sábado, 16 de abril de 2022

LIÇÃO 3: JESUS, O DISCÍPULO E A LEI


 

INTRODUÇÃO

Ao nos depararmos com Mateus 5.17-20, não devemos pensar  que se trata de uma porção separada do que vinha sendo tratado anteriormente, mas é uma continuação do Sermão da Montanha. Essa seção é o introito de uma nova parte do Sermão. Isso porque nos versos anteriores a ênfase de Cristo está firmada em descrições detalhadas sobre aquilo que o crente é ou deve ser.

Como antes Jesus dissera o que o crente deve ser, jamais devemos nos esquecer de como a nossa vida deve continuar sendo, de modo que sumariamente na primeira parte do Sermão do Monte Jesus mostra o padrão de vida que aqueles que querem fazer parte do Reino devem ter. Doravante, esse comportamento precisa ser o de uma vida santa e reta, e tal temática será trabalhada até o capítulo 7 de Mateus, versículo 14.

Podemos dizer que Mateus 5.17-20 é a introdução para tudo o que Jesus irá tratar. Com base nessa passagem, o Mestre divino estava procurando circunscrever o que realmente deve definir a real vida cristã. O método adotado por Cristo para ensinar aos seus discípulos começa com os princípios básicos; somente depois Ele irá se preocupar com os pormenores.

Como parte introdutória, a começar pelos versículos 17 e 18, Jesus fala que tudo quanto passaria a expor aos seus discípulos estava em plena consonância com o Antigo Testamento, ou seja, o que falaria seria conforme estava escrito nas Escrituras. Na outra parte, a partir dos versos 19 e 20, Jesus deixa claro que sua exposição e explicação não estariam a nadas conforme julgavam ou interpretavam os escribas e fariseus. Cabe aqui as palavras de John Stott, que diz:

Jesus começa esta seção do sermão dizendo aos Seus discípulos que não deveriam, nem por um instante, imaginar que ele havia vindo para abolir o Antigo Testamento ou qualquer parte dele. O modo como Jesus formula a afirmação sugere que algumas pessoas estavam profundamente incomodadas com sua visível atitude em relação ao Antigo Testamento. Jesus valorizou grandemente o Velho Testamento, saber desse detalhe é relevante para que jamais se tenha negatividade quanto ao mesmo, pois se tratava da Palavra de Deus, com a qual Cristo tinha plena ligação.

Pelo que Jesus dissera antes, que seus Filhos deveriam produzir boas obras, na verdade elas deveriam ser frutos da Palavra de Deus, como bem salientado pelo salmista, quando diz que aquele que prioriza as Escrituras como Palavra de Deus para sua vida dá o seu fruto na estação própria e as folhas n ão murcham (Sl 1.2,3). Se, na verdade, os escribas e fariseus tivessem deixado suas vidas serem tocadas pela Lei de Deus, de modo real e profundo, eles não teriam se tornado hipócritas e religiosos frios. Os escribas e fariseus acreditavam que eram guardiões da Lei, mas não a guardavam verdadeiramente no coração.

Não podemos apenas conhecer a Bíblia — tanto o Diabo como os antigos judeus a conheciam. Mais do que isso, precisamos deixar que a Palavra de Deus fale aos nossos corações, nos rendendo aos seus ensinos com temor e reverência, deixando que Deus nos fale por intermédio dela, para que possamos produzir um viver que de fato corresponda ao querer do Senhor.

JESUS CUMPRIU TODA A LEI

Um compromisso com o passado - Sendo bem direto, pela leitura que se faz do Sermão do Monte, Jesus começa seu discurso com princípios maravilhosos, suas palavras são doces e suaves, mas não demorará muito para que comece a tocar no ponto nevrálgico, ou melhor, na interpretação fria e negativa dos fariseus, de modo que entendemos que o divino Mestre apresenta seu ensino com uma nova interpretação viva, opondo-se ao legalismo frio dos escribas e fariseus. A crítica de Jesus a esses homens da época não era sem base. Ele procurou desmascará-los porque visavam atrair e prender pessoas em torno de si mesmos, com intenções erradas, o que se comprova muito bem na passagem de Mateus 23.

Com as explicações acima, se entende que Jesus não veio para desfazer da Lei, mas para defendê-la daqueles que a interpretavam ao seu bel prazer, porém o primeiro problema que irá surgir é quanto à pessoa que daria essa nova explicação. Por não ser fariseu e nem fazer parte dos grandes sistemas rabínicos da época, como poderia então ser dogmático? Quem seria esse homem para opor-se àqueles que haviam estudado, que faziam parte de uma história, uma tradição religiosa e que eram os representantes do povo?

No demais, a postura e o comportamento de Jesus eram totalmente dissonantes. Além de confrontar a intepretação de tais grupos, juntava-se com publicanos e pecadores, bebia e comia com eles. Acrescente-se a isso que seus ensinos misturavam graça e amor (Mt 11.19). Frente a tudo isso, parece que alguns duvidaram dEle como não cumpridor da Lei, razão pela qual o Mestre asseverou dizendo: “Não penseis que vim revogar a lei ou os profetas; não vim para revogar, vim para cumprir” (Mt 5.17, ARA).

No dia a dia de Cristo, ensinando nas regiões da Palestina, ficou claro que em momento algum Ele se opôs à Lei e aos profetas, que é uma referência ao Pentateuco e ao restante do Antigo Testamento (Mt 5.17; Lc 16.16). Se os escribas valorizavam Moisés, Jesus fazia muito mais, pois agia com verdade e sinceridade (Mt 8.4; Jo 5.46). se os escribas falavam em boas obras, Jesus também as fez (Mt 5.16).

Quando Jesus disse que não veio para revogar a Lei e os profetas, mas, sim, para cumprir, deixava claro a todos que não se propunha a ser um pregador ou mestre de novidade, um revolucionário qualquer, que não queria em momento algum confrontar os ensinos antigos, ou seja, o Antigo Testamento. Pelo contrário, buscava harmonizar cada ação sua com as passagens veterotestamentárias, porque seu objetivo maior era cumpri-las.

O que Jesus Cristo queria de fato era reorganizar tudo aquilo que seus opositores haviam desorganizado, escravizando o povo com seus sistemas religiosos pesados, com leis e normas sem qualquer respaldo divino. Ele fez isso com espírito de brandura, sinceridade, compaixão, prudência e sabedoria, não com base em novidades, com o objetivo de desmoralizar o sistema antigo. Seu objetivo era levar cada pessoa a entender que seu propósito maior era que todos se voltassem à Palavra de Deus e que em momento algum estaria sendo contra ela.

Pastores, teólogos e professores da Bíblia devem ter todo o cuidado ao introduzir um novo assunto ou tema em relação às Escrituras, buscando sabedoria e graça divina, para que as pessoas jamais levantem qualquer suspeita de que intenções contrárias. Isso pode ser por demais sério e prejudicial à comunidade de salvos, a Igreja, e ainda pode ser que, pelo nosso procedimento imprudente, gere certas precipitações na vida de alguns cristãos.

Podemos analisar que muitos assuntos novos em relação às Escrituras foram introduzidos por Pedro e Paulo com muita cautela, ligando o Novo ao Antigo Testamento com total maestria. Pedro ligou o acontecimento do Pentecoste com Joel 2.28 (At 2.14-17), e Paulo ligou o tema da justificação não como sendo um assunto propriamente seu, mas que constava nas páginas da Antiga Aliança (Rm 3.21; 4.7; Gl 3.6-22; 4.21-31).

Portanto, queridos irmãos, Jesus não destruiu a Lei, não fez qualquer objeção contra ela, nem jamais a menosprezou, mas cumpriu todo o Antigo Testamento sujeitando-se cabalmente e cumprindo-o, por meio das profecias, tipos e símbolos, quando se apresentou como o Cordeiro substituto que pagou nossos pecados na cruz (Cl 2.14).

Jesus não veio destruir a Lei - diversas interpretações quanto à questão de Jesus ter cumprido ou não a Lei. Uma linha de pensamento expõe que Jesus veio tão somente para dar continuação à Lei, ou seja, Ele seria um grande mestre judeu e, na essência, os Evangelhos seriam uma exposição da velha Lei. O criador do cristianismo seria Paulo, originando-se dele certas doutrinas, porque, na verdade, o evangelho não tratou sobre  justificação, santificação, dentre outros assuntos; tudo isso foi obra de Paulo.

Uma segunda linha de pensamento é mais pesada e está firmada no texto de João 1.17. Ela afirma que Jesus aboliu completamente a Lei e introduziu a graça, o que prontamente se compreende que o  cristão não tem nada a ver com a Lei, de modo que o tal vive completamente debaixo da graça, sem ter que falar na Lei.

O que podemos dizer com certeza é que Jesus não somente cumpriu a Lei, mais do que isso, Ele deu uma honra sublime a ela mais do que fizeram os escribas e fariseus, uma vez que estes a interpretavam de modo tão pesado que enfadava o povo, acrescentando tradições diversas (Mt 23.3), e tão somente por meio dela é que se poderia obter a salvação. Nesse caso, estavam desprezando o Antigo Testamento em real inteireza, ao passo que Jesus fez o contrário, por exemplo, quando pedia que as pessoas praticassem boas obras. Ele não agia assim com base na exigência da Lei, mas devido a uma nova implantação da verdadeira justiça no interior da vida de cada um, aqueles que já eram bem-aventurados (Mt 5.2-12; Lc 6.20-23).

A LETRA DA LEI, A VERDADE DO ESPÍRITO

O que a expressão “letra da Lei” significa? - Para termos uma compreensão clara sobre o que seria a letra da Lei, nada melhor do que atentar para a citação paulina que diz: “o  qual nos habilitou para sermos ministros de uma nova aliança, não da letra, mas do Espírito; porque a letra mata, mas o Espírito vivifica” (2Co 3.6, ARA). Por meio do substantivo neutro letra, que do grego é grámma, fala de carta, qualquer escrito, documento ou registro. No entanto, pela citação feita por Paulo, prontamente entendemos que ele está fazendo um contraste entre a letra que mata e o Espírito que dá vida.  Esse contraste é entre a Lei como um sistema de salvação que exigia  obediência perfeita, o que se provou ser impossível ao homem cumprir (Rm 3.19,20; 7.1-14;8.1-11; Gl 3.1-14); e o evangelho, que falava da salvação como um dom mediante a graça de Deus por intermédio de Jesus Cristo.

Paulo entendia a Lei como boa, ademais, ela exerceu seu papel pedagógico, que era o de levar vidas para Cristo (Gl 3.15,19), pois, como dito antes, no seu aspecto geral a Lei se referia ao Pentateuco e aos profetas. Nas palavras do apóstolo Paulo, porém, a letra que mata não era propriamente a lei que foi dada por Deus, mas sim, a interpretação judaica corrompida imposta pelo judaísmo, que a transformou num sistema totalmente sem vida que escravizava as pessoas (Is 1.10-20; Jr 7.21-26).

A perspectiva teológica da Lei - Em sua completude, a Lei, como foi dada aos filhos de Israel, era composta em três partes: moral, judicial e cerimonial. Encontramos os Dez Mandamentos na lei moral (Êx 20.1-17), além de outros princípios. A lei judicial envolvia o relacionamento entre os judeus e pode ser vista nos capítulos 21 a 23 de Êxodo. Constam nessa passagem informações sobre como cada pessoa deveria se comportar com a outra e o que se deveria fazer ou não fazer. Já na lei cerimonial estavam as questões atreladas aos sacrifícios, aos holocaustos, os ritos, os sistemas de adoração, e pode ser encontrada no livro de Levítico.  De modo geral, tudo isso era o conteúdo da Lei; era a essa Lei que Jesus estava se referindo em Mateus. Lembrando que sua ênfase estava relacionada aos ensinos sobre o comportamento e conduta do homem, sobre a verdadeira vida.

É preciso que o leitor tenha todo o cuidado quando for estudar a Lei na perspectiva que Jesus a introduz no livro de Mateus. Primeiramente, porque no versículo 17 sua ênfase é pela totalidade da Lei, mas, quando passamos para a leitura do versículo 21, sua ênfase é quanto à lei moral. Na perspectiva bíblica e teológica, já se compreende que a Lei é uma referência ao Pentateuco, ao passo que os profetas envolviam os livros proféticos do Antigo Testamento. Esses profetas eram vozes altissonantes que em sua missão agiam interpretando a Lei e chamando o povo para cumpri-la com fidelidade, visto que os males que sofriam eram por causa da desobediência; por esse motivo, procuravam chamar o povo para um retorno, incentivando-os para que todos fizessem uma releitura da Lei. Duas coisas caracterizavam os profetas na missão que desempenhavam: eram pregadores e também videntes.

Jesus esclarece que aquilo que a Lei dizia era irrevogável, permanente, e, para confirmar isso, faz uso do céu e da terra, que são sinais de permanência, de modo que enquanto eles estiverem em seus lugares, coisa alguma da Lei poderá ser mudada (Mt 5.18). Jesus estava dizendo que os mínimos detalhes da Lei deveriam ser cumpridos e obedecidos.

A Lei e a verdade do Espírito - Jesus não se manifestou contra a Lei, mas a exaltou grandiosamente. Com isso entendemos que a Lei exigia algo que o homem não poderia cumprir, devido à sua natureza pecaminosa, que o tornava fraco (Rm 8.3). Entretanto, passa agora a estar em ação o Espírito Santo, que gravaria no coração do homem o querer ou a vontade do Senhor (Rm 8.2; 1Co 15.45; At 15.9), levando o mesmo a corresponder com os requisitos do Deus Santo (Rm 8.4).

O leitor da Palavra de Deus facilmente notará, por meio das palavras de Paulo, a diferença entre as duas dispensações: da Lei e do Espírito. O apóstolo Paulo argumenta que o ministério de Moisés, ainda que tendo brilho, era transitório. Isso evidencia que havia nesse ministério o esplendor da glória de Deus, isto é, a revelação de sua vontade, de modo que sua conclusão é que se o ministério gravado em pedras tinha glória (Rm 7.7,8; 1Co 15.16), quanto maior glória teria o ministério do Espírito, o qual concederia a verdadeira vida (Gl 3.5).

A distinção entre o ministério da antiga Lei gravada em pedras e do Espírito é algo sério, posto que a primeira apenas mostrava a doença, mas não falava sobre a esperança de cura; na Nova Dispensação, porém, por meio do evangelho, há esperança para a cura da doença que mata o homem, o pecado. Essa cura é o sangue de Jesus Cristo. É no evangelho que o homem pode viver a verdadeira justiça e a santificação requeridas por Deus (Rm 1.16; 8.39).

Nesse contraste que Paulo faz entre a Lei que mata e a vida que vem do Espírito, em momento algum o apóstolo está dizendo que houve qualquer ato de aviltamento com o Antigo Testamento. Como dito antes, a letra que matava se referia à Lei de Moisés, mas usada inadequadamente pelos judeus (Tt 3.5) levando o homem ao desespero, como aconteceu com Paulo. De agora em diante, tanto a Antiga Escritura como os Evangelhos estariam unidos e passariam a ser instrumentos pelos quais o Espírito Santo iria transmitir a verdadeira vida ao homem.

Quando Paulo fala que o Espírito vivifica, ele está fazendo alusão ao novo concerto da revelação que se concretizou em Cristo, de modo que doravante não se falaria mais em um código escrito em pedra, mas esse novo seria dinâmico e espiritual introduzido nos corações para que pudesse viver e fazer a vontade do Senhor. Nisso consiste a Lei e a verdade do Espírito.

Qual é o propósito da Lei para os discípulos de Cristo? - Quando o cristão se depara com esse texto: “Porque o fim da lei é Cristo, para justiça de todo aquele que crê” (Rm 10.4), prontamente entende que se Jesus cumpriu toda a Lei, então não necessidade alguma de se voltar para o Antigo Testamento, podendo rejeitá-lo por completo. É preciso muito cuidado nesse sentido, pois muitos estão rejeitando o Antigo Testamento para ficar apenas com o Novo, esquecendo-se de que ambos se completam.

Jesus esclareceu que o Antigo Testamento testificava sobre sua pessoa e obra (Jo 5.39; Lc 24.27). Ainda há que se dizer que é nas Escrituras Antigas que constam ensinos sobre a criação do mundo, a origem do pecado, a promessa da vinda do Salvador, dentre outros assuntos importantes, de modo que sua utilidade para os novos salvos em Cristo é relevante.

À luz de Mateus 5.17,18, como já explicado, Jesus mostrou que o Antigo Testamento era a Palavra de Deus, por isso procurou cumpri- la. Semelhantemente, devemos proceder como nosso divino Mestre, jamais pondo em dúvida a autoridade da Antiga Escritura, pois durante sua vida, Jesus sempre fez menção a muitas passagens veterotestamentárias durante seus ensinos e deixou claro que elas não podem falhar: “Se ele chamou deuses àqueles a quem foi dirigida a palavra de Deus, e a Escritura não pode falhar” (Jo 10.35, ARA). Por meio dos ensinos de Paulo em relação à Lei, entendemos que ela jamais perde sua validade, porque é santa (Rm 7.22). Desse modo, ela está estabelecida e cumprida (Rm 3.31; 13.8-10; Gl 5.14).

A JUSTIÇA DO REINO DE DEUS

Quem é grande no Reino de Deus? - Entre os rabinos judeus, se fazia a divisão da Lei em 613 mandamentos. Havia os que eram negativos e positivos. Do lado negativo se tinha um total de 356 mandamentos, e do lado positivo outros 248. Isso fazia com que constantemente surgissem debates quanto ao que seria pesado e leve. Um exemplo de mandamento leve seria o que consta em Deuteronômio 22.6, e foi nessa questão que um escriba queria saber a opinião de Jesus sobre o maior mandamento, ao que prontamente respondeu (Lc 10.27).

Mas é preciso que se compreenda que o ensino e a interpretação que Jesus vai trazer quanto à Lei não seguia os parâmetros do judaísmo frio, trivial e intolerante, cheio de legalismo. Ainda que Cristo levasse em consideração que algumas exigências fossem de maior importância do que outras, como se vê em Mateus 5.19, Ele realçou com precisão as coisas mais importantes da Lei, como, por exemplo, o juízo, a misericórdia e a (Mt 23.23). É compreensível que Jesus valorizasse toda a Lei, inclusive a lei moral, como se verá em Mateus 5.21. Tudo isso deveria ser observado.

Em relação ao que é pequeno ou grande no Reino dos céus, Jesus esclarece que aquele que violar um dos menores mandamentos e ensinar a outros, isto é, ainda que seja doutor em teologia, filosofia, grande exegeta e hermeneuta, não importa, será considerado como o menor em seu Reino. Aquele, porém, que procurar praticar e ensinar os mandamentos conforme estão escritos, como ensinado por Jesus, será grande em seu Reino. Essa última expressão fala de alguém que vive ou procede segundo a verdade (1Jo 1.31), e, pela leitura que se faz de Mateus 18.1-4, tal ensino é verdadeiro tanto agora como na eternidade.

Como servos de Cristo, devemos guardar a Palavra de Deus e ensiná-la aos outros como realmente deve ser ensinada, não vendo qualquer parte dela como inferior, pequena, sendo passível de não cumprimento, visto que os reais seguidores de Cristo, em especial os mestres e doutores, sabem que para serem cooperadores do Mestre neste mundo e fazer algo para o seu Reino, precisam reverenciar, respeitar, obedecer e cumprir a Palavra de Deus, pois todos são conscientes de que a justiça que faz parte do Reino tem harmonização perfeita com os princípios morais exarados no Antigo Testamento.

A justiça do Reino de Deus

Logo que lemos Mateus 5.20, vemos que Jesus faz um páreo entre a justiça ensinada pelos escribas e fariseus com a justiça realmente que Deus se agrada, a qual todo verdadeiro cidadão do Reino de Deus deve ter. A compreensão perfeita do ensino de Cristo quanto ao que ensinavam os escribas e fariseus se verá realmente no tipo de justiça que tinham. Eles ensinavam sobre homicídio, adultério, juramento de modo literal, mas não atentavam para o que realmente a pessoa era.

Jesus ensina que a justiça do Reino teria que estar em consonância plena com a Lei de Deus (Mt 22.34-40), esse foi o motivo de Ele dizer: “Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste” (Mt 5.48, ARA). O Senhor Jesus levaria em consideração não somente o que a pessoa iria fazer, mas, sim, o que realmente ela seria, para Ele somente os feitos externos praticados perante os olhos humanos não teriam importância de modo isolado, mas envolveria o lado interno, o coração, que já havia sido transformado pelo poder da Palavra, procurando corresponder com a perfeição do Pai.

Agora é fácil notar a diferença entre a justiça ensinada por Jesus e aquela ensinada pelos escribas e fariseus. A justiça que o crente recebe vem pela fé em Cristo Jesus, não dependendo de qualquer esforço humano; ao contrário dos escribas e fariseus, em que a justiça ensinada estava firmada em cumprimentos de atos e esforços humanos. Desse modo, alcançariam a verdadeira vida que Deus desejava.

Podemos dizer que a justiça dos escribas e fariseus era fruto de uma mente enganosa, de modo que apresentavam seus argumentos e raciocínios corruptos, por isso estavam sempre anulando a Palavra de Deus (Mt 15.3.6). A justiça que utilizavam era criada por eles mesmos, estava firmada no eu, de modo que se julgavam justos (Mt 18.9-14). Os escribas e fariseus não tinham a sede de justiça como foi ensinado por Jesus (Mt 5.6). Jesus queria que os seus servos tivessem uma justiça que levasse a cada um a olhar para si mesmo e, com isso se voltar para o Pai, buscando dEle a real justiça (Lc 15.17-19). Assim sendo, podemos dizer que a justiça presente hoje nos filhos de Deus origina-se na justiça que vem de Cristo, que lhes foi imputada e alcançada pela fé (Rm 3.21,22). Ela habilita o cristão a viver retamente para que possa entrar no Reino proclamado por Jesus. (GOMES, Osiel. Os valores do reino de Deus: a relevância do Sermão do Monte para a Igreja de Cristo. Rio de Janeiro: CPAD, 2022. p. 35-45.)



sábado, 9 de abril de 2022

LIÇÃO 2: SAL DA TERRA, LUZ DO MUNDO


INTRODUÇÃO

A passagem de Mateus 5.13-16, exposta por Cristo, tem como relevância dizer o que o crente deve evidenciar como um discípulo do Reino. Nos versículos anteriores, a tônica do Mestre pautou-se na essência, na natureza, declarando o que o cristão deveria ser. Não há problema algum de o cristão estar no mundo, ainda que este esteja na mais terrível corrupção moral e espiritual, nem se deve tomar a atitude monástica, ausentar-se dele. Na verdade, a grande diferença está na vida transformada, pois, como bem ensina Paulo, quem já passou pelo processo da transformação espiritual, recebendo uma nova mente, jamais irá padronizar-se com o estilo de vida pecaminosa, porquanto já experimentou a perfeita e agradável vontade do Senhor (Rm 12.2).

Jesus disse: “Não peço que os tires do mundo, e sim que os guardes do mal” (Jo 17.15, ARA). Antes de subir aos céus, Ele capacitou seus discípulos com o ensino e o poder do Espírito Santo, tornando-os aptos para enfrentar todo o sistema maléfico do mundo pecaminoso e sob o controle do Maligno (1 Jo 5.19).

Jesus não poderia tirar os discípulos desse mundo pecaminoso, visto que eles iriam dar prosseguimento ao grande projeto da salvação dos pecadores, uma vez que para isso foram vocacionados e treinados. O que precisavam era tão somente serem guardados do Maligno.

O cristão conhecedor da Palavra, em especial desse ensino de Jesus, sabe da importância de estar neste mundo exercendo o papel de sal e de luz. Ele não teme contaminar-se com o mundo, pois já foi totalmente regenerado, transformado e recebeu uma nova mente, e, como membro da comunidade de salvos, poderá influenciar essa sociedade pecaminosa (1Co 5.10), brilhar como luz e proclamar as virtudes daquEle que nos tirou das trevas (Fp 2.15; 1Pe 2.9).

I - SAL TEMPERA E CONSERVA

1. Definição. No grego, sal é um substantivo neutro (hálas), que segundo Strong pode ser definido de quatro maneiras: 1) sal, com o qual a comida é temperada e sacrifícios são salpicados. 2) tipo de substância salina usada para fertilizar terra arável. 3) o sal é um símbolo de acordo durável, porque protege os alimentos da putrefação e preserva-os sem alteração. Consequentemente, na con rmação solene de pactos, os orientais estavam e estão até os dias de hoje acostumados a compartilhar do sal juntos. 4) sabedoria e graça exibida em discurso.

Do hebraico a palavra sal é melach, procedente de malach, rasgar, dissipar, (Nifal) ser dispersado, ser dissipado, salgar, temperar, dessa forma a palavra sal desde Gênesis (Gn 14.3) até chegar ao profeta Sofonias (Sf 2.9) surge aproximadamente trinta vezes. Além das  definições dadas quanto ao sal, é importante atentar para o aspecto histórico em relação a esse elemento, em especial envolvendo o povo  de Deus, os judeus. Somente assim poderemos compreender o que Jesus quis dizer ao falar: “Vós sois o sal da terra”.

Havia nas praias do Mar Morto uma fonte inesgotável de sal, fala-se também de uma montanha de sal com oito quilômetros de comprimento, que ficava na parte meridional do mesmo mar.  Provavelmente, foi sobre isso que falou o profeta Sofonias (Sf 2.9) e o que consta em 2 Samuel 8.13 ao fazer menção ao vale do Sal.

No caso dos fenícios, eles conseguiam sal do Mar Mediterrâneo pela evaporação. Acredita-se que o sal que era usado pelos povos antigos se denominava sal-gema e era oriundo dos lagos de água salgada. Era um sal impuro e a parte exterior era sem sabor. A menção feita em Mateus 5.13 provavelmente foi a esse tipo de sal, pois, às vezes, era posto fora, sendo visto como coisa inútil.

Ainda há que se destacar a aliança de sal, como é descrita no Antigo Testamento. Sabe-se que as ofertas de manjares deveriam ser salgadas com sal (Lv 2.13), de modo que tal aliança falava de um pacto perpétuo entre Deus e o seu povo (Nm 18.19; 2Cr 13.5). Na passagem de Deuteronômio 29.23, compreende-se que o sal tem o poder de queimação, motivo pelo qual pode se entender a esterilidade das praias do Mar Morto, e quando se atenta para  Jeremias 17.6 tem-se a menção de terra salgada, uma referência direta   a lugares improdutivos, secos (Jó 39.6; Sl 107.34; Ez 47.11; Sf 2.9).

Em Juízes 9.45 (ARA) está escrito: “Todo aquele dia pelejou Abimeleque contra a cidade e a tomou. Matou o povo que nela havia, assolou-a e a semeou de sal”. Quando uma cidade inimiga era vencida, de imediato, se espalhava sal sobre suas ruas, esse era um costume praticado e bem antigo, mostrando que o que se desejava era a contínua destruição para sempre.

A história fala também que boa parte do pagamento, isto é, o soldo dos soldados romanos, eram pagos em sal, o que revela seu grande valor, de maneira que nossa conhecida e moderna palavra salário vem dessa tradição.

Pelo exposto agora é fácil chegar a entender, pelos diversos signicados simbólicos aplicados ao sal, a razão de Jesus figurá-lo ao cristão, indo além da importância de tempero (Jó 6.6), remédio (Ez 16.4) ou conservante. Seu grande destaque é visto no que tange à fideelidade, à preservação e ao sabor, mas, em especial, à sabedoria,  pois o cristão como sal deve dar bom gosto em tudo (Cl 4.6).

2. A importância do sal. Não podemos negar que o sal não somente preserva o alimento, mas concede-lhe sabor, daí o motivo de Jó falar: “Comer-se-á sem sal o que é insípido? Ou haverá sabor na clara do ovo?” (Jó 6.6). Esse texto deixa claro que ninguém deseja comer uma comida sem sabor, assim, uma pitadinha de sal como condimento pode ser bom, pois a comida insípida é tão repulsiva que causa até náusea.

Pela Bíblia, como supracitado, o sal tinha o papel do condimento nos alimentos (Jó 6.6), tanto para os homens como também para os animais (Is 30.24). Seu grande papel era o de preservar os alimentos, não deixando que eles entrassem em estado de putrefação (Êx 30.35). Como valor medicinal, era usado no ato de se lavar os recém-nascidos (Ez 16.4), e, quando lemos Colossenses 4.6, a expressão “temperada com sal” fala de bom gosto, sensatez, sabedoria e equilíbrio.

3. O cristão como sal. Na metáfora que Cristo faz comparando o cristão com o sal, Ele mostra que cada discípulo tem uma vida que dá sabor e que pode preservar. É preciso entender que esse mundo dominado pela natureza carnal pecaminosa irá cada vez mais de mal a pior. Desde o momento em que a carne começou a reinar, a situação do homem sem Deus é o caminho da podridão (Gn 6.3).

Não podemos jamais esperar que o mundo seja preservado do pecado por meio da educação, da ciência ou da filosofia. A história tem provado ao longo do tempo que muitos viveram nessa esperança, porém com a chegada da Primeira e da Segunda Guerra Mundial provou-se que a humanidade caminha para o pior. Sendo assim, Paulo disse: “Quando andarem dizendo: Paz e segurança, eis que lhes sobrevirá repentina destruição, como vêm as dores de parto à que está para dar à luz; e de nenhum modo escaparão” (1Ts 5.3, ARA).

As pessoas que não têm Cristo na vida, nem seu Santo Espírito, vivem dominadas pela carne e seus desejos e as obras que produzem são as mais horríveis (Gl 5.19-21), gerando os micróbios e germes da maldade que contaminam e conduzem ao estado de putrefação. Para deter essa contaminação e corrupção é que se faz necessária a presença do sal.

O mundo podre é dominado pela secularização e mundanismo, no demais, seu controle está nas mãos do Maligno (1Jo 5.19; 2Co 4.4), de modo que não como a contaminação não se alastrar, porém com o  sal presente, não apenas dentro do saleiro, ou seja, isolado, mas sendo aplicado na carne, conterá a contaminação. É preciso entender que não basta apenas destacar as qualidades do sal, sua brancura, poder antisséptico e seu sabor, sua real missão deve ser a de dar sabor e preservar, sendo que a última é mais destacável, pois visa combater a deterioração.

Nesse mundo vil e pecaminoso, quando o cristão atua como sal, vivendo a verdadeira vida cristã, ele pode combater a corrupção moral e espiritual. Entretanto, para que isso aconteça, ele precisa ter um viver segundo a Palavra de Deus, andar em santidade e verdade, desenvolver a prática da leitura e da oração, pois, dessa forma, não se contaminará com o mundo, mas será sal nesta Terra.

Temos visto o pecado aumentando, e a vida de moral comprometida, e não podemos negar nem fechar os olhos para essa realidade, posto que a Igreja em sua maior parte não tem exercido como deveria a pregação da Palavra, somente o evangelho faz a mudança que necessitamos, pois é o poder de Deus (Rm 1.16). Paulo deixou claro em sua primeira carta aos Coríntios que todos os demais sistemas falharam, inclusive a sabedoria humana, mas ele prioriza a mensagem da cruz (1Co 1.18-23). O sal exercendo seu papel leva a menos alcoolismo, menos drogas, menos adultério, menos divórcio, coisas que leis parlamentares não podem mudar, visto que somente Cristo concede a mudança (2Co 5.17). (GOMES, Osiel. Os valores do reino de Deus: a relevância do Sermão do Monte para a Igreja de Cristo. Rio de Janeiro: CPAD, 2022. p. 25-28.)