sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

LIÇÃO 4: A ESTRUTURA DA BÍBLIA


   INTRODUÇÃO

A Bíblia Sagrada foi escrita majoritariamente em hebraico e grego, em um período aproximado de 1.600 anos, por cerca de 40 homens, e se estrutura em Antigo e Novo Testamento. Seus livros são divinamente inspirados e constituem o cânon bíblico. O conjunto dos 66 livros forma um único livro: a Bíblia Sagrada. Os critérios para avaliação da canonicidade são a inspiração, o reconhecimento e a preservação dos livros como Palavra de Deus.

A comprovação desses critérios revela que as Escrituras foram aceitas e preservadas como livros autorizados por Deus. O testemunho do próprio autor divino no coração das pessoas é quem provoca o reconhecimento de que a Escritura é a Palavra de Deus. Toda ela é nossa única regra de fé e prática. Neste capítulo, veremos como a Bíblia está organizada, a classificação de seus livros, a canonicidade e as particularidades dos Testamentos.

I – COMO A BÍBLIA ESTÁ ORGANIZADA

1. Definição do Termo Bíblia - A palavra “Bíblia” tem origem tanto no vocábulo grego como no latim. O termo grego “biblos” significa “livro” e tem conotação de qualidade sagrada. A palavra “bíblia” no latim é um substantivo feminino singular que igualmente exprime a ideia de “livro”. Por volta do ano 150 d.C., os cristãos passaram a usar o termo em latim “ta bíblia” (os livros) para referir-se ao conjunto de livros inspirados por Deus. O Dicionário Bíblico Wycliffe explica que o singular biblia em latim testemunha que os 66 livros (39 no AT e 29 no NT) revelam uma unidade de pensamento e uma pureza. Por isso, a coleção dos livros sagrados forma um único livro.

O erudito F. F. Bruce esclarece que o uso da expressão “a Bíblia” entre os cristãos foi inaugurado por Clemente de Roma. Essa declaração é referendada pela chamada segunda epístola escrita por Clemente (150 d.C.), em que o bispo redigiu: “os livros (ta bíblia) e os apóstolos declaram que a igreja existiu desde o princípio”. Porém, antes disso, o profeta Daniel, por volta do ano 538 a.C., já havia se referido às Escrituras do Antigo Testamento como sendo “os livros” (Dn 9.2). No Novo Testamento, termos sinônimos são utilizados para identificar “os livros sagrados”. O vocábulo mais comum e mais conciso empregado pelo Senhor Jesus é “as Escrituras” (Mt 21.42; Jo 5.39). Paulo também usa as expressões “as Santas Escrituras” e “as sagradas letras” (Rm 1.2; 2 Tm 3.15).

O Dicionário Bíblico Wycliffe, também anota que vários outros termos descritivos são encontrados no Novo Testamento para referir-se aos escritos do Antigo Testamento, tais como “a Lei” (Mc 5.18; Lc 16.17; Jo 12.34); “Moisés e os Profetas” (Lc 16.29; 24.27); “a Lei e os Profetas” (Mt 22.40; Lc 16.16); “a Lei de Moisés, os Profetas e os Salmos” (Lc 24.44). Nesse aspecto, é importante ressaltar que a designação de uso mais frequente no texto bíblico é o termo “as Escrituras” (plural) ou “a Escritura” (singular), e refere-se tanto aos livros inspirados do Antigo como do Novo Testamento (2 Tm 3.16; 2 Pe 3.16). E, pelo fato de a Bíblia ser a única revelação escrita de Deus dada pelo Espírito Santo, ela ainda é identificada como a “Palavra de Deus” (Mc 7.13; At 12.24; Ef 6.17).

2. O Cânon da Bíblia - A expressão “cânon” procede do hebraico “qãneh” com o sentido de “vara de medir”. O Dicionário Vine elucida que “a cana” abalada pelo vento (Mt 11.7; Lc 7.24) e a “cana” quebrada (Mt 12.20) citadas por Jesus são referência a essa palavra hebraica que representa uma das várias canas do Antigo Testamento (Is 42.3; Jó 40.21; Ez 29.6). O termo correspondente em grego é kanõn, que significa “régua”. Aparece no Novo Testamento com o sentido de regra moral (Gl 6.16) e também é traduzido como “medida” (2 Co 10.13,15). Quanto ao emprego entre os cristãos, Esequias Soares esclarece que:


Nos três primeiros séculos do cristianismo, o termo se referia ao conteúdo normativo, doutrinário e ético da fé crista. A partir do quarto século, os pais da igreja aplicaram as palavras “cânon” e “canônico” aos livros sagrados, para reconhecer sua autoridade como textos inspirados por Deus e instrumentos normativos para a vida e a conduta dos cristãos, portanto separados de outras literaturas.

Desse modo, na teologia o vocábulo “cânon” é empregado como “norma” de avaliação para identificar os livros sagrados. Em vista disso, o termo “canônico” passou a designar os 66 livros aceitos como divinamente inspirados (39 livros no A.T., e 27 no N.T.). Isso quer dizer que o Espírito Santo guiou o seu povo a reconhecer a autoridade desses escritos como regra de fé e prática. Nesse sentido, o cânon bíblico está completo. Nada pode ser acrescentado ou retirado das Escrituras canônicas (Ap 22.18,19).

Com o propósito de aprofundar essa compreensão, Norman Geisler enfatiza a diferença entres os livros canônicos e outros escritos religiosos:


Os livros canônicos fornecem o critério para a descoberta da verdade, mediante o qual todos os demais livros (não-canônicos) devem ser avaliados e julgados. Nenhum artigo de fé deve basear-se em documento não canônico, não importando o valor religioso desse texto. Os livros divinamente inspirados e autorizados são o único fundamento para a doutrina.

Nessa perspectiva, apenas os livros inspirados ou canônicos são os que constituem a regra e a autoridade final de fé para os cristãos. Isso não significa dizer que outros textos e literaturas cristãs, tratados, sermões e estudos teológicos não possuam algum valor devocional ou que não sirvam à edificação espiritual. Porém, todo e qualquer texto ou ensino não canônico jamais deve ou pode ser usado para definir ou delimitar as doutrinas cristãs. Assim sendo, nossa Declaração de Fé ratifica que, no encerramento do cânone divino, o Senhor Jesus chancelou a integridade e a completude da Bíblia Sagrada (Ap 22.18,19). 7 3. Os Dois Testamentos Bíblicos - O termo “testamento” vem do latim “testamentum”, que é tradução da palavra grega “diatheke” e da hebraica “berith”. Ambos os termos têm o sentido de “aliança”, “pacto” ou “concerto” de Deus com a humanidade. O Dicionário Bíblico Wycliffe reforça que o substantivo significa a obrigação autoimposta por Deus à reconciliação dos pecadores consigo mesmo (Gn 17.7; Dt 7-6-8; Sl 89.3,4). 8 O Dicionário Vine esclarece que, no ato de “fazer concerto”, era habitual o sacrifício de uma vítima (Gn 15.10; Jr 34.18,19). 9 O autor aos Hebreus revela que “um testamento tem força onde houve morte” (Hb 9.17); por isso, os dois testamentos bíblicos foram consagrados com sangue (Hb 9.18); o primeiro com sangue de animais (Hb. 9.19), e o segundo com o sangue do próprio Cristo (Hb 9.11-22).

A expressão “Antigo Testamento” foi inaugurada por Paulo (2 Co 3.14). Essa expressão paulina é traduzida como “Velho Testamento” (ARC); e “Antiga Aliança” (NAA). Embora outras passagens tenham ideia similar (Gl 4.24; Hb 9.25,26), essa expressão ocorre somente aqui em todo o Novo Testamento, e refere-se aos 39 livros canônicos dos judeus reconhecidos por Jesus como “as Escrituras” (Mt 22.29), “a Lei, os Profetas e os Salmos” (Lc 24.44). Esses livros revelam que Deus estabelecera uma aliança com Israel, porém a nação falhou em obedecer aos termos desse pacto (Jr 31.32). Por essa razão, o profeta Jeremias anunciou que um dia Deus estabeleceria uma aliança diferente. A promessa era que Deus realizaria um concerto no lado dentro das pessoas: “porei a minha lei no seu interior e a escreverei no seu coração; e eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo (Jr 31.33).

Nessa direção, o termo “Novo Testamento” é usado nas Escrituras para se referir ao cumprimento profético de Jesus como o Mediador da Nova Aliança (1 Co 11.25, 2 Co 3.6; Hb 8.6-13; 12.24). Essa expressão também passou a designar os 27 livros inspirados dos cristãos igualmente reconhecidos como “as Escrituras” (2 Pe 3.15,16). Como já mencionado, a palavra grega “diatheke” utilizada no texto bíblico pode significar tanto “aliança” como “testamento”. A preferência pelo emprego da expressão “testamento” deve-se à versão da Vulgata Latina. Desse modo, as designações “Antigo e Novo Testamento” como divisões principais da Bíblia, tal qual a conhecemos em nossos dias, teve início ao tempo de Tertuliano (150 d.C) e compreende os 66 livros canônicos que integram as Escrituras Sagradas.

II – O ANTIGO TESTAMENTO

1. Os Livros do Antigo Testamento - A classificação dos livros do Antigo Testamento, tal qual a conhecemos e utilizamos nos dias de hoje, se divide em 39 livros. A divisão utilizada pelos judeus é diferente da adotada pela Igreja cristã. A coletânea dos judeus somava 24 livros porque o agrupamento usava critérios distintos. Observe essa diferença e consequente correspondência nas tabelas abaixo:

Tabela 1. Disposição dos Livros do Antigo Testamento Hebraico

A Lei (Torá) 5 livros: 1. Gênesis, 2. Êxodo, 3. Levítico, 4. Números, 5. Deuteronômio.

Os Profetas (Nebhiim) 8 livros:

A. Profetas anteriores: 1. Josué, 2. Juízes, 3. Samuel, 4. Reis.

B. Profetas posteriores: 1. Isaías, 2. Jeremias, 3. Ezequiel, 4. Os Doze.

Os Escritos (Kethubhim) 11 livros:

A. Livros poéticos: 1. Salmos, 2. Provérbios, 3. Jó.  

B. Cinco rolos (Megilloth): 1. Cantares, 2. Rute, 3. Lamentações, 4. Ester, 5. Eclesiastes.

C. Livros históricos 1. Daniel 2. Esdras e Neemias, 3. Crônicas - Total: 24 livros

 

Tabela 2. Disposição dos Livros do Antigo Testamento Adotado pela Igreja Protestante

Pentateuco: 5 livros = 1. Gênesis, 2. Êxodo, 3. Levítico, 4. Números, 5. Deuteronômio

Históricos: 12 livros 1. Josué, 2. Juízes, 3. Rute, 4. 1 Samuel, 5. 2 Samuel, 6. 1 Reis, 7. 2 Reis, 8. 1 Crônicas, 9. 2 Crônicas, 10. Esdras, 11. Neemias, 12. Ester.

Poéticos: 5 livros = 1. Jó, 2. Salmos, 3. Provérbios, 4. Eclesiastes, 5. Cantares.

Proféticos Profetas Maiores: 5 livros: 1. Isaías, 2. Jeremias, 3. Lamentações, 4. Ezequiel 5. Daniel

Profetas Menores: 12 livros: 1. Oseias 2. Joel 3. Amós 4. Obadias 5. Jonas 6. Miqueias 7. Naum 8. Habacuque 9. Sofonias 10. Ageu 11. Zacarias 12. Malaquias - Total: 39 livros

Como observado na tabela 1, a divisão utilizada pelos judeus era tripartida: a) a Lei, b) os Profetas e c) os Salmos ou Escritos. O Senhor Jesus fez menção da Bíblia tripartida dos judeus quando disse: “convinha que se cumprisse tudo o que de mim estava escrito na Lei de Moisés, e nos Profetas, e nos Salmos” (Lc 24.44). Conforme visto na tabela 2, a divisão adotada pelos cristãos protestantes constitui-se de quatro partes e baseia-se na disposição dos livros por tópicos, com origem na tradução das Escrituras Sagradas para o grego, a versão da septuaginta iniciada por volta do III século a.C. 11 Apesar de a cultura judaica fazer uma categorização diferente, o conjunto do Antigo Testamento soma os mesmos 39 livros divinamente inspirados, tanto para os judeus como para os cristãos protestantes.

2. Canonicidade do Antigo Testamento - Muito se discute acerca dos critérios utilizados para a admissão dos livros sagrados no cânon do Antigo Testamento. Algumas propostas — como considerar como teste de canonicidade a antiguidade do livro, se foi escrito na língua hebraica e se havia algum valor de cunho religioso — foram ideias sugeridas e rejeitadas. A conclusão da erudição bíblica é de que os livros canônicos foram divinamente revelados e que, na sua boa providência, Deus fez que seu povo reconhecesse e recebesse sua Palavra. 12 Nessa perspectiva, existem três fatores basilares na avaliação de um livro canônico, a saber:

(a) a inspiração divina, que atesta se o livro é inspirado pelo Espírito Santo (Ne 9.30; Zc 7.12; 2 Pe 1.21). Acerca desse critério, R. T. Beckwit afirma que “o que qualifica um livro para um lugar no cânon do Antigo ou do Novo Testamento não é simplesmente o fato de ser antigo, informativo ou útil, e de fazer muito tempo que é lido e valorizado pelo povo de Deus, mas sim que tenha autoridade de Deus para o que diz”. Significa dizer que o livro tinha de ser testado como divinamente inspirado por meio de provas irrefutáveis de sua veracidade. O teólogo Gleason Archer Jr. assevera que este é o único teste de canonicidade que permanece de pé, isto é, o testemunho que Deus o Espírito Santo dá à autoridade da sua própria Palavra.

(b) reconhecimento do povo de Deus, que atesta se o livro era aceito como autêntico por seus primeiros leitores (Êx 24.3,7; Dn 9.2). Esse critério está relacionado com a inspiração divina. Nesse aspecto, Norman Geisler enfatiza que “Deus dá autoridade divina a um livro, e os homens de Deus o acatam. Deus revela, e seu povo reconhece o que o Senhor revelou. A canonicidade é determinada por Deus e descoberta pelos homens de Deus”. Para exemplificar, citam-se os livros de Moisés (Êx 24.3), os de Josué, sucessor de Moisés (Js 24.26), os livros do profeta Samuel (1 Sm 10.25), dentre outros, que foram imediatamente reconhecidos pelo povo de Deus. Acrescenta-se a isso o reconhecimento autenticado pelo próprio Senhor Jesus nos Evangelhos (Lc 24.44).

(c) preservação pelo povo de Deus, que atesta se o livro era conservado como Palavra de Deus (Dt 31.24-26; Dn 9.2). Nem todos os escritos de cunho religioso foram aceitos e conservados como inspirados pelo povo de Deus. Por exemplo, Tobias, Judite, Baruque, Macabeus I e II, Sabedoria de Salomão, Eclesiástico e outros foram rejeitados e considerados apócrifos. Eles foram recusados por seus erros teológicos e históricos. Não obstante, a lei de Moisés foi preservada na Arca (Dt 31.26) e dentro do Templo nos dias de Josias (2 Rs 23.24). Os ensinos de Samuel foram escritos “num livro e [colocados] perante o Senhor” (1 Sm 10.25). O profeta Daniel e Esdras possuíam uma coletânea com cópias dos livros de “Moisés e os Profetas” (Dn 9.2,6,13; Ne 9.14,26-30).

Por conseguinte, a confirmação desses elementos revela algumas verdades cruciais: (i) não se pode afirmar que é a Igreja que determina a canonicidade de um livro por meio de regras de reconhecimento; (ii) desde o início, os livros do Antigo Testamento foram recebidos e guardados como inspirados e autorizados por Deus, dotados de veracidade e de autoridade (Jz 3.4); (iii) talvez não saibamos explicar totalmente como Deus implantou essa convicção no coração de seu povo; e (iv) podemos confiar na autoridade do Antigo Testamento, pois a sua canonicidade é irrefutavelmente atestada pelo Senhor Jesus e pelos apóstolos (Mt 5.17,18; Lc 24.27; Rm 5.12, 1 Co 10.1-5).

3. Particularidades do Antigo Testamento - Quase a totalidade dos livros foi escrita em hebraico chamado na Bíblia de língua de Canaã (Is 19.18). Algumas porções foram escritas em aramaico, uma espécie de dialeto que deu origem à língua árabe. Destaca-se que as descobertas dos rolos do Mar Morto (entre 1947 e 1964 d.C.) confirmam a preservação e a suficiência dos textos do Antigo Testamento. Esequias Soares revela que, com exceção ao livro de Ester, todos os demais livros estão representados e confirmados pelos mais de 800 rolos encontrados nas 11 cavernas de Qumran, muitos deles vindo da Babilônia e do Egito, e alguns desses manuscritos ainda eram escritos com a grafia do hebraico arcaico.

Outra particularidade a destacar é que os judeus e os cristãos protestantes jamais aceitaram a inserção dos livros apócrifos no Antigo Testamento. Porém, o catolicismo romano os declarou canônicos no Concílio de Trento (1546). Desse modo, o Antigo Testamento católico possui os sete livros apócrifos acima citados, perfazendo um total de 46 livros. Além disso, a Bíblia católica inseriu acréscimos em Ester (Et 10.4ss), oração de Azarias (Dn 3.34-90); Suzana (Dn 13), e Bel e o Dragão (Dn 14).

Reitera-se que tais livros e acréscimos não são divinamente inspirados; eles são desprovidos de autoridade tanto espiritual como doutrinária. O último livro canônico foi o do profeta Malaquias, que o concluiu antes do ano 430 a.C.; desde então, nada mais pode ser acrescido ao cânon do Antigo Testamento. E, conforme o teólogo Norman Geisler, para facilitar a tarefa de citar a Bíblia, em 1.227 d.C. o texto foi dividido em capítulos e, por volta de 1.445 d.C., o Antigo Testamento foi dividido em versículos.

III – O NOVO TESTAMENTO

1. Os Livros do Novo Testamento - Esses livros foram reconhecidos pela Igreja após a morte e ressurreição do Senhor Jesus Cristo e estão classificados em quatro grupos principais: a) Evangelhos, que são os quatro livros de Mateus, Marcos, Lucas e João; b) Histórico, formado pelo livro de Atos dos Apóstolos; c) Epístolas, que se subdividem em Epístolas Paulinas, com 13 cartas de Romanos a Filemom; as Epístolas Gerais, com 8 cartas de Hebreus a Judas; e d) Revelação, constituído pelo livro de Apocalipse. O conjunto totaliza 27 livros inspirados e autorizados que são chamados de canônicos (1 Co 2.4,13). Observe essa categorização na tabela abaixo.

Tabela 3. Descrição dos Livros do Novo Testamento

Evangelhos - 5 livros: 1. Mateus, 2. Marcos 3. Lucas 4. João.

História – 1 livro: Atos dos Apóstolos

Revelação –1 livro:  Apocalipse

Epístolas Paulinas – 13 livros: 1. Romanos 2. 1 Coríntios 3. 2 Coríntios 4. Gálatas 5. Efésios 6. Filipenses 7. Colossenses 8. 1 Tessalonicences 9. 2 Tessalonicenses 10. 1 Timóteo 11. 2 Timóteo 12. Tito 13. Filemom

Epístolas Gerais – 8 livros: 1. Hebreus, 2. Tiago, 3. 1 Pedro, 4. 2 Pedro, 5. 1 João, 6. 2 João, 7. 3 João, 8. Judas Total: 27 livros

Nos primórdios do cristianismo, ainda no século I d.C., surgiram muitos falsos ensinos e falsos profetas conforme Cristo já tinha alertado a Igreja (Mt 7.15; Mc 13.22). Durante os séculos II e III, diversos livros heréticos foram escritos e receberam o nome de livros espúrios (pseudepígrafos e apócrifos). O conteúdo desses livros se resume em falsos ensinos permeados de erros gnósticos, docéticos e ascéticos acompanhados de desmedida fantasia religiosa. 19 Faz-se ainda menção de livros que desfrutavam de algum prestígio histórico e devocional, tais como “o Pastor de Hermas” (c. 15-140 d.C) e “o didaquê” (c. 100-120 d.C). Contudo, os livros espúrios e não canônicos jamais foram reconhecidos como inspirados. Somente os 27 livros acima listados é que são aceitos como autênticos e fidedignos de integrar o cânon do Novo Testamento.

2. Canonicidade do Novo Testamento - O princípio básico adotado para a canonicidade do Novo Testamento é similar ao do Antigo Testamento, ou seja, a questão da autoridade atestada pela inspiração divina. Milton Fischer sublinha que o reconhecimento de que os apóstolos e seus companheiros eram autênticos porta-vozes de Deus é o que determina a canonicidade de seus escritos. Assim sendo, os critérios de avaliação do Novo Testamento são iguais aos que determinam o cânon do Antigo, isto é, a inspiração, o reconhecimento e a preservação dos livros como Palavra de Deus.

Nesse sentido, a Bíblia oferece indiscutíveis provas de inspiração do Novo Testamento. Os apóstolos sempre reivindicaram que as palavras que escreviam não eram suas, mas as recebiam diretamente da parte de Deus (1 Ts 2.13; 2 Tm 3.16; 2 Pe 1.21). Wayne Grudem observa que, uma vez que estabelecemos que um escrito do Novo Testamento pertence à categoria especial de “Escritura” (2 Tm 3.16), implica dizer que ele possui igualmente a característica que Paulo atribui a “toda a escritura”, isto é, “inspirada por Deus” e assim todas as suas palavras são verdadeiras palavras de Deus.

Quanto ao reconhecimento dos livros como fidedignos, desde o início os escritos falsos foram refutados pela Igreja. Paulo exorta a Igreja a permanecer firme na fé e nos ensinos inspirados, entre eles os preceitos de Moisés e dos profetas, bem como as instruções das epístolas (2 Ts 2.15). Pedro alertou para que a Igreja não desse ouvidos às heresias de perdição que seriam propaladas por falsos profetas e falsos mestres (2 Pe 2.1). João advertiu os irmãos a não derem crédito a todo espírito, mas colocar a prova toda e qualquer revelação (1 Jo 4.1). O Comentário Bíblico Beacon assinala que os crentes deveriam desconsiderar as opiniões de teoristas e fanáticos, e aderir-se a “palavra”.

Em relação à conservação das Escrituras, os primeiros cristãos adotaram a prática de leitura dos livros autorizados em suas reuniões e cultos. Essa tradição de leitura pública das Escrituras era um costume antigo entre os judeus. Moisés e Josué eram adeptos dessa conduta (Êx 24.7; Js 8.34); Josias, Esdras e os levitas fizeram o mesmo (2 Rs 23.2; Ne 8.8). Essa cultura foi incorporada na liturgia cristã. Essa ação de leitura pública dos livros do Novo Testamento auxiliou no processo de canonicidade dos escritos divinamente inspirados (1 Ts 5.27; Cl 4.16; Ap 1.3).

Mediante tais fatos, atesta-se que, desde o começo, a Igreja Primitiva reconheceu e preservou os livros canônicos, alicerçada sobre o fundamento dos Apóstolos e dos Profetas (Ef 2.20). Norman Geisler afirma que os primeiros cristãos, apesar de terem sido bombardeados por muitos escritos falsos, pelo final do século I, já tinham concluído o cânon do Novo Testamento. Os debates prosseguiram em virtude de várias desinformações e falha de comunicação, mas desde o século V a Igreja cristã tem reconhecido esses 27 livros como o cânon do Novo Testamento.

3. Particularidades do Novo Testamento - Como particularidade, destaca-se que sete livros do Novo Testamento foram classificados como “antilegomena”. Essa designação significa que, em algum momento e por alguma razão, a autenticidade desses livros foi questionada por alguns dos Pais da Igreja e, por causa disso, por volta do século IV, esses livros ainda estavam desprovidos do reconhecimento universal. De acordo com o historiador Eusébio de Cesareia, tais livros são os seguintes:


Não se deve esconder, porém, que alguns põem de lado a Epístola aos Hebreus, dizendo ser contestada, alegando não ser uma das epístolas de Paulo [...] Entre os livros questionados, ainda que sejam bem conhecidos e aprovados por muitos, são reputados aquele chamado Epístola de Tiago e de Judas. Também a Segunda Epístola de Pedro e os chamados a Segunda e a Terceira de João [...] além disso, como já afirmei, caso pareça correto, o Apocalipse de João, que alguns como já se disse, rejeitam, mas outros colocam entre os genuínos.

Norman Geisler pondera que isso não significa que não haviam tido aceitação inicial por parte das comunidades cristãs primitivas. O próprio Eusébio assegura que não eram espúrios, mas que, embora reconhecidos por muitos, estavam sendo contestados por outros. Geisler anota que “o problema básico a respeito da aceitação da maioria desses livros não era sua inspiração, ou falta de inspiração, mas a falta de comunicação entre o Oriente e o Ocidente a respeito de sua autoridade divina”. Desse modo, assim que tais dúvidas foram dirimidas, a partir do século V, esses livros deixaram de ser questionados.

Uma especificidade do Novo Testamento repousa no fato de que todos os seus livros foram escritos em grego koiné, um dialeto comum e presente por toda a cultura de fala grega e que muito auxiliou na propagação do Evangelho nos primórdios do cristianismo (At 19.10). Algumas expressões, mesmo redigidas no vernáculo grego, possuem significado em aramaico. Dentre elas, citamos: Talitá cumi — “Menina, levanta-te” (Mc 5.41); Aba Pai — “Lit.: Pai, pai; ‘Meu Pai’” (Mc 14.36); Eloí, Eloí, lemá sabactâni? — “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Mc 15.34).

O conjunto dos livros canônicos do Novo Testamento foi escrito antes do término do século I. O último livro é o Apocalipse de João, datado por volta do ano 96 d.C.; e ratificamos que, desde o encerramento do cânon, os cristãos reconhecem apenas os 27 livros como inspirados. Como já visto, em 1.227 d.C., o texto foi separado em capítulos. Em torno de 1.555 d.C., o Novo Testamento também foi dividido em versículos. A divisão em capítulos e versículos facilitou a leitura e a memorização, além de possibilitar o estudo sistemático da inspirada Palavra de Deus.

(Extraído do livro A supremacia das Escrituras: a inspirada, inerrante e infalível Palavra de Deus. Douglas Baptista p.68-84)

 

sábado, 25 de setembro de 2021

LIÇÃO 13: O CATIVEIRO DE JUDÁ

COMENTÁRIO E SUBSÍDIO

 INTRODUÇÃO 

A fase final do reino de Judá foi protagonizada por quatro reis: Joacaz, filho do rei Josias (2 Cr 36.1); Jeoaquim, que reinou por ocasião do primeiro grupo de prisioneiros levados para Babilônia, em 605 a.C. (2 Cr 36.5,6); Joaquim, que com apenas três meses de reinado, vivenciou o cerco de Jerusalém por Nabucodonosor, que resultou em dez mil pessoas presas, em 597 a.C. (2 Cr 36.9,10); e Zedequias, o rei entronizado por Nabucodonosor no lugar de Joaquim (2 Cr 36.10,11). Nesta lição, veremos Zedequias rebelando-se contra o rei de Babilônia, causando um novo cerco que durou dezoito meses e, finalmente, resultou na queda definitiva de Jerusalém, em 586 a.C. – Observamos que o estágio final do Reino de Judá, também chamado de Reino do Sul, foi protagonizado por quatro reis vassalos, que agiram malignamente segundo a avaliação religiosa do autor dos Reis, e por um bom último governador. O primeiro rei foi Jeoacaz, filho do reformador Josias. Jeoacaz praticou muitas iniquidades, a despeito do zelo do seu pai. Como início do declínio do reino, foi feito vassalo do Faraó-Neco, que impôs pesados tributos sobre Judá, na quantia de três toneladas e meia de prata e 35 quilos de ouro. O Faraó ainda o tirou do trono, levou-o para o Egito e, no seu lugar, colocou Jeoaquim, que impôs uma carga de impostos sobre o povo para dar conta dos tributos do Faraó. Igualmente, Jeoaquim foi um mau rei no sentido de não servir ao Senhor. Com a morte de Jeoaquim, o seu filho Joaquim assumiu o trono. Com três meses de reinado, Nabucodonosor veio debelar a rebelião que o seu pai havia iniciado, fazendo o cerco a Jerusalém em 597 a.C., levando cativas dez mil pessoas entre nobres e artesãos, pessoas que tivessem alguma utilidade e das classes mais altas. Dentre eles, foi deportado o profeta Ezequiel, mas o seu ministério iniciaria somente na Babilônia. Nabucodonosor levou todos os tesouros do Templo de Salomão e da casa do rei. – No lugar de Joaquim, Nabucodonosor estabeleceu como rei vassalo a Zedequias, parente de Joaquim, cujo nome significa “Jeová é justo” ou “justiça de Jeová”, numa alusão ao que Jeová estava fazendo com Judá de forma justa. Zedequias, porém, rebelou-se contra a Babilônia, o que acarretou num novo cerco babilônico, que durou 18 meses; e, finalmente, a terceira leva de cativos ocorreu em 586 a.C. com a queda final de Jerusalém. A Babilônia também levou todo o restante das riquezas do Templo e de Jerusalém, bem como os utensílios do Templo. – É sobre esse assunto que vamos estudar nesta última lição deste trimestre.

 I. O DECLÍNIO ESPIRITUAL DE JUDÁ

1. As advertências dos profetas. Os profetas do Antigo Testamento foram unânimes e incansáveis em denunciar as injustiças e as terríveis transgressões do povo e dos líderes da nação (Jr 11.9-12). Todos foram taxativos em dizer que aquelas vindicações, especialmente contra o pecado de idolatria, já estavam excedendo as medidas de Deus.

2. Previsão dos acontecimentos que levaram Judá ao exílio. O ministério de Jeremias foi o mais importante desse período. Ele iniciou suas atividades proféticas no reinado de Josias e deu continuidade durante os quatro reinos seguintes (Jr 1.1-3).

No tempo desse grande profeta, havia muita discórdia e confusão sobre o que era a verdadeira e a falsa palavra de Deus. Por isso precisamos estar atentos para discernirmos a Palavra do Senhor. Ao advertir o povo sobre os pseudoprofetas, Jeremias o fez de modo tão peculiar, que parece estar se referindo aos falsos profetas dos nossos dias (Jr 23.16,17).

3. Motivos que levaram Judá ao cativeiro. O cativeiro aconteceu especialmente por causa da obstinada desobediência da liderança judaica. Essa posição é consolidada por vários outros profetas, dentre eles, Miqueias (Mq 3.9-11). Além da idolatria, pecados abomináveis foram cometidos contra Deus: derramaram sangue inocente (2 Cr 24.17-22); cometeram todo tipo de corrupção e injustiça social (Hc 1.2-4); não observaram o descanso sabático e ainda mataram muitos dos seus profetas (Mt 23.35).

A situação de Judá é uma triste realidade para um povo que recebeu tantas profecias, avisos e oportunidades de arrependimento, mas decidiu pela apostasia. Ao olhar para a história de Judá, cultivemos o sentimento de humildade em nosso coração (cf. Rm 20.21) para que o temor a Deus nos previna de toda apostasia (Hb 12.16,17). Andar com Ele é a melhor maneira de remover os obstáculos da alma, que nos atrapalham na caminhada cristã.

As advertências dos profetas. Vários profetas haviam predito a ruína de Jerusalém, incitando o povo ao arrependimento para que a justiça divina não agisse contra o povo, a Cidade Santa e o Templo, mas todos os avisos foram em vão. Dentre os profetas pré-exílicos do Reino do Sul, podemos citar Miqueias, Sofonias, Naum e Habacuque. Joel e Obadias profetizaram bem antes do exílio. Isaías foi o maior profeta em período anterior ao exílico de Judá, e Jeremias anunciou, acompanhou e relatou todas as atrocidades dos cercos babilônicos e da sorte dos cativos. Ezequiel e Daniel atuaram no exílio. – Os profetas tinham um caráter de denúncia da injustiça, da opressão e do pecado e apelavam à consciência do povo, mas especialmente aos líderes, indicando que os fatos denunciados, bem como a idolatria, estavam chegando na medida de Deus enviar o seu juízo, o que, de fato, aconteceu com o cativeiro babilônico. A necessidade deles no Antigo Testamento é pela quase ausência da palavra escrita, necessitando-se de arautos orais dos oráculos divinos.

Previsão dos acontecimentos que levaram Judá ao exílio. O profeta Habacuque previu detalhes de como seria o exército babilônico e as suas estratégias de guerra, conforme está descrito no capítulo 1 dos versículos 5-11. Entretanto é concebível que o ministério de Jeremias foi o mais importante durante os episódios do cativeiro. Iniciou-se durante o reinado de Josias e esteve ativo durante os próximos quatro reis; portanto, acompanhou cinco reis. Ele profetizava na porta do Templo (cap. 7), tanto para o povo, quanto para a classe dominante. A sua formação para ser sacerdote permitiu-lhe ser um homem culto; por isso, os seus escritos são de uma literatura rica e cheia de trocadilhos, como este: em 23.10, ele usa um trocadilho no hebraico para profetas = nebî’îm (sing. navi) e adúlteros = mena’pîm, referindo-se aos muitos profetas falsos que antecederam a última leva de cativos em 586 a.C., que anunciavam que a Babilônia não voltaria mais, o que encorajou alguns reis a rebelarem-se contra o império. O falso só existe porque há o verdadeiro; o falso só se manifesta no meio do verdadeiro, tomando a forma deste. Nem sempre a maioria e a liderança estão certas nas suas opiniões — é o caso de Jeremias, pois ele era minoria. O próprio Jesus cita as palavras de Jeremias, mostrando como ele pode ser contemporâneo até para nossos dias ainda: “É, pois, esta casa, que se chama pelo meu nome, uma caverna de salteadores aos vossos olhos? Eis que eu, eu mesmo, vi isso, diz o Senhor” (Jr 7.11; ver Mt 21.13; Mc 11.17; Lc 19.46). – Havia muita confusão no tempo de Jeremias entre o que era, de fato, Palavra de Deus e o que era falso. Havia muitas vozes discordantes, exatamente como é hoje. Assim, precisamos prestar muita atenção para discernir a Palavra de Deus. – A proliferação de falsos profetas ocorre por causa de crentes e líderes que não conhecem verdadeiramente o Senhor em uma sociedade consumista e hedonista. Não foram libertos da ganância e, por isso, querem ouvir palavras de prosperidade da parte do Senhor. Jesus referiu-se a esses falsos profetas quando disse: “Portanto, pelos seus frutos os conhecereis. Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no Reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus. Muitos me dirão naquele Dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? E, em teu nome, não expulsamos demônios? E, em teu nome, não fizemos muitas maravilhas? E, então, lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade.” (Mt 7.20-23). – Jeremias foi muito enfático e assertivo nas suas predições: “Porque o meu povo fez duas maldades: a mim me deixaram, o manancial de águas vivas, e cavaram cisternas, cisternas rotas, que não retêm as águas” (Jr 2.13).

Motivos que levaram Judá ao cativeiro – O cativeiro aconteceu especialmente por causa da liderança. Em todo o livro dos Reis, o autor sagrado deixa isso transparecer, culminando a ideia num momento de esperança frustrada com a reforma de Josias, que enfatizava que o problema da perdição não estava no povo, mas na liderança. Essa ideia é corroborada por vários profetas como visto neste capítulo; dentre eles, está Miqueias: “Ouvi agora isto, vós, chefes da casa de Jacó, e vós, maiorais da casa de Israel, que abominais o juízo e perverteis tudo o que é direito, edificando a Sião com sangue e a Jerusalém com injustiça. Os seus chefes dão as sentenças por presentes, e os seus sacerdotes ensinam por interesse, e os seus profetas adivinham por dinheiro; e ainda se encostam ao Senhor, dizendo: Não está o Senhor no meio de nós? Nenhum mal nos sobrevirá. Portanto, por causa de vós, Sião será lavrado como um campo, e Jerusalém se tornará em montões de pedras, e o monte desta casa, em lugares altos de um bosque.” (Mq 3.9-12) – Jeremias também evidencia a liderança como causadora do cativeiro: “Os sacerdotes não disseram: Onde está o Senhor? E os que tratavam da lei não me conheceram, e os pastores prevaricaram contra mim, e os profetas profetizaram por Baal e andaram após o que é de nenhum proveito” (Jr 2.8). – A situação de rebeldia era tão periclitante que, quando Deus mandou o profeta Jeremias registrar pela primeira vez as suas profecias em um rolo de livro, e após Baruque, o ajudante de Jeremias, ler o seu conteúdo na porta do Templo diante de todo o povo, embora tenha caído um grande temor sobre os príncipes, o mesmo não aconteceu com o rei, pois mandaram Jeremias e Baruque esconderem-se com receio de serem mortos (Jr 36.23,24). – O autor de Reis afirma: “O Senhor não o quis perdoar” (2 Rs 24.4), porque já havia chegado a um tal nível de deterioração que seria impossível o povo voltar-se novamente para Deus, a não ser que fossem severamente castigados para refletirem sobre o mal cometido. Outra afirmação forte de Reis é que o Senhor rejeitou-os da sua presença (2 Rs 24.20), o que também é corroborado pelo profeta Jeremias (6.20). Deus chegou a chamar Jerusalém de Gomorra (Jr 23.14; Is 1.9,10)! Se Ele chamou assim a sua cidade escolhida, então vale a pena atentarmos para nossa situação de enxertados na oliveira e vivermos uma vida digna da glória de Deus (Rm 11.17,18,21).

SUBSÍDIO DIDÁTICO-PEDAGÓGICO

A fim de estimular o raciocínio e a participação em sua classe, leve seus alunos a discutir um ponto relacionado com a lição ou com um texto bíblico, usando o seguinte plano:

Dê a cada membro da classe uma cópia do ponto a ser discutido ou texto a ser interpretado. Dê alguns minutos para que cada um possa escrever suas ideias. Depois distribua a classe em grupos de três ou quatro, a fim de falarem do que escreveram. Cada grupo deverá escolher um membro para apresentar as opiniões do grupo, quando a classe se juntar novamente. Depois de quatro ou seis minutos, junte a classe e deixe que os grupos falem da conclusão a que chegaram. À medida que cada representante expuser suas ideias, anote-as no quadro de escrever. Conclua a discussão fazendo um resumo do trabalho apresentado pelos grupos. Esta dinâmica de grupo envolve toda a classe e promove valiosas ideias para o desenvolvimento da lição.

A situação de Judá é uma triste realidade para um povo que recebeu tantas profecias, avisos e oportunidades de arrependimento, mas decidiu pela apostasia.

II. A OBSTINAÇÃO DE ZEDEQUIAS E SUA QUEDA

1. A teimosia de Zedequias. Zedequias, o último rei de Judá, não entendeu bem a exata conjuntura em que a nação se encontrava; e, por sua própria conta, resolveu não dar ouvidos à voz do profeta (Jr 38.14-28). Zedequias fez constantes ameaças a Jeremias e até tentou mantê-lo submisso aos seus caprichos. Mas, Jeremias, como homem de Deus, não se deixou corromper, antes, proferiu toda a palavra do Senhor (Jr 38.17,18).

2. Surdos aos avisos dos profetas. Jeremias advertiu ao rei Zedequias dizendo que, caso se rendesse à Babilônia, sua integridade seria preservada. Todavia, o rei não deu ouvidos ao profeta, razão de acontecer o que estava previsto. O poderoso exército babilônico invadiu e destruiu Jerusalém (Jr 39.1). Zedequias e povo de Judá estavam tão confiantes em sua religiosidade e escolha divina em relação às demais nações, que nem pensavam na hipótese de serem quase aniquilados (Jr 7.4).

A teimosia de Zedequias. Zedequias, o último rei de Judá, não entendeu a situação em que estava Judá, não ouviu o profeta Jeremias (38.14-28), nem mesmo discerniu que o tempo do fim havia chegado, que Judá iria para o cativeiro, que a potência mundial da época, a Babilônia, não pouparia uma nação enfraquecida e teimosa, com rebeliões facilmente sufocadas. Vejamos quais os males de Zedequias: (i) Ele não estava disposto a ouvir a palavra de Deus através de Jeremias; (ii) ele quebrou um juramento feito em nome de Javé como vassalo da Babilônia; (iii) ele não estava arrependido e nem falou em impedir os líderes e sacerdotes de profanar o templo com a reintrodução de práticas de idolatria. Além disso, Zedequias fez constantes ameaças a Jeremias e tentou manter o profeta sob as suas ordens. Todavia, o homem de Deus não se deixa corromper. Jeremias não omitiu nenhuma palavra do Senhor para o rei. Ele pagou um alto preço, ficou por um tempo preso no pátio da guarda real e um tempo atolado na lama de uma cisterna recebendo apenas pão para comer.

Surdos aos avisos dos profetas. Tanto o rei Zedequias quanto o povo de Judá estavam tão confiantes na sua religiosidade e preferência divina em relação às demais nações, porque tinham instituições religiosas fortes e um templo magnífico, que achavam que nunca seriam destruídos, ao que o profeta vaticinou: “Não vos fieis em palavras falsas, dizendo: Templo do Senhor, templo do Senhor, templo do Senhor” (Jr 7.4). Havia uma falsa segurança baseada no magnífico Templo de Salomão. Da mesma maneira, hoje em dia, não é a grandiosidade de uma religião, ou a solidez das suas instituições, ou mesmo a linhagem real dos seus líderes que poderão prevalecer, a não ser que a vontade de Deus seja feita em todas as coisas e Ele esteja entronizado em detrimento dos falsos deuses, que entram sorrateiramente em qualquer estrutura religiosa, por mais pura e santa que ela seja.

SUBSÍDIO HISTÓRICO

“Zedequias, entretanto, era o rei de facto de todo o Judá deixado na terra em 597. Mau como foram seus irmãos, ele não atentou para as admoestações do profeta Jeremias, para aceitar a soberania dos babilônicos como a vontade de Deus para a nação. Rebelou-se contra Nabucodonosor, ocasionando o desastre fatal para o reino. Não é possível precisar esta data (ver Ez 17.11-18), mas em 588, Nabucodonosor lançou um ataque contra Jerusalém, por meio de um cerco que culminou na queda da cidade e no fim da monarquia judaica, em julho de 586 (2 Rs 25.2-7). Zedequias conseguiu escapar por uma abertura na muralha da cidade e fugiu para os lados de Jericó, mas logo foi capturado e conduzido à presença de Nabucodonosor que, na ocasião, estava alojado na Síria, na cidade de Ribla. Nesta cidade, o rei de Jerusalém teve de presenciar a execução de seus filhos. Depois, vazaram-lhe os olhos e conduziram-no assim para Babilônia” (MERRILL, Eugene H. História de Israel no Antigo Testamento: O reino de sacerdotes que Deus colocou entre as nações. 6. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2007, p. 480).

III. JERUSALÉM É CERCADA E LEVADA CATIVA

1. A destruição da Cidade Santa e do Templo. Após as investidas dos assírios, dos egípcios, e de três ofensivas dos babilônios, a forte e imponente cidade de Davi se encontrava completamente arrasada. Durante o cerco de Jerusalém, que durou dezoito meses, ninguém podia entrar nem sair. Os víveres estocados foram sendo rapidamente consumidos, e os animais eram abatidos e oferecidos como alimento; até que não restou mais nada. A cidade santa estava em extrema pobreza e miséria (Lm 4.1-6). Foi nesse momento que o poderoso exército de Babilônia rompeu uma brecha no muro e invadiu a cidade. O Templo Sagrado, erigido há 380 anos, foi saqueado, destruído e queimado. A glória de Israel se foi.

2. A matança, o cativeiro, a peste e a pobreza. No livro de Lamentações de Jeremias, o profeta descreve, com riqueza de detalhes, as deploráveis cenas que assistiu (Lm 4.3-10). A fome chegou a tal ponto que as mães cozinhavam e serviam os próprios filhos como comida. Até os sacerdotes perderam as esperanças; e as virgens, ficavam assentadas, sem forças, à beira do caminho. As crianças morriam de sede e fome; ninguém podia saciá-las.

3. A esperança profetizada. A mensagem de Jeremias deixou todos desesperados. Em Lamentações, o profeta desvela toda a sua tristeza. Mas, mesmo assim, não deixou de se lembrar e registrar o quanto Deus é misericordioso e o tamanho da sua fidelidade (Lm 3.22,23). Portanto, assim como Jeremias mudou sua desolação para um estado de esperança, também o cristão deve desenvolver uma atitude de fé diante de suas dificuldades e enfrentamentos. O maior motivo da nossa esperança é a ressurreição de Cristo: “Cristo em vós, esperança da glória” (Cl 1.27b).

A destruição da Cidade Santa e do Templo. Nada os detinha os babilônios. Eles conquistaram as nações de uma forma que nunca havia ainda sido vivenciado no mundo antigo. Eles estavam determinados a tornarem-se os senhores do mundo e podiam fazê-lo não somente pela grandeza do seu exército e instituições sólidas, mas também porque eram autossuficientes. Foi esse poderio babilônico que cercou, invadiu, destruiu e reduziu Jerusalém a cinzas e lembranças. Essa destruição foi profetizada e permitida pelo Senhor Deus: “E, na verdade, conforme o mandado do Senhor, assim sucedeu a Judá, que o tirou de diante da sua face [...]” (2 Rs 24.3).

Jerusalém caiu, apesar dos esforços de Yahweh por meio de seus profetas, de restaurar o seu povo. Mas eles escarneceram de suas palavras até que não mais houve remédio senão a destruição e deportação (2 Cr 36.15,16). Havendo rejeitado a postura de filhos da aliança servos de Yahweh, a comunidade judaica espalhada pelo cativeiro agora cumpriria o papel de escravos em terra estranha. Somente quando se cumprisse o tempo da disciplina, o povo poderia sonhar com o retorno à sua terra. Então reassumiria a responsabilidade de ser verdadeiramente a nação santa e o povo de Deus. – A visão de Ezequiel dá conta de que a tragédia principal não foi apenas a deportação. Foi pior do que isso, pois a glória de Deus havia sido retirada do Templo e para lá nunca mais voltaria. “E a glória do Senhor se alçou desde o meio da cidade e se pôs sobre o monte que está ao oriente da cidade” (Ez 11.23). Somente na era escatológica é que a glória do Senhor voltará ao Templo, dessa vez na própria presença do Senhor Deus da glória por meio do Messias: “[...] e virá o Desejado de todas as nações, e encherei esta casa de glória, diz o Senhor dos Exércitos. [...] A glória desta última casa será maior do que a da primeira, diz o Senhor dos Exércitos, e neste lugar darei a paz, diz o Senhor dos Exércitos” (Ag 2.7,9). – A destruição final de Jerusalém aconteceu após a terceira investida babilônica, com a queima do Templo, do palácio real e dos edifícios importantes, bem como a leva dos restantes, inclusive os sacerdotes.

A matança, o cativeiro, a peste e a pobreza. A situação de Jerusalém e dos habitantes de Judá ficou deplorável com a última invasão babilônica. Todos os nobres, príncipes e ricos foram deportados para a Babilônia, ficando somente os pobres na terra que não tivessem condições de incitar uma rebelião. O profeta Jeremias foi levado cativo até uma parte do caminho. Depois, por benevolência de Nabucodonosor, pôde escolher entre ser levado cativo ou voltar para Jerusalém. Como ele não tinha forças emocionais para decidir-se diante de tamanha desolação, o general babilônico ordenou-lhe que voltasse para Jerusalém. Nessa caminhada de cativos, Jeremias contemplou com tristeza as correntes com que as pessoas nobres e mais influentes de Judá estavam sendo oprimidas e humilhadas. Estavam todos atados, de cabeça baixa, moribundos e sendo conduzidos como animais para longe de Jerusalém, a cidade amada. – Os pobres que sobraram na terra foram liderados, por ordem de Nabucodonosor, por Gedalias, mas, após o assassinato deste, todo o restante do povo apavorado fugiu para o Egito. Nessa fuga, forçaram o profeta Jeremias a ir junto para que a sua vida fosse poupada, embora Jeremias fosse pró-babilônia e Nabucodonosor soubesse disso. Jeremias foi levado a contragosto e advertiu severamente os principais líderes que sobraram para que não fugissem para o Egito, pois lá sim seriam mortos; se ficassem em Jerusalém, seriam poupados da espada e da fome (Jr 42.7-43.13). – Assim, quatro flagelos caíram sobre todo o povo, sem escapar ninguém: morte por causa da guerra, do cerco babilônico e da invasão de Jerusalém; os nobres e artesãos que sobraram foram levados cativos para a Babilônia; os que ficaram eram os mais pobres, que empobreceram mais ainda; e a peste vitimou muita gente por causa das péssimas condições de alimentação e abandono. Um dos livros bíblicos que retrata esse cenário com muita propriedade é Lamentações de Jeremias.

A esperança profetizada. O desespero retratado por Jeremias tomou conta de todos, que, no caso de Judá, foi o lamentável ocorrido da destruição da cidade e da ida para o exílio. Mas o desespero pode ser a simples e silenciosa ausência de sentido, de perspectiva, de futuro, de ideal ou de sonhos. Embora ele tenha lamentado profundamente a destruição da cultura, da religião, dos lugares sagrados e da habitação do povo de Judá, a princípio, num gesto de autocomiseração e autopiedade, ele depois se lembrou de algo bom que aconteceria adiante. Ele escreveu um dos livros mais tristes de toda a Bíblia, Lamentações, mas nas suas lamentações ele lembrou-se do Senhor, o que lhe permitiu praticar a resiliência presente na esperança: “As misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos; porque as suas misericórdias não têm fim. Novas são cada manhã; grande é a tua fidelidade. [...] Bom é o Senhor para os que se atêm a Ele, para a alma que o busca. Bom é ter esperança e aguardar em silêncio a salvação do Senhor”. (Lm 3.22-23, 25-26)

SUBSÍDIO DEVOCIONAL

“Contrariamente a súplica de Jeremias e Ezequiel, que convocaram à submissão, os últimos reis de Judá se opuseram aos babilônios. A terceira vez que as forças babilônicas apareceram diante de Jerusalém, Nabucodonosor ordenou que a cidade e o seu povo fossem destruídos, e que a maior parte do seu povo fosse levada para o cativeiro. Os poucos que restaram assassinaram o governador babilônio e sua guarnição, e fugiram para o Egito, deixando a terra vazia dos descendentes de Abraão.

Superficialmente, o cativeiro babilônico parece uma grande tragédia. No entanto, ele provou ser uma bênção incomum. Na Babilônia os judeus se voltaram para as Escrituras a fim de entender o que lhes acontecera. De forma decisiva rejeitaram a idolatria; depois do cativeiro a nação nunca mais foi atraída para a adoração a falsos deuses. E enquanto estavam na Babilônia, o sistema de estudo e oração nas sinagogas foi instituído; um sistema que manteve o foco de Israel nas Escrituras até o dia de hoje.

Mesmo no mais terrível dos juízos Deus permaneceu verdadeiro ao seu compromisso em fazer o bem ao seu povo. Não obstante o que acontecer a você e a mim, sabemos que Deus tem um compromisso conosco. Ele nos ama, e nos fará o bem” (RICHARDS, Lawrence O. Comentário Devocional da Bíblia. Rio de Janeiro: CPAD, 2013, p. 227).

CONCLUSÃO 

A experiência do reino de Judá no cativeiro é uma triste lição para todos os crentes. Quando os “falsos deuses” ocupam o coração de uma pessoa, ela se torna cativa de suas escolhas erradas. A boa notícia é que, pela misericórdia de Deus, Judá retornou à sua Terra Prometida. Deus ainda usa suas misericórdias para com seu povo. Elas não têm fim. “Novas são cada manhã” (Lm 3.23). Assim como Jeremias mudou a sua desolação para um estado de esperança, também o cristão, diante das suas dificuldades e enfrentamentos, desenvolve essa mesma atitude esperançosa, pois a falta de esperança produz a tristeza, que leva ao abatimento e à frustração, que leva a fraqueza, ao desânimo e ao cansaço de não querer ser o que Deus pensa que podemos ser. Paulo sabia dos sofrimentos que todo o universo enfrenta por causa do pecado, mas também manifestou a esperança da redenção: “Porque sabemos que toda a criação geme e está juntamente com dores de parto até agora. E não só ela, mas nós mesmos, que temos as primícias do Espírito, também gememos em nós mesmos, esperando a adoção, a saber, a redenção do nosso corpo” (Rm 8.22-25).

REFERÊNCIAS

BÍBLIA, Bíblia de Estudo Aplicação Pessoal. Rio de Janeiro: CPAD, 1995, p. 535.

LIÇÕES BÍBLICAS. 3º Trimestre 2021 - Lição 13. Rio de Janeiro: CPAD, 26, set. 2021. 

POMMERENING, Claiton Ivan. O plano de Deus para Israel em meio à infidelidade da nação. Rio de Janeiro: CPAD, 2021. 

STAMPS, Donald C. Bíblia de Estudo Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 1997. 

WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo. Antigo Testamento, v. II Históricos, p. 449. Santo André: Geográfica, 2010.