sábado, 21 de março de 2015

LIÇÃO 12: NÃO COBIÇARÁS




LEITURA BÍBLICA EM CLASSE
Êxodo 20.17; 1 Reis 21.1-5,9,10,15,16


Êxodo 20:17
17 Não cobiçarás a casa do teu próximo; não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo.

1Rs 21.1-5, 9, 10, 15, 16
1  E sucedeu, depois destas coisas, tendo Nabote, o jezreelita, uma vinha que em Jezreel estava junto ao palácio de Acabe, rei de Samaria,
2  que Acabe falou a Nabote, dizendo: Dá-me a tua vinha, para que me sirva de horta, pois está vizinha, ao pé da minha casa; e te darei por ela outra vinha melhor do que ela; ou, se parece bem aos teus olhos, dar-te-ei a sua valia em dinheiro.
3  Porém Nabote disse a Acabe: Guarde-me o SENHOR de que eu te dê a herança de meus pais.
4  Então, Acabe veio desgostoso e indignado à sua casa, por causa da palavra que Nabote, o jezreelita, lhe falara, dizendo: Não te darei a herança de meus pais. E deitou-se na sua cama, e voltou o rosto, e não comeu pão.
5 Porém, vindo a ele Jezabel, sua mulher, lhe disse: Que há, que está tão desgostoso o teu espírito, e não comes pão?
9  E escreveu nas cartas, dizendo: Apregoai um jejum e ponde Nabote acima do povo.
10  E ponde defronte dele dois homens, filhos de Belial, que testemunhem contra ele, dizendo: Blasfemaste contra Deus e contra o rei; e trazei-o fora e apedrejai-o para que morra.
15  E sucedeu que, ouvindo Jezabel que já fora apedrejado Nabote e morrera, disse Jezabel a Acabe: Levanta-te e possui a vinha de Nabote, o jezreelita, a qual ele te recusou dar por dinheiro; porque Nabote não vive, mas é morto.
16  E sucedeu que, ouvindo Acabe que já Nabote era morto, Acabe se levantou, para descer para a vinha de Nabote, o jezreelita, para a possuir



OBJETIVO GERAL


Apresentar a sutileza do último mandamento do Decálogo.


OBJETIVOS  ESPECÍFICOS


Após esta aula, o aluno deverá estar apto a:

I.    Tratar a abrangência e o objetivo do último mandamento.
II.   Mostrar o real significado da cobiça.
III.  Ressaltar as consequências nefastas da cobiça mediante o exemplo da vinha de Nabote.


SUBSÍDIO I




INTRODUÇÃO


A cobiça está causando estragos à sociedade na qual vivemos, as pessoas estão pagando um preço elevado por causa desse pecado. Diante dessa realidade, nos voltaremos, na aula de hoje, para os perigos individuais e coletivos da cobiça. Inicialmente mostraremos que esse pecado acabou sendo naturalizado, sendo inclusive incentivado pela propaganda. Por fim, analisaremos os reflexos de uma sociedade gananciosa, e a necessidade de resgatar o princípio bíblico do contentamento.
   

I. UM PECADO NATURALIZADO


A cobiça é proibida no décimo e último mandamento, a palavra do Senhor é enfática: “Não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçarás a mulher do eu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo” (Ex. 20.17). O verbo cobiçar, nesse mandamento, é chamad e expressa o desejo desenfreado de possuir algo ou alguém. Esse tipo de desejo é identificado no Jardim do Eden, quando Eva cobiçou comer o fruto proibido (Gn. 3.6). Com base em Ex. 20.17, é possível identificar vários tipos de cobiças: bens materiais, tais como carros luxuosos, e mansões bem localizadas. A indústria da beleza faz também com que as pessoas desejam possuir homens e mulheres com corpos esculturais. Há uma tendência à insatisfação, ninguém fica feliz com o último veículo que adquiriu, logo após colocá-lo na garagem, lamentam não ser igual ao do vizinho. Há aqueles que não se satisfazem com seu cônjuge, estão sempre em busca da mulher do próximo, resultando em adultério (Mt. 5.28). Em relação aos bens materiais, a igreja conseguiu institucionalizar a cobiça, denominando-a de prosperidade, que na verdade é ganância. Muitos crentes, influenciados pela teologia da ganância, pedem para satisfazer seus desejos descabidos (Tg. 4.13). As promessas alusivas à Israel, e que se concretizarão no Milênio, estão sendo tomadas individualmente por alguns crentes, que arrogam ser proprietários das “bênçãos” de Deus.


II. QUANDO A COBIÇA SE PROPAGA


Alguns crentes deixaram de medir as consequências da cobiça, não poucos estão endividados por seguirem a pauta da teologia da ganância. Tiago revela os estragos desse tipo de pecado, por causa dele pessoas estão contendendo umas com as outras (Tg. 4.1,2). O princípio da meritocracia tem seu lado positivo e negativo, é preciso ter cautela para não assumi-lo cegamente. Há aqueles que por acharem que merecem o que têm, defendem que podem desejar o que quiserem. Essa atitude é incitada pelos meios de comunicação, principalmente através da propaganda, para alimentar o consumo desenfreado.  Mas Jesus advertiu em relação ao pecado da cobiça, listando-o entre outros, tais como roubo, assassinato e adultério (Mt. 7.21,22). Entre aqueles que ficarão fora do reino de Deus, apresentados por Paulo em I Co. 6.9,10 estão os cobiçosos. Há exemplos bíblicos de problemas causados individualmente e coletivamente por causa da cobiça, as mais conhecidas são a de Acã  (Js. 7.21) e Acabe (I Rs. 21.1-3). No contexto do Novo Testamento, o desejo por possuir cada vez mais é uma demonstração de carnalidade, e mostra ausência do fruto do Espírito, considerando que um dos seus aspectos é o autocontrole (Gl. 5.16-22). Apelando mais uma vez a Tiago, sabemos que uma vez que a pessoa cultiva esse pecado no coração, o final será a ruína, que gera a morte (Tg. 1.14,15). Mas há aqueles, inclusive nas igrejas, que acham normal cobiçar, gostariam de estar na lista dos mais ricos da Revista Forbes. Paulo, no entanto, adverte que aqueles que querem ser ricos caem em tentação, em concupiscências loucas, que levam à perdição (I Tm. 6.9).


III. CULTIVE O CONTENTAMENTO


Os cristãos precisam fugir desse modelo mundano, que alimenta a ganância, e naturaliza a cobiça. Para tanto devem saber que “é grande ganho a piedade com contentamento” (I Tm. 6.6). Por isso, devemos aprender a cultivar a satisfação, saber distinguir o que é necessário do supérfluo. De modo que, conforme instrui o autor da Epístola aos Hebreus, nossos costumes devem ser sem avareza, contentando-nos com o que temos (Hb. 13.5). Essa é uma prática que se concretiza ao longo da experiência com Deus, ao aprendizado na dependência, sabendo que Ele nos provê “o pão nosso de cada dia” (Mt. 6.11). Na escola de Cristo, aprendemos, como fez Paulo, a estar contente com o que se tem, saber estar abatido pela privação, e se for o caso, a ter em abundância (Fp. 4.11-13). Por deixarem de cultivar essa disciplina cristã, muitos cristãos estão dobrados diante de Mamom (Mt. 6.24). Ao invés de investir neste mundo tenebroso, cuja riqueza perece, e causa ansiedade (Mt. 6.19-21), busquemos primeiro o Reino de Deus, e o necessário nos será dado (Mt. 6. 33). O texto, no seu devido contexto, nos diz que “estas coisas”, isto é, alimentação e vestimenta, não “todas as coisas”, como apregoa a teologia da ganância. Tenhamos cuidado para não dar primazia ao dinheiro em nossas vidas, pois a esse respeito alertou o Apóstolo que o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males (I Tm. 6.10). Uma vida cristã sadia não está pautada na cobiça, na insatisfação defendida pela sociedade, mas na gratidão ao Senhor, reconhecendo que Ele sempre nos dá mais do que mereceremos.


CONCLUSÃO


A cobiça está destruindo muitas vidas, até mesmo daqueles que são considerados evangélicos. Por causa da ganância muitos não conseguem mais encontrar satisfação, nem mesmo na presença de Deus. O Senhor revelou a Abraão que Ele, e somente Ele, é nossa maior recompensa, o Grande Galardão (Gn. 15.1). Quando encontramos plena satisfação em Deus, podemos trabalhar com afinco, buscar suprir as necessidades pessoais e familiares, mas sem nos tornar escravos do consumismo.

Prof. Ev. José Roberto A. Barbosa

  
  

SUBSÍDIO II



INTRODUÇÃO


O décimo mandamento envolve atos e sentimentos. O sétimo mandamento proíbe o adultério, e aqui Deus proíbe o desejo de adulterar. O Senhor Jesus foi direto ao ponto: "qualquer que atentar numa mulher para a cobiçar já em seu coração cometeu adultério com ela" (Mt 5.28). O último mandamento protege o ser humano de ambições erradas. A cobiça infecta pobres e ricos nas suas mais diversas formas. [Comentário: Segundo Agostinho, quando desejamos mais do que o suficiente, estamos cobiçando. Cobiçar poderia ser traduzido também por “ansiar por”. Calvino dirá que “a suma (desse mandamento) é que não surja em nós um pensamento que mova a nossa alma por uma concupiscência prejudicial e inclinada para a queda do outro”. Calvino brilhantemente escreve, nas Institutas, que a finalidade do décimo mandamento é que afastemos do nosso coração todo desejo que seja contrário ao amor e à caridade, visto que Deus quer que a nossa alma esteja dominada por essas qualidades (amor e caridade), e que de amor transborde. Não devemos, pois, acolher nenhum pensamento que possa induzir o nosso coração a alguma concupiscência ou cobiça que leve o nosso próximo a sofrer algum dano ou prejuízo. Assim agindo estaremos observando o preceito afirmativamente, pois dessa forma ele determina que tudo o que imaginarmos, deliberarmos, desejarmos ou buscarmos esteja em harmonia com o bem do nosso próximo e com o que lhe é útil e proveitoso.]Convido você para mergulharmos mais fundo nas Escrituras!


I. O DÉCIMO MANDAMENTO


1. Abrangência. O tema diz respeito à proibição da concupiscência da carne, da concupiscência dos olhos e da soberba da vida (Gn 3.6; 1 Jo 2.16). Isso envolve muitos tipos de pecado como sensualidade, luxúria, busca desenfreada por possessões ilícitas, obsessão pelo poder, ostentação esnobe e orgulho. Esse mal continua no gênero humano desde a sua queda até a atualidade. [Comentário: Antes de qualquer coisa é preciso deixar bem claro a diferença existente entre cobiça, ambição e ganância. É possível confundirmos uma coisa com a outra e esta confusão pode nos levar a diversas interpretações equivocadas. Portanto, estejam atentos: Ambição é querer mais, ganância é nunca estar satisfeito e cobiça é querer o que não é legítimo. Sendo assim, não existe pecado na ambição, afinal, não devemos nos contentar com as migalhas e o resto quando é possível sermos melhores, termos mais, usufruirmos melhor. Deus nos prometeu uma mesa posta e cálice transbordando. Se podemos e temos condições, devemos correr atrás. Já a ganância é perniciosa. Ela é um pouco diferente da ambição, pois o ganancioso não sabe parar, não se contenta. O descontentamento pode, e normalmente leva o ganancioso a atitudes pecaminosas. Por só enxergar aquilo que ainda não possui, o ganancio não consegue ser grato e não desfruta daquilo que já possui. Mas a cobiça é o pior de tudo! Ela estimula a posse por usurpação e agarra-se ao que não é permitido. Enquanto a ambição e ganância buscam coisas legítimas e permitidas, a cobiça deseja aquilo que é proibido. Ela é irmã da inveja e é diretamente condenada e proibida por Deus: “Não cobiçarás”. - See more at: http://www.batistareformada.com.br/mensagens_em_texto/126-o-decimo-mandamento#sthash.xahlTKor.dpuf. Neste ponto, no tocante ao décimo mandamento, aprendemos que a lei aplica-se não somente aos atos, mas também aos sentimentos e intenções do coração. Em outras palavras, a lei envolvia sentimentos interiores, e não apenas atos externos. O sétimo mandamento proíbe o sexo com a mulher de outro homem; e o décimo mandamento proíbe o desejo disso. Neste ponto, a lei aproxima-se da abordagem feita por Jesus a respeito, em Mat. 5.21 ss. Todos os pensamentos devem ser levados ao cativeiro a Cristo (II Cor. 10.5). Se o oitavo mandamento proíbe o roubo, 0 décimo proíbe até mesmo o desejo de roubar. Por conseguinte, o décimo mandamento opera como uma espécie de limiar das noções neotestamentárias sobre essas mesmas questões. O Novo Testamento repete dez dos mandamentos, deixando de fora aquele atinente ao sábado. Mas o dia do Senhor ou domingo, embora não seja um sábado ou descanso, envolve as implicações espirituais do mandamento relativo ao sábado, enaltecendo e iluminando o sentido espiritual do sábado. CHAMPLIN, Russell Norman, Antigo Testamento Interpretado versículo por versículo. Editora Hagnos. pag. 395.]

2. Objetivo. O propósito divino é estabelecer limites à vontade humana, para que haja respeito mútuo entre as pessoas e seus bens. Muitos outros vícios acompanham a cobiça, como lascívia, concupiscência, inveja e avareza, entre outros (Gl 5.20,21; Tg 4.2). Não pode haver paz num contexto como esse. É necessário que cada pessoa se controle para viver uma vida virtuosa, e isso é fundamental na construção de uma sociedade justa e feliz. Melhor é o que domina seu espírito do que o que toma uma cidade (Pv 16.32). Nós levamos vantagem por termos Jesus e o Espírito Santo (Gl 2.20; 5.5). [Comentário: A vontade de Deus expressa nesse último mandamento do Decálogo é que haja pleno contentamento com aquilo que temos e com a nossa condição: "Contentai-vos com o vosso soldo" (Lc 3.14), ensino de João Batista para os militares. "Mas é grande ganho a piedade com contentamento" (1 Tm 6.6). Quem tem Jesus não está obcecado pelas riquezas materiais, pois tem em seu interior algo muito mais valioso que os tesouros do mundo. A NTLH traduz esse versículo da seguinte forma: "É claro que a religião é uma fonte de muita riqueza, mas só para a pessoa que se contenta com o que tem”. A Bíblia nos exorta ainda: "contentando-vos com o que tendes" (Hb 13.5). Há aqui certo paralelo com Filipenses 4.11. Mas convém ressaltar que todas essas exortações não são uma apologia à pobreza nem uma defesa do status quo econômico; é uma recomendação para que nossos desejos não vendam desagradar a DEUS nem causar danos ao nosso próximo (Rm 12.15). A conduta do cristão deve ser a de se alegrar com que os se alegram e chorar com os que choram (Rm 12.15). Ninguém deve ser dominado pela inveja (G1 5.26; Tg 4.14-16) nem alimentar o sentimento de tristeza pelo sucesso alheio (Ne2.10;Sl 112.9,10). Glorifique a Deus pelas bênçãos e pelo sucesso do seu irmão, e você será abençoado também, a seu tempo (Ec 3.1-8). Esequias Soares. Os Dez Mandamentos. Valores Divinos para uma Sociedade em Constante Mudança. Editora CPAD. pag. 138. Somos pessoas ambiciosas. Vivemos numa sociedade que estimula essa nossa ambição natural e, frequentemente, nos diz: “que somos o que temos”, ou que “valemos o que temos”, daí a nossa busca desenfreada por status e poder. Por exemplo, o que fazemos quando compramos um carro novo? Geralmente vamos mostrá-lo a alguém, como se não houvesse graça consegui-lo se não existir alguém para cobiça-lo.]

3. Contexto. Há algumas variações entre os dois textos (Êx 20.17; Dt 5.21). A ordem das cláusulas está invertida. Em Deuteronômio, aparece um sinônimo do verbo "cobiçar" e acrescenta-se a palavra "campo". Isso mostra que o formato de Êxodo está adaptado ao estilo nômade de vida de Israel no deserto, ao passo que Deuteronômio é o modelo para o país prestes a ser estabelecido na terra de Canaã. [Comentário: O décimo mandamento aparece expandido em Deuteronômio em relação ao texto de Êxodo e inclui o campo do próximo na lista das coisas que não devem ser cobiçadas. Alguns críticos estranham a inversão das cláusulas, pois a fraseologia de Êxodo começa por não cobiçar a casa do próximo e em seguida vem a proibição de não cobiçar a mulher do próximo, mas em Deuteronômio essa ordem é invertida: primeiro vem a mulher e depois a casa. Ambos textos, contudo, proíbem a cobiça de bens e pessoas, além da mulher ou do esposo, pois a mulher pode também cobiçar o marido alheio, o servo e a serva do próximo; propriedades-, casa e campo; o termo "casa" aparece muitas vezes na Bíblia com o sentido de "família" (Js 24.15; At 16.31), mas parece não ser essa a ideia aqui; e semoventes: boi, jumento ou qualquer outra coisa. A frase final "nem coisa alguma do teu próximo" inclui posição social ou ascensão no trabalho. Há discussão sobre a substituição de hãmad por ’ãwãh na segunda cláusula do décimo mandamento (Dt 5.21). O verbo hãmad aqui aparece com a esposa do próximo e ’ãwãh com as demais coisas. Isso pode levar alguém a pensar em hãmad como um tipo sensual de desejo, mas isso não procede por duas razões principais: a) é usado para bens móveis e imóveis (Js 7.21; Mq 2.2); b) ambos os termos aparecem como sinônimos (Gn 3.6; Pv 6.25; Sl 68.17). Parece que 'ãwãh diz respeito a um tipo de desejo casual. O formato textual de Êxodo está adaptado ao estilo nômade de vida de Israel no deserto, ao passo que Deuteronômio, quase 40 anos depois, é o modelo para o povo prestes a ser estabelecido na terra de Canaã como país. Esequias Soares. Os Dez Mandamentos. Valores Divinos para uma Sociedade em Constante Mudança. Editora CPAD. pag. 134-135.]

4. Esclarecimento. Os católicos romanos e os luteranos dividem em dois o décimo mandamento: "Não cobiçarás a casa do teu próximo", um; e "Não cobiçarás a mulher do teu próximo" (Êx 20.17), dois. Enquanto essas sentenças são lidas como mandamentos distintos, eles consideram "Não terás outros deuses [...]" e "Não farás para ti imagem de escultura [...]" como um único mandamento. Na soma permanecem os dez mandamentos. Ambos mantiveram a tradição catequética medieval desde Agostinho de Hipona. Nós seguimos o sistema das igrejas reformadas, que vem dos judeus e é anterior a tudo isso (cf. Flávio Josefo. História dos Hebreus. Edição CPAD, pp.165-66). [Comentário: Já vimos que o Decálogo está estruturado em duas seções identificadas com a primeira e a segunda tábuas, as tábuas de pedra em que foram escritos os Dez Mandamentos, literalmente as dez palavras. A primeira contém os compromissos do israelita diante de Deus, e a segunda de sua responsabilidade para com o próximo. Os dois grandes mandamentos citados por Jesus podem ser um resumo dessas duas tábuas. Esses mandamentos estão dispostos numa sequência lógica. O quinto mandamento é uma ponte que une o conteúdo das duas tábuas. Em seguida vem a proteção da vida: “Não matarás"; depois a proteção da família: "Não adulterarás"; a proteção da propriedade: "Não furtarás"; a proteção da honra: "Não dirás falso testemunho contra o teu próximo"; e o último protege o israelita de ambições erradas. Os católicos romanos e os luteranos mantiveram a tradição catequética medieval do Decálogo esboçada por Agostinho de Hipona e que predominou durante a Idade Média. Os dois primeiros mandamentos são considerados um só, e o décimo é dividido em dois. "Não cobiçarás a casa do teu próximo" é o nono, e Não cobiçarás a mulher do teu próximo" (Êx 20.17), o décimo. Qualquer pessoa pode observar sem muito esforço que tal arranjo e uma camisa de força, pois não corresponde à divisão natural (Êx 20.1-17; Dt 5.7-21). Além disso, o Decálogo do catolicismo romano não é bíblico, trata-se de uma interpretação com lentes papistas. Nós seguimos o arranjo das igrejas ortodoxas e protestantes reformadas, que vem desde os antigos judeus (Josefo, Antiguidades Judaicas, Livro 3, 4.113, edição CPAD). Esequias Soares. Os Dez Mandamentos. Valores Divinos para uma Sociedade em Constante Mudança. Editora CPAD. pag. 132; 134.]


II. A COBIÇA


1. Significado. O verbo hebraico hamad indica o ato de desejar aquilo que é gerado pela emoção, que começa com a impressão visual pela coisa ou pessoa desejada. Tudo isso se resume a "desejar, tentar adquirir, almejar, cobiçar". O termo é usado para "encontrar prazer em" (Is 1.29; 53.2). Hamad aparece duas vezes aqui no décimo mandamento (Êx 20.17). A Septuaginta traduz pelo verbo epithymeo, literalmente, "fixar desejo sobre"; de epi, "sobre", e thymos, "paixão, ira". O termo em ambas as línguas pode se referir a coisa boa ou coisa má, dependendo do contexto (Mt 5.28; 13.17). [Comentário: O termo hebraico “hãmad” (desejar) é um termo neutro. É apenas quando ele é mal orientado que se torna errado. Quando o texto diz: “Não cobiçarás a casa do teu próximo”, o termo “casa” é aqui usado no sentido primitivo, e significa família. Isso incluía esposa, filhos e servos. Quando o texto se refere a “boi e jumento” está falando da riqueza típica do camponês seminômade israelita que vivia naquele período conhecido como idade do bronze. A Enciclopédia da Bíblia (Cultura Cristã) comenta o seguinte: “Um pecado mencionado frequentemente no AT e no NT. É considerado como a raiz de outras iniquidades sérias e mortais. Várias palavras hebraicas e gregas são assim traduzidas. Muitas possuem pequenas variações de significado, todas estão relacionadas à lei mosaica que proíbe expressamente a cobiça. O termo que aparece em Êxodo 20.17 é o hebraico, significando “desejar intensamente”. Assim como os outros termos para “cobiça”, nas Escrituras, esta palavra tem em vista o amor e o desejo intenso por qualquer objeto ou pessoa, um desejo ao qual é dado importância humana e comum, e que se toma substituto da devoção e amor devidos a DEUS. Por causa da sua intensidade, este desejo tende a ofuscar as exigências morais da lei e a permitir que o fim. a posse do objeto cobiçado, justifique quaisquer meios para sua obtenção. Outros termos para desejo e amor são usados no mesmo sentido no AT, “TK (Dt 5.21 et al.), e o m (Hc 2.9, et al.). No NT o verbo grego. “desejo”, “anseio”, é usado frequentemente para traduzir os termos hebraicos acima, na LXX e em muitas outras passagens do NT. onde nem sempre é traduzido como “cobiçar”. Ele aparece em Lucas 22.15, e a forma substantiva aparece em muitas outras passagens. Outro substantivo comum é o grego significando literalmente “ganância”, “desejo insaciável” (Lc 12.15). Um termo muito interessante, frequentemente traduzido como “cobiça”, é o grego uma combinação de “amor” + “prata”, a ilustração mais clara de avareza dada nas Escrituras (Lc 16.14; l Tm 6.10). Todos estes termos descrevem o intenso materialismo e hedonismo que caracterizaram a era helenística e que levaram à fundação de escolas filosóficas como o Epicurismo”. MERRILL C. TENNEY. Enciclopédia da Bíblia. Editora Cultura Cristã. Vol. 1. pag. 1081-1082.]

2. Cobiçar. Desejar o que pertence a outro é o pecado que o décimo mandamento condena. O Novo Testamento menciona esse último mandamento do Decálogo (Rm 7.7; 13.9). Trata-se de cobiçar a casa do outro, a mulher do próximo e em seguida o mandamento inclui servo e serva, boi e jumento, e termina com as palavras "nem coisa alguma do teu próximo". A cobiça é o desejo excessivo de possuir aquilo que pertence ao outro. A descrição deixa claro que não se trata de simplesmente almejar uma casa ou um boi, mas de desejos incontroláveis de possuir a casa e o boi que já tem dono, e isso por meio ilícito (At 20.33; 1 Co 10.6; Tg 4.2). É o mesmo que roubar (Mq 2.2). [Comentário: A cobiça pode ser definida como o desejo desordenado de adquirir coisas, posição social, fama, proeminência secular ou religiosa, etc. Pode incluir a tentativa de apossar-se do que pertence ao próximo. A cobiça geralmente aumenta com a idade, ao invés de diminuir, dando origem a certo número de males. A cobiça promove a alienação de Deus, a opressão e a crueldade contra o próximo, a traição e as manipulações e desonestidades de toda espécie. £ um dos principais fatores por detrás de todas as guerras. Os indivíduos e os grupos mostram-se cobiçosos. As nações incorporam o princípio da cobiça em suas leis. Os hebreus condenavam esse pecado, que aparece como um dos dez mandamentos (que vide). Aparece em Êxodo 20.17. A mensagem é que coisa alguma pertencente a outrem, deve ser desejado. Quase sempre, o desejo desordenado da cobiça provoca alguma ação para que o cobiçoso adquira o que quer, ou para que persiga o possuidor do objeto ou da pessoa cobiçados. Esse mandamento chega perto do adultério, visto que uma das coisas que pode ser cobiçada é a esposa de outro homem. O Novo Testamento Condena Também a Cobiça. Os cobiçosos anelam por ter mais dinheiro (At 20.33; 1Tm 6.9; Rm 7.7). A cobiça pode expressar-se sob a forma de violência (2Co 2.11; 7.2). Mas Jesus repudiou o espírito ganancioso (Mt 7.22). A cobiça é alistada entre os pecados frisados por Paulo, em Efésios 4.19. A cobiça é uma forma de auto-adoração que expulsa Deus de nossas vidas (Ef  5.5; Cl 3.5). Aparece na lista dos vícios dos povos pagãos, em Romanos 1.29.' Apesar de não ser especificamente alistada entre-as obras da carne, em Gálatas 5.19-21, a cobiça é uma das causas de várias daquelas obras carnais, como o adultério, o ódio, as dissensões, a beligerância, etc., devendo ser incluída entre as «tais coisas» que Paulo mencionou, e que não permitem que uma pessoa chegue ao reino de Deus (Gl 5.21). CHAMPLIN, Russell Norman, Enciclopédia de Bíblia Teologia e Filosofia. Vol. 1. Editora Hagnos. pag. 774.]

3. O texto paralelo. Como ficou dito antes, o décimo mandamento em Deuteronômio não segue rigorosamente o registro de Êxodo. Mas isso não altera o sentido da mensagem. O segundo verbo empregado para "cobiçar" é awah, que significa "desejar ardentemente, ansiar, almejar, cobiçar". Aparece ao lado de hamad (Gn 3.6) e, como termo alternativo, em "não cobiçarás a mulher do teu próximo" (Dt 5.21). A Septuaginta traduz os dois verbos igualmente por epithymeo. [Comentário:  Dt 5.21. A última lei do Decálogo, referente à cobiça, exige comentários especiais. Trata da motivação intrínseca. A fraseologia difere um pouco da utilizada em Êxodo 20: 17, onde a casa do próximo (possivelmente “família e propriedades”) é mencionada antes da mulher do próximo e aparece separadamente com o verbo hàmad, ao passo que outros itens são mencionados numa outra frase, juntamente com a esposa, governados pelo mesmo verbo. Em Deuteronômio a esposa aparece em primeiro lugar, com o verbo hãmãd, ao passo que os outros itens são agrupados com um verbo diferente (hifawwâ). A passagem em Deuteronômio sugere uma atitude diferente da demonstrada em Êxodo para com as mulheres. Há exemplos desta atitude mais sensível para com as mulheres em Deuteronômio, como por exemplo, 21: 1-5. I. A. Thompson. Deuteronômio Introdução e Comentário. Editora Vida Nova. pag. 47-48.]


III. A VINHA DE NABOTE


1. Proposta recusada. O relato bíblico do confisco criminoso da vinha de Nabote é um dos mais chocantes da Bíblia e serve como amostra do que a cobiça é capaz de fazer. A vinha de Nabote era uma propriedade vizinha ao palácio do rei Acabe, em Samaria. O rei apresentou uma proposta de compra ou troca aparentemente justa. Mas Nabote recusou a oferta do rei: "Guarde-me o SENHOR de que eu te dê a herança de meus pais" (vv. 1-3). Havia nessa recusa uma questão familiar, cultural e religiosa. A propriedade era um bem sagrado que não se transferia definitivamente para outra família (Lv 25.23-25; Nm 36.7). [Comentário: I Reis 21.1-3 Acabe cobiçando a vinha de seu vizinho, que infelizmente está perto de seu palácio e que poderia servir muito bem de horta. Talvez Nabote estivesse satisfeito de ter uma vinha cuja localização dava, de maneira vantajosa, vista para os jardins reais, ou de vender a sua produção à família real; mas a sua localização mostrou- se fatal para ele. Se ele não tivesse nenhuma vinha, ou ela ficasse em algum lugar distante, teria preservado a sua vida. Porém, muitas posses de um homem são a sua armadilha e o viver próximo da nobreza tem sido de perniciosa consequência. Acabe colocou seus olhos e o seu coração nessa vinha (v. 2). Ela será uma bela adição ao seu domínio, uma passagem conveniente para o seu palácio; e nada lhe satisfará a não ser que ela se torne dele. Ele é bem-vindo para desfrutar de seus frutos, bem-vindo para passear por ela. Talvez Nabote fizesse um arrendamento por toda sua vida, para agradá-lo; mas nada satisfará a Acabe, a não sei’ que ele tenha absoluta propriedade dela, ele e seus herdeiros para sempre. Mas ele não é um tirano para tomá-la à força, mas de modo conveniente propõe ou dar a Nabote dinheiro pelo pleno valor dela ou uma vinha melhor em troca. Ele tinha mansamente abandonado as grandes vantagens que Deus lhe tinha dado de expandir seus domínios para a honra do seu reino, com sua vitória sobre os sírios, mas agora está ansioso por aumentar seu jardim, apenas para a conveniência da sua casa, como se ser cauteloso nas pequenas coisas o redimisse de ser tolo nas grandes. Não era mal desejar algo bom para sua propriedade (não haveria nenhuma compra se não houvesse nenhum desejo pelo que é comprado. A mulher virtuosa examina uma herdade e adquire-a)', mas desejar qualquer coisa imoderadamente, embora a adquirindo por meios legítimos, é um fruto do egoísmo, como se nós devêssemos absorver todas as conveniências, e ninguém devesse viver, ou viver confortavelmente, junto a nós, contrariando a lei do contentamento, e a letra do décimo mandamento: não cobiçareis a casa do teu próximo.
A recusa que ele encontrou em relação ao seu desejo. De forma alguma Nabote desistiria dela: guarde-me o Senhor (v. 3); e o Senhor tinha mesmo proibido a negociação, do contrário ele não teria sido tão rude e descortês para com o seu príncipe não o satisfazendo em um assunto tão pequeno. De forma peculiar, Canaã era a terra de Deus, os israelitas eram os seus arrendatários, e essa era uma das condições do seu arrendamento, que eles não alienassem (não, nunca para outra pessoa) qualquer parte daquilo que caísse como seu lote, a menos em caso de extrema necessidade, e então apenas até o ano do jubileu (Lv 25.28). Agora Nabote previa que, se a sua vinha fosse vendida para a coroa, ela jamais retornaria para seus herdeiros, não mesmo, nem no jubileu. De bom grado ele favoreceria ao rei, mas devia obedecer a Deus mais do que aos homens, e por isso, deseja ser desculpado quanto a esse assunto. Acabe conhecia a lei, ou devia conhecê-la, e por essa razão fez mal em pedir aquilo que o seu súdito não poderia conceder sem pecar. Alguns imaginam que Nabote olhava com respeito a sua herança terrestre como uma garantia da sua parte na Canaã celestial, e por isso não poderia desfazer-se da primeira, para que não perdesse o direito à segunda. Parece que ele foi um homem consciencioso, que preferia arriscar-se a desagradar ao rei a ofender a Deus, e provavelmente era um dos sete mil que não tinham se curvado diante de Baal, pelo que, talvez, Acabe lhe tivesse rancor. HENRY. Matthew. Comentário Matthew Henry Antigo Testamento Josué a Ester. Editora CPAD. pag. 532.]

2. O direito de propriedade. O rei ficou "desgostoso e indignado [...] deitou-se na sua cama, e voltou o rosto, e não comeu pão" (v. 4). O rei Acabe adoeceu, pois a cobiça por algo que não lhe pertencia o havia dominado. A Bíblia diz que a medida da impiedade de Acabe se completou quando ele se casou com Jezabel, uma princesa fenícia de origem pagã, devota de Baal. Ela era filha de Etbaal, rei de Sidom (1 Rs 16.29-32). Jezabel não respeitava o sagrado direito de propriedade estabelecido por Deus na lei de Moisés. Ela não hesitou em elaborar um plano criminoso para condenar Nabote à morte e confiscar sua vinha (vv.9,10). [Comentário: Por causa disso, o grande descontentamento e inquietação de Acabe. Ele se sentiu como antes (20.43), descontente e indignado (v. 4), tornou-se melancólico com isso, lançou-se em sua cama, e não queria comer nem conversar. Ele não podia suportar de forma alguma a afronta. O seu espírito orgulhoso piorou a injúria que Nabote lhe fez ao negá-lo, como algo intolerável. Ele amaldiçoou o escrúpulo da consciência de Nabote, que ele fingiu consultar em paz, e secretamente planejou vingança. Ele não podia suportar o desapontamento que lhe cortava o coração ao ser contrariado em seus desejos e estava completamente aborrecido. Note: (1) O descontentamento é um pecado que é a sua própria punição e faz com que nos atormentemos a nós mesmos; ele faz que o espírito se entristeça, o corpo adoeça, e todas as alegrias se tornem amargas; é o maior peso do coração e a maior corrupção dos ossos. (2) E um pecado que é seu próprio pai. Ele não se levanta da condição, mas da mente. Como nós encontramos Paulo satisfeito em uma prisão, também vemos Acabe insatisfeito em seu palácio. Ele tinha todos os deleites de Canaã, aquela terra prazerosa, às ordens, a riqueza de um reino, os prazeres de uma corte e as honras e poderes de um trono; mas nada disso lhe valia sem a vinha de Nabote. Desejos imoderados expõem os homens a contínuos vexames, e aqueles que estão dispostos a se afligir, mesmo estando felizes, sempre encontrarão alguma coisa de que se lamentar. HENRY. Matthew. Comentário Matthew Henry Antigo Testamento Josué a Ester. Editora CPAD. pag. 533.]

3. O pecado de Acabe e Jezabel. O plano de Jezabel funcionou com a conivência do marido. Envolveu a elite da sociedade e a corte palaciana, o que por si só mostra que a sociedade de Samaria estava completamente dominada, pois o texto menciona "anciãos e nobres" corrompendo falsas testemunhas (1 Rs 21.8-10). A acusação foi a seguinte: "Blasfemaste contra Deus e contra o rei" (v.10). Agora, Nabote devia ser "legalmente" apedrejado até a morte por ter se recusado a negociar sua propriedade com o rei. As duas testemunhas davam consistência legal ao processo (Lv 24.10-16; Dt 17.6). [Comentário: O plano de Jezabel (21.5-16). A consciência de Jezabel, de Tiro, não tinha sido desenvolvida pelas tradições israelitas e pelo respeito aos direitos alheios. Como Acabe não se apossou imediatamente da vinha de Nabote, uma coisa que dificilmente seria capaz de entender (7), ela continuou com seu plano diabólico. Os filhos de Belial (10) seriam homens desonestos. Nunca foi exposta a falsa acusação de blasfêmia levantada contra Nabote perante a assembleia dos anciãos e dos nobres. Este sincero israelita foi apedrejado de acordo com a lei (13; cf. Lv 24.13-16), sob o testemunho de duas pessoas que teriam presenciado a suposta ofensa (cf. Dt 17.6,7). Com a eliminação de Nabote, Acabe tomou posse do jardim (15-16) que, sem dúvida, havia perdido grande parte de seus antigos atrativos. Harvey E. Finley. Comentário Bíblico Beacon I e II Reis. Editora CPAD. Vol. 2. pag. 338-339.]

4. O casal não contava com uma testemunha verdadeira. Estava tudo acabado e benfeito social e juridicamente. Ao saber da notícia, Acabe ficou curado de sua enfermidade e foi tomar posse da vinha de Nabote (vv. 15, 16). Eles violaram o sexto mandamento, "não matarás"; o oitavo, "não furtarás"; o nono, "não dirás falso testemunho contra o teu próximo"; e o décimo, "não cobiçarás" (Dt 5.17, 19-21). Isso sem contar os três primeiros mandamentos que já vinham violando, com sua idolatria, desde o princípio. Mas Acabe e Jezabel não contavam com uma testemunha que sabia de tudo e tinha autoridade para se vingar dessas barbaridades (1 Rs 21.17-19). [Comentário: “Novamente, Deus escolheu Elias para levar uma mensagem de julgamento a Acabe, que estava, naquele momento, na vinha de Nabote. Deus transmitiu a Elias o que ele deveria dizer (vs. 19)” (Thomas L. Constable). A abominável e ímpia Jezabel tinha cometido o duplo crime de assassinato e confisco ilegal de uma herança familiar. Acabe foi o cúmplice declarado desses crimes e sofreria sorte igualmente horrível. I Reis 21.17,18 A palavra do Senhor (YAHWEH) veio novamente a Elias. Ele teve uma visão, um sonho incomum, ouviu uma voz direta ou, de outra maneira qualquer, esteve em comunicação com o Ser Divino. Cf. I Reis 18.1, a primeira ocasião em que a palavra do Senhor veio a Elias, ordenando-lhe proferir julgamento contra Acabe. A localização de Acabe foi dada a Elias. Naquele exato instante, Acabe estava tomando posse da vinha de Nabote, que ele tinha obtido através de assassinato. Elias haveria de “apanhá-lo com a mão na botija”, porquanto estaria tomando posse ilegal de uma herança de família. O versículo à nossa frente parece indicar a localização da vinha em Samaria, mas Nabote era de Jezreel, e podemos supor que sua vinha estivesse ali. Acabe tinha uma residência de verão naquele lugar. É possível que a declaração feita pelo autor, neste versículo, tenha sido um equívoco. Acabe tinha palácios em dois lugares, porém o mais provável é que a vinha ficasse perto de Jezreel e a herança da família de Nabote também estivesse nessa última cidade. Elias desceu no dia seguinte após as matanças (ver II Reis 9.26).  Reis 21.19 A mensagem a ser transmitida foi direta e brutal. Acabe era um homem morto. Além disso, morreria em desgraça. No próprio lugar onde os cães tinham vindo lamber o sangue de Nabote, também lamberiam o sangue de Acabe, e dessa forma a Lei Moral da Colheita segundo a Semeadura teria exato cumprimento. Essa foi a Lex Talionis divina (ver no Dicionário), isto é, uma punição em termos iguais, como olho por olho e dente por dente. A profecia não se cumpriu em termos exatos, mas, sim, quanto à sua essência, conforme salientou John Gill (in loc.): “... a profecia teve cumprimento em seus filhos, que eram sua carne e seu sangue (ver II Reis 9.26), porquanto o castigo foi adiado em seus dias e transferido para os seus filhos (ver o vs. 29). Os cães, entretanto, lamberam-lhe o sangue, embora não no mesmo local (ver I Reis 22.8)”. O arrependimento de Acabe alterou, até certo ponto, o cumprimento final da profecia, conforme vemos no vs. 29. “É inútil procurarmos um cumprimento literal dessa predição. Esta teria sido assim cumprida, mas a humilhação de Acabe induziu um Deus misericordioso a dizer: 'Não trarei este mal nos seus dias, mas nos dias de seu filho o trarei sobre a sua casa’ (vs. 29)” (Adam Clarke, in loc.). Os cães lamberam o sangue de Nabote em Jezreel, e o de Acabe perto de Samaria. “Quando os cães lambiam o sangue de alguém, isso indicava uma morte desgraçada, especialmente no caso de um rei, cujo corpo normalmente seria guardado e sepultado com grande respeito” (Thomas L. Constable, in loc.). CHAMPLIN, Russell Norman, Antigo Testamento Interpretado versículo por versículo. Editora Hagnos. pag. 1451-1452.]


CONCLUSÃO


O triste episódio de Acabe se repete ao longo da história. Que Deus nos livre de todas essas maldades. A lei não proíbe o desejo em si, mas o desejo daquilo que pertence a outro. Não é pecado desejar bens e conforto, as coisas boas de que necessitamos na vida. Na verdade, viver é desejar. Desejar uma casa é mais natural do que respirar, mas para isso é necessário trabalhar e fazer economias até conseguir a realização do seu desejo com ajuda de Deus. [Comentário: A pergunta 147 do Catecismo de Westminster: “Quais são os deveres exigidos no décimo mandamento?” responde: “Os deveres exigidos no décimo mandamento são: um pleno contentamento com a nossa condição e uma disposição caridosa da alma para com o nosso próximo, de modo que todos os nossos desejos e afetos relativos a ele se inclinem para todo o seu bem e promovam o mesmo. Hb 13:5; I Tm 1:5;6:6; Fp 2:4; Rm 12:15.” As Escrituras nos informam que a cobiça surge em nosso coração através da insatisfação. A cobiça revela a nossa insatisfação. Freud dizia que o homem é insatisfeito por natureza. Um repórter perguntou a Nelson Rockefeller: “Quanto dinheiro é necessário para ser feliz?”. O magnata respondeu: “Um pouco mais”. Salomão tinha razão: “Quem ama o dinheiro jamais dele se farta”. (Ec. 5:10). Diante do que temos ouvido, que aplicações práticas tiraremos desse mandamento? 1-Devemos nos contentar com aquilo que Deus nos proporcionar nessa vida, pois nada do que aqui ocorrer será uma eventualidade. Isso não significa que não devemos desejar um futuro melhor para os nossos, mas devemos estar contentes em toda e qualquer situação. 2-Apesar da nossa incapacidade de cumprir esse mandamento, assim como os demais. Precisamos confiar na obra expiatória e intercessora de Cristo, Ele cumpriu perfeitamente por nós a lei de Deus, de modo que quando reconhecemos isso, e vivemos para a sua glória, descansamos em paz, pois nenhuma condenação resta para nós.] “NaquEle que me garante: "Pela graça sois salvos, por meio da fé, e isto não vem de vós, é dom de Deus" (Ef 2.8).


Francisco Barbosa

Disponível no blog: auxilioebd.blogspot.com.br.

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