sábado, 7 de agosto de 2021

LIÇÃO 6: O PROFETA ELIAS E ELISEU, SEU SUCESSOR

COMENTÁRIO E SUBSÍDIO

 INTRODUÇÃO 

O ministério de Elias estava terminando quando Deus o ordenou que ungisse seu sucessor. O escolhido foi Eliseu (1 Rs 19.16). Eliseu era muito próximo e leal a Elias. Antes de ser levado aos céus pelo Senhor, Elias perguntou a Eliseu sobre o que ele gostaria de receber de sua parte. E Eliseu mais que depressa pediu porção dobrada do espírito de Elias sobre ele (2 Rs 2.9). E assim foi. O fim do ministério de Elias e o início do de Eliseu são os assuntos desta lição. – Eliseu continuou a obra que Elias iniciara, porém existem diferenças marcantes entre um ministério e outro. Embora ambos tivessem uma grande consagração e compromisso com o Senhor, Elias vivia isolado, enquanto Eliseu estava no meio das pessoas. Não consta que Elias tivesse posses; já Eliseu, antes de seguir o seu chamado, tinha 12 juntas de bois, o que denota que tinha terras. Elias denunciou e advertiu severamente muitos reis; já Eliseu foi amigo e conselheiro de reis. Alguns milagres de Elias causaram mortes e prejuízos; já Eliseu, na maioria das vezes, praticou milagres de misericórdia e promoção da vida. Elias é comparado a João Batista, e Eliseu, pelos seus milagres de cura, faz lembrar a obra de Cristo. – O ministério de Eliseu foi extraordinário e durou aproximadamente 50 anos, somente superado, no Antigo Testamento, pelos milagres de Moisés em número e variedade. Incluindo a ressurreição ocorrida após a morte do profeta, quando o cadáver encostou-se à sepultura, somam-se aproximadamente 20 milagres, que chamam atenção por evidenciar a importância da vida e da provisão para a vida.

 I. A DESPEDIDA DE ELIAS

1. O ministério de Elias termina. Elias realizou grandes feitos em seu ministério profético: foi vitorioso diante dos profetas de Baal e Aserá (1 Rs 18.40); foi ousado e perspicaz para repreender, aconselhar e direcionar os reis (1 Rs 17.1); foi alimentado de forma milagrosa por Deus em tempos de adversidades (1 Rs 19.4-6). No entanto, mesmo diante de tamanhas realizações, chegou a hora de o profeta encerrar sua missão na terra.

2. Um profeta com grandeza de alma. Embora Elias seja considerado um dos maiores profetas do Antigo Testamento, a ponto de aparecer no monte da transfiguração ao lado de Jesus e Moisés (Mt 17.3), ele não proferiu nenhuma profecia de longo prazo e, provavelmente, não escreveu nenhum livro. Isso nos ensina que a grandeza de um profeta não é medida somente pelo tempo do cumprimento de suas profecias, mas, principalmente, pela integridade e grandeza de sua alma.

3. Gilgal, um lugar de boas recordações. Elias estava em Gilgal quando iniciou os preparativos para o seu arrebatamento. Esse lugar foi cenário de grandes e marcantes acontecimentos: Em Gilgal foi estabelecido o memorial da travessia do Jordão realizada por Josué (Js 4.19,20); ali, também, os israelitas foram circuncidados (Js 5.1-9) e celebraram a primeira páscoa na Terra Prometida (Js 5.10). Foi em Gilgal que Elias tomou ciência do término do seu ministério profético.

O ministério de Elias termina – O fim do ministério de Elias é anunciado com antecedência pelo próprio profeta, quando este pediu a Deus que lhe tirasse a vida. Portanto, os preparativos para a partida começaram cedo. Todavia, entre o pedido e a concretização do desaparecimento de Elias, passaram-se de oito a treze anos aproximadamente, tempo este suficiente para preparar um bom sucessor, pois, logo após esta conversa franca com Deus sobre a morte, Elias foi orientado a ungir Eliseu no seu lugar (1 Rs 19.16). – A partir desse momento, Eliseu passou a andar com Elias e a servir-lhe como serviçal, aprendendo de Elias e, especialmente, admirando-o como homem de Deus. É por isso que Eliseu pediu a ele porção dobrada, pois reconheceu que Elias era, de fato, um homem de Deus. Algumas vezes, basta a aproximação de alguém que se admira para, logo em seguida, perceber-se que, na verdade, na intimidade, essa pessoa não condiz com a realidade espiritual que ostenta. Mas com Elias é diferente. Aquilo que ele era no público também o era no privado. – Após os grandes feitos de Elias, a sua esplêndida vitória diante dos profetas de Baal e Aserá, a sua ousadia e perspicácia para repreender, aconselhar e direcionar vários reis; após ter sido alimentado milagrosamente por Deus várias vezes e de diferentes formas; após também o seu cansaço e subsequente desânimo, como é natural a todo ser humano, o seu ministério começou a chegar ao fim. Todo ser humano usado por Deus entra na história e tem um fim, só que esse fim depende das escolhas que a pessoa fez enquanto exercia o seu ministério. – Portanto, com vistas a ter um substituto à altura, Elias passa a ser o mentor de Eliseu, assumindo a sua paternidade espiritual e permitindo que o futuro profeta tivesse as suas experiências com Deus. Nas atuais crises ministeriais e de referenciais de liderança bíblica e espiritual, faz-se necessário que Deus levante novos Elias para assumirem a paternidade espiritual desta geração. Não nos referimos a lideranças que se impõem pela força do poder e nem do liderado que se submete pela força de uma folha de pagamento mensal, ou porque aspira lugares de honra como títulos e posições eclesiásticas. Refiro-me a líderes e liderados que, apesar da linha sutil que separa uma coisa da outra, assumem uma relação de pai/filho, mentor/discípulo e que seguem o modelo deixado por Elias e Eliseu, em que o compromisso com Deus e a fidelidade à sua Palavra está em primeiro lugar, sem comprometer-se com conluios políticos com os poderosos, como Elias o fez muito bem. – A paternidade espiritual é muitas vezes necessária num mundo confuso, violento e individualista como o nosso. Portanto, mentoria trata-se de uma relação informal de cuidador da alma do mentoreado, levando-o a prestar atenção ao falar de Deus ao seu coração, com uma viva sensibilidade pastoral, gerando uma fé viva e responsável diante de Deus e dos homens, como um testemunho vivo do evangelho de Cristo. Isso é feito levando-se em conta os paradoxos e fronteiras entre a orientação espiritual sugestiva e o domínio da mente e da espiritualidade do mentoreado, entre o respeito à individualidade e a necessidade concreta de intervir a contra gosto do mentoreado e entre o discernimento espiritual já presente no discípulo e o possível equívoco orientativo do mentor.

Um profeta com grandeza de alma – Elias nunca se comprometeu com alianças políticas ou com as benesses da mesa do rei, embora tivesse inúmeras oportunidades para corromper-se. Ele vivia uma vida simples como todo servo de Deus deve viver (2 Rs 1.8), não vivia em palácios reais e nem recebia salários de reis, mas foi cuidado pelo próprio Deus. Elias foi severo e zeloso para com a Lei de Deus e exigiu o seu cumprimento por parte do povo e dos reis, mas ele cuidou do seu ministério até o fim, para que não se deixasse levar pela fama e nem pelo orgulho. Ele não se desviou da sua fé e preservou-se confiante naquele em quem cria. Nunca negociou os valores do seu ministério nem mesmo com reis poderosos e ameaçadores, nem se deixou intimidar nem mesmo com ameaças de morte. Elias, portanto, terminou o seu ministério sendo honrado pelas pessoas que temiam a Deus e respeitado pelos inimigos de Deus e dos adoradores de falsos deuses. Ninguém conseguiu tocar no ungido do Senhor, nem conseguiu pará-lo porque o Ele assim o preservou. Logicamente que Elias teve muitos problemas e enfrentamentos, mas estes apenas confirmaram que Deus era com ele, pois o guardou em todas as perseguições que sofreu. – Elias é um exemplo de líder capaz de suportar grandes pressões, contrariedade e perseguições sem perder de vista os seus ideais. Ao mesmo tempo, ele é seguramente humano a tal ponto de, em toda sinceridade, conversar com Deus quando não suportava mais as pressões e ameaças, deixando que o Senhor tomasse conta dele, apesar do seu cansaço. Nesses momentos, Deus assume o controle e cuida dos seus filhos, dando a medida exata da provisão física, emocional e espiritual.

Gilgal, um lugar de boas recordações – Em Gilgal, havia um memorial da travessia do Jordão efetuada por Josué (Js 4.19,20). Lá foi o lugar onde os israelitas foram circuncidados (Js 5.1-9), celebraram a primeira páscoa na Terra Prometida (Js 5.10), onde o maná que alimentou o povo dezenas de anos cessou (Js 5.9-10), onde se começou a dividir o território de Israel (Js 14.6). Samuel passava por Gilgal (1 Sm 7.16). Nesse lugar, Saul foi confirmado rei, e foi lá também onde ele perdeu a promessa do seu reinado (1 Sm 11.14-18; 13.8-14). Portanto, representava a presença de Deus e importantes eventos históricos para o povo de Deus; e é nesse lugar que Elias estava quando se apercebeu de que a sua hora final havia chegado. Assim, ele partiu com o seu servo Eliseu para Betel, depois para Jericó e, por último, atravessou o Jordão. Que o Senhor encontre os seus servos esperando a sua volta em Gilgal, o lugar da sua presença.

SUBSÍDIO DIDÁTICO-PEDAGÓGICO

Utilizando uma técnica didática denominada “Tempestade Cerebral”, proponha à classe a seguinte questão: O que significa “porção dobrada do espírito de Elias”?

Como funciona a técnica? O professor fará a pergunta e cada aluno, um após o outro, deverá respondê-la imediatamente sem ter o tempo suficiente para estruturar ou ordenar logicamente a resposta. As ideias serão captadas em estado nascente. A partir do uso desta técnica o professor avaliará o nível de conhecimento da classe acerca do assunto. A seguir, coloque no quadro a resposta abaixo, avaliando-a com eles.

No contexto do Antigo Testamento, geralmente, o sucessor das funções familiares era o primogênito. O sucessor tinha direito a porção dobrada da herança deixada aos outros filhos (Dt 21.17). O que Eliseu estava pedindo a Elias era para ser seu sucessor no ministério profético.

II. O PEDIDO OUSADO DE ELISEU

1. A fidelidade de Eliseu. Antes de Deus levar Elias “num redemoinho ao céu” (2 Rs 2.1b), ele mandou o profeta fazer uma viagem da cidade de Gilgal à Betel. Elias disse a Eliseu que ele não precisava ir, mas Eliseu respondeu: “Não te deixarei.” Durante a viagem, Elias disse duas vezes para Eliseu voltar, mas ele se recusou (2 Rs 2.1-6). Para Eliseu, era uma honra servir Elias porque esse era o trabalho que Deus lhe tinha dado para fazer.

2. A porção dobrada. Quando Elias percebeu que Eliseu realmente não o deixaria, em razão de sua lealdade e companheirismo, lhe deu o direito de pedir qualquer coisa que desejasse. Eliseu então disse: “Peço-te que haja porção dobrada de teu espírito sobre mim” (2 Rs 2.9b). O que realmente Eliseu estava pedindo? Em Israel, duas partes de uma herança eram para o filho primogênito (Dt 21.15-17). Assim, Eliseu estava pedindo para ser herdeiro de Elias, ou seja, para ficar no lugar dele como profeta. Ele também pediu para ter o espírito ou atitude de Elias porque queria a mesma coragem e zelo pela verdadeira adoração (1 Rs 19.13,14).

3. Elias, a inspiração de Eliseu. Para receber o que pediu, Eliseu não poderia retirar os olhos de Elias (2 Rs 2.10). Isso para ele não era difícil, pois tinha o profeta como sua fonte de inspiração e estava sempre atento a tudo o que Elias fazia. As melhores oportunidades para aprender e crescer ministerialmente acontecem quando podemos nos espelhar em alguém que realmente serve a Deus com amor e fidelidade.

A fidelidade de Eliseu A lealdade de Eliseu foi colocada à prova por Elias e pelos profetas que eles encontraram nesta caminhada final. Eliseu não se deixou levar pelas sugestões de Elias e nem pela dos profetas, mas foi leal e submeteu-se à liderança de Elias até o fim, mesmo contrariando o profeta na sua insistência em estar junto dele. Muitas vezes, a submissão é medida não pela obediência cega, mas pela decisão mais sábia a ser tomada no momento, e essa foi a opção de Eliseu: uma desobediência sábia com vistas a um legado espiritual sem precedentes comprometida com a lealdade colocada acima da subserviência. – O processo de mentoria espiritual somente se completa quando o discípulo submete-se à liderança do homem de Deus, não como subserviência, mas como uma submissão honrada em reconhecimento à elevada liderança espiritual do mentor. Não uma liderança espiritual como as lideranças do mundo fazem, pois Jesus disse: “mas entre vós não será assim; antes, qualquer que, entre vós, quiser ser grande será vosso serviçal” (Mc 10.43), mas, sim, uma liderança que conhece as suas próprias fragilidades e os seus próprios limites de intervenção na vida do discípulo.

A porção dobrada – “Peço-te que haja porção dobrada de teu espírito sobre mim.” (2 Rs 2.9). Foi um pedido difícil, pois como Elias poderia dar a Eliseu além do que ele mesmo tinha? Com a unção de Deus sobre ele, qualquer coisa seria possível. Nesse momento, Elias mudou o seu discurso após testada a lealdade de Eliseu e solicitou que permanecesse com ele para que o seu pedido pudesse ser atendido. – Aqui se percebe o propósito puro de Eliseu. Ele não quis a porção dobrada para exibir-se diante dos outros, mas queria a porção dobrada porque sabia que os desafios que o esperavam eram muito maiores do que a sua capacidade de enfrentá-los. Portanto, a porção dobrada era uma forma de Eliseu vencer as suas próprias limitações para exercer um ministério eficaz. Essa mesma lógica está presente no revestimento de poder ocasionado pelo derramamento de poder sobre os discípulos em Atos dos Apóstolos e, ainda hoje, está disponível a todo cristão sincero que quer fazer a obra de Deus sob o poder do Espírito Santo, que compensa as debilidades humanas.

Elias, a inspiração de Eliseu – Eliseu teria que permanecer atento em Elias, não podendo retirar os olhos dele. Os maiores momentos de aprendizado e crescimento espiritual e ministerial acontecem quando podemos olhar para alguém que realmente é um servo fiel a Deus como Elias e podemos imitar os seus feitos. Paulo pôde, como um apóstolo fiel ao Senhor, dizer: “Sede meus imitadores, como também eu, de Cristo” (1 Co 11.1). Que Deus nos dê discernimento para escolher alguém para imitarmos, mas, ainda mais, que sejamos, apesar das fraquezas, como Elias também as tinha, pessoas que os outros possam imitar na sua fidelidade ao Senhor, numa sociedade pobre de bons referenciais. – Existem muitos bons líderes que podem ser imitados nos dias atuais, mas, ao mesmo tempo, há um vácuo de lideranças a serem imitadas, e uma crise instala-se em muitos jovens que aspiram ao ministério por não terem bons modelos, o que muitas vezes acaba com o jovem líder espelhando-se e imitando o modelo distorcido, o que compromete a perpetuidade de bons líderes. Eliseu pôde beneficiar-se do bom legado deixado por Elias. Que esse mimetismo saudável esteja presente em nossos ministérios. – No seu livro Porção Dobrada, José Gonçalves aponta para o fato de a crise de liderança da época de Elias ser a mesma crise contemporânea, em que havia crises: de modelos de referência; no ministério sacerdotal, com sacerdotes corruptos e mancomunados com a liderança civil; de propósitos; ético-moral dos sacerdotes controlados pelas leis de mercado e, ainda, determinados pela posição de poder, e não pela unção.

SUBSÍDIO BIBLIOLÓGICO

“Os filhos dos profetas (ver 1 Rs 20.35) pelo que parece, concentravam-se em três locais principais: Gilgal, Betel e Jericó (2.3,5,15; 4.38). Deus, por certo, enviou Elias a esses locais a fim de encorajá-los pela última vez e lhes anunciar que Eliseu seria o seu novo dirigente (vv. 1,15). – A amizade sincera e a comunhão na igreja sempre resulta em bênçãos extraordinárias para a obra de Deus. – […] O termo ‘porção dobrada’ não significa terminantemente o dobro do poder espiritual de Elias; refere-se, antes, ao relacionamento entre pai e filho, em que o filho primogênito recebia o dobro da herança que os demais (Dt 21.17). Eliseu estava pedindo que seu pai espiritual lhe conferisse uma medida abundante do seu espírito profético, para, deste modo, ele executar a missão de Elias. Deus atendeu ao pedido de Eliseu, sabendo que o jovem profeta estava disposto a permanecer fiel a Ele, apesar de toda a apostasia espiritual, moral e doutrinária a seu redor” (Bíblia de Estudo Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 1995, p. 574).

III. ELISEU TOMA A CAPA DE ELIAS

1. A comunhão de Elias e Eliseu. Enquanto Elias e Eliseu caminhavam juntos e conversavam, o que denota intimidade e comunhão entre os dois, Elias foi separado de Eliseu por um carro de fogo que o elevou num redemoinho (2 Rs 2.11). A amizade sincera e a comunhão na igreja, entre irmãos que se amam e se respeitam, sempre resulta em bênçãos extraordinárias para a obra de Deus.

2. A capa de Elias. Elias deixou sua capa cair quando foi elevado ao céu. Essa capa foi herança que o profeta deixou para seu servo Eliseu (2 Rs 2.13). Ela legitimou o ministério dele publicamente, ao tocar nas águas do Jordão e dividi-las para uma e outra banda (2 Rs 2.14). Esse episódio foi visto pelos filhos dos profetas de Jericó que imediatamente reconheceram que a unção de Elias estava sobre Eliseu (2 Rs 2.15).

A comunhão de Elias e Eliseu - A amizade entre mentor e discípulo é um presente de Deus e, sendo íntima: empresta os seus ouvidos nos momentos difíceis, sendo para o outro aquilo que ele não tem, suprindo as suas carências, embora de forma precária; pode ficar em silêncio diante do mistério da amizade e da presença de Cristo presente na amizade; enriquece e engrandece o outro com a sua sensibilidade e presença; pode celebrar e fazer festa em grandes momentos; pode chorar em momentos de dor e angústia; desenvolve o que há de melhor no outro, sem concorrência ou competições; pode criticar positivamente sem ressentimentos; tem a capacidade de aproximar o outro de Deus; experimentam o Reino de Deus nos cuidados recíprocos; pode tornar-se inútil em alguns momentos, mas a amizade continua; suporta fraquezas, ranços e esquisitices; e, no fim, acabam juntos na hora da morte, desfrutando do legado que o outro deixou, assim como Eliseu desfrutou do legado de Elias.

A capa de Elias – A expressão “filhos dos profetas” (hb. benê hannebî’îm) era utilizada nas línguas semíticas para indicar a pertença a um grupo ou corporação. Portanto, essa expressão refere-se ao grupo de profetas, possivelmente orientados por Eliseu ou algum outro profeta de destaque (1 Sm 10.10; 19.20), e tinham uma estrutura hierárquica ordenada. O grupo era coordenado por um líder que recebia o título de “pai” (daí a expressão “filhos dos profetas”), que, após a morte deste líder principal, passava para outro profeta respeitado no grupo (2 Rs 2.12; 6.21; 13.14). Provavelmente se expressavam de forma extática e utilizavam-se da oralidade e da expressão corpórea, conforme se depreende da maneira como os filhos dos profetas avisaram Eliseu do desaparecimento de Elias. Essa seria a maneira como posteriormente se expressariam aqueles que seriam batizados no Espírito Santo. – A capa que Elias deixou para Eliseu foi a mesma que ele usou para fazer o chamado profético de Eliseu (1 Rs 19.19), portanto estava carregada de significados e boas lembranças. Naquela época, a capa era um objeto muito importante e carregado de significados. Ela representava e identificava a pessoa (Mc 10.50). A capa para Eliseu significava que, imaginariamente, a virtude de Elias estava nela. O ministério de Elias demonstra alguém que sabe que o seu fim chegará, que ele não é insubstituível, que não se agarra veementemente ao cargo ou ao título, mas que permite que lideranças jovens surjam e surpreendentemente superem o seu antecedente, sem necessidade de ciúmes ou ocultamentos. Sem nenhum problema, Elias outorgou a Eliseu a solicitada porção dobrada. Ele sabia a quem estava deixando o legado, pois Eliseu foi forjado sob a sua liderança responsável e indicativa do projeto de Deus para Eliseu. – Líderes inspiradores e comprometidos com a Palavra de Deus são o maior legado de uma nação, instituição ou denominação. Eles são um presente de Deus que permite que haja equidade, projetos e decisões sábias. Além de serem presentes de Deus, esse surgimento de lideranças depende do compromisso desses homens em construir um caráter sóbrio e desenvolver habilidades espirituais, emocionais e sociais que reflitam a vontade de Deus para o seu povo.

SUBSÍDIO DEVOCIONAL

“[…] Elias foi levado ao céu assim como Enoque (Gn 5.24), sem experimentar a morte. (1) O traslado milagroso de Elias ao céu foi o selo divino da aprovação com destaque, da obra, do caráter e ministério desse profeta. Elias permanecera em tudo fiel à palavra de Deus no decurso de todo o seu ministério. Até ao último momento, vivera em prol da honra de Deus, tomara posição firme contra o pecado e a idolatria de um povo apóstata e despertara o remanescente fiel de Israel. Teve uma comitiva magnífica para conduzi-lo em triunfo ao céu. (2) A trasladação de Enoque e Elias assemelha-se ao arrebatamento futuro do povo fiel de Deus, à segunda vinda de Cristo (1 Ts 4.16,17)” (Bíblia de Estudo Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 1995, p.574).

“2 Rs 2.9 Deus concedeu o pedido de Eliseu porque os motivos de Eliseu eram puros. O objetivo principal de Eliseu não era ser melhor ou mais poderoso do que Elias, mas realizar mais para Deus. Se nossos motivos forem puros, não teremos que ter medo de pedir grandes coisas a Deus; pelo contrário, devemos estar dispostos a pedi-las. E quando pedirmos que Deus no dê grande poder ou habilidade, precisamos examinar nossos desejos e nos livrar de qualquer egoísmo que encontrarmos.

2 Rs 2.11 Elias foi levado para o céu sem morrer. Ele é a segunda pessoa mencionada nas Escrituras a ter essa honra. Enoque foi a primeira (Gn 5.21-24). Pode ser que os demais profetas não tenham visto Deus tomar Elias porque poderiam ter dificuldades em acreditar no que veriam. Seja qual for o caso, eles quiseram procurar Elias (2 Rs 16-18). A falta de qualquer traço físico do profeta iria confirmar o que havia acontecido e fortalecer a fé destes homens. A única pessoa levada ao céu em forma corpórea foi o Senhor Jesus, depois de sua ressureição (At 1.9)” (Bíblia de Estudo Cronológica Aplicação Pessoal. Rio de Janeiro: CPAD, 2015, p.753).

CONCLUSÃO 

O que identifica um profeta de Deus atualmente não é o uso de uma capa, mas o modo de viver, suas virtudes e comportamento. A exemplo de Eliseu, devemos nos espelhar em homens e mulheres de Deus que sejam genuínos imitadores de Cristo. E não apenas isso: precisamos também ser exemplo para os outros, refletindo a imagem do Senhor, não somente nas palavras, mas, principalmente, nas ações. – O profeta Elias estava chegando ao final do seu ministério, e o próprio Deus encarregou-lhe de providenciar um sucessor (1 Rs 19.16), que, por sua vez, seria Eliseu, sobre o qual Elias jogou a sua capa como sinal da chamada. Eliseu foi muito leal e próximo de Elias a tal ponto de receber espírito dobrado de Elias quando este lhe deixou cair a sua capa, quando subia ao Céu. O episódio das capas assume grande importância, porque a capa era a própria identificação da pessoa na história antiga de Israel. Por esse motivo, Eliseu, ao ser separado de Elias, rasgou a sua capa e passou a usar a capa de Elias, numa clara demonstração da perpetuidade profética de Elias na vida de Eliseu. Dessa forma, o profeta Elias tornou-se um baluarte e um modelo de fidelidade a ser seguido por um pouco de lideranças sadias que restaram.

REFERÊNCIAS

GONÇALVES, José. Porção Dobrada. Rio de Janeiro: CPAD, 2012.

LIÇÕES BÍBLICAS. 3º Trimestre 2021 - Lição 6. Rio de Janeiro: CPAD, 08, ago. 2021. 

POMMERENING, Claiton Ivan. O plano de Deus para Israel em meio à infidelidade da nação. Rio de Janeiro: CPAD, 2021. 

STAMPS, Donald C. Bíblia de Estudo Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 1997. 

WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo. Antigo Testamento, v. II Históricos, p. 449. Santo André: Geográfica, 2010. 

sexta-feira, 30 de julho de 2021

LIÇÃO 5: O REINADO DE ACAZIAS

COMENTÁRIO E SUBSÍDIO

 INTRODUÇÃO 

O reinado de Acazias foi fortemente marcado pela idolatria, assim como o de seus antepassados. Após uma queda da sacada do palácio real e consequente ferimento, Acazias cometeu um ato de infidelidade a Deus ao consultar Baal-Zebube sobre o seu destino. O Senhor, através do profeta Elias, advertiu severamente o rei sobre esse gravíssimo erro, anunciando o decreto de sua morte (2 Rs 1.16). – Acazias era filho de Acabe e Jezabel e assumiu o trono depois da morte trágica de Acabe na guerra, cumprindo-se a profecia de Elias, de que os cães lamberiam o seu sangue. A morte de Acabe foi profetizada como consequência dos seus atos de impiedade, especialmente relacionados à vinha de Nabote e à prática da idolatria. Apesar de Acabe ser um idólatra, deu nomes religiosos aos seus filhos. É o caso de Acazias, que significa “Yahweh prende” (no sentido de agarrar, segurar). Isso demonstra que Acabe queria deixar um caminho aberto para Deus e, ao mesmo tempo, queria satisfazer os desejos idolátricos da sua esposa Jezabel. A pergunta de Elias no Carmelo pode ter levado isso em conta: “Até quando coxeareis entre dois pensamentos?”.

 I. UM REINADO MARCADO PELA IDOLATRIA

1. O deus de Acazias. Acazias era filho de Acabe e Jezabel e foi sucessor de seu pai no trono de Israel. Acazias venerava o deus Baal-Zebube de Ecrom, uma das cinco cidades dos filisteus, a sudoeste de Canaã. Ao adoecer em razão de uma queda, enviou mensageiros para consultar essa divindade a fim de saber se viveria ou morreria (2 Rs 1.2).

2. Acazias segue os passos de seus pais. O reinado de Acazias foi um dos mais difíceis para Israel. Ele é mencionado na Bíblia como um rei que fez o que era mau aos olhos do Senhor e imitou Acabe, Jezabel e Jeroboão. No seu curto reinado de dois anos, conseguiu superar a maldade de seus antecessores. Acazias seguiu o péssimo exemplo de seus pais que certamente não acataram o sábio conselho de Salomão: “Instrui o menino no caminho em que deve andar, e, até quando envelhecer, não se desviará dele” (Pv 22.6).

O deus de Acazias – Baal-Zebube é uma junção de duas divindades, uma cananeia e outra filisteia. Baal significa Senhor ou esposo nos idiomas semíticos e, mais tarde, passou a designar o deus da tempestade ou, ainda, da agricultura. Zebube pode ser uma variante da grafia de Zebul, que significa “Baal, o príncipe”. Se essa alternativa for verdadeira, o autor bíblico está provavelmente debochando da estupidez na adoração a um deus falso, denominando-o de Baal-Zebube, cujo significado seria “o príncipe das moscas”. – Assim, Baal-Zebube também pode ser uma referência ao zumbido das asas das moscas que poderiam, por meio do barulho das asas, trazer oráculos desse deus. Portanto, a junção do nome Baal com Zebube, na mitologia antiga, formou um novo deus, “Baal, o príncipe” ou “senhor das moscas”. É esse deus que Acazias mandou consultar para saber se viveria ou morreria. Se Acazias tivesse procurado Elias ao invés de seguir o caminho de Ecrom, certamente teria alcançado misericórdia de Deus e teria sido curado. – No Novo Testamento, ele é chamado de Belzebu, um príncipe dos demônios. Por isso, Jesus foi falsamente acusado pelos religiosos da época de que o seu poder para expulsar demônios era oriundo desse deus: “Mas os fariseus, ouvindo isso, diziam: Este não expulsa os demônios senão por Belzebu, príncipe dos demônios” (Mt 12.24; Mc 3.22; Lc 11.15).

Acazias segue os passos de seus pais – Observamos que pais perversos geralmente vão gerar e criar filhos perversos, e essa perversidade esteve presente no reinado de Acazias. Portanto, a consequência de uma educação anti-bíblica refletiu-se também nos súditos de Acazias, da mesma forma como foi com os seus pais. A idolatria estava tão incrustada no coração de Acazias que ele não conseguiu ver as consequências que sucederam aos seus pais por estes terem sido tão idólatras. Mas não é somente o pecado da idolatria que está em jogo aqui. O rei mandou consultar o falso deus, e isso significa buscar a vontade dele por meio de um oráculo, o que era terminantemente proibido em Israel, conforme a Lei mosaica: “Não vos virareis para os adivinhadores e encantadores; não os busqueis, contaminando-vos com eles. Eu sou o Senhor, vosso Deus” (Lv 19.31). Portanto, Acazias estava num só gesto infringindo dois preceitos da Lei: adorar e consultar um falso deus. – Esse exemplo de Acabe e Jezabel na educação de Acazias serve-nos de alerta na maneira pela qual educamos nossos filhos, pois, na maioria das vezes, aquilo que fazemos de bom ou mal é aquilatado na vida deles de maneira “infinita”. Acazias viu os seus pais adorando Baal, caluniando e perseguindo profetas, ameaçando-os de morte, e foi exatamente isso que ele repetiu no seu reino. Não fosse a intervenção divina duas vezes matando os soldados que vieram buscá-lo, o fim de Elias certamente teria sido trágico nas mãos de Acazias. – Além do problema do mau exemplo deixado pelos seus pais, Acazias foi educado mediante o autoritarismo exagerado de Jezabel e de um pai títere da esposa. Isso causava muita tensão na família, além de todas as pressões normais de pessoas famosas e com muito poder, como é o caso. Quando adultos agem com os seus filhos em frequente estado de tensão e coação, as crianças são vencidas interiormente pelo poder exagerado e não conseguem construir os seus próprios pontos de vista, não separam o certo do errado na atitude dos adultos, o que as manterá na predominância do erro durante toda a vida, não construindo princípios de justiça. – Pais controladores, restritivos, hostis, agressores, ou permissivos, negligentes e/ou indiferentes (ambas como formas de rejeição), geram crianças que não sabem expressar suas ansiedades e raivas, podendo tornarem-se depressivas, autodestrutivas, suicidas, passivas, introvertidas, tímidas, desenvolverem hábitos nervosos, terem pesadelos e apresentarem sintomas psicossomáticos. – Acazias, criado e educado na corte real, certamente teve muitos problemas com a sua educação e formação, aliado ao mau exemplo dos seus pais, e isso foi refletido no seu reinado.

SUBSÍDIO DIDÁTICO-PEDAGÓGICO

Escreva na lousa ou em um flip-chart a seguinte pergunta: O que significa “fazer o que é mau aos olhos do Senhor”? Dê cinco minutos aos alunos para elaborarem a resposta. Ao cabo do tempo determinado, solicite que cada um, por seu turno, exponha sua resposta. Todas as respostas deverão ser anotadas no quadro. Não importa nesse momento se elas estão corretas ou não. A seguir, leia com eles os textos de 1 Rs 11.6; 14.22; 15.26,34; 21.25; 2 Rs 3.2. Ao terminarem a leitura, peça a eles que, baseados nos textos lidos, respondam novamente à pergunta inicial. Não deixe de analisar e comparar as duas respostas.

II. ELIAS DESAFIA A ADORAÇÃO A BAAL

1. A corajosa intervenção de Elias. O rei Acazias enviou seus emissários para consultar o falso deus Baal-Zebube. Mas o anjo do Senhor ordenou ao profeta Elias que se encontrasse com eles em Samaria e os exortassem com uma dura palavra: “Porventura, não há Deus em Israel, para irdes consultar Baal-Zebube, deus de Ecrom?” (2 Rs 1.3b).

2. A resposta de Elias aos soldados do rei. Quando o rei ficou sabendo da profecia de Elias, enviou, em três ocasiões diferentes, um oficial com cinquenta soldados para conduzir Elias ao palácio (2 Rs 1.9-13). Mas nas duas primeiras vezes, desceu fogo do céu e consumiu todos os soldados e seus capitães (2 Rs 1.14). Na terceira vez, todavia, o capitão do agrupamento, temendo pela própria vida e pela de seus soldados, ajoelhado, suplicou ao homem de Deus que lhes poupasse a vida (2 Rs 1.13). Por bondade e misericórdia, o Senhor ouviu aquele sincero clamor e ordenou ao profeta que os acompanhassem até o palácio, em segurança (2 Rs 1.15).

3. Um ministério de fogo. Elias pode ser chamado de “profeta de fogo”. Em três episódios do seu ministério, Deus enviou fogo do céu: no monte Carmelo com os profetas de Baal (1 Rs 18.38); no monte Horebe quando o Senhor visitou o profeta e se manifestou por fogo, embora a presença dele não estivesse nesse elemento (1 Rs 19.12) e; quando por duas vezes, o fogo desceu do céu para consumir os soldados e seus capitães (2 Rs 1.10-12).

A corajosa intervenção de Elias – Diante da gravidade do ferimento de Acazias, ocasionado pela queda do terraço do palácio e como a medicina da época era muito precária, ele resolveu consultar, por intermédio dos seus súditos, a Baal-Zebube. Acazias, nesse gesto, estava dando as costas para Deus, apesar do pouco que ainda restava em Israel de adoração ao Deus verdadeiro, e indo ao encontro de uma divindade falsa que nunca havia operado nenhum milagre, que apenas tinha fama por ser um mito. Certamente que Acazias ouvira falar ou até mesmo tenha presenciado os feitos poderosos de Jeová por meio do profeta Elias, mas ele preferiu o duvidoso e falso deus de Ecrom a ter coragem de enfrentar a verdade do homem de Deus, o profeta Elias. – Ecrom é o caminho das verdades falsificadas, dos deuses falsos, do distanciamento de Deus, das investidas contra a sua vontade, das facilidades de um deus que não é exigente, do descompromisso com a adoração a Deus e de seguir caminhos livres de compromissos éticos com a Palavra de Deus. No caminho de Ecrom, tudo ficava mais fácil apenas aparentemente, porque Deus interveio usando o profeta e desmascarou a insanidade de Acazias. – Os mensageiros do rei estavam indo para Ecrom consultar o falso deus Baal-Zebube, e Jeová falou com Elias para que se encontrasse com eles enviando uma exortação com uma dura mensagem ao rei: “[...] Porventura, não há Deus em Israel, para irdes consultar a Baal-Zebube, deus de Ecrom?” (2 Rs 1.3). Trata-se de uma pergunta retórica que eles sabem a resposta. Elias precisou lembrar mais uma vez do que já havia dito tantas vezes: de que somente Jeová é Deus. A reprimenda de Elias foi corajosa e forte, como sempre foi característico do seu ministério. Ele não poderia admitir que o rei desprezasse o Deus verdadeiro e fosse atrás dos oráculos de um falso deus. – Depois da interpelação dos mensageiros do rei, Elias subiu ao monte e ficou assentado esperando o desfecho da situação. Ele sabia que a história não ficaria assim, pois o rei teria uma reação. Elias, então, ficou esperando que o chamassem. Percebe-se que Elias ficou calmo. Se ele não confiasse em Deus e na sua Palavra, poderia ficar agitado e nervoso, mas ele estava assentado esperando. – Nos casos em que tratou com Acabe e Jezabel, na maioria das vezes, Elias falou cara a cara com os monarcas; já com Acazias ele mandou um recado. Isso deve ter trazido desgosto para o rei, pois reis não podem ser contrariados, mas para Deus não importa contrariar a idolatria e o falso profetismo do rei quando Ele tem um homem disponível para fazer a sua vontade custe o que custar. Neste episódio, vemos novamente a precisão profética de Elias não somente em acertar o veredito preditivo, como também estar no lugar certo, na hora certa, por ordem divina, no caminho de Ecrom. – Os súditos do rei não conheciam a Elias, mas a autoridade do profeta de Tisbe era tão grande que eles desobedeceram à ordem do rei e voltaram ao palácio real. Era impossível desobedecer à ordem do rei. Os súditos eram muito leais no cumprimento das ordens, mas com Elias foi diferente. A sua autoridade não emanava dele, até porque a sua aparência era desprezível, mas a sua autoridade vinha daquEle que tem autoridade sobre tudo e todos, inclusive sobre Acazias. Por esse motivo, os mensageiros do rei desobedeceram à ordem dele e voltaram. Esse desafio da autoridade real deve ter causado muita contrariedade ao rei. Os mensageiros de Acazias ficaram tão impactados com Elias, a quem nem ao menos conheciam, que imediatamente voltaram e abandonaram a ordem do rei. Aqui se percebe que Acazias conhecia Elias, pois ele desconfiou da mensagem contrária aos seus interesses que os mensageiros trouxeram a ele. O estilo de intervenção era o do profeta Elias: aparecer do nada, sem ser avisado nem recomendado. E o rei reconheceu a descrição dos seus mensageiros: “[...] Era um homem vestido de pelos e com os lombos cingidos de um cinto de couro” (2 Rs 1.8). Elias ordenou que voltassem e dissessem ao rei: “[...] Ide, voltai para o rei que vos mandou e dizei-lhe: Assim diz o Senhor: Porventura, não há Deus em Israel, para que mandes consultar a Baal-Zebube, deus de Ecrom? Portanto, da cama, a que subiste, não descerás, mas sem falta morrerás” (1.6). O rei exclamou: “É Elias, o tisbita” (v. 8). Medo e temor apoderaram-se do rei, mas ele supostamente detinha o poder e tomou as medidas que lhe era permitido: chamar o profeta de forma ameaçadora.

A resposta de Elias aos soldados do rei – Os dois primeiros capitães, tão obstinados quanto o próprio rei, simplesmente ordenaram para que Elias descesse e fosse ao encontro do rei. Na primeira vez, o capitão disse: “Desce” (2 Rs 1.9). Na segunda vez, o outro capitão é mais enfático, pois, certamente, o rei estava mais enfurecido: “Desce depressa” (1.11). Aqui percebemos que o homem de Deus não temia as ameaças. Ele não obedecia a reis, e não seria Acazias que lhe daria ordens, muito menos os capitães e a intimidação dos soldados. Somente quando Deus, através do anjo, diz a ele: “Desce com este, não temas”, é que ele segue o terceiro capitão. Pelo termo “não temas” usado pelo anjo, a vida de Elias estava em perigo. – Na terceira vez que o rei enviou uma guarnição de soldados, vemos que o capitão era temente a Deus e entendeu que era o Senhor quem estava no controle da situação, e não o rei Acazias. O terceiro capitão estava afinado com a obediência de Elias, que era direcionada apenas a Deus, e pediu misericórdia, ao que Elias poupou a sua vida e acompanhou-o ao palácio real. Aqui percebemos que o ministério de Elias havia dado resultados. Ao menos esse capitão e os seus soldados serviam a Deus, e não a Baal. Talvez ele tenha estado presente no episódio do monte Carmelo e presenciara o grande milagre da descida do fogo e, assim, pôde tomar a firme decisão de abandonar Baal e servir ao Senhor.

Um ministério de fogo – Episódios de consequências trágicas para os adoradores dos falsos deuses estiveram muito presentes no ministério do profeta Elias. Ele pode ser chamado de o profeta do fogo, pois em vários episódios, o seu ministério esteve envolvido com fogo: quando do desafio do monte Carmelo, desceu fogo do céu e consumiu o altar e tudo o que havia nele (1 Rs 18.38); Deus chamou a atenção do profeta por meio do fogo (1 Rs 19.12); duas vezes seguidas desceu fogo do céu para consumir os soldados que vieram prendê-lo (2 Rs 1.10-12); e, por último, ele é elevado ao céu num redemoinho (2 Rs 2.11). Dois desses episódios de fogo estão relacionados à adoração a falsos deuses com consequências lastimáveis para os seus adoradores. Primeiro morreram 850 falsos profetas, depois 102 soldados. Assim como no Carmelo, nesse episódio de Acazias, “Deus mostra através do fogo, que ele não irá dividir sua glória com nenhum outro deus”. – Vimos que o ministério do profeta Elias lutou com muito zelo contra a adoração a falsos deuses. Afinado com Jeová, o profeta não tolerou esses desvios perniciosos do seu povo. Que Deus levante muitos profetas na força de Elias para combater as várias formas de idolatria que podem haver entre o povo de Deus e que o fogo do Espírito Santo possa queimar toda idolatria, visto que Jesus é aquele que nos “batizará com o Espírito Santo e com fogo” (Lc 3.16). Como pentecostais, ansiemos pelo batismo no Espírito Santo com o fogo que nos purifica de todo pecado, pois só ele pode libertar as pessoas daquilo que lhes escraviza e que lhes incita à idolatria. O fogo na Bíblia representa a presença de Deus, como também a purificação operada pelo Espírito Santo.

SUBSÍDIO DEVOCIONAL

“O terceiro capitão apresentou-se e se colocou sob a misericórdia de Deus e de Elias. Não lemos que Acazias o ordenou que assim fizesse (seu coração teimoso é tão duro como sempre, tão indiferente ele é para com os terrores do Senhor, tão pouco afetado com as manifestações de sua ira, e, além disso, tão pródigo em relação às vidas de seus súditos, que ele envia um terceiro com a mesma mensagem provocadora a Elias), mas ele se alarmou com o destino de seus predecessores, os quais, talvez, caíram mortos ante a seus olhos. E, ao invés de intimar o profeta, que descesse, caiu diante dele e implorou por sua vida e pela vida de seus soldados, reconhecendo seus próprios deméritos e o poder do profeta (vv. 13,14): Seja preciosa aos teus olhos a minha vida. Note: Não se consegue nada lutando com Deus: se formos bem-sucedidos com ELe, será por meio de súplicas. Se não cairmos diante de Deus, devemos nos curvar diante dEle. E aqueles que aprendem a ser submissos com as fatais consequências dos outros, são sábios para seu próprio bem.

[…] Elias faz mais do que atender ao pedido deste terceiro capitão. Deus não é tão severo com aqueles que se colocam contra Ele, mas está pronto para mostrar clemência àqueles que se arrependem e se submetem a Ele. Nunca ninguém agiu em vão ao colocar-se sob a misericórdia de Deus. Este capitão não somente tem sua vida poupada, mas a permissão de cumprir sua tarefa: Elias, sendo assim ordenado pelo anjo, desce com ele ao rei (v.15). Assim, ele mostra que, antes, recusava-se a ir não porque temesse o rei ou a corte, mas porque não seria arrogantemente compelido a fazê-lo, o que diminuiria a honra de seu Senhor. Ele valoriza seu cargo. Ele vem corajosamente ao rei, e lhe diz na cara (agora não importam seus sentimentos) a mensagem que tinha enviado antes (v.16), que deveria certa e prontamente morrer. Elias não alivia a sentença, nem por medo do desprazer do rei, nem por pena de sua miséria” (HENRY, Matthew. Comentário Bíblico Antigo Testamento: Josué a Ester. Rio de Janeiro: CPAD, 2010, p. 545,46).

III. A DOENÇA DE ACAZIAS E A SUA MORTE

1. O julgamento do Senhor contra Acazias. Deus mandou Elias dizer ao rei que ele jamais seria curado ou sairia da cama vivo (2 Rs 1.4). Por consequência de sua obstinada idolatria, Acazias estava sentenciado à morte. Ele conhecia as maravilhas que Deus havia operado no meio do seu povo, no passado. Como poderia opor-se a Deus e negligenciar suas leis daquela maneira? Deus não tolera a obstinação daqueles que ouvem sua Palavra e permanecem com a vida deliberadamente entregue ao pecado. Deus não tolera a obstinação daqueles que ouvem sua Palavra e permanecem com a vida deliberadamente entregue ao pecado.

2. A determinação de Elias e a morte do rei. Ao ser convocado à presença do rei pelos oficiais e seus soldados, o profeta não titubeou em repetir o que já havia dito anteriormente aos mensageiros de Acazias: “desta cama, a que subiste, não descerás, mas certamente morrerás” (2 Rs 1.16b).

Provavelmente, o acidente ocorrido com o rei afetou sua mobilidade e a falta de medicina adequada naquela época não lhe proporcionou uma boa recuperação. Independente disso, a Palavra de Deus dada ao profeta Elias se cumpriu e o rei Acazias faleceu.

3. As qualidades de Elias. Nesse episódio várias qualidades de Elias são percebidas, tais como: intimidade com Deus; zelo em promover a adoração ao Deus de Israel e em condenar a idolatria; clareza e assertividade em suas sentenças; fidelidade e, além de tudo, a coragem (2 Rs 1.9-12). Ainda hoje o Senhor busca homens e mulheres que sejam corajosos e obedientes a fim de serem usados por Ele em sua grande obra.

O julgamento do Senhor contra Acazias – Existem casos tão comprometedores de idolatria que, mesmo na iminência certa da morte, se torna impossível haver um regresso aos caminhos do Senhor, não porque Ele não possa fazer isso, mas, sim, porque o nível de comprometimento do adorador do falso deus não lhe permite mais voltar. O adorador terá que abrir mão de situações pecaminosas, terá que desnudar o seu coração, terá que admitir que o seu falso deus fracassou, terá que engolir o seu orgulho, mas essas possibilidades não estavam presentes na vida de Acazias. Algumas vezes, mesmo sendo a Palavra de Deus na boca do seu profeta, as pessoas não vão ouvir ou estarão impedidas de entender. – A sentença inspirada pelo Espírito Santo, que Elias deu para o rei Acazias, é consequência direta da importância que o rei deu à divindade Baal-Zebube. Era inadmissível esse rei querer consultar uma divindade falsa, sendo que Jeová, o Deus de Israel, mostrou tantas maravilhas no meio do seu povo no passado. Deus não tolera a estupidez daqueles que ouvem a sua voz e conhecem a sua história, no caso do rei por meio do profeta Elias, e continuam com a sua vida entregue ao pecado. – Elias sabia que Acazias não havia abandonado Baal, porque não é fácil abrir mão de Baal, pois isso significaria deixar de exercer controle sobre deus. Abrir mão de Baal significa que não se terá mais à disposição aquela religiosidade alienadora ao nosso dispor. Para deixar Baal, é preciso abandonar as ilusões confortáveis que permitem “viver uma desonestidade livre de culpas”. Deixar Baal significa que “não mais poderemos usar a religião para assustar, subornar ou intimidar outras pessoas”. Abrir mão de Baal é um convite para crescer espiritualmente, mas crescer dói, especialmente em pessoas acostumadas a “uma cultura que lhes dá passagem livre para uma religião dos contos de fada, de divertimento e êxtase”.

A determinação de Elias e a morte do rei – Ao ser chamado à presença do rei pela guarnição de soldados, o profeta não teve medo de repetir o que já havia dito aos mensageiros. Toda pessoa que tem um ministério verdadeiro não teme o homem: “[...] desta cama, a que subiste, não descerás, mas certamente morrerás” (2 Rs 1.16). Por essa desobediência ao Senhor em adorar ídolos, Ele ficou indignado (1 Rs 22.54) com o rei, e o reinado de Acazias durou apenas dois anos (1 Rs 22.52). – Na presença do rei, Elias poderia ter mudado o seu discurso para amenizar a situação de Acazias e também para poupar a sua própria vida, pois o profeta estava denunciando a idolatria e sentenciando a morte ao rei com a profecia, uma dura mensagem para ser entregue. Mais uma vez, a coragem de Elias e a sua lealdade apenas a Jeová evidenciaram-se na sua vida. Ele não temeu a morte ou as ameaças e simplesmente entregou a mensagem que Deus mandou-lhe entregar, sem desvios, devaneios, meias verdades ou comprometimentos para receber o favor do rei. Para Elias, a obediência a Deus era mais importante do que qualquer outra coisa, inclusive a sua própria vida. – Toda a fúria e a autoridade de Acazias esvaíram-se diante da autoridade do homem de Deus e da veracidade da sentença. O rei não ordenou a morte de Elias e nem o ameaçou. O profeta saiu pela porta da frente do palácio de cabeça erguida porque fez o que Deus havia-lhe ordenado fazer sem ser importunado. Diante de Deus, nenhum rei ousa atravessar. O temor do Senhor tomou conta de Acazias, mesmo ele não admitindo ou se rendendo a Ele. Nesse episódio bíblico envolvendo Acazias, percebem-se várias qualidades de Elias: ele tinha intimidade com Deus, pois este lhe ordenou que interpelasse e impedisse os mensageiros do rei por divina revelação; Elias mostrou o seu zelo em promover a adoração ao Deus de Israel; ele tinha clareza e assertividade na sentença, pois previu a morte do rei. Elias foi o profeta a quem Deus falou com riqueza de detalhes para encontrar-se imediatamente com os mensageiros no caminho de Ecrom e, assim, entregar uma mensagem que, humanamente falando, seria impossível alguém conhecer com antecedência. Somente os mensageiros sabiam da ordem do rei, mas o Espírito Santo, que sabe todas as coisas, ordenou a Elias que interrompesse o desígnio equivocado do rei. Os mensageiros nem chegaram a Ecrom. Eles voltaram no meio do caminho contrariando a ordem do rei e obedecendo a Elias.

SUBSÍDIO BIBLIOLÓGICO

Quando de uma séria queda, Acazias ignorou a existência de Elias e enviou mensageiros que consultassem Baal-Zebube, em Ecrom. Elias interceptou esses mensageiros com a solene advertência de que Acazias não se recuperaria. Após diversas tentativas para capturar Elias, tentativas essas que foram rechaçadas, o profeta foi conduzido diretamente à presença do rei. Tal como fizera no caso de Acabe, seu pai, Elias advertiu pessoalmente a Acazias de que o juízo divino lhe sobreviria, porquanto ele prestara honras a deuses pagãos e ignorara o Deus de Israel. Talvez essa tenha sido a última vez em que Elias compareceu a presença de um rei, porque não se faz menção alguma de associações com Jorão, rei de Israel” (BENTHO, Esdras Costa & PLÁCIDO, Reginaldo Leandro. Introdução ao Estudo do Antigo Testamento. Rio de Janeiro: CPAD, 2019, p. 252).

CONCLUSÃO 

O reinado de Acazias foi marcado pela idolatria e pela infidelidade para com Deus. Ele fez o que era mau aos olhos do Senhor ao consultar outros deuses sobre o seu futuro (2 Rs 1.2). Era idólatra e infiel para com os mandamentos de Deus. Elias foi o profeta que confrontou as transgressões de Acazias e por esse motivo quase foi preso (2 Rs 1.9). Todavia, seguiu em frente, cumpriu sua missão e honrou a Deus (2 Rs 1.10). – O reinado de Acazias, que durou menos de dois anos, foi fortemente marcado pela idolatria, como o dos seus antepassados também o foi, e Deus usou o profeta Elias nesse episódio para advertir seriamente o rei pelo grave erro de não apenas adorar uma falsa divindade, mas também de consultá-la por meio dos seus mensageiros reais. Elias, usado por Deus, muda o curso da história e intervém na grande apostasia do rei dando-lhe a sentença de morte. Além da idolatria, o reinado de Acazias foi marcado pela revolta de Moabe, que havia sido um reino súdito de Israel desde a época de Omri (2 Rs 1.1; 3.5), talvez se aproveitando da saúde debilitada de Acazias, e pela desastrada tentativa de aliança marítima com Josafá, rei de Judá (2 Cr 20.35,36).

REFERÊNCIAS

LIÇÕES BÍBLICAS. 3º Trimestre 2021 - Lição 5. Rio de Janeiro: CPAD, 01, ago. 2021. 

POMMERENING, Claiton Ivan. O plano de Deus para Israel em meio à infidelidade da nação. Rio de Janeiro: CPAD, 2021. 

STAMPS, Donald C. Bíblia de Estudo Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 1997. 

WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo. Antigo Testamento, v. II Históricos, p. 449. Santo André: Geográfica, 2010.