um deus desconhecido, tornou-se oportunidade notável. Citando os poetas gregos e referindo-se a peças teatrais, corridas e lutas de boxe gregas, Paulo tomou a cultura ateniense como ponto de partida para introduzir a luz do Evangelho. Em vez de separar-se da cultura deles ou de consumi-la sem criticá-la, Paulo a explorou e encontrou meios de adaptá-la aos seus próprios propósitos. Deste modo, ele redimiu e transformou a cultura popular de seu tempo” (PALMER, Michael (Ed.). Panorama do Pensamento Cristão. Rio de Janeiro: editora CPAD, p. 407).
  CONCLUSÃO
A cultura atual em nada difere da pré-diluviana. No entanto, podemos influenciá-la através da pregação do Evangelho de Cristo. Se levarmos a sério a promessa de Atos 1.8, viremos não apenas a influenciá-la, mas igualmente transformá-la. Afinal, somos o sal da terra e a luz do mundo. Somente a Igreja de Cristo reúne essas propriedades tão raras para abalar as estruturas deste mundo que jaz no Maligno.
Sejamos santos. Evangelizemos e façamos missões! É a ordem de Cristo. Nós podemos transformar a cultura da sociedade atual, como fez o apóstolo Paulo em Tessalônica.  [Lições Bíblicas CPAD, Revista Adultos, 1º Trimestre 2020. Lição 10, 8 Março, 2020]
O evangelho é uma mensagem sobre reconciliação e identificação. Deus se identificou com os seres humanos, se tornando ser humano em Jesus Cristo, e em Jesus Cristo reconciliou-nos consigo mesmo. Obviamente, portanto, o evangelho só pode ser comunicado de maneiras que comuniquem reconciliação e identificação.
“Quando lemos sobre os primórdios da história do cristianismo, vemos que a grande força dos convertidos daqueles dias estava em viver de uma forma diferente – tratando o “inferior” com respeito, amando o próximo, ajudando o necessitado, vivendo em unidade apesar das diferenças – e que este “novo” estilo, bem diferente dos valores comumente aceitos pela população do Império Romano, era um grande aliado na pregação do evangelho da salvação em Jesus Cristo. A chamada Igreja Primitiva era pacífica, mas de modo algum passiva diante dos desafios da cultura romana, o que também aconteceu ao longo da história, de forma mais intensa ou mais frouxa, dependendo da época, mas sempre tendo na comunidade genuinamente cristã, uma contracultura transformadora (por genuína, digo aqueles que realmente seguiam o ensino de Cristo, e não os que carregavam apenas o título). Hoje, cabe a nós formular (e responder) algumas perguntas para nossa geração de cristãos: – Quais são os aspectos da nossa cultura que precisam ser confrontados? – Quais são os aspectos da nossa vida que já cederam a esta cultura anticristã e que precisamos mudar urgentemente? Viver a contracultura do evangelho de Jesus mergulhados numa cultura que se afasta cada vez mais do padrão cristão é um grande desafio, mas nunca foi diferente. O autor de Hebreus fala de “homens dos quais o mundo não era digno” (Hb 11:38), porque optaram por viver o evangelho até as últimas consequências, com a certeza de que algo muito superior tinham ao seu alcance.” 9
“Irmãos, sede meus imitadores, e atentai para aqueles que andam conforme o exemplo que tendes em nós; porque muitos há, dos quais repetidas vezes vos disse, e agora vos digo até chorando, que são inimigos da cruz de Cristo; cujo fim é a perdição; cujo deus é o ventre; e cuja glória assenta no que é vergonhoso; os quais só cuidam das coisas terrenas. Mas a nossa pátria está nos céus, donde também aguardamos um Salvador, o Senhor Jesus Cristo, que transformará o corpo da nossa humilhação, para ser conforme ao corpo da sua glória, segundo o seu eficaz poder de até sujeitar a si todas as coisas.” (Fp 3.17-21).
Francisco Barbosa
Disponível no blog: auxilioebd.blogspot.com.br

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