quinta-feira, 21 de abril de 2022

LIÇÃO 4: RESGUARDANDO-SE DE SENTIMENTOS RUINS


INTRODUÇÃO

Neste capítulo, abordaremos a primeira temática dos seis pontos importantes que serão tratados por Cristo Jesus. A forma como Ele introduz os seus ensinos deixa claro o que quis dizer aos seus discípulos sobre a justiça deles ultrapassar a dos escribas e fariseus. Outro ponto relevante nos versículos que analisaremos é que Jesus faz uma distinção clara entre a forma como Ele e os seus opositores interpretavam a Lei.

É preciso entender que em momento algum Jesus será antagonista a Moisés, pois, como dito anteriormente, Ele tinha consciência de que a Lei e os profetas eram a Palavra de Deus. Sua intenção era mostrar a fragilidade da interpretação dos escribas e dos fariseus.

Podemos declarar que a partir de agora a lâmina de Cristo será bem afiada e o corte profundo, atingirá o âmago da essência humana,  o coração, de onde procede o pecado (Mt 15.19). Ele atacará a interpretação mórbida dos escribas e dos fariseus, condenando-os, depois mostrará o que de fato a Lei de Deus propõe ao homem. No teor desse capítulo, nosso alvo é mostrar que o evangelho não é contra a Lei e que toda ação positiva ou negativa realizada pelo homem começa primeiramente no coração.

O EVANGELHO NÃO É ANTINOMISTA

O que é Antinomismo? - O termo antinomismo, ou antinomianismo, foi cunhado por Martinho Lutero e é definido como uma declaração que, sob a dispensação do evangelho da graça, a lei moral é de nenhum uso ou  obrigação, porque somente a é necessária para a salvação.

Sendo bem direto, os que adotam a posição antinomista dizem que o cristão que vive em Jesus não precisa mais da lei moral como padrão ou regra de vida, mas não somente isso, passam a negar outras leis e são dominados por suas concepções subjetivas, emitindo pareceres e julgamentos propriamente seus como sendo os mais corretos.

Essa posição é por demais perigosa por dois motivos: o primeiro, é  que uma pessoa com tal atitude pode pensar que suas noções interiores são as mais corretas, negando outras verdades, mas tendo as suas como se realmente fossem inspiradas; em segundo lugar, cria-se a ideia de que não existem leis que possam ser observadas como obrigatórias, dessa forma, cada pessoa acaba padronizando por si mesma um estilo de vida conforme seus desejos e interesses.

Compreendemos que uma pessoa que se julga antinomista criará suas próprias concepções, não atentando para aquelas que são formuladas para o nosso bem, agirá segundo o próprio entendimento. Essa verdade está presente naqueles crentes que são carnais, cujas vidas não estão sob o poder do Espírito Santo, de modo que são dirigidos por suas próprias leis, fazendo o que bem entendem (Ef 5.19-21).

Lendo os textos de duas passagens de Juízes (Jz 17.6; 21.25), é dito o seguinte: “Naqueles dias, não havia rei em Israel; cada qual fazia o que parecia direito aos seus olhos” (ARA). Isso mostra que nesse tempo as irregularidades eram grandes pelo desprezo às leis, e, quando isso acontece, coisas indesejáveis surgem, causando grandes males.

Queridos irmãos, sabemos o quanto são importantes as leis humanas e a obediência a elas, e, como cristãos, jamais devemos agir negando as leis morais do Antigo Testamento, nem agir como se vivêssemos sem leis, na baderna, motins, confusões, gritaria (Ef 4.31).   Afinal, tal procedimento não faz parte do comportamento de um cristão sincero que está com sua vida firmada em Cristo, posto que Ele mesmo não se manifestou como um ser contrário às normas, antes, disse que veio para cumpri-las (Mt 5.17,18), e suas palavras foram: “Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também” (Jo 13.15, ARA).

A Lei e o Evangelho - Pela estrutura teológica do antinomismo, evangelho e Lei não combinam, visto que o primeiro, se firma na graça, ao passo que o segundo, tem sua base na Lei mosaica. Assim, como o cristão foi justificado por Cristo e vive sob a lei do Espírito, é desnecessário o cumprimento da Lei de Moisés. A citação de Romanos 6.14, “Porque o pecado não terá domínio sobre vós; pois não estais debaixo da lei, e sim da graça”, é uma verdade paulina incontestável. Quando ele a escreve, não está querendo dizer que o cristão deve manifestar total desprezo à Lei; seu propósito aqui é tão somente enfatizar que os que vivem em Cristo não procuram mais viver sob o antigo regime da Lei mosaica com o propósito de alcançar a salvação.

Na busca por essa compreensão de Lei e evangelho, o teólogo e escritor bíblico F. F. Bruce disse que a Lei exigia obediência, mas a graça dá poder para obedecer. Daí a graça rompe o domínio do pecado, coisa que a Lei não era capaz de fazer.

Paulo procura esclarecer a todos os cristãos que eles deveriam manifestar alegria porque passaram a viver debaixo da graça de Deus em Cristo, porém, ele fala também que a Lei, os profetas e os Escritos, isto é, todo o Antigo Testamento, revelam o pecado do homem (Rm 3.20; 5.20), e, por meio dos ensinos de Jesus e de seus apóstolos, eles passam a ser compreendidos plenamente. Para esse apóstolo, o Antigo Testamento ensinava maravilhosos ensinos e grandes verdades cristãs sobre Deus; no demais, Paulo tinha plena consciência de que Cristo e seus ensinamentos tratavam da própria Lei. O que se compreende agora é que houve um entrosamento claro da Lei de Moisés na lei do Espírito Santo, ou seja, a primeira foi incorporada à segunda. Isso se deu de dois modos: primeiramente, por meio da lei do amor, em que o cristão manifesta obediência aos preceitos morais  (Rm 13.9); em segundo lugar, diante de muitas passagens do apóstolo Paulo, que em seus diversos ensinamentos inclui mandamentos morais, os quais têm ligação com a lei moral, de modo que não se nota qualquer desavença ou negatividade quanto a isso, mas, sim, positividade. Tal paralelo pode ser compreensível na maneira que ele faz o contraste na ordem de mandamentos que são contra todo tipo de pecado e mandamentos que são exigidos por parte dos cristãos.

Como tudo o que a Lei e os profetas falaram era a Palavra de Deus, e que por isso não passam, na nova dispensação o Espírito Santo nos leva ao cumprimento do que o Antigo Testamento falava. Portanto, o cristão procura fazer o bem pela força do Espírito de Deus e da comunhão com Ele, que agora passa a ser a fonte de inspiração e capacitação para fazer o bem, mas tudo isso é feito sem qualquer tipo de legalismo.

Legalismo x Antinomismo - Facilmente se pode perceber a diferença entre legalismo e antinomismo. A primeira, teologicamente falando, refere-se a uma obediência à Lei de modo egoísta, pois sua prática estava firmada no propósito de alcançar a redenção por meio da conduta. Uma pessoa legalista prende-se totalmente à prática e obediência à Lei apenas no seu aspecto exterior, não atentando realmente para o seu espírito, sua essência, seu real desígnio. A segunda, o antinomianismo, nega a Lei,  o que faz com que a pessoa viva totalmente descompromissada.

Os legalistas desprezam a graça divina e passam a afirmar que para se obter a salvação é preciso que a Lei seja observada. Note que essa concepção transforma a Lei em um alicerce da salvação. Desse modo despreza plenamente a justificação pela fé como foi ensinado por Paulo e a presença do Espírito na vida que passa a ser a lei que age no interior daquele que crê em Jesus (Rm 8.2).

Quando dizemos que o cristão não deve ser legalista, jamais queremos afirmar com tal proposição que deve viver do seu jeito, ao seu querer, de modo libertino. Todavia, como já possuem o real crescimento por meio do conhecimento de Cristo, passam a ser maduros e perfeitos para desenvolverem uma vida de e obediência a Deus firmada no amor, fazendo tudo com alegria, sem temor algum de perder a salvação.

Entendemos que do lado legalista uma extrema necessidade de se praticar a Lei para se obter a salvação. Ainda muitos crentes pensam que a salvação se por meio da prática de regras, obras, o que não é verdade, mas, por outro lado, aqueles que seguem o antinomianismo passam a ser contrários a todo tipo de lei, crendo que a salvação se dá somente pela fé, o que não é verdade, aliás, muitos se servem desse ponto para ter liberdade para pecar.

O apóstolo Paulo faz um contraste entre o legalismo e o  antinomianismo de modo bem didático. Em Filipenses 3.2,3, ele diz que não confiava nem na circuncisão, nem na carne, pois isso era legalismo, e em 3.18 fala dos inimigos da cruz de Cristo. Na primeira citação, ele destaca a confiança na Lei para se obter a perfeição desejada, na segunda, fala do antinomianismo. Paulo compreendia que a perfeição não era o alicerce da salvação, mas procurava crescer na perfeição de Cristo Jesus, motivo pelo qual disse que esse era o seu alvo (Fp 3.13,14). O escritor aos Hebreus realça essa verdade falando que sempre devemos olhar para o Autor e Consumador de nossa fé (Hb 12.2). Assim, o cristão não pode ser nem legalista, para não desprezar a graça de Deus, nem ser antinomianista, para viver a vida do seu jeito.

A CÓLERA É O PRIMEIRO ATO PARA O HOMICÍDIO

Jesus e o sexto mandamento - Para compreendermos bem o relacionamento de Jesus com o sexto mandamento exposto por Ele aqui em seus ensinos, devemos atentar para a expressão ouvistes o que foi dito (Mt 5.21,27,33,34,43). Com isso, Ele já começa a introduzir a superioridade da sua justiça, que é mais elevada do que aquela que ensinavam os escribas e fariseus.

Esse verbo “ouviste” tem grande signi cado aqui, ou melhor, um valor grandioso, isso porque naquele tempo o acesso à literatura era bem escasso, inclusive às Escrituras. A maioria do povo não sabia ler, assim, tudo o que eles conheciam era por meio do ouvir, e quem detinha o maior poder nesse particular eram os escribas, os quais atuavam nas sinagogas fazendo a exposição da Lei.

Quanto aos antigos, vários debates conforme se pode notar em algumas versões. Em algumas consta aos antigos, enquanto em outras pelos antigos. Alguns tradutores preferiram pelos antigos, que nesse caso seria uma referência direta àqueles que faziam a interpretação das Escrituras, Moisés, os escribas e os mestres daquele tempo. A expressão aos antigos, por outro lado, estaria se direcionando ao povo, a quem falou Moisés e outros que vieram depois dele.

O que se pode entender é que pela forma como Jesus fala dos antigos, é bem possível que Ele esteja tanto com o passado marcado por intérpretes falsos, que estiveram presentes como mestres no meio do povo judeu, como também com os que viviam durante o ministéro de Cristo (Rm 9.12,26).

Jesus fala do sexto mandamento, “Não matarás”, conforme consta em Êxodo 20.13, mas, lendo Gênesis 9.5,6, vemos que ele havia sido dito antes da Lei. Da forma que Jesus irá introduzir seus seis exemplos da justiça mais elevada que a dos escribas e fariseus, contrastando o  Antigo com o Novo Testamento, oriundo de seus lábios, o destaque especial e a superioridade se vê na expressão “eu, porém, vos digo” (22, 28, 32, 34, 39, 44), que também aparece seis vezes. O que se compreende é que aqui Jesus não quer demonstrar ser alguém prepotente, egoísta, superior, mas o que pode se entender é que está em voga sua autoridade divina como Filho de Deus, por isso desafia, ataca, ensina.

A questão importante da citação de Jesus quanto ao sexto mandamento é gloriosa porque a forma como interpretará tal assunto é totalmente diferente de como faziam os escribas e os fariseus. Estes ensinavam quanto à questão de não matar, viam como algo errado tirar a vida de uma pessoa, porém, tudo se resumia apenas a esse ato exterior, inclusive havia um processo que era formado para a execução de quem praticasse o homicídio (Lv 24.17).

Nas palavras de Cristo, tudo não se resumia apenas ao ato de matar. A Lei de Deus era mais do que isso, ela apontava para a causa interna que levava alguém a praticar tal crime. Nesse sentido, podemos entender que Jesus não via o sexto mandamento apenas como um elemento presente em um código penal, ou seja, apenas uma lei, mas a questão era muito mais profunda, pois estava no âmago do coração perverso (Mt 5.19). O escritor aos Hebreus fala do poder da Palavra que discerne tudo (Hb 4.12). Portanto, para Jesus, o cumprimento da Lei vai muito além, não se conforma apenas com o que é exterior.

A cólera no contexto bíblico - No versículo 21 Jesus começa fazendo um destaque em relação à ira. O verbo grego é orgizómenos e significa provocar, incitar à ira, ser provocado à ira, estar zangado, estar enfurecido. Como dissemos antes, Jesus não atentava apenas para o ato de matar alguém, mas, sim, ao que levava a pessoa a cometer o crime.

Jesus ensinou que seus seguidores não deveriam nem pensar em se encolerizar a ponto de cometer um assassinato, pois teriam então cometido um assassinato no coração. Aqui, a palavra “cólera” se refere a um desespero planejado e revoltado que sempre ameaça fugir do controle, levando à violência, aflição emocional, maior tensão mental, prejuízo espiritual e, sim, até à morte. A cólera nos impede de desenvolver um espírito agradável a Deus.

Observamos biblicamente que o primeiro homicídio praticado por Caim começou no seu coração, o qual foi dominado e impulsionado por uma cólera ou ira violenta a ponto de cometer o assassinato. O texto diz que por Deus não se agradar de Caim nem de sua oferta, mas ter atentado à oferta do seu irmão Abel, a ira nasceu de imediato em seu coração. Observe que o verbo irar do hebraico é charah, estar quente, furioso, queimar, tornar-se irado, inflamar-se. Esse sentimento fez com que Caim matasse seu irmão (Gn 4.5-8). O apóstolo João mostra quem de fato era Caim, quais as obras que dominavam seu coração e quem era o chefe de sua vida (1Jo 3.12).

O Senhor Jesus nos ensina que jamais devemos nutrir em nossos corações qualquer sentimento de cólera, ira, sem qualquer causa justa, no demais, é impossível um cristão verdadeiramente transformado alojar em seu coração uma ira odiosa contra o seu irmão, pois tem consciência de que, caso proceda dessa maneira, será passível de julgamento, pois aos olhos de Deus tal sentimento corresponde ao homicídio.

O valor da pessoa humana - A valorização de Jesus pelo sexto mandamento é muito importante, pois com ela destaca seu apreço pela vida. Nesse mandamento está   inserida a ideia de que também são dignos de morte aqueles que fizessem pronunciamentos desdenhosos, desrespeitosos contra o próximo, tal pessoa deveria ser condenada pelo Sinédrio judaico. Duas palavras precisam ser analisadas aqui: a primeira é rhaká, um substantivo de origem aramaica com o sentido de vazio, sem sentido,   pessoa que tem cabeça vazia, cabeça-oca, também se tratava de um termo de repreensão usado entre os judeus no tempo de Cristo, e, em um sentido bem claro, pode ser traduzido por estúpido; a outra é o adjetivo moros, cujo signicado é tolo, ímpio, incrédulo, idiota, retardado mental. Quem usasse esse termo também deveria ser lançado no fogo do inferno, que no caso aqui envolveria a morte eterna, posto que seria o gehenna (Mt 10.28). Precisamos inferir o seguinte, quem nutre ódio pecaminoso, uma ira contra seu irmão, possivelmente dirá tais palavras injuriosas contra ele, de modo que quem as pratica estará cometendo homicídio de dentro do seu coração. Aos olhos de Deus, esse procedimento é reprovável e essa pessoa caminha a passos largos para o inferno, a morte.

É preciso muito cuidado quanto ao desprezo ou palavras de zombaria que se faz para com alguém, pois elas podem impulsionar pessoas a cometerem literalmente homicídio. É lamentável dizer, mas muitos não reconhecem o valor da vida humana e o respeito que se deve dar ao outro, que é imagem e semelhança de Deus (Gn 1.27). Sem pensar nas consequências, algumas pessoas usam expressões de baixo calão, ofendendo o seu próximo, contrariando a vontade de Deus.

em nosso meio pessoas que foram assassinadas com palavras  por causa de zombarias, mentiras, fofocas, que perderam a boa reputação por histórias inventadas. Um cristão comprometido com o evangelho de Cristo jamais age dessa forma, primeiro por causa do seu compromisso para com Deus, e, em segundo lugar, porque tem consciência de que há de prestar contas a Deus por suas duras palavras: “Digo-vos que de toda palavra frívola que proferirem os homens, dela darão conta no Dia do Juízo” (Mt 12.36).

A “OFERTA DO ALTAR” E A DESAVENÇA

O cristão deve sempre fazer uma análise de seu coração e de sua vida espiritual (Mc 7.2,12; 2Co 13.5), especialmente em relação ao seu procedimento para com o seu irmão, vizinho, amigo, se realmente está agindo com ele em amor, sinceridade e verdade. Isso é interessante porque pode afetar tanto o nosso culto como nosso relacionamento com o Pai. Deus não irá se voltar para aquele que se diz cristão, mas está com o coração cheio de ódio, e não de amor. Essa pessoa jamais poderá trazer uma oferta a Deus quando estiver em inimizade contra o seu irmão, pois Ele jamais a receberá.

Nosso Mestre divino deixa óbvio que Deus não se interessa por um culto de nossa parte quando as atitudes do coração não são puras para com o nosso semelhante, pois quem odeia seu irmão é assassino (1Jo 3.15). Um cristão verdadeiro não tem sua língua para bendizer a Deus e amaldiçoar o seu irmão (Tg 3.9,10). Aquele que ama a Deus de verdade nunca vive em inimizade com o seu irmão, pois está consciente, segundo o apóstolo João falou, de que aquele que não ama o seu irmão que vê, jamais poderá amar a Deus, a quem não vê (1Jo 4.20).

Para os judeus, o ato de ir uma vez por ano levando oferta para sacrificar no altar do Templo em Jerusalém era o bastante. Acreditavam que, dessa maneira, estariam cumprindo cabalmente a Lei. Porém, Jesus diz que para estar na presença de Deus e adorá-lo verdadeiramente é preciso muito mais do que dádivas naturais. É preciso estar com o coração totalmente puro, sem qualquer relacionamento pessoal rompido, e, caso isso tenha acontecido, que busque logo a reconciliação. (GOMES, Osiel. Os valores do reino de Deus: a relevância do Sermão do Monte para a Igreja de Cristo. Rio de Janeiro: CPAD, 2022. p. 46-55.)

sábado, 16 de abril de 2022

LIÇÃO 3: JESUS, O DISCÍPULO E A LEI


 

INTRODUÇÃO

Ao nos depararmos com Mateus 5.17-20, não devemos pensar  que se trata de uma porção separada do que vinha sendo tratado anteriormente, mas é uma continuação do Sermão da Montanha. Essa seção é o introito de uma nova parte do Sermão. Isso porque nos versos anteriores a ênfase de Cristo está firmada em descrições detalhadas sobre aquilo que o crente é ou deve ser.

Como antes Jesus dissera o que o crente deve ser, jamais devemos nos esquecer de como a nossa vida deve continuar sendo, de modo que sumariamente na primeira parte do Sermão do Monte Jesus mostra o padrão de vida que aqueles que querem fazer parte do Reino devem ter. Doravante, esse comportamento precisa ser o de uma vida santa e reta, e tal temática será trabalhada até o capítulo 7 de Mateus, versículo 14.

Podemos dizer que Mateus 5.17-20 é a introdução para tudo o que Jesus irá tratar. Com base nessa passagem, o Mestre divino estava procurando circunscrever o que realmente deve definir a real vida cristã. O método adotado por Cristo para ensinar aos seus discípulos começa com os princípios básicos; somente depois Ele irá se preocupar com os pormenores.

Como parte introdutória, a começar pelos versículos 17 e 18, Jesus fala que tudo quanto passaria a expor aos seus discípulos estava em plena consonância com o Antigo Testamento, ou seja, o que falaria seria conforme estava escrito nas Escrituras. Na outra parte, a partir dos versos 19 e 20, Jesus deixa claro que sua exposição e explicação não estariam a nadas conforme julgavam ou interpretavam os escribas e fariseus. Cabe aqui as palavras de John Stott, que diz:

Jesus começa esta seção do sermão dizendo aos Seus discípulos que não deveriam, nem por um instante, imaginar que ele havia vindo para abolir o Antigo Testamento ou qualquer parte dele. O modo como Jesus formula a afirmação sugere que algumas pessoas estavam profundamente incomodadas com sua visível atitude em relação ao Antigo Testamento. Jesus valorizou grandemente o Velho Testamento, saber desse detalhe é relevante para que jamais se tenha negatividade quanto ao mesmo, pois se tratava da Palavra de Deus, com a qual Cristo tinha plena ligação.

Pelo que Jesus dissera antes, que seus Filhos deveriam produzir boas obras, na verdade elas deveriam ser frutos da Palavra de Deus, como bem salientado pelo salmista, quando diz que aquele que prioriza as Escrituras como Palavra de Deus para sua vida dá o seu fruto na estação própria e as folhas n ão murcham (Sl 1.2,3). Se, na verdade, os escribas e fariseus tivessem deixado suas vidas serem tocadas pela Lei de Deus, de modo real e profundo, eles não teriam se tornado hipócritas e religiosos frios. Os escribas e fariseus acreditavam que eram guardiões da Lei, mas não a guardavam verdadeiramente no coração.

Não podemos apenas conhecer a Bíblia — tanto o Diabo como os antigos judeus a conheciam. Mais do que isso, precisamos deixar que a Palavra de Deus fale aos nossos corações, nos rendendo aos seus ensinos com temor e reverência, deixando que Deus nos fale por intermédio dela, para que possamos produzir um viver que de fato corresponda ao querer do Senhor.

JESUS CUMPRIU TODA A LEI

Um compromisso com o passado - Sendo bem direto, pela leitura que se faz do Sermão do Monte, Jesus começa seu discurso com princípios maravilhosos, suas palavras são doces e suaves, mas não demorará muito para que comece a tocar no ponto nevrálgico, ou melhor, na interpretação fria e negativa dos fariseus, de modo que entendemos que o divino Mestre apresenta seu ensino com uma nova interpretação viva, opondo-se ao legalismo frio dos escribas e fariseus. A crítica de Jesus a esses homens da época não era sem base. Ele procurou desmascará-los porque visavam atrair e prender pessoas em torno de si mesmos, com intenções erradas, o que se comprova muito bem na passagem de Mateus 23.

Com as explicações acima, se entende que Jesus não veio para desfazer da Lei, mas para defendê-la daqueles que a interpretavam ao seu bel prazer, porém o primeiro problema que irá surgir é quanto à pessoa que daria essa nova explicação. Por não ser fariseu e nem fazer parte dos grandes sistemas rabínicos da época, como poderia então ser dogmático? Quem seria esse homem para opor-se àqueles que haviam estudado, que faziam parte de uma história, uma tradição religiosa e que eram os representantes do povo?

No demais, a postura e o comportamento de Jesus eram totalmente dissonantes. Além de confrontar a intepretação de tais grupos, juntava-se com publicanos e pecadores, bebia e comia com eles. Acrescente-se a isso que seus ensinos misturavam graça e amor (Mt 11.19). Frente a tudo isso, parece que alguns duvidaram dEle como não cumpridor da Lei, razão pela qual o Mestre asseverou dizendo: “Não penseis que vim revogar a lei ou os profetas; não vim para revogar, vim para cumprir” (Mt 5.17, ARA).

No dia a dia de Cristo, ensinando nas regiões da Palestina, ficou claro que em momento algum Ele se opôs à Lei e aos profetas, que é uma referência ao Pentateuco e ao restante do Antigo Testamento (Mt 5.17; Lc 16.16). Se os escribas valorizavam Moisés, Jesus fazia muito mais, pois agia com verdade e sinceridade (Mt 8.4; Jo 5.46). se os escribas falavam em boas obras, Jesus também as fez (Mt 5.16).

Quando Jesus disse que não veio para revogar a Lei e os profetas, mas, sim, para cumprir, deixava claro a todos que não se propunha a ser um pregador ou mestre de novidade, um revolucionário qualquer, que não queria em momento algum confrontar os ensinos antigos, ou seja, o Antigo Testamento. Pelo contrário, buscava harmonizar cada ação sua com as passagens veterotestamentárias, porque seu objetivo maior era cumpri-las.

O que Jesus Cristo queria de fato era reorganizar tudo aquilo que seus opositores haviam desorganizado, escravizando o povo com seus sistemas religiosos pesados, com leis e normas sem qualquer respaldo divino. Ele fez isso com espírito de brandura, sinceridade, compaixão, prudência e sabedoria, não com base em novidades, com o objetivo de desmoralizar o sistema antigo. Seu objetivo era levar cada pessoa a entender que seu propósito maior era que todos se voltassem à Palavra de Deus e que em momento algum estaria sendo contra ela.

Pastores, teólogos e professores da Bíblia devem ter todo o cuidado ao introduzir um novo assunto ou tema em relação às Escrituras, buscando sabedoria e graça divina, para que as pessoas jamais levantem qualquer suspeita de que intenções contrárias. Isso pode ser por demais sério e prejudicial à comunidade de salvos, a Igreja, e ainda pode ser que, pelo nosso procedimento imprudente, gere certas precipitações na vida de alguns cristãos.

Podemos analisar que muitos assuntos novos em relação às Escrituras foram introduzidos por Pedro e Paulo com muita cautela, ligando o Novo ao Antigo Testamento com total maestria. Pedro ligou o acontecimento do Pentecoste com Joel 2.28 (At 2.14-17), e Paulo ligou o tema da justificação não como sendo um assunto propriamente seu, mas que constava nas páginas da Antiga Aliança (Rm 3.21; 4.7; Gl 3.6-22; 4.21-31).

Portanto, queridos irmãos, Jesus não destruiu a Lei, não fez qualquer objeção contra ela, nem jamais a menosprezou, mas cumpriu todo o Antigo Testamento sujeitando-se cabalmente e cumprindo-o, por meio das profecias, tipos e símbolos, quando se apresentou como o Cordeiro substituto que pagou nossos pecados na cruz (Cl 2.14).

Jesus não veio destruir a Lei - diversas interpretações quanto à questão de Jesus ter cumprido ou não a Lei. Uma linha de pensamento expõe que Jesus veio tão somente para dar continuação à Lei, ou seja, Ele seria um grande mestre judeu e, na essência, os Evangelhos seriam uma exposição da velha Lei. O criador do cristianismo seria Paulo, originando-se dele certas doutrinas, porque, na verdade, o evangelho não tratou sobre  justificação, santificação, dentre outros assuntos; tudo isso foi obra de Paulo.

Uma segunda linha de pensamento é mais pesada e está firmada no texto de João 1.17. Ela afirma que Jesus aboliu completamente a Lei e introduziu a graça, o que prontamente se compreende que o  cristão não tem nada a ver com a Lei, de modo que o tal vive completamente debaixo da graça, sem ter que falar na Lei.

O que podemos dizer com certeza é que Jesus não somente cumpriu a Lei, mais do que isso, Ele deu uma honra sublime a ela mais do que fizeram os escribas e fariseus, uma vez que estes a interpretavam de modo tão pesado que enfadava o povo, acrescentando tradições diversas (Mt 23.3), e tão somente por meio dela é que se poderia obter a salvação. Nesse caso, estavam desprezando o Antigo Testamento em real inteireza, ao passo que Jesus fez o contrário, por exemplo, quando pedia que as pessoas praticassem boas obras. Ele não agia assim com base na exigência da Lei, mas devido a uma nova implantação da verdadeira justiça no interior da vida de cada um, aqueles que já eram bem-aventurados (Mt 5.2-12; Lc 6.20-23).

A LETRA DA LEI, A VERDADE DO ESPÍRITO

O que a expressão “letra da Lei” significa? - Para termos uma compreensão clara sobre o que seria a letra da Lei, nada melhor do que atentar para a citação paulina que diz: “o  qual nos habilitou para sermos ministros de uma nova aliança, não da letra, mas do Espírito; porque a letra mata, mas o Espírito vivifica” (2Co 3.6, ARA). Por meio do substantivo neutro letra, que do grego é grámma, fala de carta, qualquer escrito, documento ou registro. No entanto, pela citação feita por Paulo, prontamente entendemos que ele está fazendo um contraste entre a letra que mata e o Espírito que dá vida.  Esse contraste é entre a Lei como um sistema de salvação que exigia  obediência perfeita, o que se provou ser impossível ao homem cumprir (Rm 3.19,20; 7.1-14;8.1-11; Gl 3.1-14); e o evangelho, que falava da salvação como um dom mediante a graça de Deus por intermédio de Jesus Cristo.

Paulo entendia a Lei como boa, ademais, ela exerceu seu papel pedagógico, que era o de levar vidas para Cristo (Gl 3.15,19), pois, como dito antes, no seu aspecto geral a Lei se referia ao Pentateuco e aos profetas. Nas palavras do apóstolo Paulo, porém, a letra que mata não era propriamente a lei que foi dada por Deus, mas sim, a interpretação judaica corrompida imposta pelo judaísmo, que a transformou num sistema totalmente sem vida que escravizava as pessoas (Is 1.10-20; Jr 7.21-26).

A perspectiva teológica da Lei - Em sua completude, a Lei, como foi dada aos filhos de Israel, era composta em três partes: moral, judicial e cerimonial. Encontramos os Dez Mandamentos na lei moral (Êx 20.1-17), além de outros princípios. A lei judicial envolvia o relacionamento entre os judeus e pode ser vista nos capítulos 21 a 23 de Êxodo. Constam nessa passagem informações sobre como cada pessoa deveria se comportar com a outra e o que se deveria fazer ou não fazer. Já na lei cerimonial estavam as questões atreladas aos sacrifícios, aos holocaustos, os ritos, os sistemas de adoração, e pode ser encontrada no livro de Levítico.  De modo geral, tudo isso era o conteúdo da Lei; era a essa Lei que Jesus estava se referindo em Mateus. Lembrando que sua ênfase estava relacionada aos ensinos sobre o comportamento e conduta do homem, sobre a verdadeira vida.

É preciso que o leitor tenha todo o cuidado quando for estudar a Lei na perspectiva que Jesus a introduz no livro de Mateus. Primeiramente, porque no versículo 17 sua ênfase é pela totalidade da Lei, mas, quando passamos para a leitura do versículo 21, sua ênfase é quanto à lei moral. Na perspectiva bíblica e teológica, já se compreende que a Lei é uma referência ao Pentateuco, ao passo que os profetas envolviam os livros proféticos do Antigo Testamento. Esses profetas eram vozes altissonantes que em sua missão agiam interpretando a Lei e chamando o povo para cumpri-la com fidelidade, visto que os males que sofriam eram por causa da desobediência; por esse motivo, procuravam chamar o povo para um retorno, incentivando-os para que todos fizessem uma releitura da Lei. Duas coisas caracterizavam os profetas na missão que desempenhavam: eram pregadores e também videntes.

Jesus esclarece que aquilo que a Lei dizia era irrevogável, permanente, e, para confirmar isso, faz uso do céu e da terra, que são sinais de permanência, de modo que enquanto eles estiverem em seus lugares, coisa alguma da Lei poderá ser mudada (Mt 5.18). Jesus estava dizendo que os mínimos detalhes da Lei deveriam ser cumpridos e obedecidos.

A Lei e a verdade do Espírito - Jesus não se manifestou contra a Lei, mas a exaltou grandiosamente. Com isso entendemos que a Lei exigia algo que o homem não poderia cumprir, devido à sua natureza pecaminosa, que o tornava fraco (Rm 8.3). Entretanto, passa agora a estar em ação o Espírito Santo, que gravaria no coração do homem o querer ou a vontade do Senhor (Rm 8.2; 1Co 15.45; At 15.9), levando o mesmo a corresponder com os requisitos do Deus Santo (Rm 8.4).

O leitor da Palavra de Deus facilmente notará, por meio das palavras de Paulo, a diferença entre as duas dispensações: da Lei e do Espírito. O apóstolo Paulo argumenta que o ministério de Moisés, ainda que tendo brilho, era transitório. Isso evidencia que havia nesse ministério o esplendor da glória de Deus, isto é, a revelação de sua vontade, de modo que sua conclusão é que se o ministério gravado em pedras tinha glória (Rm 7.7,8; 1Co 15.16), quanto maior glória teria o ministério do Espírito, o qual concederia a verdadeira vida (Gl 3.5).

A distinção entre o ministério da antiga Lei gravada em pedras e do Espírito é algo sério, posto que a primeira apenas mostrava a doença, mas não falava sobre a esperança de cura; na Nova Dispensação, porém, por meio do evangelho, há esperança para a cura da doença que mata o homem, o pecado. Essa cura é o sangue de Jesus Cristo. É no evangelho que o homem pode viver a verdadeira justiça e a santificação requeridas por Deus (Rm 1.16; 8.39).

Nesse contraste que Paulo faz entre a Lei que mata e a vida que vem do Espírito, em momento algum o apóstolo está dizendo que houve qualquer ato de aviltamento com o Antigo Testamento. Como dito antes, a letra que matava se referia à Lei de Moisés, mas usada inadequadamente pelos judeus (Tt 3.5) levando o homem ao desespero, como aconteceu com Paulo. De agora em diante, tanto a Antiga Escritura como os Evangelhos estariam unidos e passariam a ser instrumentos pelos quais o Espírito Santo iria transmitir a verdadeira vida ao homem.

Quando Paulo fala que o Espírito vivifica, ele está fazendo alusão ao novo concerto da revelação que se concretizou em Cristo, de modo que doravante não se falaria mais em um código escrito em pedra, mas esse novo seria dinâmico e espiritual introduzido nos corações para que pudesse viver e fazer a vontade do Senhor. Nisso consiste a Lei e a verdade do Espírito.

Qual é o propósito da Lei para os discípulos de Cristo? - Quando o cristão se depara com esse texto: “Porque o fim da lei é Cristo, para justiça de todo aquele que crê” (Rm 10.4), prontamente entende que se Jesus cumpriu toda a Lei, então não necessidade alguma de se voltar para o Antigo Testamento, podendo rejeitá-lo por completo. É preciso muito cuidado nesse sentido, pois muitos estão rejeitando o Antigo Testamento para ficar apenas com o Novo, esquecendo-se de que ambos se completam.

Jesus esclareceu que o Antigo Testamento testificava sobre sua pessoa e obra (Jo 5.39; Lc 24.27). Ainda há que se dizer que é nas Escrituras Antigas que constam ensinos sobre a criação do mundo, a origem do pecado, a promessa da vinda do Salvador, dentre outros assuntos importantes, de modo que sua utilidade para os novos salvos em Cristo é relevante.

À luz de Mateus 5.17,18, como já explicado, Jesus mostrou que o Antigo Testamento era a Palavra de Deus, por isso procurou cumpri- la. Semelhantemente, devemos proceder como nosso divino Mestre, jamais pondo em dúvida a autoridade da Antiga Escritura, pois durante sua vida, Jesus sempre fez menção a muitas passagens veterotestamentárias durante seus ensinos e deixou claro que elas não podem falhar: “Se ele chamou deuses àqueles a quem foi dirigida a palavra de Deus, e a Escritura não pode falhar” (Jo 10.35, ARA). Por meio dos ensinos de Paulo em relação à Lei, entendemos que ela jamais perde sua validade, porque é santa (Rm 7.22). Desse modo, ela está estabelecida e cumprida (Rm 3.31; 13.8-10; Gl 5.14).

A JUSTIÇA DO REINO DE DEUS

Quem é grande no Reino de Deus? - Entre os rabinos judeus, se fazia a divisão da Lei em 613 mandamentos. Havia os que eram negativos e positivos. Do lado negativo se tinha um total de 356 mandamentos, e do lado positivo outros 248. Isso fazia com que constantemente surgissem debates quanto ao que seria pesado e leve. Um exemplo de mandamento leve seria o que consta em Deuteronômio 22.6, e foi nessa questão que um escriba queria saber a opinião de Jesus sobre o maior mandamento, ao que prontamente respondeu (Lc 10.27).

Mas é preciso que se compreenda que o ensino e a interpretação que Jesus vai trazer quanto à Lei não seguia os parâmetros do judaísmo frio, trivial e intolerante, cheio de legalismo. Ainda que Cristo levasse em consideração que algumas exigências fossem de maior importância do que outras, como se vê em Mateus 5.19, Ele realçou com precisão as coisas mais importantes da Lei, como, por exemplo, o juízo, a misericórdia e a (Mt 23.23). É compreensível que Jesus valorizasse toda a Lei, inclusive a lei moral, como se verá em Mateus 5.21. Tudo isso deveria ser observado.

Em relação ao que é pequeno ou grande no Reino dos céus, Jesus esclarece que aquele que violar um dos menores mandamentos e ensinar a outros, isto é, ainda que seja doutor em teologia, filosofia, grande exegeta e hermeneuta, não importa, será considerado como o menor em seu Reino. Aquele, porém, que procurar praticar e ensinar os mandamentos conforme estão escritos, como ensinado por Jesus, será grande em seu Reino. Essa última expressão fala de alguém que vive ou procede segundo a verdade (1Jo 1.31), e, pela leitura que se faz de Mateus 18.1-4, tal ensino é verdadeiro tanto agora como na eternidade.

Como servos de Cristo, devemos guardar a Palavra de Deus e ensiná-la aos outros como realmente deve ser ensinada, não vendo qualquer parte dela como inferior, pequena, sendo passível de não cumprimento, visto que os reais seguidores de Cristo, em especial os mestres e doutores, sabem que para serem cooperadores do Mestre neste mundo e fazer algo para o seu Reino, precisam reverenciar, respeitar, obedecer e cumprir a Palavra de Deus, pois todos são conscientes de que a justiça que faz parte do Reino tem harmonização perfeita com os princípios morais exarados no Antigo Testamento.

A justiça do Reino de Deus

Logo que lemos Mateus 5.20, vemos que Jesus faz um páreo entre a justiça ensinada pelos escribas e fariseus com a justiça realmente que Deus se agrada, a qual todo verdadeiro cidadão do Reino de Deus deve ter. A compreensão perfeita do ensino de Cristo quanto ao que ensinavam os escribas e fariseus se verá realmente no tipo de justiça que tinham. Eles ensinavam sobre homicídio, adultério, juramento de modo literal, mas não atentavam para o que realmente a pessoa era.

Jesus ensina que a justiça do Reino teria que estar em consonância plena com a Lei de Deus (Mt 22.34-40), esse foi o motivo de Ele dizer: “Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste” (Mt 5.48, ARA). O Senhor Jesus levaria em consideração não somente o que a pessoa iria fazer, mas, sim, o que realmente ela seria, para Ele somente os feitos externos praticados perante os olhos humanos não teriam importância de modo isolado, mas envolveria o lado interno, o coração, que já havia sido transformado pelo poder da Palavra, procurando corresponder com a perfeição do Pai.

Agora é fácil notar a diferença entre a justiça ensinada por Jesus e aquela ensinada pelos escribas e fariseus. A justiça que o crente recebe vem pela fé em Cristo Jesus, não dependendo de qualquer esforço humano; ao contrário dos escribas e fariseus, em que a justiça ensinada estava firmada em cumprimentos de atos e esforços humanos. Desse modo, alcançariam a verdadeira vida que Deus desejava.

Podemos dizer que a justiça dos escribas e fariseus era fruto de uma mente enganosa, de modo que apresentavam seus argumentos e raciocínios corruptos, por isso estavam sempre anulando a Palavra de Deus (Mt 15.3.6). A justiça que utilizavam era criada por eles mesmos, estava firmada no eu, de modo que se julgavam justos (Mt 18.9-14). Os escribas e fariseus não tinham a sede de justiça como foi ensinado por Jesus (Mt 5.6). Jesus queria que os seus servos tivessem uma justiça que levasse a cada um a olhar para si mesmo e, com isso se voltar para o Pai, buscando dEle a real justiça (Lc 15.17-19). Assim sendo, podemos dizer que a justiça presente hoje nos filhos de Deus origina-se na justiça que vem de Cristo, que lhes foi imputada e alcançada pela fé (Rm 3.21,22). Ela habilita o cristão a viver retamente para que possa entrar no Reino proclamado por Jesus. (GOMES, Osiel. Os valores do reino de Deus: a relevância do Sermão do Monte para a Igreja de Cristo. Rio de Janeiro: CPAD, 2022. p. 35-45.)