sexta-feira, 29 de abril de 2022

LIÇÃO 5: O CASAMENTO É PARA SEMPRE

INTRODUÇÃO

Ao lermos Mateus 5.27-32, estamos diante do segundo discurso de Cristo em relação ao que a Lei dizia: “Ouvistes que foi dito: Não adulterarás. Eu, porém, vos digo: qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura, no coração, adulterou com ela” (Mt 5.37). Novamente, Jesus vai confrontar os ensinos dos escribas e dos fariseus quanto a esse mandamento mosaico, para os quais o pecado em si estaria simplesmente atrelado à sua prática, ou seja, o ato físico consumado.

Mais uma vez podemos notar que a forma como os escribas e os fariseus atentavam para a Lei estava ligado tão somente à letra, jamais para o seu real espírito. Nisso consistia sua morte (2Co 3.6). A Lei sempre procurou ressaltar algo muito além do que apenas o literal. Isso se comprova muito bem no caso da ordem de não adulterar, pois, quando se lê Êxodo 20.17, o Senhor atentou para o lado interno do homem dizendo: “Não cobiçarás a mulher do teu próximo”. Com isso estava destacando a importância do que havia dentro do coração.

Compreendemos que a Lei de Deus nas Escrituras era clara quanto à penalidade para quem cometesse o adultério, todavia, conforme acima dissemos, ainda no Antigo Testamento podemos ver que era condenável também o pecado cometido com os olhos e com o coração (Jó 31.1-7), o que foi menosprezado pelos intérpretes antigos, que de modo bem forte agora será tratado por Cristo.

Lendo Romanos 7.7, Paulo diz que deixou de compreender a Lei tão somente no sentido da prática. Sua nova concepção nasce quando compreende que a ordem divina do “Não cobiçarás”, em sua real natureza, estava mostrando que o pecado da concupiscência começa do lado de dentro. Assim, a interpretação judaica era muito mecanicista.

Pela leitura que se faz do sétimo mandamento (Êx 20.14), é notável que Deus desejava preservar o casamento de relações sexuais ilícitas entre pessoas casadas. É interessante observar que antes mesmo da Lei tal prática já não era permitida, pois era considerada como pecado hediondo (Gn 39.9), e os casos de poligamia e divórcio, como aconteciam dentro do contexto mosaico, eram resultados da dureza do coração do homem, jamais foi uma concessão divina, posto que seu propósito sempre foi a monogamia, como bem ensinado por Jesus (Mt 19.4-8).

Quando Jesus realça o sétimo mandamento está dando grande valor ao casamento e mostrando que o adultério é um pecado que começa no coração. É triste dizer, mas muitos estão querendo fugir de suas responsabilidades da vida a dois buscando simplesmente explicações psicológicas, questões de temperamentos, fragilidades humanas, sem levar em consideração sua natureza pecaminosa (Sl 51.5).

Estamos vivendo hoje em uma sociedade que tolera tudo, e o mais triste é que isso está penetrando no meio do povo de Deus, em especial nas academias, em que se procura justificar essas questões de modo delicado. Todavia, se não atentarmos realmente para o que é o pecado, nunca iremos entender de fato o que é a salvação e um viver em santidade. Jesus foi incisivo quanto ao adultério porque sabia muito bem que a monogamia sempre foi o projeto do Pai, por isso  intensificou muito mais a questão.

A CONDENAÇÃO DO ADULTÉRIO

Definição de adultérioAtentando para a Palavra de Deus quanto a esse assunto, compreendemos que o adultério fala de um tipo de coabitação entre uma pessoa que é casada com outra que não seja seu cônjuge. À luz de 1 Coríntios 5.1, isso é denominado de fornicação, que do grego é o substantivo feminino porneía, que signica ter relação sexual ilícita. Adultério, fornicação, homossexualidade, lesbianismo, relação sexual com animais, relação sexual com parentes próximos (Lv 18), relação sexual com um homem ou mulher divorciada (Mc 10.11,12). No aspecto metafórico, fala da adoração a ídolos, da impureza que se origina na idolatria, na qual se incorria ao comer sacrifícios oferecidos aos ídolos.

As Escrituras Sagradas se posicionam firmemente contra o adultério porque no propósito divino isso jamais deveria ser praticado, para que o casamento e a família fossem preservados e para que a santidade no lar se desenvolvesse cada vez mais (Êx 20.14; Dt 5.18). Quando lemos Levítico 18.20, novamente se nota que o Senhor proibia um homem de se deitar com a mulher do seu próximo, quem fizesse isso estaria cometendo pecado grave perante Deus, o qual prontamente deveria ser morto (Lv 20.10; Jo 8.5). Interessante observar que no Antigo Testamento não ficou esclarecido como deveria ser a execução (Dt 22.22), todavia, pelo texto de João 8.5, possivelmente ela se dava por meio de apedrejamento (Ez 16.40; 23.43-47).

Apesar de toda exigência divina para rejeitar a prática do adultério, tendo-o como algo condenável, podemos notar que muitos se envolviam nesse pecado hediondo, não respeitando a Palavra de Deus (Jó 21.9-11; Pv 7.5-22). Um exemplo lamentável de uma pessoa conhecida na Bíblia que o praticou, envolvendo um homicídio, foi o rei Davi. Ele, mesmo tendo se arrependido, pagou um alto preço por causa de seus pecados (Sl 51.1-5).

O certo é que quando atentamos para Êxodo 20.14, com tal ordem divina o Senhor desejava colocar uma cerca no casamento e na família para que não fossem atingidos, isso porque quem procurasse  fugir do adultério e da prostituição estava desejando desenvolver uma vida de santidade para com Deus, pois não se tratava apenas de uma questão de conduta, mas uma real prova de uma pessoa que tinha em seu coração sentimentos e desejos puros.

Amados, não podemos tratar a questão do adultério como algo normal, uma simples falha. Ele jamais deve ser praticado como também nem se deve alojar em nosso coração a cobiça, mas devemos ser vigilantes sempre fazendo um exame meticuloso para saber se de fato estamos vivendo à luz da Palavra de Deus, para realmente sabermos se estamos alicerçados na (2Co 13.5), assim, preservaremos nossos casamentos e famílias.

A posição de Jesus quanto ao adultério Dissemos anteriormente que a citação do sétimo mandamento feita pelos opositores de Cristo, os escribas, não estava errada. O problema consistia na exposição que faziam sobre ele, a qual era defeituosa. É possível que fizessem apenas a citação de Êxodo 20.17 e Deuteronômio 5.18, não ligando o assunto com o décimo mandamento, no qual estava bem claro: “Não cobiçaras a mulher do próximo”. Caso tivessem feito essa ligação, teriam compreendido o que Jesus vai ressaltar, ou seja, que é do coração que procede tudo, inclusive o adultério (Mt 15.19).

A aplicação do sétimo mandamento feita pelos judeus era  totalmente legalista. Eles apelavam apenas para os atos exteriores, e, por vezes, valiam-se da prática da Lei para consecução de seus intentos malignos, como no caso da mulher que foi apanhada em ato de adultério (Jo 8.1-11). Ao contrário deles, Jesus faz menção ao antigo mandamento da Lei, mas destaca que o adultério, assim como o homicídio, tem sua gênese nos desejos maléficos que nascem no coração.

O posicionamento de Jesus contra o adultério é algo que está bem explícito, conforme ensinou, um simples olhar para uma mulher com um desejo impuro no coração já era considerado adultério. O Senhor não deu qualquer abertura para a prática do adultério, quando perdoou a mulher pecadora. Antes que ela fosse embora ordenou: “Vá e não peques mais” (Jo 8.11).

Os males do adultério Todo cristão deve ser consciente de que a prática do adultério, quer seja por parte do esposo, quer seja por parte da esposa, é sempre algo ruim e que traz consequências desastrosas para a vida a dois. É bom lembrar também que qualquer ato de infidelidade no casamento   está ferindo o sétimo mandamento.

O que cada cônjuge deve considerar é que para a vida a dois caminhar bem e em total harmonia, em uma relação social gloriosa, é preciso que entre ambos haja respeito, consideração e honra. A inclusão do sétimo mandamento no Decálogo busca salvaguardar a vida do casal e da família. O casal deve procurar viver em oração e santidade, e evitar toda e qualquer relação sexual ilícita, inclusive o adultério na mente, procurando sempre manter o matrimônio e o leito puros (Hb 13.4; Lv 20.10).

Pelo sétimo mandamento, o Senhor Deus desejava manter a sacralidade do casamento, e também destaca a família como uma unidade social, mostra que não pode haver ditadura do corpo físico, e  todo pensamento impuro já constitui uma infidelidade contra o cônjuge.

Quando o adultério entra no relacionamento conjugal, não se pode mensurar as desagradáveis consequências que irão sofrer. A primeira coisa que acontece é a queda na vida espiritual, desmoralização, quebra da lealdade, colocando em jogo o amor, a alegria, o respeito, a comunhão com os filhos, parentes e demais  familiares.

O QUE REGE O CORAÇÃO REGERÁ O CORPO

Quando nos detemos ao estudo da antropologia teológica, em especial na parte que trata sobre a constituição da natureza humana, passamos a entender que o homem é um ser constituído tanto de parte material como imaterial. Essa verdade é compreensiva a partir do momento que se lê Gênesis 2.7. Dessa formação surge um ser singular, formado de matéria-prima, sendo que a vida vem pelo sopro de Deus. Do lado material, o homem é um ser com artérias, cérebro, músculos, cabelo, e, na parte imaterial, estão a alma, o espírito, coração, emoções, vontade, mente, consciência.

Pelo relato bíblico, o homem foi feito por Deus em um estado de perfeição, sem pecado, porém, como tinha liberdade para escolher, decidiu então pecar, o que trouxe consequências terríveis para ele e para toda a humanidade. O ser que outrora era perfeito, tornou-se doente por causa do pecado.

Desde o momento em que o homem peca, ele fica separado de Deus. Não somente isso, tanto a parte material como a imaterial passaram a estar corrompidas, por isso que em Gênesis 6.5 é dito que a maldade se multiplicava sobre a face da terra, posto que os propósitos do seu coração eram maus. O profeta Isaías mostra que a doença chamada pecado se alastra no homem e o contamina por completo (Is 59.1-3). O apóstolo Paulo diz que na terra não havia um  justo sequer (Rm 3.10).

Diante desse cenário, compreende-se que não havia como esperar coisas perfeitas de homens imperfeitos, cujos corações estavam dominados pelos desejos pecaminosos, ou seja, a carne reinando completamente. Daí a necessidade de um novo nascimento e uma nova mente, o que só seria possível por meio de Jesus Cristo (2Co 5.17; Rm 12.2; 1Co 2.16).

O que procede do coração Em Mateus 12.34 está escrito que a boca fala do que o coração está cheio. Com isso podemos compreender que, desde o momento em que o pecado entrou no mundo, aqueles que não nasceram de novo, que não foram transformados por Cristo Jesus, têm corações maléficos com desejos pecaminosos, de modo que seus pensamentos e atitudes não podem ser diferentes. Podemos facilmente conhecer as árvores pelos seus frutos, não é diferente com a natureza humana, como bem ensinado por Jesus (Mt 7.20).

O que falamos expressa o que pensamos, isso porque quando analisamos a questão do pecado, ele também atingiu a mente do homem. No aspecto veterotestamentário, a palavra mente é compreendida como coração, de modo que ela carrega no seu bojo o sentido de pensamento, entendimento, inteligência, percepção.

Corações maus vão pensar e produzir coisas más. Note que os que não nasceram de novo em Cristo Jesus têm mentes reprováveis diante de Deus (Rm 1.28). Como a mente está corrompida e cega pelo pecado, jamais pensará aquilo que é bom, perfeito, santo, justo e verdadeiro (Ef 4.17,18; Tt 1.15; 2Co 4.4). Não há como árvores más produzirem frutos bons.

O homem é o que pensa – A  partir do momento em que o ser humano passa a estar em Cristo, ele recebe uma nova mente (1Co 2.16), e o Senhor assume controle de sua vida, usando-o e ajudando-o a compreender a sua vontade e a sua Palavra (Lc 24.45; 1Co 14.14,15). A mente do cristão  caminha sempre para a perfeição, desejando compreender a vontade do Senhor (Ef 5.17), a santidade (1Pe 1.13) e no desejo de viver cada vez mais no amor do Senhor (Mt 22.37).

Como nova criatura, o cristão pensa como Cristo Jesus, pois tem uma nova mente, e segue o conselho de Paulo: “Finalmente, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se alguma virtude e se algum louvor existe, seja isso o que ocupe o vosso pensamento” (Fp 4.8, ARA). Ele ainda acrescenta que tudo é puro para os puros (Tt 1.15). Essa pureza de vida foi destacada nas beatitudes de Cristo: os limpos de coração (Mt 5.8). O cristão salvo tem seus pensamentos cativos em Cristo Jesus (2Co 10.5).

Sujeitando o corpo ao Espírito Santo Teologicamente, quando falamos do corpo humano, podemos dizer que ele é o veículo por meio do qual o Espírito trabalha, pode ser denominado como Tabernáculo. Mear Pearlman afirma que se trata da bainha da alma, o que é imaterial passa a ter contato com o material, físico através do corpo, assim, pelo corpo é que se pode tocar, sentir, ver, apalpar, resumindo, ter contato com o mundo exterior.

Aquilo que vem do lado de fora por parte do corpo só tem valor e sentido quando é reconhecido pelo espírito humano. O ser capaz de perceber e pensar, a consciência e a direção, como tratamos antes, fazem parte do imaterial, portanto, como bem pontuou Raimundo Ferreira de Oliveira: “O espírito é o agente, enquanto o corpo é a agência”.

O corpo foi criado por Deus e tem seu propósito, todavia, é bem  verdade que depois do pecado ele se torna instrumento para a prática da iniquidade. Apesar disso, quando o homem nasce de novo em Cristo Jesus e oferece esse corpo para glória de Deus (Rm 6.13), passa a ser santuário (naos) do Espírito Santo.

Vivendo ainda com esse corpo mortal, que ainda não passou pelo processo de transformação, o cristão precisa estar cheio do Espírito Santo para que as obras carnais não venham a sobressair (Gl 5.16-20). Nas palavras de Donald Guthrie (1999, p.173) aqueles que andam no Espírito certamente não satisfarão à concupiscência da carne. Esse é  um resultado garantido pelo Espírito.

O cristão que vive no Espírito não terá seu corpo sujeito aos desejos pecaminosos; primeiramente, porque conhece a Palavra de Deus; em segundo lugar, sabe que um destino melhor o aguarda na eternidade, a qual poderá ser com Deus ou sem Ele. Aqueles que praticam o pecado serão lançados com todo o seu corpo no inferno, por essa razão o ser humano deve sempre viver para agradar a Deus em tudo. Jesus nos ensina que não se deve brincar com o pecado, esse mal tem que morrer em nossa vida (Cl 3.5), e, quando estivermos diante de uma tentação, a melhor coisa a se fazer é erradicá-la de uma vez, não procurando falsas explicações, meias verdades, concepções filosóficas ou psicológicas. O certo é fazer como José: fugir (Gn 39). A recomendação paulina continua altissonante: “Pois esta é a vontade de Deus: a vossa santificação: que vos abstenhais da prostituição” (1Ts 4.3).

A INDISSOLUBILIDADE DO CASAMENTO

No que tange à ética sexual no casamento é significante que o cristão atente bem para o que a Bíblia diz sobre o assunto, para viver esse ideal não segundo os pareceres de homens e mulheres cultos que não têm o temor de Deus e que tratam desse tema sem qualquer temor ou reverência. A ética sexual cristã quanto ao casamento não segue os moldes de uma cultura na qual tudo é liberal em nome do prazer, do amor, mas, como dito antes, o cristão verdadeiro sabe que tudo o que fizer deve ser para glória de Deus (1Co 10.31).

O casamento na perspectiva bíblicaNa perspectiva bíblica, o casamento é feito entre um homem e uma mulher debaixo da ordem divina (Gn 2.24). Isso é muito sério e tem que ser levado em consideração. Paulo disse que não podemos nos conformar com o modelo ou estilo de vida dessa sociedade (Rm 12.1,2). Por exemplo, é dito para os jovens hoje que antes de se casarem podem experimentar o sexo para ver se combinam com seu parceiro, contudo, a Bíblia ensina justamente o oposto.

O livro de Cantares, que é o livro do amor da vida a dois, mostra como deve ser o amor do esposo e da esposa no relacionamento eros (amor sexual), e em Provérbios é dito como o prazer entre ambos pode ser desenvolvido (Pv 5.18,19). Por meio da passagem de Gênesis 29.11,18, vemos que Jacó como homem sentiu atração sexual por Raquel, mas ela só foi possuída por Ele quando seguiu todo o costume da época, no momento em que foi entregue pelo seu pai.

Ainda que de modo bem primitivo, as famílias tratavam sobre a união de duas pessoas, e nessas tratativas havia a questão do dote e da cerimônia. Somente quando tudo isso fosse cumprido era que se concebia a união a dois. Podemos ler no livro do profeta Oseias 2.19,20 sobre o contrato de casamento, por meio do documento da Comunidade Elefantina do século V a.C. Nele constava a seguinte frase: “Ela é minha mulher e eu o seu marido desde este dia e para sempre”.

A Bíblia relata que essa união deve ser marcada pela alegria e pelo prazer conjugal (Ec 9.9; Pv 5.18,19), e na apreciação do corpo masculino e do feminino, como bem exposto por Salomão em Cantares e por Paulo em 1 Coríntios 7.4. Pelas passagens citadas, compreendemos que o casamento era tanto para a procriação como para o prazer da vida a dois (Dt 24.5).

Interessante observar que no Novo Testamento há duas figuras celibatárias que darão grande valor e ensino ao casamento. O primeiro é Jesus, o segundo é o apóstolo Paulo, que viu a relação entre o homem e a mulher semelhante à relação entre Cristo e a Igreja (Ef 5.21-33).

O que fazer para que o casamento seja para sempre? Deus formou dois seres que em sua constituição humana são espirituais e materiais. Por isso, entendemos que a vida sexual envolve ambas as partes, espírito e corpo, de modo que a entrega para esse ato do casamento além de mútua é uníssona. Deus criou o casamento com o propósito de essa união permanecer para sempre, porém, desde que o pecado entrou no mundo, afetou também esse  relacionamento. Isso se confirma muito bem por meio do povo de Deus, Israel, o qual deixou de seguir o padrão divino para amoldar-se  aos costumes de outros povos pagãos.

Entendemos, pela Bíblia, que a união deve ser para sempre. É isso  que consta em Gênesis 2.24 (ARA): “Por isso, deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne”. Há muitas coisas a serem analisadas nessa citação bíblica, por intemédio dela podemos compreender o que o casal deve fazer para viver a vida a dois.

Quem se casa deve entender que está tomando um novo caminho e deve ter sempre a atitude de olhar para a frente, pois, se ficar dividido entre a velha e a nova vida, as coisas não irão funcionar. Deus não está dizendo que os filhos devem esquecer tudo o que os pais fizeram; cuidar deles e servi-los deve ser para sempre, mas é preciso  que o casal saiba que doravante começará uma nova vida com uma pessoa que estará ao seu lado por toda a vida. A ordem de Deus é que nessa nova construção pelo casamento haja maior intimidade entre os cônjuges, mais do que entre pais e filhos. Daí a expressão uma só carne. Agora não são mais dois corpos separados, mas um só. Isso fala de comunhão em todos os aspectos, sendo que não há direitos separados, nem um poderá viver independente do outro. Tudo será compartilhado entre ambos, os dois têm os mesmos ideais, propósitos, alvos, objetivos, pois são uma carne.

Casamento: uma união indissolúvel Não podemos jamais duvidar que o propósito de Deus para o casamento é que seja uma união indissolúvel. Isso se confirma muito bem por meio da citação de Gênesis 2.24, inclusive a que Jesus fará sobre o assunto é baseada nela (Mt 19.5). É compreensível também que, pela citação de Marcos 10.9, está claro que Deus ajunta, mas o homem é quem separa.

A leitura de Marcos 10.1-12 nos ajudará a compreender melhor que o casamento é uma união que deveria ser indissolúvel, porém, é preciso entender que Deus jamais nos daria algo que fosse problemático, ruim. Isso porque, pela exposição de Gênesis, esse relacionamento figura como algo bom (Gn 1.31). A grande questão é que desde o momento em que o pecado entrou no coração humano os pensamentos se tornaram maléficos, e veja que o primeiro homem a quebrar o padrão de Deus para a vida a dois é Lameque (Gn 4.19).  Desde então o povo de Deus, Israel, passou a querer viver e imitar as nações cujas práticas eram reprováveis pelo Senhor. O contrário disso é que os israelitas deveriam viver segundo a vontade soberana do Senhor (Lv 20.23).

Muitos problemas orbitavam sobre o casamento e o divórcio desde épocas bem antigas, como também nos dias de Jesus Cristo. A pergunta dos fariseus sobre o divórcio não era com o desejo de encontrar uma solução, mas tratava-se de uma sutileza sagaz, pois o objetivo era testar Jesus no tocante à Lei de Moisés para que trouxesse alguma coisa contra Ele perante o povo.

Olhando para o texto de Deuteronômio 24.1, ao homem era permitido divorciar-se de sua mulher mandando-a embora no caso de ele desagradar-se dela ou se a mulher realizasse algo indecente. Nesse particular, os debates eram insfidáveis e divisíveis, pois no que diz respeito ao verbo desagradar, para os que eram da escola de Shammai isso envolvia algo que fosse grandemente vergonhoso, ou seja, o adultério. Para os que seguiam a escola de Hillel, o divórcio poderia ser permitido por qualquer coisa banal, por exemplo, a esposa deixar a comida queimar.

A grande questão na pergunta formulada pelos êmulos de Cristo é que buscavam interesses para si mesmos. Isso se confirma muito bem pela maneira da colocação, permitido ou lícito (Mc 10.2,4). Por outro lado, Cristo procura falar do que a Lei dizia por duas vezes, que nesse caso buscava dar prioridade à Palavra do Senhor (Mc 10.3.5). Observe que os fariseus não falaram nada quando Jesus mencionou a Lei, apenas disseram que Moisés permitiu a carta de divórcio e o repúdio.

Moisés, querendo frear o pecado e na intenção de evitar que coisas piores acontecessem, passou a anuir com a fraqueza humana, de modo que procedendo assim a tal provisão tinha como propósito proteger a mulher, dando-lhe libertação do contrato de casamento. Jamais se deve pensar que o ideal de Deus para o casamento fosse a separação, o divórcio. Essa abertura na Lei veio por causa do pecado, e tal concessão, ainda que permitida pelo Senhor, não vem dEle, pois seu desejo e padrão tem algo muito melhor para a vida a dois.

A resposta verdadeira que Jesus dá aos fariseus sobre o assunto não é em tom de hipóteses e interpretações de escolas, mas volta para a Palavra de Deus, que relata como o Senhor criou o homem e a mulher, e seu objetivo para com eles. Podemos compreender aqui a grandeza e a sabedoria de Jesus. Ele jamais procurou tratar dessa concessão da Lei, falar do divórcio, mas destacou o ideal divino para a vida a dois, a grandeza do casamento.

Amados irmãos, somos conscientes de que esse assunto é por demais sério e que cada caso é um caso, porém, não podemos deixar de lado a Palavra de Deus, a qual nos mostra que o casamento é para sempre e que só acaba com a morte (Rm 7.1; 1Co 7.39). Tal seriedade ainda pode ser notada em (Ef 5.31,32; Hb 13.4; Mt 19.3-9). E nos ensinos de Cristo, ainda que suas palavras pareçam fortes demais, seu objetivo era preservar o casamento da baixa moral de um mundo sem Deus, visto que uma grande maioria das pessoas não valoriza o casamento como algo sagrado.

quinta-feira, 21 de abril de 2022

LIÇÃO 4: RESGUARDANDO-SE DE SENTIMENTOS RUINS


INTRODUÇÃO

Neste capítulo, abordaremos a primeira temática dos seis pontos importantes que serão tratados por Cristo Jesus. A forma como Ele introduz os seus ensinos deixa claro o que quis dizer aos seus discípulos sobre a justiça deles ultrapassar a dos escribas e fariseus. Outro ponto relevante nos versículos que analisaremos é que Jesus faz uma distinção clara entre a forma como Ele e os seus opositores interpretavam a Lei.

É preciso entender que em momento algum Jesus será antagonista a Moisés, pois, como dito anteriormente, Ele tinha consciência de que a Lei e os profetas eram a Palavra de Deus. Sua intenção era mostrar a fragilidade da interpretação dos escribas e dos fariseus.

Podemos declarar que a partir de agora a lâmina de Cristo será bem afiada e o corte profundo, atingirá o âmago da essência humana,  o coração, de onde procede o pecado (Mt 15.19). Ele atacará a interpretação mórbida dos escribas e dos fariseus, condenando-os, depois mostrará o que de fato a Lei de Deus propõe ao homem. No teor desse capítulo, nosso alvo é mostrar que o evangelho não é contra a Lei e que toda ação positiva ou negativa realizada pelo homem começa primeiramente no coração.

O EVANGELHO NÃO É ANTINOMISTA

O que é Antinomismo? - O termo antinomismo, ou antinomianismo, foi cunhado por Martinho Lutero e é definido como uma declaração que, sob a dispensação do evangelho da graça, a lei moral é de nenhum uso ou  obrigação, porque somente a é necessária para a salvação.

Sendo bem direto, os que adotam a posição antinomista dizem que o cristão que vive em Jesus não precisa mais da lei moral como padrão ou regra de vida, mas não somente isso, passam a negar outras leis e são dominados por suas concepções subjetivas, emitindo pareceres e julgamentos propriamente seus como sendo os mais corretos.

Essa posição é por demais perigosa por dois motivos: o primeiro, é  que uma pessoa com tal atitude pode pensar que suas noções interiores são as mais corretas, negando outras verdades, mas tendo as suas como se realmente fossem inspiradas; em segundo lugar, cria-se a ideia de que não existem leis que possam ser observadas como obrigatórias, dessa forma, cada pessoa acaba padronizando por si mesma um estilo de vida conforme seus desejos e interesses.

Compreendemos que uma pessoa que se julga antinomista criará suas próprias concepções, não atentando para aquelas que são formuladas para o nosso bem, agirá segundo o próprio entendimento. Essa verdade está presente naqueles crentes que são carnais, cujas vidas não estão sob o poder do Espírito Santo, de modo que são dirigidos por suas próprias leis, fazendo o que bem entendem (Ef 5.19-21).

Lendo os textos de duas passagens de Juízes (Jz 17.6; 21.25), é dito o seguinte: “Naqueles dias, não havia rei em Israel; cada qual fazia o que parecia direito aos seus olhos” (ARA). Isso mostra que nesse tempo as irregularidades eram grandes pelo desprezo às leis, e, quando isso acontece, coisas indesejáveis surgem, causando grandes males.

Queridos irmãos, sabemos o quanto são importantes as leis humanas e a obediência a elas, e, como cristãos, jamais devemos agir negando as leis morais do Antigo Testamento, nem agir como se vivêssemos sem leis, na baderna, motins, confusões, gritaria (Ef 4.31).   Afinal, tal procedimento não faz parte do comportamento de um cristão sincero que está com sua vida firmada em Cristo, posto que Ele mesmo não se manifestou como um ser contrário às normas, antes, disse que veio para cumpri-las (Mt 5.17,18), e suas palavras foram: “Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também” (Jo 13.15, ARA).

A Lei e o Evangelho - Pela estrutura teológica do antinomismo, evangelho e Lei não combinam, visto que o primeiro, se firma na graça, ao passo que o segundo, tem sua base na Lei mosaica. Assim, como o cristão foi justificado por Cristo e vive sob a lei do Espírito, é desnecessário o cumprimento da Lei de Moisés. A citação de Romanos 6.14, “Porque o pecado não terá domínio sobre vós; pois não estais debaixo da lei, e sim da graça”, é uma verdade paulina incontestável. Quando ele a escreve, não está querendo dizer que o cristão deve manifestar total desprezo à Lei; seu propósito aqui é tão somente enfatizar que os que vivem em Cristo não procuram mais viver sob o antigo regime da Lei mosaica com o propósito de alcançar a salvação.

Na busca por essa compreensão de Lei e evangelho, o teólogo e escritor bíblico F. F. Bruce disse que a Lei exigia obediência, mas a graça dá poder para obedecer. Daí a graça rompe o domínio do pecado, coisa que a Lei não era capaz de fazer.

Paulo procura esclarecer a todos os cristãos que eles deveriam manifestar alegria porque passaram a viver debaixo da graça de Deus em Cristo, porém, ele fala também que a Lei, os profetas e os Escritos, isto é, todo o Antigo Testamento, revelam o pecado do homem (Rm 3.20; 5.20), e, por meio dos ensinos de Jesus e de seus apóstolos, eles passam a ser compreendidos plenamente. Para esse apóstolo, o Antigo Testamento ensinava maravilhosos ensinos e grandes verdades cristãs sobre Deus; no demais, Paulo tinha plena consciência de que Cristo e seus ensinamentos tratavam da própria Lei. O que se compreende agora é que houve um entrosamento claro da Lei de Moisés na lei do Espírito Santo, ou seja, a primeira foi incorporada à segunda. Isso se deu de dois modos: primeiramente, por meio da lei do amor, em que o cristão manifesta obediência aos preceitos morais  (Rm 13.9); em segundo lugar, diante de muitas passagens do apóstolo Paulo, que em seus diversos ensinamentos inclui mandamentos morais, os quais têm ligação com a lei moral, de modo que não se nota qualquer desavença ou negatividade quanto a isso, mas, sim, positividade. Tal paralelo pode ser compreensível na maneira que ele faz o contraste na ordem de mandamentos que são contra todo tipo de pecado e mandamentos que são exigidos por parte dos cristãos.

Como tudo o que a Lei e os profetas falaram era a Palavra de Deus, e que por isso não passam, na nova dispensação o Espírito Santo nos leva ao cumprimento do que o Antigo Testamento falava. Portanto, o cristão procura fazer o bem pela força do Espírito de Deus e da comunhão com Ele, que agora passa a ser a fonte de inspiração e capacitação para fazer o bem, mas tudo isso é feito sem qualquer tipo de legalismo.

Legalismo x Antinomismo - Facilmente se pode perceber a diferença entre legalismo e antinomismo. A primeira, teologicamente falando, refere-se a uma obediência à Lei de modo egoísta, pois sua prática estava firmada no propósito de alcançar a redenção por meio da conduta. Uma pessoa legalista prende-se totalmente à prática e obediência à Lei apenas no seu aspecto exterior, não atentando realmente para o seu espírito, sua essência, seu real desígnio. A segunda, o antinomianismo, nega a Lei,  o que faz com que a pessoa viva totalmente descompromissada.

Os legalistas desprezam a graça divina e passam a afirmar que para se obter a salvação é preciso que a Lei seja observada. Note que essa concepção transforma a Lei em um alicerce da salvação. Desse modo despreza plenamente a justificação pela fé como foi ensinado por Paulo e a presença do Espírito na vida que passa a ser a lei que age no interior daquele que crê em Jesus (Rm 8.2).

Quando dizemos que o cristão não deve ser legalista, jamais queremos afirmar com tal proposição que deve viver do seu jeito, ao seu querer, de modo libertino. Todavia, como já possuem o real crescimento por meio do conhecimento de Cristo, passam a ser maduros e perfeitos para desenvolverem uma vida de e obediência a Deus firmada no amor, fazendo tudo com alegria, sem temor algum de perder a salvação.

Entendemos que do lado legalista uma extrema necessidade de se praticar a Lei para se obter a salvação. Ainda muitos crentes pensam que a salvação se por meio da prática de regras, obras, o que não é verdade, mas, por outro lado, aqueles que seguem o antinomianismo passam a ser contrários a todo tipo de lei, crendo que a salvação se dá somente pela fé, o que não é verdade, aliás, muitos se servem desse ponto para ter liberdade para pecar.

O apóstolo Paulo faz um contraste entre o legalismo e o  antinomianismo de modo bem didático. Em Filipenses 3.2,3, ele diz que não confiava nem na circuncisão, nem na carne, pois isso era legalismo, e em 3.18 fala dos inimigos da cruz de Cristo. Na primeira citação, ele destaca a confiança na Lei para se obter a perfeição desejada, na segunda, fala do antinomianismo. Paulo compreendia que a perfeição não era o alicerce da salvação, mas procurava crescer na perfeição de Cristo Jesus, motivo pelo qual disse que esse era o seu alvo (Fp 3.13,14). O escritor aos Hebreus realça essa verdade falando que sempre devemos olhar para o Autor e Consumador de nossa fé (Hb 12.2). Assim, o cristão não pode ser nem legalista, para não desprezar a graça de Deus, nem ser antinomianista, para viver a vida do seu jeito.

A CÓLERA É O PRIMEIRO ATO PARA O HOMICÍDIO

Jesus e o sexto mandamento - Para compreendermos bem o relacionamento de Jesus com o sexto mandamento exposto por Ele aqui em seus ensinos, devemos atentar para a expressão ouvistes o que foi dito (Mt 5.21,27,33,34,43). Com isso, Ele já começa a introduzir a superioridade da sua justiça, que é mais elevada do que aquela que ensinavam os escribas e fariseus.

Esse verbo “ouviste” tem grande signi cado aqui, ou melhor, um valor grandioso, isso porque naquele tempo o acesso à literatura era bem escasso, inclusive às Escrituras. A maioria do povo não sabia ler, assim, tudo o que eles conheciam era por meio do ouvir, e quem detinha o maior poder nesse particular eram os escribas, os quais atuavam nas sinagogas fazendo a exposição da Lei.

Quanto aos antigos, vários debates conforme se pode notar em algumas versões. Em algumas consta aos antigos, enquanto em outras pelos antigos. Alguns tradutores preferiram pelos antigos, que nesse caso seria uma referência direta àqueles que faziam a interpretação das Escrituras, Moisés, os escribas e os mestres daquele tempo. A expressão aos antigos, por outro lado, estaria se direcionando ao povo, a quem falou Moisés e outros que vieram depois dele.

O que se pode entender é que pela forma como Jesus fala dos antigos, é bem possível que Ele esteja tanto com o passado marcado por intérpretes falsos, que estiveram presentes como mestres no meio do povo judeu, como também com os que viviam durante o ministéro de Cristo (Rm 9.12,26).

Jesus fala do sexto mandamento, “Não matarás”, conforme consta em Êxodo 20.13, mas, lendo Gênesis 9.5,6, vemos que ele havia sido dito antes da Lei. Da forma que Jesus irá introduzir seus seis exemplos da justiça mais elevada que a dos escribas e fariseus, contrastando o  Antigo com o Novo Testamento, oriundo de seus lábios, o destaque especial e a superioridade se vê na expressão “eu, porém, vos digo” (22, 28, 32, 34, 39, 44), que também aparece seis vezes. O que se compreende é que aqui Jesus não quer demonstrar ser alguém prepotente, egoísta, superior, mas o que pode se entender é que está em voga sua autoridade divina como Filho de Deus, por isso desafia, ataca, ensina.

A questão importante da citação de Jesus quanto ao sexto mandamento é gloriosa porque a forma como interpretará tal assunto é totalmente diferente de como faziam os escribas e os fariseus. Estes ensinavam quanto à questão de não matar, viam como algo errado tirar a vida de uma pessoa, porém, tudo se resumia apenas a esse ato exterior, inclusive havia um processo que era formado para a execução de quem praticasse o homicídio (Lv 24.17).

Nas palavras de Cristo, tudo não se resumia apenas ao ato de matar. A Lei de Deus era mais do que isso, ela apontava para a causa interna que levava alguém a praticar tal crime. Nesse sentido, podemos entender que Jesus não via o sexto mandamento apenas como um elemento presente em um código penal, ou seja, apenas uma lei, mas a questão era muito mais profunda, pois estava no âmago do coração perverso (Mt 5.19). O escritor aos Hebreus fala do poder da Palavra que discerne tudo (Hb 4.12). Portanto, para Jesus, o cumprimento da Lei vai muito além, não se conforma apenas com o que é exterior.

A cólera no contexto bíblico - No versículo 21 Jesus começa fazendo um destaque em relação à ira. O verbo grego é orgizómenos e significa provocar, incitar à ira, ser provocado à ira, estar zangado, estar enfurecido. Como dissemos antes, Jesus não atentava apenas para o ato de matar alguém, mas, sim, ao que levava a pessoa a cometer o crime.

Jesus ensinou que seus seguidores não deveriam nem pensar em se encolerizar a ponto de cometer um assassinato, pois teriam então cometido um assassinato no coração. Aqui, a palavra “cólera” se refere a um desespero planejado e revoltado que sempre ameaça fugir do controle, levando à violência, aflição emocional, maior tensão mental, prejuízo espiritual e, sim, até à morte. A cólera nos impede de desenvolver um espírito agradável a Deus.

Observamos biblicamente que o primeiro homicídio praticado por Caim começou no seu coração, o qual foi dominado e impulsionado por uma cólera ou ira violenta a ponto de cometer o assassinato. O texto diz que por Deus não se agradar de Caim nem de sua oferta, mas ter atentado à oferta do seu irmão Abel, a ira nasceu de imediato em seu coração. Observe que o verbo irar do hebraico é charah, estar quente, furioso, queimar, tornar-se irado, inflamar-se. Esse sentimento fez com que Caim matasse seu irmão (Gn 4.5-8). O apóstolo João mostra quem de fato era Caim, quais as obras que dominavam seu coração e quem era o chefe de sua vida (1Jo 3.12).

O Senhor Jesus nos ensina que jamais devemos nutrir em nossos corações qualquer sentimento de cólera, ira, sem qualquer causa justa, no demais, é impossível um cristão verdadeiramente transformado alojar em seu coração uma ira odiosa contra o seu irmão, pois tem consciência de que, caso proceda dessa maneira, será passível de julgamento, pois aos olhos de Deus tal sentimento corresponde ao homicídio.

O valor da pessoa humana - A valorização de Jesus pelo sexto mandamento é muito importante, pois com ela destaca seu apreço pela vida. Nesse mandamento está   inserida a ideia de que também são dignos de morte aqueles que fizessem pronunciamentos desdenhosos, desrespeitosos contra o próximo, tal pessoa deveria ser condenada pelo Sinédrio judaico. Duas palavras precisam ser analisadas aqui: a primeira é rhaká, um substantivo de origem aramaica com o sentido de vazio, sem sentido,   pessoa que tem cabeça vazia, cabeça-oca, também se tratava de um termo de repreensão usado entre os judeus no tempo de Cristo, e, em um sentido bem claro, pode ser traduzido por estúpido; a outra é o adjetivo moros, cujo signicado é tolo, ímpio, incrédulo, idiota, retardado mental. Quem usasse esse termo também deveria ser lançado no fogo do inferno, que no caso aqui envolveria a morte eterna, posto que seria o gehenna (Mt 10.28). Precisamos inferir o seguinte, quem nutre ódio pecaminoso, uma ira contra seu irmão, possivelmente dirá tais palavras injuriosas contra ele, de modo que quem as pratica estará cometendo homicídio de dentro do seu coração. Aos olhos de Deus, esse procedimento é reprovável e essa pessoa caminha a passos largos para o inferno, a morte.

É preciso muito cuidado quanto ao desprezo ou palavras de zombaria que se faz para com alguém, pois elas podem impulsionar pessoas a cometerem literalmente homicídio. É lamentável dizer, mas muitos não reconhecem o valor da vida humana e o respeito que se deve dar ao outro, que é imagem e semelhança de Deus (Gn 1.27). Sem pensar nas consequências, algumas pessoas usam expressões de baixo calão, ofendendo o seu próximo, contrariando a vontade de Deus.

em nosso meio pessoas que foram assassinadas com palavras  por causa de zombarias, mentiras, fofocas, que perderam a boa reputação por histórias inventadas. Um cristão comprometido com o evangelho de Cristo jamais age dessa forma, primeiro por causa do seu compromisso para com Deus, e, em segundo lugar, porque tem consciência de que há de prestar contas a Deus por suas duras palavras: “Digo-vos que de toda palavra frívola que proferirem os homens, dela darão conta no Dia do Juízo” (Mt 12.36).

A “OFERTA DO ALTAR” E A DESAVENÇA

O cristão deve sempre fazer uma análise de seu coração e de sua vida espiritual (Mc 7.2,12; 2Co 13.5), especialmente em relação ao seu procedimento para com o seu irmão, vizinho, amigo, se realmente está agindo com ele em amor, sinceridade e verdade. Isso é interessante porque pode afetar tanto o nosso culto como nosso relacionamento com o Pai. Deus não irá se voltar para aquele que se diz cristão, mas está com o coração cheio de ódio, e não de amor. Essa pessoa jamais poderá trazer uma oferta a Deus quando estiver em inimizade contra o seu irmão, pois Ele jamais a receberá.

Nosso Mestre divino deixa óbvio que Deus não se interessa por um culto de nossa parte quando as atitudes do coração não são puras para com o nosso semelhante, pois quem odeia seu irmão é assassino (1Jo 3.15). Um cristão verdadeiro não tem sua língua para bendizer a Deus e amaldiçoar o seu irmão (Tg 3.9,10). Aquele que ama a Deus de verdade nunca vive em inimizade com o seu irmão, pois está consciente, segundo o apóstolo João falou, de que aquele que não ama o seu irmão que vê, jamais poderá amar a Deus, a quem não vê (1Jo 4.20).

Para os judeus, o ato de ir uma vez por ano levando oferta para sacrificar no altar do Templo em Jerusalém era o bastante. Acreditavam que, dessa maneira, estariam cumprindo cabalmente a Lei. Porém, Jesus diz que para estar na presença de Deus e adorá-lo verdadeiramente é preciso muito mais do que dádivas naturais. É preciso estar com o coração totalmente puro, sem qualquer relacionamento pessoal rompido, e, caso isso tenha acontecido, que busque logo a reconciliação. (GOMES, Osiel. Os valores do reino de Deus: a relevância do Sermão do Monte para a Igreja de Cristo. Rio de Janeiro: CPAD, 2022. p. 46-55.)