sexta-feira, 11 de abril de 2014

LIÇÃO 2 - O PROPÓSITO DOS DONS ESPIRITUAIS







SUBSÍDIO I
INTRODUÇÃO
Dando prosseguimento ao estudo dos dons, na aula de hoje atentaremos para o propósito dos dons, com ênfase nos espirituais. Inicialmente contextualizaremos os dons na igreja de Corinto, para a qual Paulo destinou a Epístola em foco. Em seguida, mostraremos que essa era uma igreja que, embora tivesse muitos dons, caracterizava-se pela carnalidade. Ao final ressaltaremos o propósito dos dons espirituais, tomando por base a orientação de Paulo aos coríntios, bastante apropriadas para os dias atuais.

1. A IGREJA DE CORINTO
A Igreja de Corinto se vangloriava dos dons espirituais, recebendo o testemunho de Paulo que não faltava tais manifestações entre eles (I Co. 1.7). Corinto era uma cidade da antiga Grécia, uma metrópole nos tempos de Paulo. Em virtude da influência helenista, era berço da filosofia antiga, por conseguinte, intelectualmente arrogante. Por ser uma cidade próspera, enfatizava a busca pelos recursos materiais, e ao mesmo tempo, entregava-se à promiscuidade. Paulo fundou a igreja de Corinto juntamente com Prisca e Áquila (At. 16.19), e sua equipe missionária (At. 18.5). O Apóstolo dos gentios permaneceu naquela localidade por dezoito meses, durante sua segunda viagem missionária (At. 18.1-17). Tratava-se de uma igreja mista, composta por judeus e gentios, alguns deles provenientes do paganismo. A Primeira Epístola aos Coríntios, na qual Paulo abordou com propriedade os dons espirituais, foi escrita durante seu ministério em Éfeso (At. 20.31), na sua terceira viagem missionária (At. 18.23 – 21.16). Durante sua estada em Éfeso Paulo tomou conhecimentos dos vários problemas pelos quais passava a igreja de Corinto (I Co. 1.11), em seguida um grupo de irmãos entregou uma carta a Paulo, reportando as dificuldades encontradas, e solicitando auxílio do apóstolo para a resolução dos problemas (I Co. 16.17). Mesmo sendo uma igreja fervorosa, ou seja, que tinham dons espirituais, também tinha forte propensão à carnalidade (I Co. 3.1-3), isso revela que uma igreja que tem os dons do Espírito não necessariamente é espiritual. Isso acontece porque a evidência de espiritualidade não está nos dons, mas no amor (I Co. 13), mais propriamente na produção do fruto do Espírito (Gl. 5.22). Dentre os problemas de Corinto destacamos: divisão e partidarismo (I Co. 1.10-13; 11.17-22), tolerância de pecado até mesmo do incesto (I Co. 5.1-13), imoralidade sexual generalizada (I Co. 6.12-20), disputas judiciais entre os cristãos (I Co. 6.1-11), liberalismo em relação ao pecado (I Co. 8.10), comportamentos inadequados no casamento (I Co. 7) e escândalos no culto público, bem como na celebração da Ceia (I Co. 11,12 e 14).

2. OS DONS ESPIRITUAIS EM CORINTO
Dentre os problemas de Corinto, o uso inadequado dos dons espirituais é um dos principais, Paulo dedica boa parte da I Epístola a dar esclarecimentos a esse respeito. Os coríntios não compreendiam o propósito dos dons espirituais na igreja, por isso o apóstolo os instrui para que não sejam ignorantes (I Co. 12.1). Esses dons (pneumática) não deveriam servir para a ostentação, eram chamismata, portanto uma graça de Deus, para desempenhar determinados ministérios, com vistas ao que fosse útil (I Co. 12.7). Havia uma tendência ao individualismo na igreja de Corinto, a preocupação com os outros deveria ter proeminência. Por isso Paulo admoesta os crentes à busca dos dons, isto é, ele não proíbe que os use, contanto que seja com decência e ordem (I Co. 14.40). O culto não deveria ser uma bagunça, as manifestações do Espírito deveriam ser ordenadas. Além disso, o objetivo do culto deveria ser glorificar a Cristo (I Co. 12.3), os dons não podem ser um fim em si mesmo. Os dons podem e devem ser buscados, mas tendo em mente que existem dons superiores, e que tal gradação depende da funcionalidade, e mais precisamente da utilidade. Quanto mais útil for o dom, mais importante será, por isso quem profetiza tem preeminência diante daquele que fala línguas, a menos que haja quem interprete (I Co. 12.31; 14.28). O critério da alteridade é importante na manifestação dos dons espirituais. Se considerarmos esse ensinamento, nos preocuparemos menos conosco e mais com os outros. É justamente por esse motivo que o fruto do Espírito tem prioridade sobre os dons do Espírito. A igreja cristã não precisa fazer opção ou pelos dons ou pelo fruto, há lugar tanto para um quanto para o outro. A demonstração de maturidade de uma igreja está na demonstração tanto dos dons quanto do fruto. O caminho sobremodo excelente é o do amor-agape (I Co. 12.31), somente em amor os dons espirituais cumprem seu propósito (I Co. 14.1). Sem o amor-agape de nada adianta falar as línguas dos anjos e dos homens, ter o dom de profecia, conhecer todos os mistérios e toda ciência (I Co. 13.1,2). O amor-agape, diferentemente da carnalidade egoísta, se caracteriza pela disposição para sofrer pelo outro, benignidade, e tratamento não leviano. Além disso, quem tem o amor-agape não é soberbo, não se porta com indecência, não é invejoso, não busca seus interesses, não se irrita, não suspeita mal; não folga com a injustiça, mas folga com a verdade, tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta (I Co. 13).

3. O PROPÓSITO DOS DONS
É no contexto do amor-agape, com sua marca sacrificial, que os dons espirituais encontram seu real propósito, podem ser manifestos de acordo com a vontade do Espírito (I Co. 12.11), de acordo com as necessidades, e ao mesmo tempo, o interesse dos crentes (I Co. 12.31). Por isso os dons espirituais não dependem da santificação do crente, é possível que um crente seja carnal e mesmo assim manifeste algum dom (Gl. 5.22,23). É preciso esclarecer também que existem crentes nas igrejas que podem manifestar certa regularidade em um dom, mesmo assim eles não podem pensar que são proprietários dos dons. Isso porque os dons são do próprio Espírito Santo, sendo distribuídos à igreja, a fim de cumprir propósitos específicos. Os crentes também podem buscar mais de um dom, essa inclusive é uma recomendação paulina (I Co. 14.1). Mas dificilmente alguém terá todos os dons, mesmo aqueles apresentados em I Co. 12, tendo em vista que o Espírito opera na diversidade, visando à unidade (I Co. 12.5). Os dons do Espírito Santo visam: 1) manifestar a graça, o poder, e o amor do Espírito entre o povo, nas reuniões públicas, nos lares, nas famílias e nas atividades pessoais (I Co. 12.4-7; 14.25); 2) ajudar a tornar eficaz a pregação do evangelho aos perdidos, confirmando de modo sobrenatural a mensagem do evangelho (Mc. 16.15-20; At. 14.8-18); 3) suprir as necessidades humanas, fortalecer e edificar espiritualmente, tanto a congregação (I Co. 12.7,14-30), como os crentes individualmente (I Co. 14.4); 4) batalhar com eficácia na guerra espiritual contra as hostes satânicas (At. 8.5-7; 26.18). Os dons espirituais devem ser utilizados na comunidade de fé, isto é, na igreja para a edificação uns dos outros (I Co. 12.25). Os dons são disponibilizados pelo Espírito para edificar (gr. oikodomeo), ou seja, fortalecer a vida espiritual da igreja (I Co. 14.26).

CONCLUSÃO
Os dons do Espírito Santo estão disponíveis para a igreja contemporânea, por isso devemos buscar todos os dons, e mais precisamente os melhores, aqueles que edificam os outros. Uma igreja madura não despreza os dons espirituais, sabe que eles são úteis para o fortalecimento da fé. Mas os crentes precisam equilibrar os dons com o fruto, pois de nada adianta uma igreja fervorosa, com muitos dons, mas que não cultiva o fruto do Espírito. Devemos buscar com zelo os melhores dons, principalmente profetizar, mas sem esquecer-se do caminho sobremodo excelente, o amor-agape (I Co. 12.31; 13.1-7).

Prof. Ev. José Roberto A. Barbosa



SUBSÍDIO II

INTRODUÇÃO

Nesta lição estudaremos o verdadeiro propósito dos dons espirituais concedidos por Deus à sua Igreja. Os dons do Espírito Santo são recursos imprescindíveis do Pai para os seus filhos. O seu propósito é edificar-nos e unir-nos, fortalecendo assim a Igreja de Cristo (1 Tm 3.15). [Comentário: Dando início ao estudo dos dons espirituais, que constitui o primeiro bloco do trimestre, estudaremos o seu propósito. As lições 2 a 5 englobam um mesmo bloco que tratará dos dons espirituais dados aos membros do corpo de Cristo para a manifestação do que for útil, para a edificação, exortação e consolação da Igreja (1Co.12.7-11). Como vimos na lição 1, os dons espirituais são uma capacitação especial para o desempenho de um serviço ou ministério. Não há nenhum membro do corpo de Cristo sem dons e nenhum membro do corpo possui todos os dons. Os dons espirituais não são distribuídos pela igreja, mas pelo Espírito Santo, conforme sua vontade e seus propósitos soberanos (1Co 12.11). Lembre-se: Você não recebe dons pelos seus próprios méritos, não é recompensa! O apóstolo Paulo usou quatro verbos-chave que ilustram a soberania de Deus na distribuição dos dons espirituais: O Espírito Santo distribui (1Co 12.11), Deus dispõe (1Co 12.18), Deus coordena (1Co 12.24) e Deus estabelece (1Co 12.28). Do começo ao fim Deus é soberano nesse negócio! Portanto, o propósito dos dons não é para a exaltação de quem o exerce, mas para o serviço aos demais membros do corpo e tudo para a glória de Deus.] Tenhamos todos uma excelente e abençoada aula!

I. OS DONS NÃO SÃO PARA ELITIZAR O CRENTE

1. A igreja coríntia. A Igreja em Corinto localizava-se numa cidade comercial e próxima do mar, sendo uma das mais importantes do Império Romano. Corinto era uma cidade economicamente rica, porém marcada pelo culto idolátrico. Durante a segunda viagem missionária de Paulo, a igreja recebeu a visita do apóstolo (At 18.1-18). Por conhecer muito bem a comunidade cristã em Corinto foi que o apóstolo dos gentios tratou, em sua Primeira Epístola dirigida àquela igreja, sobre a abundância da manifestação dos dons do Espírito, chegando a afirmar daquela igreja que "nenhum dom" lhe faltava (1 Co 1.7). [Comentário:  Corinto (em grego: Κόρινθος, transl. Kórinthos) é uma cidade e antigo município da Grécia, situado na Coríntia, na periferia do Peloponeso foi uma importante cidade-estado da Antiguidade. Corinto tinha dois importantes portos que movimentavam sua economia. Havia em Corinto também dois grandes templos, um templo de Afrodite (deusa do amor), e um templo de Apolo (deus da musica, canto, poesia e também representava o ideal da beleza masculina). Diz a história que, havia no templo da deusa Afrodite mil sacerdotisas que aos finais de tarde desciam até a cidade e vendiam seus corpos,sendo assim, elas cultuavam dessa maneira o sexo. Em Corinto havia aproximadamente 250 mil habitantes, e era muito conhecida pela sua luxuria e por sediar os jogos ístimicos. Paulo quando esteve nessa cidade, em sua segunda viagem missionária (At 18.1-18), estabeleceu nela uma igreja e mais tarde escreveu provavelmente quatro das quais apenas duas estão no cânon a segunda (1 coríntios) e a quarta (2 coríntios). Apesar de ser uma igreja que se via como espiritual (1 Coríntios 3.1) e de ser voltada para a busca de dons carismáticos (1 Coríntios 12.31; 14.1; 14.12), a igreja de Corinto estava na iminência de dividir-se em pelo menos quatro pedaços. Paulo, ao escrever-lhes, menciona que tem conhecimento de quatro grupos dentro da comunidade que ameaçavam a sua unidade: os de Paulo, os de Pedro, os de Apolo e os de Cristo (1 Coríntios 1.11-12). A igreja de Corinto, com seu espírito faccioso e divisionista, a despeito de sua pretensa espiritualidade, ficou na história como um alerta às igrejas cristãs de todo o mundo, registrado na carta que Paulo lhes escreveu. Para aprendermos a lição, devemos primeiramente entender o racha que estava por acontecer naquela igreja. E não é um desafio fácil determinar com relativa certeza a natureza e identificação de cada um dos grupos mencionados por Paulo em 1 Coríntios 1.12. O apóstolo Paulo, ao dissertar a respeito dos dons espirituais, traz este ensino para uma igreja local que estava acostumada ao exercício destes dons, pois a igreja em Corinto é a única que é mencionada nas Escrituras como sendo uma igreja local em que dom algum faltava (1Co 1.7).]

2. Uma igreja de muitos dons, mas carnal. Os dons do Espírito concedidos por Deus à igreja de Corinto tinham por finalidade prepará-la e santificá-la para o serviço do evangelho: a proclamação da Palavra de Deus naquela cidade. Todavia, além de aquela igreja não usar corretamente os dons que recebera do Pai, tinha em seu meio divisões, inveja, imoralidade sexual, etc. Como pode uma igreja evidentemente cristã ser ao mesmo tempo carnal e imoral? Por isso Paulo a chama de carnal e imatura (1 Co 3.1,3). Com este relato, aprendemos que as manifestações espirituais na igreja local não são propriamente indicadoras de seriedade, espiritualidade e santidade. Uma igreja onde predominam a inveja, contenda e dissensões, nem de longe pode ser chamada de espiritual, e sim de carnal. [Comentário: Como pode uma igreja possuir dons e ser carnal? Qual é a condição “sine qua nom” para receber dons espirituais? Um crente pode ter dons espirituais e ser carnal? Paulo postulou três classes de homens, a saber, «espirituais», «carnais» e «naturais». Os homens espirituais e os carnais são ambos crentes, mas de inclinações opostas. Os homens naturais são os indivíduos ainda sem regeneração. (1Co 2.14). Paulo usa o termo «carnais» para se referir aos coríntios, em outras palavras, «homens da carne», ou seja, crentes controlados pela carne. É possível interpretar que esse adjetivo significa que as pessoas assim qualificadas são inteiramente destituídas do Espírito de Deus (se considerarmos tão somente o sentido verbal), mas o contexto geral não nos permite tirar essa conclusão. Mui facilmente, entretanto, Paulo poderia estar querendo dar a entender que toda a sua suposta e apregoada espiritualidade, no exercício dos dons espirituais, era falsa, fraudulenta; porque não dispor das qualidades morais de Cristo, e, ao mesmo tempo, ser supostamente habitado pelo Espírito de Deus, a ponto de realizar feitos miraculosos, é uma aberrante contradição, uma impossibilidade moral. Os crentes «...espirituais...», de conformidade com o uso que Paulo fez desse vocábulo, eram os crentes «experientes», espiritualmente maduros, segundo se lê em 1Co 2.6. Já os «carnais», em contraste com isso, eram os, que davam excessivo valor à sabedoria «humana», conforme a menção e os comentários existentes em 1Co 1.18,19;21 e 2.1,4,5. O interessante aqui é que, mesmo havendo estes crentes espiritualmente maduros, aquela igreja continuava a ser carnal. O erro estava então no exercício dos dons.]

3. Dom não é sinal de superioridade espiritual. Muitos creem erroneamente que os irmãos agraciados com dons da parte de Deus são, por isso, mais espirituais que os outros. Todavia, os dons do Espírito são concedidos pela graça de Deus. Por ser resultado da graça divina, não recebemos tais dons por méritos próprios, mas pela bondade e misericórdia de Deus. Que a mensagem de Jesus possa ressoar em nossa consciência e convencer-nos de uma vez por todas de que os dons não são garantia de espiritualidade genuína: "Muitos me dirão naquele Dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? E, em teu nome, não expulsamos demônios? E, em teu nome, não fizemos muitas maravilhas? E, então, lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade" (Mt 7.22,23). [Comentário: Os dons espirituais são uma capacitação especial para o desempenho de um serviço ou ministério. Não há nenhum membro do corpo de Cristo sem dons e nenhum membro do corpo possui todos os dons. Os dons espirituais não são distribuídos pela igreja, mas pelo Espírito Santo, conforme sua vontade e seus propósitos soberanos (1Co 12.11). É comum vermos alguns irmãos dando mais honra àqueles que possuem determinados dons miraculosos «talvez a culpa recaia sobre os que têm o ministério de ensino». Paulo ensina à igreja que do começo ao fim Deus está no controle, que o propósito dos dons não é para a exaltação de quem o exerce, mas para o serviço aos demais membros do corpo e tudo para a glória de Deus. Nenhum membro da igreja deve se comparar nem se contrastar com outro membro da igreja. Cada crente é único no Reino! Deus é quem elege cada um de nós no corpo como lhe apraz. O perigo do complexo de superioridade é real no meio pentecostal onde o ensino é suprimido em detrimento das experiências sobrenaturais. Paulo afirma: “Não podem os olhos dizer à mão: Não precisamos de ti; nem ainda a cabeça, aos pés: Não preciso de vós. Pelo contrário, os membros do corpo que parecem ser mais fracos são necessários” (1Co 12.21,22). O Reverendo Hernandes Dias Lopes foi muito feliz ao escrever em seu Blog que “na igreja de Deus não tem espaço para disputa de prestígio. A igreja não é uma feira de vaidades. Nenhum membro da igreja pode envaidecer-se pelos dons que recebeu, pois tudo que temos recebemos de Deus e ninguém pode vangloriar-se por aquilo que recebeu (1Co 4.7)”.]

SINOPSE DO TÓPICO (1)
Nas páginas do Novo Testamento os dons estão à disposição de todos os crentes, com o propósito de edificar a Igreja de Cristo.

II. EDIFICANDO A SI MESMO E AOS OUTROS

1. Edificando a si mesmo. Paulo diz que quem "fala língua estranha edifica-se a si mesmo" (1 Co 14.4). O apóstolo estimulava os crentes da igreja de Corinto a cultivarem sua devoção particular a Deus através do falar em línguas concedidas pelo Espírito, com o objetivo de edificarem a si mesmos. Isto não significa que o apóstolo dos gentios proibia o falar em línguas publicamente, mas ao fazê-lo de maneira devocional o crente batizado com o Espírito Santo edifica-se no seu relacionamento com Deus. Falar ou orar em línguas provenientes do Espírito é uma bênção espiritual maravilhosa. [Comentário: O dom de línguas não é menos excelente nem é desaconselhado por Paulo. Nesta epístola aos Coríntios, a intenção de Paulo era colocar em ordem algo que estava sem controle. Nas igrejas pentecostais é incentivado que todos busquem o revestimento de poder, o batismo com o Espírito Santo e com fogo, e a glossolalia é muito enfatizada. Talvez estejamos passando ao largo das orientações de Paulo quanto à ordem no culto, mas de todo, isso não é um mal em si. Falar em línguas desconhecidas serve apenas para fortalecer o indivíduo. Entretanto, Paulo não proíbe completamente esta prática: Quero que todos vós faleis línguas estranhas. Quanto a essa declaração, Bruce escreve: “E provável que Paulo receasse ter ido muito longe ao rejeitar as línguas. Portanto, ele deixa claro que não está proibindo as línguas, mas insistindo na superioridade da profecia”. Como era difícil fazer a distinção entre um dom válido de falar em línguas, ou a legítima expressão de um desejo de êxtase espiritual, e uma inválida expressão de alegria pessoal, Paulo preferiu não proibir o falar em línguas. Entretanto ele indica, de forma rápida e distinta, que o dom de profecia é superior: ...mas muito mais que profetizeis. Naturalmente, quando o crente ora em línguas, mesmo que ele não saiba o sentido das palavras, Deus o entende. O crente, batizado com o Espírito Santo, deve procurar desenvolver uma adoração individual, plena da unção do Espírito Santo.]

2. Edificando os outros. Os crentes de Corinto falavam em línguas e exerciam vários dons espirituais, mas parece que eles não se preocupavam muito em ajudar as pessoas. Por isso, o apóstolo lembra que os dons só têm razão de existir quando o portador preocupa-se com a edificação da vida do outro irmão em Cristo (1 Co 14.12). Em lugar de buscarmos prosperidade material, como se pudéssemos barganhar com Deus usando dinheiro em troca de bênçãos, busquemos os dons espirituais. Agindo assim edificaremos a nós mesmos e também aos outros. [Comentário:  Paulo, continuando suas admoestações, reporta-se mais uma vez ao seu grande salmo em louvor ao amor: Buscai o amor! Esta deve ser a maior preocupação deles, pois, como expressa certo comentarista: O amor é a patroa; os demais dons espirituais são servos, criados. Por isso, enquanto continuam no empenho proposital de ir após o amor, os coríntios deviam lutar com dedicação pelos dons espirituais, sendo o uso de todos eles, em sua dedicação à congregação, regulado pelo padrão estabelecido pelo amor. A causa das divisões daquela igreja era justamente a falta do amor. Todos os dons espirituais são proveitosos, incluindo 0 dom de línguas; mas nem todos se revestem de igual importância. Ao buscarem os dons espirituais (ver 1Co 12.31 e 14.1), os coríntios deveriam deixar de buscar o dom de línguas e abusar do mesmo, porquanto isso causara efeitos prejudiciais à sua comunidade cristã, como meio que era de auto-glorificação, além de interromper a comunicabilidade entre os membros da igreja que assim faziam. Portanto, se os crentes de Corinto estivessem genuinamente interessados em buscar os dons espirituais, a profecia deveria ser o seu grande alvo, e não as línguas. O grande teste da contribuição que os nossos dons espirituais podem fazer à igreja é o teste da edificação. Que temos feito para edificar a igreja onde somos membros? Quantas pessoas têm sido levadas a uma maior aproximação a Cristo, por causa do que temos falado e ensinado? O zelo é bom, mas pode mal orientar inocentemente ou propositadamente, com o propósito de exaltação própria.]

3. Edificando até o não crente. Embora o apóstolo dos gentios estimulasse todos os crentes a falarem em línguas, isto é, a edificarem a si mesmos, seu desejo era que também esses mesmos crentes profetizassem a fim de que a igreja toda fosse edificada. O comentário da Bíblia de Estudo Aplicação Pessoal diz sobre esse texto: "Embora o próprio Paulo falasse em línguas, enfatizava a profecia, porque esta edificava a Igreja inteira, enquanto falar em línguas beneficiava principalmente o falante". Todos quantos vierem a frequentar nossas reuniões devem ser edificados, sejam crentes ou não. Por isso, não podemos escandalizar aqueles que não comungam a mesma fé que nós (1 Co 14.23). Como eles compreenderão a mensagem do evangelho se em uma reunião não entenderem o que está sendo falado? (1 Co 14.9) [Comentário: Se diversos instrumentos destituídos de vida podem levar os homens a compreender certas atitudes e sentimentos, reagindo conforme os mesmos, ou compreendendo uma ordem emitida por aqueles, em ocasião de batalha, então, quão mais expressivo instrumento precisa ser a voz humana, que conta com o apoio da inteligência, e até mesmo de dons espirituais concedidos por DEUS! Assim equipados, os crentes devem ser capazes de transmitir benefícios espirituais a seus ouvintes. Porém, se algum idioma não for compreendido pelos seus ouvintes, perde-se o desígnio inteiro da comunicação de ideias, e a voz humana se torna muito menos significativa do que o instrumento musical visto não haver transmitido pensamento ou sentimento nenhum (1Co 12.9). Embora o dom de línguas seja uma manifestação genuína da parte de Deus, a sua utilidade se perde se nada consegue comunicar. Pode reter, entretanto, certa utilidade particular, para o próprio crente que as fala; mas não tem uma utilidade coletiva, altruísta. Portanto, as línguas, caso não acompanhadas do dom paralelo da interpretação de línguas, devem ser praticadas em particular, e não publicamente. Não digo que o falar línguas em nossos cultos deva ser desencorajado. Mas precisamos colocar ordem para evitar os escândalos. Ainda lembro da primeira vez que visitei uma igreja “de fogo” e, assustado com aquela “histeria”, me indagava se aquilo “era de Deus”, como no caso hipotético apresentado por Paulo aos coríntios: “O que acontecerá se toda a igreja se congregar num lugar, e todos falarem línguas estranhas?”. Na verdade, este é o pensamento de todo indouto que entra em nossos templos, daí o cuidado que devemos ter com o exercício deste dom e priorizarmos, como enfatiza Paulo, o dom de profetizar, pois este constrangerá o visitante a reconhecer sua pecaminosidade. Meu pensamento não é uma tentativa de ajustar e conformar o culto ao molde da opinião pública. Mas entendo que o papel da igreja é atrair e conquistar os de fora para o Reino. É alarmante o fato de que, em alguns arraiais pentecostais, ao invés de ajudar a converter os pecadores, os cultos desordenados despertam somente o escárnio e o desprezo dos descrentes, todo o seguimento pentecostal sofre e é achincalhado por isso.]

SINOPSE DO TÓPICO (2)
Os dons só têm uma razão de existir na vida do crente: edificar a vida do outro irmão em Cristo.

III. EDIFICAR TODO O CORPO DE CRISTO

1. Os dons na igreja. Na Primeira Carta aos Coríntios, Paulo dedica dois capítulos (12 e 14) para falar a respeito do uso dos dons na igreja. O apóstolo mostra que quando os dons são utilizados com amor, todo o Corpo de Cristo é edificado. Conforme diz Thomas Hoover, parafraseando Paulo em Efésios 4.16, "os membros do corpo, cada qual com sua própria função concedida pelo Espírito, cooperam para o bem de todas. O amor é essencial para os dons espirituais alcançarem seu propósito". Se não houver amor, certamente não haverá edificação (1 Co 13). Sem o amor de Deus nos tornamos egoístas e acabamos por colocar nossos interesses em primeiro lugar. O propósito dos dons, que é edificar o Corpo de Cristo, só pode ser cumprido se tivermos o amor de Deus em nossa vida. [Comentário: Um corpo se caracteriza pela maravilhosa cooperação de muitos elementos, que são perfeitamente unidos um ao outro. É a essa admirável unidade de muitas porções que Paulo se refere, fazendo disso uma ilustração de como tal condição deveria prevalecer na igreja. São usados verbos no particípio presente a fim de salientar como essa unidade, tão intricada e perfeita em sua natureza e atuação, deve existir na forma de uma operação contínua. As ideias de «harmonia», de «adaptação», de «solidariedade» e de «unidade na diversidade», são assim expressas (compare com Cl 2.2,19). Russell Norman Champlin afirma que ao mencionar a harmonia e a participação na vida mútua que o amor cristão propicia, Paulo chega ao final da presente secção, reiterando a ideia de unidade, que inspirou esta passagem, a começar por Ef 4.1, como é necessário nos suportarmos uns aos outros em amor, tendo em vista a preservação da unidade do Espírito no vínculo da paz (Ef 4.3) CHAMPLIN, Russell Norman, O Novo Testamento Interpretado versículo por versículo. Editora Candeias. Vol. 4. pag. 605.]

2. Os sábios arquitetos do Corpo de Cristo. Deus levanta homens para edificarem espiritual, moral e doutrinariamente a igreja local. A Igreja é o "edifício de Deus" (1 Co 3.9). Os ministros, sábios arquitetos (1 Co 3.10). O fundamento já está posto pelos apóstolos: Jesus Cristo (1 Co 3.11). Mas os ministros têm de tomar o cuidado com as pedras assentadas sobre este alicerce, pois eles também tomam parte na edificação espiritual da Igreja de Cristo segundo a mesma graça concedida aos apóstolos. Por isso, Paulo faz uma solene advertência para a liderança hoje: "mas veja cada um como edifica sobre ele. Porque ninguém pode pôr outro fundamento, além do que já está posto, o qual é Jesus Cristo" (1 Co 3.10,11).  [Comentário: Nosso conhecimento é parcial, até mesmo com a ajuda dos mais elevados dons da sabedoria e do conhecimento. Essa admissão é declaração, feitas pelo apóstolo, deveria ensinar-nos a sermos cautelosos quando cercamos a Deus com os nossos dogmas, como se, já sabendo tudo quanto tem importância, não precisássemos mais de fazer qualquer pesquisa honesta pela verdade. A tendência da religião «ortodoxa» é olvidar-se desse grande fato, apodando de heterodoxa qualquer opinião que não se adapte facilmente dentro dos limites dos dogmas já aceitos CHAMPLIN, Russell Norman, O Novo Testamento Interpretado versículo por versículo. Editora Candeias. Vol. 4. pag. 210. O amor é perfeito e completo (13.9-12). Na consumação final da história redentora, todas as imperfeições serão substituídas pelo perfeito - Mas, quando vier o que é perfeito, então, o que o é em parte será aniquilado. Nesse dia, todas as imperfeições desaparecerão e tudo que aqui parece obscuro e incompreensível se tomará claro.]

3. Despenseiros dos dons. O apóstolo Pedro exortou a igreja acerca da administração dos dons de Deus (1 Pe 4.10,11). Ele usou a figura do despenseiro que, antigamente, era o homem que administrava a despensa e tinha total confiança do patrão. O despenseiro adquiria os mantimentos, zelava para que não estragassem e os distribuíam para a alimentação da família. Desta forma, os despenseiros da obra do Senhor devem alimentar a "família de Deus" (1 Co 4.1; Ef 2.19). Eles precisam ter o cuidado no uso dos dons concedidos pelo Senhor para prover a alimentação espiritual, objetivando a edificação do Corpo de Cristo: "Cada um administre aos outros o dom como o recebeu, como bons despenseiros da multiforme graça de Deus. Se alguém falar, fale segundo as palavras de Deus; se alguém administrar, administre segundo o poder que Deus dá, para que em tudo Deus seja glorificado por Jesus Cristo, a quem pertence a glória e o poder para todo o sempre" (1 Pe 4.10,11). [Comentário: Lembre-se: Jesus foi o Servo de Deus, Aquele que “não veio para ser servido, mas para servir” (Mc 10.45). Na Sua vida, tal como nos mostram os Evangelhos, Ele demonstrou esse princípio, servindo ao Seu povo e aos Seus (como ilustrado em Jo 13.1-17). Servir uns aos outros é, assim, um chamado a sair de si mesmo e dos seus problemas, e se dedicar aos outros. É  essa exteriorização que está o fundamento da ética cristã, como vida de serviço aos outros “enquanto outros” (ou seja, não uma extensão de mim próprio, ou “outros” a quem eu comando ou manipulo, e coloco dentro do meu esquema). A palavra grega é diakonuntes, de onde vem diaconia, serviço. Aqui, ela tem um significado abrangente, incluindo todo tipo de serviço que se pode prestar a outros (em palavra e ação). Essa diaconia é possível porque todos receberam dons com os quais podem servir aos outros. Charisma é o termo usualmente empregado no N.T. para se referir aos chamados “dons espirituais”. São várias as definições e especificações deles (cf. 1 Co 12; Rm 12; Ef 4); trata-se de capacidades que Deus concede a todos os cristãos (associadas à habitação do Espírito Santo neles, 1 Co 12.7) para o serviço dentro do contexto da comunidade cristã. Podem se tratar de talentos naturais que recebem um novo impulso e uma nova orientação pela ação do Espírito, ou de capacitações originais, concedidas ao crente para que com elas sirva aos outros. Nunca devemos perder de vista que são dados soberanamente pelo Espírito Santo, e que sua função é servir (nada mais que isso; usá-los para autopromoção é absolutamente contrário à sua natureza, sendo uma atitude exemplarmente repreendida em At 8.18-24). Importante é também que cada um dos crentes recebeu um dom, o que, de saída, nivela a todos, e toma todos igualmente importantes uns para os outros. Cada um deve colocar o dom que tem a serviço de todos, porque, ao receberem dons, os cristãos se tomam despenseiros da graça de Deus. A charis (graça) é a fonte dos charisma (dons, carismas). Quem os recebe, recebe graça de Deus, e os recebe por causa da graça de Deus que lhes concedeu o Espírito Santo. Ter um dom espiritual, então, é ter um “depósito de graça”, que deve extravasar (porque graça é para ser doada). Despenseiros é oikonomoi, um termo técnico referente ao mordomo, o administrador da casa (lembrando que “casa” é a oikos do mundo da época, uma instituição social fundamental, a “comunidade doméstica” que incluía família e trabalhadores, bem como os hóspedes). O oikonomos era o encarregado de atender as necessidades de todos, administrando os bens nessa direção.]

SINOPSE DO TÓPICO (3)
Quando os dons espirituais são utilizados com amor todo o Corpo de Cristo é edificado.


CONCLUSÃO
A Igreja de Jesus Cristo tem uma missão a cumprir: proclamar o evangelho em um mundo hostil às verdades de Cristo e descrente de Deus. Diante desta tão sublime tarefa, a igreja necessita do poder divino. Os dons espirituais são um "arsenal" à disposição do corpo de Cristo para o cumprimento eficaz de sua missão na terra. Como já foi dito, o propósito dos dons é edificar toda a igreja, todo Corpo de Cristo para ser abençoado, exortado e consolado. Por isso, nunca devemos usar os santos dons de Deus em benefício particular, como se fosse algo exclusivo de certas pessoas. Somos chamados a servir a Igreja do Senhor, e não a utilizar os dons de Deus para nós mesmos. [Comentário: Como foi bem explorado na lição anterior, quando usamos os dons espirituais da forma certa e com a motivação certa, Deus é exaltado no céu e os homens são abençoados na terra. A Grande Comissão será levada a cabo somente pelo impulso do Espírito Santo e o uso dos dons soberanamente distribuídos. Paulo argumenta: “Para que não haja divisão no corpo; pelo contrário, cooperem os membros, com igual cuidado, em favor uns dos outros” (1Co 12.25). A igreja é como uma família. Na igreja cada um está buscando meios e formas de cooperar, de ajudar, de abençoar, de enlevar, de edificar a todos. O propósito do dom é para que não haja divisão no corpo. Você não está competindo nem disputando com ninguém na igreja, mas cooperando. Naquela igreja, Paulo nos revela a causa interna principal para as divisões entre os coríntios: eles ainda eram carnais (1 Coríntios 3.1-4; cf. Gálatas 5.20). Esta carnalidade, deve ser interpretada primariamente como imaturidade, em contraste aos “maduros” ou “perfeitos” (1 Coríntios 2.6). Hoje, temos muitos crentes carnais, imaturos, e por isso mesmo precisamos ler e reler as missivas de Paulo aos Coríntios, para não nos acharmos “andando segundo os homens” (1 Coríntios 3.3). Como escreve o Reverendo Augustus Nicodemus Lopes*: A situação triste da igreja de Corinto nos fornece um retrato do espírito divisivo que ainda hoje permeia as igrejas evangélicas. É um texto básico para ser pregado e ensinado nas igrejas e seminários. Embora haja momentos em que uma divisão seja necessária (quando, por exemplo, uma denominação abandona as Escrituras como regra de fé e prática), percebemos que as causas do intenso divisionismo evangélico no Brasil são intrinsecamente corintianas: imaturidade, carnalidade, culto à personalidade, orgulho espiritual, mundanismo. Nem sempre os líderes são culpados do culto à personalidade que crentes imaturos lhes prestam. Paulo, Apolo e Pedro certamente teriam rejeitado a formação de fã-clubes em torno de seus nomes. De qualquer forma, os líderes evangélicos sempre deveriam procurar evitar dar qualquer ocasião para que isto ocorra, como o próprio Paulo havia feito (1 Coríntios 1.13-17). Infelizmente, o conceito de ministério que prevalece em muitos quartéis evangélicos de hoje é exatamente aquele que Paulo combate em 1 Coríntios.] “NaquEle que me garante: "Pela graça sois salvos, por meio da fé, e isto não vem de vós, é dom de Deus" (Ef 2.8)”.

Francisco Barbosa

sexta-feira, 4 de abril de 2014

LIÇÃO 1 - E DEU DONS AOS HOMENS





SUBSÍDIO I


INTRODUÇÃO
Ao longo deste trimestre estudaremos os dons espirituais e ministeriais, uma oportunidade ímpar para conhecer os dons que Deus disponibiliza para o serviço cristão. Na aula de hoje apresentaremos os dons espirituais (charismata /pneumatikon) e ministeriais (diakonia). Mas antes, destacaremos os doadores: o Espírito Santo e Jesus Cristo. Ao final, mostraremos a necessidade de que homens e mulheres sejam capacitados para o serviço, e que isso acontece por meio desses dons que são disponibilizados por Deus.


1. E ELE DEU
Há um equívoco entre os cristãos evangélicos, mas propriamente entre os pentecostais. Alguns acreditam que são proprietários dos dons, ou seja, donos deles, mas os dons são de Deus, disponibilizados para a igreja.  Ele é o Doador, que concede, aos homens, para o serviço cristão no Corpo de Cristo. Outro equívoco é o de pensar que os dons são para dar status eclesiástico àqueles que os utiliza. Na verdade os dons são funcionais, ou melhor, têm serventia para cumprir um proposito, mais especificamente a edificação da igreja (Ef. 4.12-16). Há também o equívoco de pensar que os dons espirituais são dispensados por méritos pessoais. Ninguém é usado por Deus, através dos dons espirituais ou ministeriais, porque é digno (Rm. 12.6; I Pe. 4.10), não podemos esquecer que fomos salvos pela graça de Deus (Ef. 4.9,10). Os dons procedem de Deus, Ele é a fonte dos dons, tanto os espirituais (charismata/penumatikon) quanto os ministeriais (diakonia). A distribuição dos dons é um trabalho da Trindade, o Pai enviou Cristo, e depois o Espírito Santo (Jo. 14.6; 20.21). A concessão dos dons espirituais e ministeriais vem de Deus, sendo que existem os dons do Espírito (I Co. 12.4-7), e os dons de Cristo (Ef.4.11). É importante destacar que há mais de nove dons espirituais, não apenas aqueles listados por Paulo em I Co. 12.8-11. Em Rm. 12.3-8 encontramos uma lista, diferente daquela exposta na I Epístola aos Coríntios, no capítulo 12, são eles: profecia, ministério, ministração, ensino, exortação, partilha, presidência e misericórdia. Esses dons, de acordo com o texto, são todos provenientes de Deus. Os dons, grosso modo, partem de Deus para a igreja, a fim de constituir uma unidade na diversidade (Rm. 12.5). A dispensação dos dons, tanto os espirituais quanto ministeriais, é de Deus, mas há também participação humana. No texto de Rm. 12.3-8, Paulo instrui os crentes a desenvolverem os dons. Diferentemente dos dons de I Co. 12.8-11, que têm caráter mais instantâneo, e aspecto notadamente sobrenatural.


2. DONS ESPIRITUAIS E MINISTERIAIS
Há diferentes palavras para dons em hebraico, destacamos: berekah, minhah, korban e teruma. Berekah é geralmente traduzida por benção, e diz respeito aos pronunciamentos de coisas boas em relação a outros (I Sm. 25.27; II Rs. 5.15-18). A palavra minhah traz o significado de oferta, geralmente entregue como parte do culto. Korban também significa oferta ou dádiva, trata-se de um dos termos mais gerais no hebraico para a oferta. Teruma pode ser traduzido como oferta, porção, dom ou contribuição. O verbo dar é natan em hebraico, que comunica a ação de entregar algo a alguém (Lv. 26.4; Dt. 11.14). No grego do Novo Testamento, temos as palavras doreá, no sentido de dádiva, sendo Cristo a maior dádiva de Deus (II Co. 9.15; Rm. 5.15; Ef. 3.4). O próprio Espírito Santo é uma dádiva de Deus, depois que o pecador se arrepende dos seus pecados (At. 2.38; 8.20; 10.45; 11.17). O termo dóron também transmite o significado de dádiva, relacionado especificamente às ofertas a Deus (Mt. 5.23,24; Lc. 21.1-4). Outra palavra grega associada às dádivas é eleemosuné, de conotação mais social, relacionada à contribuição aos necessitados (Mt. 6.2; Lc. 11.41; At. 9.36; 10.2). Palavras de bênçãos também podem ser pronunciadas na Nova Aliança, são as eulogias, cujo significado é o de expressar nosso desejo de que Deus abençoe os outros. A palavra charisma, em grego, está associada aos dons do Espírito Santo (I Co. 12). Mas tem uma dimensão mais ampla, tendo em vista que Timóteo recebeu um charisma, quando lhe impuseram as mãos, um dom para o exercício ministerial (I Tm. 4.14; II Tm. 1.6). Dentre os charisma que Paulo recebeu, destacamos o do celibato, tratando-se, portanto, de uma capacitação de Deus, não de uma imposição humana (I Co. 7.7). As palavras gregas relacionadas aos dons espirituais são charismata e pneumatikon, o primeiro diz respeito aos aspectos da graça na capacitação dos dons, e o segundo, ressalta o Espírito Santo como a fonte dos dons (I Co. 12.11).


3. AOS HOMENS
Os dons espirituais e ministeriais foram destinados aos homens e mulheres da igreja, com vistas ao serviço (diakonia), e mais especificamente, à edificação do Corpo de Cristo. Os dons espirituais e ministeriais não devem ser ignorados, é necessário que os membros da igreja se interessem por eles, mas é preciso usá-los com equilíbrio (I Co. 12.1). Os homens e mulheres de Deus, quando usados pelo Espírito, através dos dons, devem exercitá-los com responsabilidade, sobretudo com zelo e amor (I Pe. 5.2,3). Há igrejas ditas pentecostais que estão se distanciando dos dons espirituais, algumas delas sequer ensinam a respeito do batismo no Espírito Santo, bem como a buscar os dos dons espirituais. Uma pesquisa feita recentemente nos Estados Unidos constatou que cada vez mais pentecostais estão falando menos em línguas. Se uma pesquisa desse tipo for feita no Brasil talvez o resultado não seja diferente. Os pentecostais estão se envergonhando dos fundamentos da sua fé. O batismo no Espírito Santo, como virtude de poder, para testemunhar de Cristo, precisa ser resgatado (At. 1.8). Os dons espirituais também devem ser estimulados, não devemos proibir os membros da igreja de buscá-los (I Co. 14.9), a responsabilidade pastoral é a de instrui-los à utilização, com decência e ordem (I Co. 14.40). Todos devem buscar os dons, visando sempre o outro, a valorização de um dom, repousa justamente na capacidade de edificação dos membros (I Co. 12.31; 14.1). Os dons, tanto espirituais quanto ministeriais, devem ser exercidos em amor, considerando que esse – agape - é o caminho sobremodo excelente (I Co. 13). Muitos dons, sem amor, e mais apropriadamente, sem o fruto (Gl. 5.22), pode resultar em desequilíbrio espiritual. A igreja de Corinto era muito fervorosa, mas deficiente na espiritualidade, com demonstração de carnalidade, implicando nas dissenções no seio da igreja (I Co. 3.3-5).


CONCLUSÃO
Os dons espirituais e ministeriais são fundamentais para o desenvolvimento espiritual das igrejas locais. Os membros do Corpo de Cristo devem desejar e buscar os dons, para a edificação (I Co. 12.31; 14.1). Os dons espirituais de I Co. 12.8-10) se caracterizam por serem instantâneos, enquanto que os dons de Rm. 12.6-8, e de Ef. 4.11 são desenvolvidos ao longo de um processo. Teologicamente os dons espirituais, com base na lista de I Co. 12.8-10, são categorizados assim: 1) Sabedoria: palavra de sabedoria, palavra de conhecimento e discernimento de espírito; 2) Poder: fé, curas e operação de maravilhas; e 3) Elocução: profecia, variedade de línguas e interpretação de línguas. Busquemos, pois, os melhores dons, mas sem esquecer-se de cultivar o amor cristão. Em relação aos dons ministeriais, conforme Ef. 4.11, são: 1) apóstolos, 2) profetas, 3) evangelistas, 4) pastores e mestres, todos para o aperfeiçoamento dos santos. Oramos para que não nos falte dom algum, até o dia da manifestação em glória do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo (I Co. 1.7).

Prof. Ev. José Roberto A. Barbosa


SUBSÍDIO II


INTRODUÇÃO

A Bíblia de Estudo Pentecostal define "dons” como “manifestações sobrenaturais concedidas da parte do Espírito Santo, e que operam através dos crentes, para o seu bem comum". Neste trimestre analisaremos os dons de Deus dispensados á Igreja para que, com graça e poder, ela proclame o Evangelho de Jesus a toda criatura. Além de auxiliar o Corpo de Cristo no exercício da grande Comissão, os dons divinos subsidiam os santos para que cheguem à unidade da fé (Ef 4.12,13). [Comentário: Deus se compraz em dar presentes. É da natureza divina a generosidade para com sua criação, e o mesmo pode ser dito no que concerne ao relacionamento de Deus para com sua Igreja. Nesse caso específico, a Bíblia nos apresenta a expressão “dom” como uma capacitação dada pelo próprio Deus para que seus servos possam atuar de forma adequada nas esferas da igreja local. DE LIMA, Elinaldo Renovato. Dons Espirituais & Ministeriais - Servindo a Deus e aos homens com poder extraordinário. CPAD, 2014. “Dons”, que é traduzida a partir da palavra grega charisma; portanto, nosso termo “carismático”. A palavra raiz significa “graça”. A definição ativa da graça (caris) é Deus nos dando o desejo e a força para cumprir sua vontade. É a capacitação sobrenatural, sobre-humana (unção) para realizar a vontade de Deus. Este termo é usado em Romanos 12.6, 1 Coríntios 12 e 1 Pedro 4.10. Quando Paulo fala de dons em Efésios 4.7-8, ele emprega outro termo, dorea, que enfatiza virtualmente a mesma verdade; isto é, que os dons espirituais são justamente isto — dons, não recompensas.) Isto é mais adiante enfatizado durante toda a primeira metade do capítulo 12 de 1 Coríntios. Por exemplo, o verso 7 nos diz que eles são dados; novamente no verso 8 é o mesmo. Os versos 11 e 18 declaram que os dons são dados soberanamente pelo Espírito de Deus: Ele os distribui como quer. A salvação foi o maior dom de Deus ao mundo (Jo 3.16). O dom da vida eterna, em Cristo Jesus. (1) 1Co 12.7 diz:“Mas a manifestação do Espírito é dada a cada um para o que for útil”, logo, essas manifestações visam à edificação e à santificação da igreja (12.7; ver 14.26).] Tenhamos todos uma excelente e abençoada aula!


I - OS DONS NA BÍBLIA

1. No Antigo Testamento. O Dicionário Bíblico Wycliffe mostra que há várias palavras hebraicas que significam "dádiva". A origem dessas palavras está na raiz hebraica nathan, que significa "dar". Por isso, podemos afirmar que no Antigo Testamento há vislumbres dos dons divinos concedidos a pessoas peculiares como reis, sacerdotes, profetas e outros. Todavia, os dons divinos não estavam acessíveis ao povo de Deus da Antiga Aliança como observamos no regime da Nova Aliança. [Comentário: A palavra “dom” tem vários significados no texto bíblico. No Antigo Testamento, escrito em hebraico, há várias palavras que traduzem o sentido de “dom”. Dentre elas, destacamos os termos mattan, com o sentido de alguma coisa oferecida gratuitamente, ou “um presente”, como em Provérbios 19.6; 21.14; ou como dote, dádiva (Gn 34.12). Há o termo maseth, que também significa “presente”, “dádiva” (Et 2.18; Jr 40.5); a mais usada, no entanto, é minchach, que ocorre duzentas e nove vezes, com o significado de “oferta”, “presente” (SI 45.12; 72.10). Em todas as ocorrências, o sentido é sempre o de algo que é dado ou oferecido gratuitamente. No Antigo Testamento, os dons eram concedidos a pessoas específicas, chamadas por DEUS para cumprir determinadas missões. Os dons não estavam à disposição de todo o povo de DEUS. DE LIMA Elinaldo Renovato. Dons espirituais & Ministeriais Servindo a DEUS e aos homens com poder extraordinário. Editora CPAD. pag. 11-12. Nas antigas sociedades neoliticas e da era do bronze, conforme somos informados através das evidências arqueológicas, a outorga de presentes era uma prática comum. As razões para a doação de presentes eram variadas e isso é refletido nas palavras hebraicas examinadas acima. Membros de uma família se presenteavam mutuamente como sinal de estima e amor. Esses presentes eram conferidos em ocasiões especiais, como por ocasião dos noivados, dos casamentos, de nascimentos e de morte. Também havia presentes dados a superiores, com a finalidade de agradar e esses presentes, algumas vezes, assumiam a natureza de suborno ou peita, quando algum favor especial era buscado, ou quando se esperava evitar que algum castigo fosse aplicado. A adoração religiosa requeria doações da parte dos participantes, a fim de que pudesse ser mantido o culto. CHAMPLIN, Russell Norman, Enciclopédia de Bíblia Teologia e Filosofia. Vol. 2. Editora Hagnos. pag. 211-212.]

2. No Novo Testamento. O mesmo dicionário informa ainda que ao longo do Novo Testamento a palavra "dom" aparece com diferentes significados, que se relacionam ao verbo grego didomi. Este verbo representa o sentido ativo da palavra "dar" em Filipenses 4.15. Na Nova Aliança, os dons de Deus estão disponíveis para que a Igreja, em nome de Jesus, promova a libertação dos cativos, ministre a cura aos doentes e proclame a salvação do homem para a glória de Deus. 0 Novo Testamento também deixa claro que todos os crentes têm acesso direto a Deus através de Cristo Jesus e, por isso, podem receber os dons do Espirito. [Comentário: No Novo Testamento, escrito em grego, a palavra “dom” assume de igual modo significados diversos. O termo “doma” indica a oferta de um “presente”, “boa coisa” (Mt 7.11); o “pão nosso” é uma dádiva de DEUS (Lc 11.13); “dons”, concedidos por Deus aos homens (Ef 4.8), com base no Salmo 68.19. A palavra cháris indica “dom gratuito”, ou “graça” (2 Co 8.4). O termo charisma é muito utilizado em estudos bíblicos, pois tem o significado de “dons do Espírito”, concedidos pela graça de Deus, com propósitos muito elevados; é relacionado ao termo ta charismata, utilizado em 1 Coríntios 12.4,9,28,30,31, que tem o sentido de “dons da graça”. Há o termo grego ta pneumática, usado por Paulo, em 1 Coríntios 12.1; 14.1, que se refere a “dons espirituais”. Em o Novo Testamento, os dons de Deus estão à disposição de todos os que creem, com a finalidade de promover graça, poder e unção à Igreja no exercício de sua missão, de forma que Cristo seja glorificado. Elinaldo Renovato. Dons espirituais & Ministeriais Servindo a DEUS e aos homens com poder extraordinário. Editora CPAD. pag. 12. Elinaldo Renovato exemplifica o termo grego didomi usando o texto de Fp 4,15, aqui, Paulo considerava a relação entre ele e os filipenses como uma via de mão dupla, com ambas as partes ativamente envolvidas no sentido de partilhar tanto dádivas materiais como espirituais.O Reverendo Hernando Dias Lopes comentando este mesmo texto, afirma que Paulo aparentemente está lembrando seus amigos filipenses de que eles ocupavam um lugar único em suas atividades missionárias: nenhuma igreja se associou (gr. ekoinõnèsen), isto é, na obra do evangelho, comigo (Seesemann, op. cit., p. 33) no tocante a dar e receber, senão unicamente vós outros. Fica clara a intenção de Paulo de selecionar a igreja filipense como sendo a comunidade que ocupava lugar especial em seu afeto e estima. Ele estava pronto para receber donativos (não necessariamente em dinheiro: possivelmente outros itens estariam incluídos). Contudo, a menos que a frase dar e receber seja uma expressão idiomática, não se devendo conferir-lhe um sentido estrito, parece que havia uma transação mútua, de duas mãos, entre igreja e apóstolo. Os filipenses deram e eles também receberam, presumivelmente bens espirituais, da parte de Paulo (como em 1 Co 9.11; cf. Rm 15.27). Eles haviam sustentado Paulo em seus labores apostólicos, desde o começo. Até mesmo antes de ele deixar a Macedônia, os filipenses estavam envolvidos em seu duplo ministério. De 2 Coríntios 11.8; 12.13 se vê que outras igrejas enviaram ajuda ao apóstolo, não sendo, pois, o sustento material dos filipenses a Paulo, que os colocou numa situação privilegiada. O que marcou o relacionamento de Paulo com os filipenses foi que eles deram e receberam e, além disso, podemos presumir, não levantaram objeções como as que Paulo encontrou em Corinto, em razão das quais ele determinou que não receberia pagamento pelo seu ministério ali. LOPES. Hernandes Dias. Filipenses. Editora Hagnos. pag. 180-181.]

3. Uma dádiva para a Igreja. A fim de sermos mais didáticos e eficientes no estudo a respeito dos dons. dividiremos este assunto em três categorias principais: Dons de Serviço, Dons Espirituais e Dons Ministeriais. Esta divisão acompanha a classificação dos dons conforme se encontra nas epístolas paulinas aos Romanos, I Coríntios e Efésios, respectivamente. Insistimos, porém, que esta classificação é apenas um recurso didático, pois quando o apóstolo expõe o assunto em suas cartas, ele não parece querer exaurir os dons em uma lista, antes, preocupa-se em exortar os irmãos a buscá-los e usá-los para encorajar, confortar e edificar a Igreja de Cristo, bem como glorificar a Deus e evangelizar o mundo. [Comentário: Os dons são vários; a graça é um só! Há alguém, equivocadamente, ensinando que Existem Dons de Deus Pai (dons de serviço), Dons de Deus Filho Jesus Cristo (dons ministeriais) e Dons do Espírito Santo (dons espirituais). Sepneumatikon nos fala que os dons espirituais são coisas caracterizadas pelo Espírito Santo,charisma nos ensina que eles são dons da graça de Deus; Em nosso texto áureo, Paulo apresenta Cristo distribuindo os tributos de sua vitória aos homens. A Bíblia King James, Versão Autorizada (KJV), em 1Co 12.1 menciona “dons espirituais”. No grego lemos simplesmente “espirituais” (ton pneumatikon), significando “coisas caracterizadas ou controladas pelo Espírito”. Dons espirituais são, portanto, em primeiro lugar, coisas controladas ou caracterizadas pelo Espírito, logo, entendemos que todos os dons são carismáticos; isto é, todos os dons são livremente dados por um Deus gracioso. o Espírito distribui cada um deles ao cristão (1 Co 12.11). Em 1Co 12.4-6, o Filho de Deus determinaao cristão o modo específico como o dom é manifestado no corpo (1 Co 12.12-27); no versículo 6, o Pai provê a força ao cristão no exercício do dom (1Co 12.28). Deus opera Sua vontade por meio de Seu povo de muitas maneiras. Ninguém foi colocado no corpo para ser igual a outro membro nem para exercer a mesma função. O Espírito é o mesmo [...] o Senhor é o mesmo [...] o mesmo Deus. Embora as pessoas recebam dons diferentes do Altíssimo, Deus e Sua obra estão unidos. Sejam quais forem os dons que diversas pessoas tenham ou não, o único Deus opera todas essas coisas (v. 11).]
SINOPSE DO TÓPICO (1)
Nas páginas do Novo Testamento os dons estão à disposição de todos os crentes, com o propósito de edificar a Igreja de Cristo.


II - OS DONS DE SERVIÇO, ESPIRITUAIS E MINISTERIAIS

1. Dons relacionados ao serviço cristão. Em Romanos 12 o apóstolo Paulo admoesta a igreja, lembrando-a de que o membro do Corpo de Cristo não pode se achar autossuficiente. Assim como um membro do corpo humano depende dos outros para exercer a sua função, na igreja necessitamos uns dos outros para o fortalecimento da nossa vida espiritual e comunhão em Cristo. Por isso, a categoria de dons apresentada em Romanos 12 traz a ideia da manutenção dessa comunhão dos santos, pois ao falarmos de serviços, subentende-se que quem serve está prestando um serviço para alguém. Observe os dons de serviço listados por Paulo em Romanos: Ministério (oficio diaconal), exortação (encorajamento), repartir, presidir e exercer misericórdia. Note que esses dons estão relacionados com uma ação em prol do outro, do próximo. Portanto, se você tem um dom, deve usá-lo em benefício da Igreja de Cristo na Terra. [Comentário: O Reverendo Hernandes Dias Lopes, escrevendo em seu Blog Palavra da Verdade, acerca do propósito de Deus para os dons espirituais, afirma o seguinte: “Os dons têm um tríplice aspecto: São “charismata”, “diakonia” e “energémata” = dons, ministérios e obras. Com isso, Paulo fala sobre: Origem dos dons; o modo como atuam; a finalidade dos dons. Quanto à origem dos dons = Os dons são “chamarismata”, manifestação concreta de “charis” graça divina. A graça de Deus é a origem de todo dom. A origem dos dons nunca está no homem, mas na graça de Deus. É errado os crentes quererem distrubuir os dons. Quanto ao seu modo de atuar = Os dons são “diaconia”, prontidão para servir. É concentrar não em mim mesmo, mas no outro. É buscar não minha auto-edificação, mas a edificação do meu próximo. Quanto à sua finalidade = Os dons são “energémata”, isto é, obras exteriores. A igreja é a continuação histórica da encarnação de Cristo. Somos o corpo de Cristo na terra. A finalidade do dom é a realização de alguma obra concreta, uma ajuda a alguém, a edificação da comunidade” (2). Assim, os dons são para o Corpo. Falando principalmente da vida interior da comunidade cristã, Paulo descreve o propósito para o qual CRISTO deu à igreja estes ministérios. Pelo menos quatro dimensões do propósito divino são distinguíveis. (a) Estes ministérios são dados para edificar ou construir o corpo de CRISTO (12). As três frases neste versículo, cada uma separada por uma vírgula (RC), dão a impressão de que o apóstolo expressa um propósito triplo. No idioma original, a ênfase está na última frase: “Ele fez isso para preparar o povo de DEUS para o serviço cristão, a fim de construir o corpo de CRISTO” (NTLH). O objetivo destes servos especiais é ocasionar um aperfeiçoamento (katartismos, lit., “adaptação” ou “equipamento”) para a obra do ministério (diakonias). A expectativa é que haverá um trabalho ativo e frutífero para o Senhor, com o resultado de que a igreja será edificada. A medida que as almas são ganhas, a vida da comunidade se aprofunda e se fortalece pelo serviço unificador da igreja. (b) Estes dons ministeriais são dados para promover maturidade. O versículo 13 rememora o anterior e oferece explicação adicional da “edificação” da igreja. Uma vez mais, Paulo usa três frases, cada uma iniciada com a preposição grega eis: 1) à unidade da fé; 2) a varão perfeito; 3) à medida da estatura completa de CRISTO. Estas não são ideias paralelas. A primeira fala do meio da maturidade, a segunda fala da realidade da maturidade e a terceira fala da medida da maturidade. Uma tradução melhor do versículo seria esta: “Assim, todos finalmente atingiremos a unidade inerente em nossa fé e em nosso conhecimento do Filho de DEUS, e chegaremos à maturidade, medida por nada menos que a estatura completa de CRISTO” (NEB). A unidade da fé e do conhecimento do Filho de DEUS constitui o meio do amadurecimento (cf. RA). A unidade é um dom do ESPÍRITO (cf. 3), mas requer-se fé e conhecimento para recebê-la. Neste texto, a fé é a resposta que damos ao Filho de DEUS e a nossa confiança nele — DEUS manifestado na carne que morreu no Calvário em nosso benefício. Aqui, conhecimento (epignosis) é semelhante à fé no ponto em que significa “compreensão, familiaridade, discernimento”. Não devemos equipará-lo a conhecimento intelectual, mas a relações pessoais. A unidade se origina dessa intimidade com o Filho proporcionada pela graça. Paulo não está falando da experiência inicial com CRISTO. O apóstolo se preocupa com o crescimento e aumento em entendimento e compreensão dos propósitos e vontade de DEUS conforme estão revelados em associação com CRISTO. Os membros da igreja podem e devem ter tal crescimento em maior medida enquanto o servem. A varão perfeito refere-se ao nível de maturidade coletiva e individual na igreja, no qual o poder de DEUS se manifesta inteiramente em santidade e justiça. Tal estado será atingido em seu significado máximo futuramente, quando possuirmos a graça de CRISTO na perfeição da ressurreição (cf. Fp 3.7-16). A medida da estatura completa de CRISTO é o padrão de medida que determina a maturidade cristã. Hodge escreve: “A igreja se torna adulta, homem perfeito, quando alcança a perfeição de CRISTO”. A chave para interpretar o versículo é a expressão estatura completa de CRISTO. Qual é esta estatura? Salmond diz que é “a soma das qualidades que fazem o que ele é”. Quando a igreja está à altura da maturidade plena do seu Senhor, ela é perfeita. E à medida que cresce em direção a essa maturidade, ela fica mais próxima de sua meta em CRISTO. Precisamos também destacar que não há crescimento na igreja separadamente de nosso crescimento individual como crente. É cada um de nós individualmente que tem de se dirigir com empenho à estatura completa de CRISTO. (c) Estes ministérios são dados para garantir a estabilidade na igreja diante de doutrinas divergentes e do engano de homens (14). Esta é consequência natural da maturidade, como Paulo indica por sua frase introdutória: Para que não sejamos mais meninos. Uma das evidências claras de imaturidade é a incapacidade de resistir, de forma inteligente e espiritual, as declarações das falsas doutrinas. As palavras de Paulo são pitorescas. O termo inconstantes só ocorre aqui no Novo Testamento e é derivado de kludon (“vagalhão” ou “onda”). Por conseguinte, o verbo significa literalmente “ser lançado pelas ondas”. Cristãos imaturos são como barcos açoitados pela tempestade. Levados em roda vem da palavra gregaperiphero, que tem a ideia de oscilar violentamente. Boas traduções dos dois termos são: “levados de um lado para outro pelas ondas” e “jogados para cá e para lá por toda nova rajada de ensino” (cf. BJ, NVI). Atarefa dos ministros é pôr mão forte no leme da igreja, mantê-la firme e fornecer o lastro doutrinário mediante um ministério fiel de pregação e ensino. Aqueles que introduzem falsos ensinos, nos quais os crentes instáveis caem vítimas, enganam a si mesmos e também enganam fraudulosamente os outros. Esta fase é mais bem traduzida por “fazem uso de todo tipo de dispositivo inconstante para induzir ao erro” (Weymouth). Eles usam de engano (lit., “jogo de dados”). Metaforicamente, veio a significar “artimanha” (BJ, RA). Moule declara corretamente o aviso de Paulo: “Há pessoas próximas de vós que não só vos desviam, mas o fazem de propósito, pondo armadilhas premeditadas e organizando métodos bem elaborados, com o objetivo de afastá-los de CRISTO a quem eles não amam”. A única proteção adequada contra a sutileza da heresia é uma fé crescente e um conhecimento progressivo da verdade. Os ministros têm de proporcionar a oportunidade de tal maturação para assim garantir a estabilidade na igreja. (d) Estes ministérios são dados para possibilitar o crescimento em CRISTO. Seguindo a verdade (15) é derivado do verbo grego aletheuo, geralmente traduzido por “falar a verdade” (cf. CH, NTLH). Mas há mais no pensamento de Paulo do que proferir sons articulados. Ele pensa em termos de viver e agir. Dale comenta: “A verdade tem de ser a vida de todos os cristãos. A revelação de DEUS em CRISTO tem de influenciar e inspirar todas as atividades dos cristãos. A verdade tinha de se encarnar nos efésios, tinha de se corporificar neles. [...] Não era apenas para falar, mas para vivenciá-la”. E esta vida era para ser vivida em caridade (“em amor”, ACF, AEC, BAB, BJ, CH, NVI, RA), quer dizer, com os motivos e inclinações que o amor evoca. As pessoas confessam e vivem asperamente certa porção de verdade, mas a comunidade cristã sempre tem de se expressar em amor. O resultado será o movimento progressivo em direção à perfeição de CRISTO, a cabeça da igreja. Repare que esta ideia é essencialmente idêntica ao pensamento do versículo 13. Além disso, esta ação positiva é a melhor defesa contra os efeitos do erro descritos no versículo 14. No versículo 16, o apóstolo retorna à analogia do corpo e se serve disso para enfatizar a unidade que CRISTO, a cabeça, traz para a igreja. Ele visualiza a estrutura maravilhosa e intricada do corpo humano com suas partes unidas de modo bem ajustado e ligado (“bem unido e consolidado”, NEB). Na analogia, juntas referem-se aos ligamentos pelos quais as partes do corpo se unem. Quando o corpo está funcionando segundo ajusta operação de cada parte, quer dizer, quando cada parte é ativada de acordo com o seu propósito, a harmonia prevalece e o crescimento é certo. CRISTO é, obviamente, o centro e a origem de toda a vida espiritual. Ele dá “coesão e poder vital para o crescimento”.40 Este crescimento resulta na edificação ou “construção” (BAB) da igreja em amor (cf. 1.4; 3.17; 4.2; 5.2). A estrutura tem a ver principalmente com o desenvolvimento espiritual interno, mas quando a igreja é interiormente forte ela aumenta numericamente. Em suma, Paulo vê a unidade da igreja em termos orgânicos e não organizacionais. A verdadeira unidade é interior e resultado de um organismo saudável. O ESPÍRITO cria essa unidade; não é obra de homens, por mais inteligentes ou apessoados que sejam. Quando esta unidade prevalece, compartilhada por cada membro e motivada pela fidelidade de ministros talentosos, a igreja cresce em simetria e beleza, para espanto do mundo não crente. Willard H. Taylor. Comentário Bíblico Beacon. Editora CPAD. Vol. 9. pag. 160-163.]

2. Conhecendo os dons espirituais. "Acerca dos dons espirituais, não quero, irmãos, que sejais ignorantes" (I Co 12.1). Os dons listados em I Coríntios 12 são: Palavra da sabedoria; palavra da ciência; fé; curas; operação de maravilhas; profecia; discernimento de espíritos; variedades de línguas; interpretação de línguas.
Apesar de as manifestações sobrenaturais pertencerem ao mundo « espiritual, isto é. a uma categoria particular da experiência religiosa do crente, o apóstolo Paulo desejava que as igrejas, e em especial a de Corinto, conhecessem algumas considerações importantes sobre os dons espirituais. Uma característica predominante em Corinto, segundo o Comentário Bíblico Beacon (CPAD), era a vida pregressa dos membros envolvidos com idolatria. Muitas manifestações espirituais na igreja lembravam a experiência mística das religiões de mistérios. Os coríntios precisavam ser ensinados de forma correta sobre a existência dos dons e de sua utilização dentro do culto e fora dele. Por isso, à luz da Palavra de Deus, devemos ensinar a respeito dos dons espirituais para que a igreja seja edificada. A Bíblia traz os ensinos corretos sobre o uso dos dons, e se há distorções nessa esfera, estas acontecem por algumas igrejas não ensinarem de forma correta o que a Bíblia diz, e isso contribui para o surgimento do fanatismo religioso, da corrupção doutrinária dos movimentos estranhos e de muitas heresias. Portanto, o ensino correto das Escrituras nos orienta sobre a forma adequada da utilização dos dons e previne o surgimento de práticas condenáveis no culto. [Comentário:  Paulo oferece cinco listas de dons espirituais: Romanos 6.6-8; 1 Coríntios 12.8-10; 1 Coríntios 12.28; 1 Coríntios 14; Efésios 4.11-13. Não há crentes sem dom nem crente com todos os dons (12.29-31). Assim como não há membro auto-suficiente no corpo nem membro sem função. Há quem diga que só recebe dons espirituais aqueles que recebem o revestimento de poder, o batismo no Espírito Santo. Mas esse ensino é falacioso. Quem nasce de novo, recebe o Espírito Santo, e recebe o(s) dom (ns) conforme a soberania do Espírito na distribuição dos dons (1Co 12.11). O Espírito Santo distribui os dons a cada um, ou seja, não existe membro do corpo de Cristo sem pelo menos um dom espiritual! No Novo Testamento, passagens como a de I Coríntios 12 e Romanos 12 atribuem ao Espírito Santo a decisão sobre quais dons distribuir e a quem dentre os convertidos, esses dons serão confiados. “Há diferentes formas de atuação, mas é o mesmo Deus quem efetua tudo em todos. A cada um, porém, é dada a manifestação do Espírito, visando ao bem comum” 1 Coríntios 12:6-7. Não pode existir Igreja local sem o exercício dos dons espirituais! Alguns estudiosos classificaram os dons registrados em 1 Coríntios 12 como dons de pregação, dons de sinais e dons de serviço. Tudo indica que Paulo, quando redigiu estas palavras em Ef 4, tinha em mente a lista dos ministérios relacionados em 1 Coríntios 12.28. A passagem coríntia compreende uma lista mais longa de dons espirituais (charismata). Mas nesta passagem, Paulo está interessado em apresentar os ofícios necessários para a expansão e sustento da igreja. Cristo deu à igreja os apóstolos: os ministros supremos, os doze que haviam visto o Senhor ressurreto e recebido suas tarefas diretamente dele. Os profetas têm posição proximal à dos apóstolos, e o seu dom especial era o de ministério inspirado. Foulkes afirma que a função primária dos profetas era similar à dos profetas do Antigo Testamento: “anunciar” a palavra de Deus. Porém, ocasionalmente prediziam acontecimentos futuros, como em Atos 11.28 e 21.9. Os evangelistas eram pregadores itinerantes, que iam de lugar em lugar para ganhar os incrédulos (cf. 2 Tm 4.5), de modo muito semelhante como se faz hoje. Certos intérpretes sugerem que as primeiras três categorias se aplicam à igreja universal, ao passo que as outras duas se ajustam especificamente à igreja local. Pastores são pastores de um rebanho de comunicantes; a palavra grega (poimen) empregada aqui significa, literalmente, “pastor de ovelhas”. A tarefa dos pastores é alimentar o rebanho e protegê-lo dos perigos espirituais. Doutores pode ser uma outra função do pastor. Bruce afirma que estes dois termos “denotam a mesma e uma única classe de homens”. Contudo, pode ser que os doutores representem uma classe de responsabilidade um tanto quanto menor que os pastores, mas que, mesmo assim, detêm lugar especial na igreja.]

3. Acerca dos dons ministeriais. A Epístola de Paulo aos Efésios classifica os dons ministeriais assim: Apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e doutores (4.11). Os propósitos de o Senhor concedê-los à Igreja, segundo a Bíblia de Estudo Pentecostal, são, em primeiro lugar, capacitar o povo de Deus para o serviço cristão; em segundo, promover o (crescimento da igreja local; terceiro, desenvolver a vida espiritual dos discípulos de Jesus (4.12-16). O Senhor deu a sua Igreja ministros para servi-la com zelo e amor (1 Pe 5.2,3).
O ensino do Novo Testamento acerca do exercício ministerial está ligado a concepção evangélica de serviço (Mt 20.20-28; Jo I3.I-II), jamais à perspectiva centralizadora e sacerdotal do Antigo Testamento. [Comentário: Mais uma vez, cito o Reverendo Hernandes Dias Lopes, que escreveu em Blog o seguinte sobre os dons espirituais à luz da Bíblia: “Os dons espirituais são uma capacitação sobrenatural dada pelo Espírito Santo aos membros do corpo de Cristo para o desempenho do ministério. Nós somos individualmente membros do corpo de Cristo. Cada membro tem sua função no corpo. Nenhum membro pode considerar-se superior nem inferior aos demais. Todos os membros são importantes e interdependentes. Servem uns aos outros. Pelo exercício dos dons espirituais as necessidades dos santos são supridas, de tal forma que, numa humilde interdependência todos os salvos crescem rumo à maturidade, à perfeita estatura do Varão perfeito, Cristo Jesus”. (3) Leia o artigo na íntegra clicando aqui]
SINOPSE DO TÓPICO (2)
Nenhum membro do corpo de Cristo é autossuficiente, dependemos de Cristo, assim como dependemos uns dos outros. Para que a Igreja, o corpo de Cristo, seja edificada pelos dons ministeriais é necessário que eles sejam utilizados para o benefício de todos.


III - CORINTO: UMA IGREJA PROBLEMÁTICA NA ADMINISTRAÇÃO DOS DONS ESPIRITUAIS (1 Co 12.1-11)

1. Os dons são importantes. Um argumento utilizado pelos cesacionistas (pessoas que defendem a errônea ideia de que os dons espirituais cessaram no primeiro século), é que os crentes pentecostais tendem a se achar superiores uns aos outros por terem algum dom. Lamentavelmente, isto é verdade em muitos lugares. Entretanto, o apóstolo Paulo faz questão de tratar desse assunto com os crentes de Corinto que estavam supervalorizando alguns dons em detrimento de outros. Precisamos resgatar a noção de serviço que Jesus Cristo ensinou nos Evangelhos, pois todos os dons vêm diretamente de Deus para melhor servirmos à igreja de Cristo. [Comentário: Estamos muito parecidos à igreja de Corinto! É preciso ler as epístolas de Paulo àquela igreja para entendermos o fim da charismata. Os dons espirituais são recebidos de Deus e exercidos com Deus, por Deus e para Deus para que a igreja de Cristo tenha suas necessidades supridas e possa, assim, cumprir cabalmente sua missão no mundo. Não nos bastamos a nós mesmos. Nenhum membro do corpo de Cristo ficou sem dons e nenhum recebeu todos os dons. Devemos suprir as necessidades uns dos outros. Dependemos uns dos outros. No corpo há unidade, diversidade e mutualidade. Os membros não têm vida independente do corpo. Cada membro do corpo tem sua função. Cada membro precisa exercer o seu papel para que o corpo cresça de forma harmoniosa e saudável. O corpo cresce de forma harmoniosa e saudável quando servimos uns aos outros conforme o dom que recebemos.]

2. Diversidade dos dons. O que mais nos chama a atenção na lista de dons apresentada por Paulo em 1 Coríntios 12 não são os nove dons, mas a diversidade deles. Isto denota a unidade da Igreja de Cristo, mas simultaneamente a sua multiplicidade. O Comentário Bíblico PentecostaI Novo Testamento tem razão quando fala que "talvez Paulo tenha selecionado estes noves dons por serem adequados à situação que havia em Corinto", pois se compararmos a lista de 1 Coríntios com Romanos e também Efésios, veremos que outros dons são relacionados de acordo com as necessidades de cada igreja local. [Comentário: Geralmente, ao estudarmos os dons espirituais nos prendemos àqueles mencionados em 1Co 12. Mas há diferentes listas de dons no Novo Testamento:Romanos 12. 6-8: profetizar, ministrar, exortar, contribuir, presidir e exercer misericórdia. O contexto desses versículos enfatiza que todos somos membros do Corpo de Cristo e dependemos uns dos outros. Cada crente contribui para o crescimento do Corpo, usando o dom específico que tem recebido. Efésios 4. 11-16: apóstolos, profetas, evangelistas, pastores-mestres. Através desses ministérios os crentes são equipados para o serviço. À proporção que cada um presta sua contribuição, todo o corpo vai sendo edificado, v. 12, e cada membro em particular vai crescendo e adquirindo maturidade espiritual, vv. 13-16.1Coríntios 12. 4-10: palavra de sabedoria, palavra de conhecimento, fé, dons de curar, operações de milagres, profecia, discernimento de espíritos, variedade de línguas, interpretação de línguas. Essa passagem, juntamente com os vv. 28 a 31, se complementa ao narrar os dons do Espírito Santo. 1Coríntios 12. 28: apóstolos, profetas, mestres, operadores de milagres, dons de curar, socorros, governar, variedades de línguas. 1Pedro 4.10-11: falar, servir. O objetivo dessa passagem é acentuar que, se o crente  recebe um dom espiritual, deve empregá-lo a serviço dos outros membros, conforme o poder de Deus e para a glória do Senhor. Como exposto, podemos então relacionar tranquilamente, vinte dons da seguinte forma:
    1. Apóstolos (1 Coríntios 12:28; Efésios 4:11)
    2. Profetas (Romanos 12:6; 1 Coríntios 12:28; Efésios 4:11)
    3. Serviço (Romanos 12:7; 1 Pedro 4:11)
    4. Evangelistas (Efésios 4:11)
    5. Sabedoria (1 Coríntios 12:8)
    6. Conhecimento (1 Coríntios 12:8)
    7. Pastores (Efésios 4:11)
    8. Mestres (Romanos 12:7; 1 Coríntios 12:28; Efésios 4:11)
    9. Oratória (1 Pedro 4:11)
    10. Exortação (Romanos 12:8)
    11. Fé (1 Coríntios 12:9)
    12. Cura (1 Coríntios 12:9,28)
    13. Operação de milagres (1 Coríntios 12:10,28)
    14. Capacidade de discernir espíritos (1 Coríntios 12:10)
    15. Contribuição para suprir necessidades de outros (Romanos 12:8)
    16. Ajudar outros (1 Coríntios 12:28)
    17. Ter misericórdia (Romanos 12:8)
    18. Administração (1 Coríntios 12:28)
    19. Falar em línguas (1 Coríntios 12:10,28)
    20. Interpretação de outras línguas (1 Coríntios 12:10,30)]

3. Autossuficiência e humildade. Os dons espirituais são concedidos aos crentes pela graça de Deus, e não por méritos pessoais (Rm 12.6; I Pe 4.10). Não podemos orgulhar-nos e portar-nos de modo arrogante e autoritário no exercício dos dons, mas com humildade e temor a Deus. Portanto, não use o dom que Deus lhe deu com orgulho, visando à exaltação pessoal. Isto é pecado contra o Senhor e contra a Igreja! Use-o com um coração sincero e transbordante de amor pelo próximo (1 Co 13). Não foi por acaso que o capitulo 13 (Amor) de 1 Coríntios foi colocada entre o 12 (dons) e o do 14 (língua e profecia). [Comentário: Os dons espirituais têm dois propósitos: a glória de Deus e a edificação da igreja. Deus é mais glorificado em nós quanto mais nós nos deleitamos nele e servimos uns aos outros. Os dons espirituais não são dados para autopromoção. Nenhum membro da igreja pode gloriar-se por ter este ou aquele dom, pois os dons são recebidos não por mérito, mas por graça. Usar os dons para exaltação pessoal é dividir o corpo em vez de edificá-lo. A igreja de Deus não é uma feira de vaidades, mas uma plataforma de serviço. No reino de Deus maior é o que serve. No reino de Deus perdemos o que retemos e ganhamos o que distribuímos. Quando investimos nossa vida, recursos e dons para socorrer os aflitos, fortalecer os fracos, instruir os neófitos, ajudar os necessitados e encorajar os santos, o nome de Deus é exaltado, o mundo é impactado e a igreja é edificada. Quando usamos os dons espirituais da forma certa e com a motivação certa, Deus é exaltado no céu e os homens são abençoados na terra.]

SINOPSE DO TÓPICO (3)
Não existe um dom mais importante que o outro, todos vêm diretamente de Deus e são úteis para a edificação do Corpo de Cristo.


CONCLUSÃO
O estudo dos dons de Deus aos homens é amplo e nos apresenta recursos pelos quais podemos servir ao Senhor e a sua Igreja. Esses dons são para os nossos dias, pois não há na Bíblia nenhum versículo que diga que os dons espirituais deixaram de existir com a morte do último apóstolo. Portanto, busquemos os dons do Espírito Santo, pois estão à nossa disposição. Eles são um exemplo da multiforme graça de Deus em dispensar instrumentos espirituais para a Igreja na história. [Comentário: A Weekpédia define assim o Pentecostalismo: “é um movimento de renovação de dentro do cristianismo, que coloca ênfase especial em uma experiência direta e pessoal de Deus através do Batismo no Espírito Santo” (4). Esta ênfase no batismo no Espírito Santo é o que caracteriza o Pentecostalismo ou é a atualidade dos dons espirituais? Deixo este questionamento para reflexão e alerto que muitos pentecostais se autodefinem simplesmente por aceitarem esta atualidade, não necessariamente crendo no batismo com o Espírito Santo, na chamada segunda bênção ou revestimento de poder com o sinal inicial e visível do falar em línguas. A graça de Deus, por fim, é multiforme. Visualmente, isso seria como um cristal que reflete a luz em vários matizes e uma sempre nova e surpreendente combinação de cores e tons. Esse conceito é importante e tem sido desprezado na prática, muitas vezes, pelos cristãos. Está subentendido que a questão dos dons é sempre dinâmica. Não podemos deduzir uma lista fixa de dons a partir das passagens do N.T. que falam sobre o assunto, e mantê-los a todo custo como os únicos dons espirituais. Deus dá os dons de modo multiforme, de acordo com as características locais e as necessidades do momento. Quando a situação muda, quando novos quadros se apresentam, Ele dará os dons de forma apropriada à nova realidade, sempre nos surpreendendo com o Seu agir. Multiforme também significa, para um mundo dividido como o nosso em culturas e características regionais bastante diferenciadas, que o Espírito leva em conta essa diversificação e trabalha dentro dela. Indispensável nas relações entre os cristãos (também a nível internacional) é a eliminação de todo resquício de prepotência e espírito de julgamento, e a disposição ao amor e ao serviço ao outro como outro (respeitando-o e valorizando-o naquilo em que é diferente de mim ou de nós). (5)] “NaquEle que me garante: "Pela graça sois salvos, por meio da fé, e isto não vem de vós, é dom de Deus" (Ef 2.8)”,

Graça e Paz a todos que estão em Cristo!

Francisco Barbosa