segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023

ELEMENTOS DA PSICOPEDAGOGIA QUE PODEM SER APLICADOS À EDUCAÇÃO CRISTÃ

A educação cristã não pode ser vista dissociada da prática pedagógica. O professor deve buscar recursos que facilitem o processo de aprendizagem do aluno. Jesus, durante o seu ministério, ao ensinar, usou recursos pedagógicos e os aplicou à luz das especialidades humanas. Muitos recursos adotados por ele são hoje usados pela pedagogia contemporânea.

Existem muitas abordagens possíveis para o exercício do ato educativo. Dentre elas está a Psicopedagogia. A Psicopedagogia reúne conhecimentos de várias áreas como a Pedagogia, a Psicologia, a Neurociência, a Fonoaudiologia e a Psicolinguística, entre outras. Buscar conhecimento nessas áreas é imprescindível para compreender a Psicopedagogia e os benefícios desta para o processo da aprendizagem.

O que é Psicopedagogia 

A Psicopedagogia é uma área do conhecimento que estuda e se aprofunda no processo de aprendizagem humana e está presente no desenvolvimento intelectual de crianças, adolescentes e adultos.

O uso de elementos da Psicopedagogia na educação contribui para melhorias no processo de aprendizagem. Por meio da Psicopedagogia é possível a identificação de dificuldades e falhas no processo de ensino, proporcionando a implementação de métodos e estratégias eficazes que corrijam os problemas e dificuldades de aprendizagem.

A psicopedagogia identifica os problemas e as dificuldades de aprendizagem não somente pelo aspecto cognitivo, mas também emocional e social, podendo ajudar a escola a lidar melhor com a questão da diversidade e o processo da inclusão. Ao entender como cada aluno aprende pode realizar meios que previnam o problema da aprendizagem identificando quais são os elementos facilitadores ou dificultadores desse processo.

O Desenvolvimento Cognitivo e a Aprendizagem

O desenvolvimento cognitivo é fundamental para o aprendizado. É a partir da cognição que somos capazes de assimilar e processar informações, assim como tomar decisões e interagir com o mundo e as pessoas ao nosso redor.

O desenvolvimento cognitivo é um campo de estudo da Neurociência e da Psicologia que explora vários aspectos do desenvolvimento humano que envolve a aquisição de recursos conceituais, habilidades perceptivas, aprimoramento da linguagem além de outros aspectos do desenvolvimento do cérebro.

O desenvolvimento cognitivo ocorre de forma gradual. À medida que o cérebro vai amadurecendo o indivíduo gradualmente vai ampliando sua capacidade de assimilar informações e elaborar novos conhecimentos.

O desenvolvimento cognitivo depende de dois fatores: A plasticidade do Sistema Nervoso e a influência do ambiente. Conclui-se que ambas são determinantes para a maturidade do organismo.

1. A plasticidade do Sistema Nervoso

A cada novo comportamento aprendido desde o nascimento até a fase adulta, várias conexões neurais ocorrem e se fixam no SNC, contribuindo para seu desenvolvimento normal e evolutivo. À medida que a criança recebe mais e mais estímulos aumentam suas experiências e aprendizado.

2. A influência do ambiente

A influência do ambiente são aspectos determinantes para o desenvolvimento cognitivo. É necessário um ambiente favorável para que a criança desenvolva as suas capacidades e garanta a realização das suas potencialidades de crescimento.

Uma forma eficaz de estimular a criança e ajudá-la no desenvolvimento cognitivo é através do brincar. Estudos mostram que a criança manifesta suas potencialidades numa atmosférica lúdica.

A Utilização de Elementos da Psicopedagogia na Educação Cristã

O professor lida, no dia a dia, com alunos que apresentam os mais diversos históricos. Para que ele tenha êxito se faz necessário que aplique metodologias que se encaixem com o perfil de cada um dos alunos, considerando aqueles que apresentam dificuldades de aprendizagem, quer seja pela não adaptação aos métodos pedagógicos, ou por alguns transtornos que apresentem.

Para que alcancemos bons resultados em qualquer área da vida, precisamos de estratégias e métodos adequados. Se pretendemos fazer algo bem-feito, precisamos seguir um método que já tenha sido testado e comprovado. Se seguimos rigorosamente a esse método as chances de alcançarmos êxito são bem prováveis.

Na aprendizagem isso não é diferente, no entanto, algumas vezes fazemos tudo corretamente e não conseguimos êxito. O método que estamos aplicando funciona, normalmente, para a maioria, mas não especificamente para os alunos que apresentam problemas e dificuldades de aprendizagem. Nestes casos esse método se torna ineficaz.

Um método se torna eficaz quando aplicado de forma correta. Cada faixa etária exige uma atenção especial. Um método usado para um adulto, por exemplo, dificilmente servirá para a criança ou o adolescente. Vejamos como usar o potencial do aluno, de acordo com cada faixa etária.

1. A criança

As atividades propostas às crianças devem ser graduadas conforme o seu nível mental, de acordo com sua etapa de desenvolvimento. O professor deve tomar por base o estágio em que se encontra a criança, tendo em vista sempre o estágio seguinte ao seu desenvolvimento genético. Para Piaget, inteligência é o mecanismo de adaptação do organismo a uma situação nova e como tal, implica a construção contínua de novas estruturas.

O professor precisa ter cuidado para não subestimar a criança quanto a suas capacidades. É muito comum esperarmos que elas não sejam capazes de realizar determinadas tarefas.

Não devemos fazer pela criança aquilo que ela pode fazer sozinha, mas sempre propor que ela resolva por si mesma. Quando muito, dar uma pequena ajuda, mas nunca substituir a ação da criança pela nossa.

É imprescindível o envolvimento da criança em atividades que a levem a uma experiência com a Palavra de Deus. Os conteúdos são fundamentais, mas não existem sem a atividade. Ensinar falando pressupõe o esquecimento, ao passo que tudo que se aprende com a ação, pela experiência, fica para sempre.

2. O adolescente

Quando se trata do adolescente, devem ser levados em consideração os seguintes aspectos: Primeiro: a capacidade intelectual. O professor deve levar em conta o desenvolvimento mental do adolescente e sua faculdade para estabelecer relações e para resolver problemas de complexidade cada vez maior.

A mente do adolescente é um poderoso instrumento que, muitas vezes, se torna para ele uma fonte de alegria, através da excitação da curiosidade, da sensação da descoberta, da sensação de triunfo decorrente de ter solucionado um quebra-cabeça de ter resolvido um problema desafiante. O professor precisa aproveitar esse potencial e levar o seu aluno a adquirir uma visão significativa de suas experiências subjetivas.

O segundo aspecto importante que não pode ser esquecido pelo professor, é a capacidade que o adolescente tem, para lidar com abstrações. O adolescente é capaz de dominar uma proporção maior do saber, relacionado a símbolos e artes do que às coisas concretas. O professor deve desenvolver métodos e técnicas adequados para ensinar a Bíblia e os valores cristãos.

3. Jovens e adultos

Cada etapa da vida exige aprendizagens peculiares a fase em que o indivíduo vive. Isto é perceptível na infância, adolescência e nas diferentes etapas adultas.

O jovem adulto, além de conquistar sua identidade profissional e alcançar sua independência pessoal tão sonhada, na infância e adolescência, atinge também seu desenvolvimento cognitivo máximo e o pleno vigor físico.

O professor ou líder de jovens e adultos não pode esquecer que os adultos continuam adquirindo novos conhecimentos e estão aptos para aprender. A diferença entre a educação de adultos e a infantil está na motivação de ambas as fases. A criança e o adolescente muitas vezes veem a escola secular e/ou a EBD como uma obrigação, enquanto o adulto está motivado para aprender. O preparo do professor desta faixa etária é fundamental, para que o aluno se mantenha sempre motivado.

Para facilitar o processo de aprendizagem adulta, é fundamental levarmos em consideração as experiências, conhecimentos e habilidades trazidos pelo aluno. O professor precisa ter um preparo intelectual que corresponda com o desenvolvimento cognitivo que o aluno possui. A inserção de novos conhecimentos e habilidades deve estar vinculada à realidade dessas pessoas.

A metodologia de ensino aplicada para jovens e adultos precisa integrar, quanto mais possível, as atividades de ver, ouvir, pensar, falar e fazer (atividades perceptivas, motoras e cognitivas). O professor deve usar estratégias de ensino adequadas aos adultos. Quanto mais estas atividades são introduzidas, maior e mais estável é a aprendizagem do aluno. Esta dinâmica pode ser descrita como eminentemente participativa, favorecendo a permanência do processo de aprendizagem.

4. O idoso

Ensinar pessoas da terceira idade é um grande desafio. Esta fase exige alguns cuidados especiais. O professor precisa ter consciência de que está lidando com uma faixa etária de pessoas que têm algumas limitações como: enfraquecimento da memória, retardo do pensamento, acentuação dos traços de caráter, tendência à rigidez mental e afetiva, dificuldade de mudar de hábitos, egocentrismo etc.

A prática educativa envolvendo pessoas da terceira idade deve considerar, além das limitações descritas, o contexto de vida do idoso e seu desenvolvimento pessoal e social. A aprendizagem adulta tende a ser influenciada pelas condições nutricionais infantis e pela fadiga. Por esta razão, há necessidade de adequar as estratégias de ensino à realidade destes sujeitos.

O ensino na terceira idade é facilitado, quando oferecemos um ambiente que propicie ao indivíduo segurança pessoal e possibilite a prática de conhecimentos e habilidades significativas. A estratégia mais adequada à aprendizagem adulta é a dinâmica participativa, que consiste em integrar atividades perceptivas, motoras e cognitivas.

CONCLUSÃO

É importante compreendermos como se dá a aprendizagem, para que saibamos usar elementos da Psicopedagogia nas salas da EBD; de igual modo, é fundamental entendermos também o porquê do não aprender, mesmo quando o aluno não apresenta nenhum comprometimento mental que explique tal dificuldade.

 Jamiel de Oliveira Lopes é pastor; articulista; comentarista das revistas juvenis da CPAD; mestre em Psicologia Clínica pela PUC-Campinas (SP); psicopedagogo; professor universitário; psicólogo clínico; atuando profissionalmente com adolescentes; adultos e casais; autor dos livros “Psicologia Pastoral"; “Psicologia Aplicada a Educação Cristã"; “E Agora o que fazer?”, todos editados pela CPAD.


Extraído da Revista Ensinador Cristão, ano 24, nº 92, p. 6. Rio de Janeiro: CPAD 2023. 

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