sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

LIÇÃO 2: A NATUREZA DOS ANJOS – A BELEZA DO MUNDO ESPIRITUAL



SUBSÍDIO I

DESENVOLVIMENTO DA ANGELOLOGIA

O desenvolvimento da teologia dos anjos, ou angelologia, deu-se logo no início da história da Igreja, condicionado pelo crescimento das igrejas e da necessidade de esclarecimento de pontos doutrinários da fé cristã. Os principais eventos que motivaram a discussão do assunto foram o problema da influência da angelologia judaica, do imaginário popular quanto à dimensão espiritual, do culto aos anjos e das ideias gnósticas. O resultado foi a afirmação da transcendência absoluta do Deus Criador, dos anjos como criaturas e da distinção entre os anjos de Jesus Cristo e o Espírito Santo.
A tradição judaica influenciou a teologia cristã nos primeiros séculos do cristianismo, em parte porque os escritores do Novo  Testamento estavam vinculados ao mundo judaico e também porque os primeiros pensadores e líderes cristãos ou eram judeus ou haviam estudado segundo a linha do pensamento judaico. Alguns livros apócrifos e pseudoepígrafos trazem informações sobre a crença nos anjos naquele período. Os anjos eram entendidos como ministros de Deus, que executavam os desígnios divino no mundo. Alguns foram nomeados, como Uriel (1 Enoque 75.3). E apareceram sete arcanjos em Tobias 12.15. Em 1 Enoque 20.1-8 apresenta os nomes dos sete arcanjos: Uriel, Rafael, Raquel, Miguel, Saracael, Gabriel e Remiel. Em Apocalipse de Moisés 33-35, os anjos Miguel e Gabriel chegam a ser retratados como intercessores pelos seres humanos diante do trono de Deus.
O conteúdo dos livros apócrifos e pseudoepígrafos estava bem presente no imaginário dos primeiros cristãos, e esses livros tratam de assuntos envolvendo anjos. A ideia de que Jesus era um anjo mais elevado pode ser lida em O Pastor de Hermas (150). A teologia do livro é controversa, pois primeiro trata o Filho de Deus e o Espírito Santo como sendo os mesmos: “quero mostrar-te outra vez tudo o que te mostrou o Espírito Santo, que falou contigo sob a figura da Igreja; porque aquele Espírito Santo é o Filho de Deus” (Parábola IX.1). Segundo, a imagem de Miguel se assemelha à de Jesus. Miguel aparece com poder sobre o povo de Deus e autoridade para pronunciar juízo (Parábola VIII.69). Pela leitura do texto, a identidade do arcanjo Miguel confunde-se com a do Filho de Deus. Essa confusão ainda sobrevive no pensamento de alguns grupos contemporâneos como os adventistas do sétimo dia e as testemunhas de Jeová.
O gnosticismo foi um fenômeno cristão dividido em diversas seitas e escolas de pensamento nos primeiros séculos. Claudio Moreschini, estudioso da história do pensamento pagão e cristão tardio-antigo, em História da filosofia patrística, define gnosticismo como:
Qualquer movimento de pensamento segundo o qual a verdade divina de salvação está contida numa revelação acessível somente a poucos eleitos, os quais podiam obtê-la ou por meio da experiência direta da revelação ou mediante a iniciação à tradição secreta e esotérica de tais revelações (p. 43).
Segundo o gnosticismo, o mundo consiste na dimensão material e na dimensão espiritual, sendo mau tudo aquilo que é material porque é criação de um deus inferior, o Deus de Gênesis, que surgiu da ruptura do domínio maior do Deus verdadeiro, o Pleroma. Além dos seres humanos, uma variedade de seres habita o espaço entre o Pleroma e o mundo material. Os anjos, então, seriam esse tipo de criatura, os demiurgos e as emanações de eones superiores. Alguns nomes ligados à teologia gnóstica incluem Marcião, Valentim, Basilides.
Irineu (130-202) foi o primeiro a sistematizar uma doutrina sobre os anjos, segundo Basilio Studer (DPAC). Em Contras as heresias, Irineu respondeu:

[...] aquele que fez todas as coisas é o Deus único, o único Onipotente, o único Pai, [...] Com o Verbo de seu poder tudo compôs e tudo ordenou por meio da sua Sabedoria; ele que tudo contém e que nada pode conter. Eleé o Artífice, o Inventor, o Fundador, o Criador, o Senhor de todas as coisas e não existe outro fora e além dele, nem a Mãe que eles se arrogam, nem o outro deus que Marcião inventou, nem o Pleroma dos 30 Éões [...] Só umé o Deus Criador que está acima de todo Principado, Potência, Dominação e Virtude [...] ele é o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó, o Deus dos viventes, anunciado pela Lei, pregado pelos profetas, revelado por Cristo, transmitido pelos apóstolos, crido pela Igreja; ele é o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo [...] O Filho que está sempre com o Pai e que desde o princípio sempre revela o Pai aos Anjos e Arcanjos, às Potestades e Virtudes e a todos a quem Deus quer revelar (Livro II.30.9).

Assim, contra a teologia gnóstica escreveram os pais da Igreja, afirmando que o Deus da Bíblia é o verdadeiro e o Criador do mundo material. Portanto, são os anjos criaturas de Deus.
A problemática dos anjos entrou na grande discussão teológica sobre a Trindade, quando se formalizava Deus como três pessoas distintas de uma mesma substância. Assim, a ideia de que Jesus e o Espírito Santo eram um tipo de anjo logo foi refutada. O contexto antiariano deu espaço para diferenciar os anjos de Jesus.
Alguns confundiam o Espírito Santo com anjo. O grupo dos chamados “tropicianos”, em Tmuis, Egito, dizia que o Espírito foi criado do nada e era um anjo superior aos outros.1 Eles usavam Hebreus 1.14 para sustentar essa ideia, classificando o Espírito como um dos “espíritos ministradores”, e também Amós 4.13, Zacarias 1.9 e 1 Timóteo 5.21. Atanásio (296-373) refutou essa ideia, na epístola dirigida a Serapião, bispo de Tmuis, defendendo que o Espírito não é criatura, mas sim uma pessoa que compartilha da mesma substância indivisível do Pai e do Filho: “A santa e bendita Trindade é indivisível e uma em si mesma. Quando se faz menção do Pai, o Verbo também está incluído, como também o Espírito que está no Filho. Se o Filho é citado,o Pai está no Filho, e o Espírito não está fora do Verbo. Pois há uma só graça que se realiza a partir do Pai, por meio do Filho, no Espírito Santo” (Epístola a Serapião sobre o Espírito Santo, livro I 14.4).
Basílio de Cesareia (330-379) explicou que a comunhão entre Pai, Filho e Espírito Santo pode ser vista nos seres criados – todas as coisas visíveis e invisíveis – desde o princípio. Em O Espírito Santo, ele escreveu: “de modo que os espíritos com missão de serviço subsistem pela vontade do Pai, existem pela ação do Filho e se aperfeiçoam pela presença do Espírito” (16.38). A perfeição dos anjos é entendida como “a santidade e sua permanência nela” (16.38). Portanto, Basílio considerou o Espírito como digno de adoração tanto quanto o Pai e o Filho; e foi o Senhor dos anjos quem os aperfeiçoou.
Agostinho de Hipona (354–430) dedicou-se a entender os anjos com o devido cuidado de fundamentar sua doutrina nas Escrituras. Em A Cidade de Deus, ele explica que os anjos foram criados antes de todas as criaturas corpóreas, quando Deus disse “haja luz!” (Gn 1.3). Isso porque as passagens bíblicas contam que as obras do Senhor o louvam, e os anjos estão na lista da criação divina. Além disso, as Escrituras afirmam que os anjos louvaram a Deus no momento em que os astros foram criados. Isso aconteceu no quarto dia; portanto, a criação angelical foi anterior a esse dia. “Diremos, acaso, haverem sido feitos no terceiro dia? Nem pensá-lo. [...] No segundo, porventura? Tampouco” (11, IX). Logo, só poderia ter sido no primeiro dia, “se os anjos fazem parte das obras de Deus realizadas nesses dias, são a luz que recebeu o nome de dia” (11, IX). O pensamento de Agostinho reforça o que já vinha sendo ensinado: que os anjos são criaturas de Deus, no entanto, o momento exato em que essa criação aconteceu não está explícito. Embora esse raciocínio seja compreensível, a origem dos anjos continua sendo uma especulação.
A passagem de Gênesis 6.1-4 era controvérsia, pois muitos interpretavam que os anjos tiveram relações sexuais com os seres humanos. Essa interpretação, como ressalta Bruce Waltke no seu comentário ao livro de Gênesis, não só é antiga como permaneceu nos escritos apocalípticos, no judaísmo rabínico e nos escritos do Novo Testamento (1 Enoque 6.1-7; Testamento de Ruben 5.6) e também nos escritos canônicos (1 Pe 3.19, 20; 2 Pe 2.4; Jd 6, 7). Agostinho, em A Cidade de Deus (25, XXIII), escreveu contra essa tradição, pois a passagem não trata de pecado de anjos, mas sim de uma ação humana. Ele explica que o termo “os filhos de Deus” (v. 2) na Bíblia pode se referir tanto a homens quanto a anjos. Se o problema é que da relação entre “os filhos de Deus” e “as filhas dos homens” nasceram outro tipo de criatura, os gigantes, por isso seriam anjos, Agostinho argumentou que era possível nascerem pessoas de estatura elevada em qualquer época. Além disso, ressaltou que o próprio texto já apontava a prévia existência de gigantes na terra, ou seja, não era nada extraordinário.
Outro tema da angelologia é a hierarquia angelical. Seguindo o raciocínio da proximidade de Deus, embora o texto bíblico não ofereça muitos detalhes sobre a hierarquia dos anjos, Pseudo-Dionísio, o Areopagita (cerca do ano 500 d.C.), em sua obra Hierarquia celeste, elaborou uma das estruturas mais conhecidas na tradição. A ordem seria a seguinte:
·      Primeira hierarquia: Serafim, querubim e tronos;
·      Segunda hierarquia: Dominações, virtudes e potestades;
·      Terceira hierarquia: Principados, arcanjos e anjos.
A primeira hierarquia dos seres superiores abrangeria os que estão mais perto de Deus, e a terceira pertenceria às criaturas que ajudam os seres humanos chegarem a Deus. A ideia é que, ao mesmo tempo que do topo a luz divina ilumina os seres humanos, estes se elevam por meio da purificação. Essa doutrina desenvolvida por Pseudo-Dionísio buscava dar aplicação ao pensamento teológico, a fim de aprimorar a vida espiritual do fiel.
É interessante observar que tradições extrabíblicas fortaleceram determinados pontos da angelologia. Além de algumas crenças da tradição judaica, há também a influência do pensamento filosófico platônico. A cosmologia platônica baseada no princípio da hierarquia de todos os seres criados ajudava a sustentar a doutrina de Pseudo-Dionísio. Era compreensível porque haveria criaturas mais próximas ou mais distantes de Deus. Portanto, os anjos seriam criaturas superiores aos seres humanos.

Texto extraído da obra “Batalha Espiritual”, editada pela CPAD 

COMENTÁRIO E SUBSÍDIO II

INTRODUÇÃO

A definição funcional dos anjos se encontra em Hb. 1.14, de acordo com o autor dessa Epístola, são espíritos ministradores a serviço daqueles que hão de herdar a salvação. Em geral, assumimos que existem poucas passagens bíblicas que nos permitam descrever com propriedade que são os anjos e sua atuação na obra de Deus. Por isso, na aula de hoje, estudaremos um caso específico, o do anúncio do nascimento de Jesus, em seguida, faremos uma incursão bíblica a respeito dos anjos.

I. ANÁLISE TEXTUAL
                                                                 
Lucas narra que no sexto mês, foi enviado um anjo – angelos – um mensageiro a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré. Gabriel, o nome desse mensageiro, deveria se dirigir à Maria, uma virgem – parthenon, uma donzela – que havia sido desposada – emineustemenen, ou melhor, prometida em casamento a José, sendo este da casa de Davi. Ao entrar, o anjo o anjo saldou-a, dizendo: o Senhor é contigo; bendito és tu entre as mulheres. Maria ficou perturbada – dietarachthe, agitada – a respeito do que seria a saudação do anjo. Por isso, disse: não temas, porque achaste graça – charin – foste agraciada. Isso porque no ventre dela iria conceber e dar a luz um filho, no qual poria o nome de Jesus – Iesoun – que quer dizer Jeová Salva. E mais, esse será grande e chamado Filho do Altíssimo – huios hupsistos; e o Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai. Ele reinará – basieluo – estabelecerá o Seu reino, o qual jamais terá fim. Maria ficou surpresa com a mensagem, e questiona: como se fará isso, visto que não conheço – ginoskõ – não tive relação sexual – com homem algum. A maneiro como isso se daria é explicada pelo anjo: descerá sobre ti o Espírito Santo – pneuma hagion – e a virtude – dunamis – poder do Altíssimo para realizar milagres – te cobrirá com a Sua sombra; bem como o próprio Santo – Hagion – que há de ti nascer – será chamado Filho de Deus – huios theós.

II. INTERPRETAÇÃO TEXTUAL

Esse episódio, segundo o relato de Lucas, aconteceu no sexto mês da gravidez de Isabel (v. 24), e especifica o lugar do ocorrido, detalhando que se deu na cidade da Galileia, isso sugere que seus leitores não eram da Palestina, portanto não estariam familiarizados com tal localização (v. 4.31). De acordo com o texto, maria foi virgem antes da concepção e durante a gravidez (Mt. 1.25), pois nela estava Aquele que foi gerado pelo Espírito Santo, tendo sido ela agraciada (Lc. 1.30), isso é digno de destaque porque mostra que foi recebedora e não doadora da graça, como propõe o credo romano. O Deus doador da graça é o Altíssimo (Gn. 14.18). A causa do espanto de Maria é que ela era ainda virgem – não tinha tido relação sexual. O anjo explica que isso seria resultante de um milagre do Espírito Santo. Isso fez com que ela reconhecesse que não passava de uma serva do Senhor, por isso não cabe qualquer posicionamento elevado, maior do que aquele revelado no texto bíblico, em relação ao papel de Maria na história da salvação. Reconhecemos que ela foi agraciada por Deus, e que foi uma mulher a serviço da salvação providenciada pelo Senhor, mas precisamos ter cuidados para não atribuir a ela uma condição que o texto bíblico não fundamenta. Mais importante, nesse texto lucano, é identificar o personagem principal da narrativa, e esse é Jesus – o Salvador.

III. APLICAÇÃO TEXTUAL

Os anjos – malak em hebraico e angelos em grego – são criaturas espirituais, que podem ou não se tornarem visíveis aos seres humanos – e que se encontram em grandes multidões nos céus (Hb. 12.22; Ap. 5.11), sendo criaturas divinas e dependentes do Senhor. Eles atuam em diversas esferas, tanto no céu quanto na terra, principalmente no louvor a Deus (Sl. 148.2; Ap. 7.11,12). Durante o ministério de Jesus, os anjos atuaram, quando Gabriel anunciou a Zacarias o nascimento de João Batista (Lc. 1.18, 19), e seis meses depois, o nascimento de Jesus a Maria (Lc. 1.26-31). Os anjos também assistiram a Jesus durante seu ministério terreno, especialmente na tentação do deserto na agonia do Getsêmani e em sua ressurreição e ascensão ao céu (Mc. 1.13; Oc. 22.43; Mt. 28.2-6; At. 1.10). Existem hostes angelicais, e pelo que inferimos de algumas passagens bíblicas, uma hierarquia angelical (Ef. 1.20,21), dentre essa os serafins, querubins e arcanjos (Is. 6.2; I Sm. 4.4). Em Jd. 9, encontramos o nome de um arcanjo que é Miguel, e a esse respeito, é preciso ter cuidado para não apresentar nomenclaturas, e categorias angelicais que não encontram respaldo no texto bíblico. Além disso, há igrejas que adoram anjos, como faziam os gnósticos do Sec. I da Era Cristã, a fim de coibir a angelolatria Paulo escreveu a Epístola aos Colossenses (Cl. 2.18), o próprio anjo que apareceu a João em Patmos, renunciou qualquer tipo de adoração (Ap. 22.8).

CONCLUSÃO

Algumas igrejas evangélicas, pela falta de ensinamento bíblico, estão se deixando conduzir por idolatrias a anjos. Esse tipo de adoração não encontra respaldo no texto bíblico, não podemos esquecer a funcionalidade deles, e de deixar de dar glória Aquele que é o Único: Jesus Cristo. Igrejas cristocêntricas, fundamentadas na Palavra de Deus, não se deixam levar por modismos travestidos de espiritualidade, que na verdade não passam de vaidade da carne (Cl. 2.21-23).

José Roberto A. Barbosa
Disponível no Blog subsidioebd.blogspot.com

COMENTÁRIO E SUBSÍDIO III

INTRODUÇÃO

Os anjos estão presentes na Bíblia desde o livro de Gênesis até o livro de Apocalipse, e o número deles é incontável. Eles apareceram a muitas pessoas na história do povo de Deus, trazendo uma missão específica. A presente lição pretende mostrar que eles não são mitos nem lendas, mas seres reais, e continuam atuando na vida da Igreja.
- Estamos sendo treinados para passarmos a eternidade com o Senhor e ao lado destes seres criados para servir, então será muito útil aprendermos tudo o que pudermos a partir das Escrituras sobre os anjos e elas indicam que no céu nos uniremos aos anjos para adorar a Deus ao redor do Seu trono. Apocalipse 4 descreve a primeira cena que João testemunhou em sua visão do céu: “Ao redor do trono, há também vinte e quatro tronos, e assentados neles, vinte e quatro anciãos vestidos de branco, em cujas cabeças estão coroas de ouro” (Ap 4.4). Os anciãos representam a igreja. O fato de haver lugares permanentes para eles indica que o povo redimido de Deus perpetuamente adorará ali ao lado dos anjos. O escritor de Hebreus diz que os anjos são espíritos ministradores, enviados para servir os que hão de herdar a salvação (Hb 1.14). Deus ordena aos Seus anjos que cuidem dos Seus santos, mas não há apoio escriturístico que apontem anjos governando nem sobre eles ou receberem adoração. Os anjos, como servos de Deus, interferem de tempos em tempos nos assuntos humanos, mas a forma como isso acontece, sabemos muito pouco. Na verdade, a Bíblia não revela tudo o que gostaríamos de saber sobre os anjos. Os anjos são seres espirituais que podem, até certo ponto, assumir forma humana. A maior coisa que podemos aprender dos anjos é sua obediência instantânea e sem questionamentos às ordens de Deus. “A  existência dos anjos, conforme veremos a  partir  de agora,  é  claramente demonstrada pelo ensino, tanto  do  Antigo, quanto do Novo Testamentos. São inúmeros os textos do AT que comprovam a realidade da existência dos anjos: Gn 32:1,2; Jz 6:11ss; 1Rs 19:5; Ne 9:6; Jó  1:6; 2:1;  Sl  68:17; 91:11; 104:4; Is 6:2,3; Dn 8:15-17;  Nos  textos alistados  anteriormente, vemos os anjos em suas funções principais  de  servir e louvar a Yahweh, transmitir  as mensagens  de Deus, obedecer Sua vontade, executar a vontade de Deus, e  também como guerreiros. No contexto do NT, os anjos não são apresentados  simplesmente como “mensageiros de Deus”, mas também como  “ministros aos herdeiros da salvação” (Hb 1:14). Outrossim, a existência dos anjos é apresentada de  maneira inequívoca no NT: Mt  13:39;  13:41; 18:10; 26:53; Mc 8:38; Lc 22:43; Jo  1:51;  Ef 1:21; Cl 1:16; 2Ts 1:7; Hb 1:13,14; 12:22; 1Pe 3:22; 2Pe 2:11; Jd 9; Ap 12:7; 22:8,9.” (CACP). O termo teológico apropriado para esse estudo que ora iniciamos é Angelologia (do grego angelos, “anjo” e logia , “estudo”, “dissertação”). Angelologia, se constitui, portanto, de doutrina específica dentro do contexto daquilo que denominados de Teologia Sistemática, a qual se ocupa em estudar a existência, as características, natureza moral e atividades dos anjos. Iniciaremos, portanto, pelo estudo da existência dos anjos. – Dito isto, convido-o a pensar maduramente a fé cristã!

I. OS ANJOS
                                                                 
1. Quem são eles? Os anjos são uma classe de seres criados por Deus, assim como os seres humanos foram também criados. A palavra "anjo" chegou à nossa língua pelo latim angelus, uma transliteração do termo grego angelos, que a Septuaginta empregou para traduzir o hebraico mal'ak, "mensageiro, anjo". Na nossa cultura, quando se fala em anjo, todos entendemos o que isso significa; vêm à nossa mente os seres espirituais e sobrenaturais que habitam o céu. Mas o termo tem significado mais amplo.
 Os anjos foram criados por Deus (Sl 148.2 e 5); O fato de serem criaturas está implícito em 1 Timóteo 6.16. O tempo da criação dos anjos é deixado indefinido na Bíblia, apenas sabemos que quando foram lançados os fundamentos da Terra os anjos já existiam (Jó 38.4,7; Is 14.12); são de uma ordem completamente diferente da dos humanos. Em nenhum lugar a Bíblia afirma que os anjos foram criados à imagem e semelhança de Deus, como foram os humanos (Gn 1.26). Interessante notar que Jesus ensinando sobre nosso estado na ressurreição “Porque na ressurreição nem casam nem são dados em casamento; mas serão como os anjos de Deus no céu” (Mt 22.30) assevera que nós seremos “como os anjos” - espírito, e não anjos.

2. Os gregos e os romanos. O mundo grego usava angelos para um mensageiro ou embaixador em assuntos humanos, alguém que fala ou age em nome de quem o enviou. Foi essa a palavra usada na Septuaginta para traduzir o hebraico mal'ak. Entre os romanos, a ideia não era diferente dos gregos.
 Como expliquei no subtópico anterior, a palavra original correspondente no grego ‘angelos’ é usado tanto para mensageiros humanos (1Rs19.2; Lc 7.24 e 9.52), quanto divinos. O primeiro tipo de anjo mencionado na Bíblia são os querubins, que foram enviados por Deus para proteger a árvore da vida no Gan Éden - Jardim do Éden (Gn 3.24). A Escritura usa várias expressões para descrever os anjos. Eles são chamados de “seres celestiais” (Sl 89.6); “Filhos de Deus” (Jó 1.6; 2.1; 38.7); “Santos” (Sl 89.5); “estrelas da alva” (Jó 38.7), “príncipes” (Dn 10.13); e “principados e potestades” (Ef 3.10).

3. Na Bíblia. O termo mal'ak, na cultura judaica, indicava um ser celeste e espiritual dotado de poderes sobrenaturais e acima de qualquer humano (Sl 103.20; 2 Pe 2.11). Eles pertencem à corte de Javé no céu, onde o louvam e o servem (Is 6.2,3; Ap 5.11; 7.11). Convém nunca perder de vista que essa palavra se aplica também a mensageiros humanos; o profeta Ageu foi chamado de mal'al Yahweh, "o embaixador do SENHOR" (ARC) ou "enviado do SENHOR" (ARA). João Batista é outro exemplo do uso do termo para os humanos (Ml 3.1; Mc 1.2-4).
O termo português ‘anjo’ é derivado do latim ‘angelus’, que por sua vez deriva-se do grego ‘angelos’ (lê-se ‘anguelos’). No hebraico o termo é ‘malak’, que pode ser traduzido por “mensageiro”, o que designa a ideia de ofício de mensageiro. O grego clássico emprega o termo angelos para mensageiro, embaixador em assuntos humanos, que fala e age no lugar daquele que o enviou. No Antigo Testamento, onde o termo malak ocorre 108 vezes, os anjos aparecem como seres celestiais, membros da corte de Yahweh, que servem e louvam a Ele (Ne 9.6; Jó 1.6), são espíritos ministradores  (1Rs 19.5), transmitem a vontade de  Deus (Dn 8.16,17)), obedecem a vontade de Deus (Sl 103.20), executam os propósitos de Deus (Nm 22.22), e celebram os louvores de Deus (Jó 38.7; Sl 148.2). No Novo Testamento, a palavra angelos aparece por 175 vezes, aparecem como representativos do mundo celestial e mensageiros de Deus. Funções semelhantes às do Antigo Testamento são atribuídas a eles, tais como: servem e louvam a Cristo (Fp 2.9-11; Hb 1.6), são espíritos ministradores (Lc 16.22; At 12.7-11; Hb 1.7,14), transmitem a vontade de Cristo (Mt 2.13,20; At 8.26), obedecem a vontade dEle (Mt 6.10), executam os Seus propósitos (Mt 13.39-42), e celebram os louvores de Cristo (Lc 2.13,14). Ali, os anjos estão vinculados a eventos especiais, tais como: a concepção de Cristo (Mt 1.20,21), Seu nascimento (Lc 2.10-12), Sua ressurreição (Mt 28.5,7) e Sua ascensão e Segunda Vinda (At 1.11). Foi Agostinho no século IV d.C. quem desenvolveu o estudo acerca do mundo angelical. Segundo esse Pai da Igreja, os anjos teriam uma natureza puramente espiritual e livre. Comentando o Gênesis, Agostinho definiu as funções destes seres celestes, que seriam responsáveis pela glorificação de Deus e pela transmissão da vontade divina. Agostinho afirmava que os anjos estariam voltados tanto para o mundo espiritual quanto para o mundo visível, no qual interviriam com certa frequência.

SUBSÍDIO DIDÁTICO-PEDAGÓGICO

Quem são os anjos? O que eles fazem? Essas perguntas podem ser elaboradas na lousa ou em um slide, ou ainda, em um retroprojetor. Iniciar a aula fazendo essas perguntas, levando os alunos à reflexão acerca da identidade das criaturas espirituais que eles conhecem desde a infância. É possível que haja na classe pessoas que ouviram sobre a existência de anjos em outras tradições religiosas, mas nunca tiveram a oportunidade de refletirem de maneira madura sobre o que a Bíblia diz a respeito deles. Esta é uma grande oportunidade de apresentar o que as Escrituras dizem a respeito desses seres espirituais. Aproveite também para mostrar a herança da palavra portuguesa “anjo” pela palavra latina “angelus”. Mostre como exemplo de quanto somos devedores ao idioma que ajudou a fundar o Ocidente: o Latim.

II. OS SERES CELESTIAIS PARA SERVIR

1. Natureza. Os anjos são criaturas espirituais e invisíveis aos seres humanos. Eles são sobrenaturais e, como os humanos, possuem natureza racional. São em grandes multidões no céu (Hb 12.22; Ap 5.11). Como criaturas, não são autônomos nem independentes; não agem como tal e nunca receberam adoração. A habitação deles é o céu, e eles veem sempre a face do Pai (Mt 18.10). Não possuem corpo físico ou material, mas podem se apresentar na forma humana, quando ocorrem as manifestações angelofânicas. Essas aparições ocasionais são bíblicas (Jz 13.6; Hb 13.2). Os anjos são assexuados, não se reproduzem nem estão sujeitos à morte (Mc 12.25; Lc 20.36).
- É importante ressaltar que os anjos não existem desde a eternidade, eles foram criados por Deus no momento de sua criação (Ne 9.6; Sl 148.2; Cl 1.16). A bíblia não indica com precisão em que parte foram criados, mas podemos entender que isso deve ter acontecido imediatamente após ter criado os céus e antes de ter criado a terra, segundo podemos ver em Jó 38.4-7 e Gn 1,1; 2.1. Não podemos também definir número, mas sabemos que um ‘exercito’ compreende grande quantidade, uma ‘legião’compreende um número grandioso (Dn 7.10; Mt 26.53; Hb 12.22); Segundo Apocalipse 5.11, eles são milhões de milhões e milhares de milhares. Deus certamente criou todos de uma só vez, pois os anjos não tem capacidade de propagar-se como o homem (Mt 22.30). “São seres espirituais – incorpóreos (Hb.1.14). Não tem corpo físico, mas podem assumir forma corpórea (Gn 18.19; Sl 104.4; Hb 1.7; Ef 6.2; Mt 8.16; 12.45; Lc 7.21; Ap 16.14). São imortais – Os anjos não estão sujeitos à dissolução: nunca morrem. A imortalidade dos anjos se deriva de Deus e depende de Sua vontade. Os anjos são isentos da morte, porque assim Deus os fez (Lc 20.35,36). Não se reproduzem conforme sua espécie – As Escrituras em parte alguma ensina que os anjos são seres assexuados. Inferências encontramos referindo-se aos anjos, com o uso de pronomes do gênero masculino (Dn 8.16,17; Lc 1.12,29,30; Ap.12.7; 20.1; 22.8,9). Mas, não obstante, o casamento, a reprodução, não é da ordem ou do plano de Deus. São poderosos – Dotados de poder sobre-humano (Sl 103.20; 2Pd 2;11). São uma classe de seres criados superiores aos homens (Sl 8.5; Hb 2.10). Contudo, esse poder tem seus limites estabelecidos, não são Onipotentes (2Ts 1.7; 2Sm 24.16,17). Veja demonstração de poder dos anjos: At 5.19; 12.7,23; Mt 28.2).” (SOLASCRIPTURA).

2. Ofício. Não é possível descrever todas as atividades dos anjos em tão pouco espaço. A Bíblia mostra a atuação deles nas diversas esferas no céu e na terra. Uma de suas atividades, e a principal delas, é louvar e glorificar a Deus (Sl 148.2; Ap 7.11,12). Eles executam obras em favor de homens e mulheres para socorrer e ajudar nas suas dificuldades, e são eles que levam os salvos ao lar eterno (Lc 16.22).
Apesar de terem vontade, os anjos são, como todas as criaturas, sujeitos à vontade de Deus. Os anjos bons são enviados por Deus para ajudar os crentes (Hb 1.14). A seguir, algumas atividades que a Bíblia atribui aos anjos:
● Eles louvam a Deus (Salmos 148:1,2; Isaías 6:3).
● Eles adoram a Deus (Hb 1.6; Ap 5.8-13).
● Eles se regozijam nos feitos de Deus (Jó 38.6-7).
● Eles servem a Deus (Sl 103.20; Ap 22.9).
● Eles se apresentam perante Deus (Jó 1.6; 2.1).
● Eles são instrumentos dos julgamentos de Deus (Ap 7.1; 8.2).
● Eles trazem respostas às orações (At 12.5-10).
● Eles ajudam a ganhar pessoas para Cristo (At 8.26; 10.3).
● Eles observam a ordem cristã, obra e sofrimento (1Co 4.9; 11.10; Ef 3.10; 1Pd 1.12).
● Eles dão encorajamento em tempos de perigo (At 27.23-24).
● Eles cuidam dos justos no momento da morte (Lc 16.22).
O que a Bíblia diz sobre anjos da guarda? Embora a expressão “anjo da guarda” não ocorre na Bíblia, muitas pessoas acreditam que cada indivíduo recebe um “anjo da guarda” no dia do nascimento ou no dia do batismo. Porém, a Bíblia não diz nada sobre isso. Uma das passagens bíblicas mais conhecidas para defender esta interpretação está registrada no Salmo 34: “O anjo do SENHOR acampa-se ao redor dos que o temem e os livra” (Sl 34.7). Outra passagem encontra-se no Evangelho de Mateus, quando o Senhor Jesus, falando acerca dos pequeninos, declarou: “Vede, não desprezeis a qualquer destes pequeninos; porque eu vos afirmo que os seus anjos nos céus vêem incessantemente a face de meu Pai celeste” (Mt 18.10). Porém, essas passagens não provam nada. Essas passagens não ensinam que cada crente ou criança tem seu próprio “anjo da guarda”, mas, simplesmente expressam o cuidado geral de Deus por Seu povo através dos anjos. Uma interpretação provável para expressão “seus anjos nos céus” é que eles estão prontos para a ação por ordem de Deus. Sabemos que os anjos são “espíritos ministradores” enviados para servir os cristãos (Hb 1.14). Mas se cada pessoa possuiu um anjo da guarda, a Bíblia não diz nada especificamente. A Bíblia fala de um “exército celestial” – Todos os anjos que velam pelo povo de Deus. Assim, neste exato momento, há um pelotão de forças angelicais cuidando de sua vida. Assim, a noção popular de um anjo da guarda para cada crente não tem base Bíblica. Ao invés disso, a Escritura afirma uma verdade ainda mais preciosa: o cuidado de um crente não é a tarefa de apenas um anjo; todo o exército angelical, em consenso, cuida de cada crente e de sua salvação (Gn 32.1-2; 2Rs 6.17; Lc 15.10; 16.22).” (IPBTABUAZEIRO).

3. A ação dos anjos durante o ministério de Jesus. Sua participação já começa antes mesmo do nascimento de Jesus, quando o anjo Gabriel anunciou a Zacarias o nascimento de João Batista (Lc 1.18,19), e seis meses depois, o nascimento de Jesus a Maria (vv. 26-31). Os anjos assistiram a Jesus durante todo o seu ministério terreno, na tentação do deserto, na agonia do Getsêmani, na sua ressurreição e na ascensão ao céu (Mc 1.13; Lc 22.43; Mt 28.2-6; At 1.10).
“● Em seu nascimento
1. Previsão. Gabriel predisse o nascimento de Jesus (Mt 1.20; Lc 1.26-28).
2. Anúncio. Um anjo anunciou o nascimento de Jesus aos pastores e foi acompanhado em seu louvor por uma multidão de anjos (Lc 2.8-15).
Durante sua vida
1. Alerta. Um anjo alertou José e Maria a que fugissem para o Egito, escapando, assim, da ira de Herodes (Mt 2.13-15).
2. Direção. Um anjo orientou a família para retornar a Israel após a morte de Herodes (Mt 2.19-21).
3. Ministração. Anjos ministraram a Jesus após sua tentação no deserto (Mt 4.11) e seu conflito no Getsêmani (Lc 22.43).
4. Defesa. Jesus disse que havia legiões de anjos preparadas para defendê-lo se ele os chamasse (Mt 26.53).
Após sua ressurreição
1. Na pedra. Um anjo rolou para longe a pedra que fechava a entrada do sepulcro de Jesus (Mt 28.1-2).
2. Anúncio. Anjos anunciaram a ressurreição para as mulheres na manhã do domingo de Páscoa (Mt 28.5,6; Lc 24.5-7).
3. Ascensão. Anjos estavam presentes na ascensão de Jesus (At 1.10-11).
Na Segunda Vinda de Jesus
1. Arrebatamento. A voz do arcanjo será ouvida no arrebatamento da Igreja (1Ts 4.16).
2. Segunda Vinda. Os anjos vão acompanhá-lo na Segunda Vinda (Mt 25.31; 2Ts 1.7).
3. Juízo. Os anjos vão separar o joio do trigo na Segunda Vinda (Mt 13.39-40).” (MUNDOCRISTÃO)

SUBSÍDIO DOUTRINÁRIO

“Esses seres angelicais executam as obras de Deus tanto no julgamento dos inimigos do povo de Deus como também dos crentes quando estes desobedecem a Deus. Eles revelam e comunicam a mensagem de Deus aos seres humanos. Há inúmeros fatos dessa natureza nas Escrituras, como o anúncio a Zacarias sobre o nascimento de João Batista e a Maria, sobre o nascimento do Senhor Jesus. Esses mensageiros celestiais assistiram os apóstolos Pedro e Paulo e o próprio Senhor Jesus. Foram eles que anunciaram às mulheres a ressurreição de Jesus e estiveram presentes na sua ascensão. [...] A Bíblia mostra diversas vezes os anjos socorrendo os servos e servas de Deus em suas lutas e dificuldades” (Declaração de Fé das Assembleias de Deus. Rio de Janeiro: CPAD, 2017, p.87).

III. AS HOSTES ANGELICAIS

A Bíblia menciona as categorias angelicais sem apresentar detalhes de sua natureza; somente se manifesta em alguns casos, como veremos a seguir.
1. Ás hierarquias angelicais. O apóstolo Paulo inclui nessas hierarquias duas duplas de seres: "tronos e dominações" e "principados e potestades" (Cl 1.16). Alguns acham que a primeira dupla seja uma referência às "coisas visíveis"; e as outras duas, às "coisas invisíveis". Uma tentativa sem sucesso. Os tronos estão localizados no céu (Dn 7-9; Ap 4.4), mas a literatura pseudoepígrafa dos antigos rabinos tem os tronos como seres celestes. A maioria dos expositores do Novo Testamento reconhece o termo "tronos" nesse contexto como classificação angelical. As dominações se referem aos poderes celestes (Ef 1.20,21). A explicação sobre os principados e potestades foi dada na lição passada.
A única referência clara a uma hierarquia é Apocalipse 12.7, que mostra que o arcanjo Miguel tem outros anjos debaixo de seu comando. No entanto, não há dúvidas de que encontramos na Bíblia evidências da existência de uma hierarquia entre os anjos, isto é, se acham organizados de forma hierárquica, numa forma de graduação, de autoridade. Essa graduação‚ destacada pelo tipo de atividade que os anjos exercem em todo o Universo e na presença de Deus. Paulo aponta diretamente para isto quando usa a expressão “principados e potestades“. Essa designação indica a existência de certos anjos que ocupam lugares de autoridade no mundo angélico. Paulo emprega essa expressão tanto para se referir aos anjos caídos como para se referir aos anjos de Deusm sendo que, em duas ocasiões ele fala de anjos maus, isto é, demônios (Ef 6.12; Cl 2.13); e em outras duas ele fala dos santos anjos de Deus (Ef 3,10; Cl 1.16). O apóstolo Pedro também emprega essa mesma expressão para se referir aos anjos do Senhor (1Pd 3.22). Não confunda essa hierarquização com o assunto estudado na lição anterior sobre espíritos territoriais. Nos últimos tempos muitas heresias surgiram relacionadas à hierarquia dos anjos. Os propagadores dessas heresias defendem a ideia de que existem seres angelicais que se ocupam em uma organização hierárquica territorial. Nas Escrituras encontramos três classes ou tipos de anjos:
Querubins: anjos dotados de grande poder e majestade. São frequentemente mencionados em conexão com a adoração a Deus e a revelação de sua glória (Êx 25.18; 2Sm 22.11; Sl 18.10; 80.1; 99.1; Is 37.16; Hb 9.5).
Serafins: anjos que parece próxima à classe dos querubins. São mencionados apenas pelo profeta Isaías. Os serafins são descritos pelo profeta com uma riqueza de detalhes que revela seu serviço em torno do trono de Deus (Is 6.2,6).
Arcanjo: apenas Miguel é mencionado na Bíblia pertencente a esta classe (Jd 9). Alguns estudiosos acreditam que possa haver mais arcanjos, enquanto outros afirmam que apenas Miguel ocupa esse posto. Ele é retratado na Bíblia como um comandante do exército celestial a serviço de Deus, ou seja, ele ocupa o posto mais elevado na hierarquia dos anjos (Dn 10.13-21; Jd 9; Ap 12.7).

2. Serafins e querubins. São outras duas categorias de anjos sobre as quais a Bíblia revela algo mais do que as categorias anteriores. O termo serafim significa "flamejante, brilhante, refulgente". Os serafins são criaturas sobrenaturais associadas à glória de Javé e representam a presença, a grandeza e a majestade divinas (Is 6.2). Os querubins simbolizam a transcendência de Deus, o qual "habita entre os querubins" (1 Sm 4.4). Eles são representados como criaturas aladas colocadas no propiciatório da Arca do Concerto (Êx 25.18-20:37.7-9).
O vocábulo serafim deriva do "saraph" e significa ardente, refulgente ou brilhante, nobres ou afogueados. Esta classe de anjos aparece uma só vez na Bíblia em Isaías 6.1-3. Nesta escritura, os serafins estão intimamente ligados ao serviço de adoração e louvor ao Senhor. Nesse serviço, eles promovem, proclamam e mantém a santidade de Deus. Na visão de Isaías, os serafins são representados como tendo seis asas. As asas de cada serafim tinham funções específicas. Com duas asas cobriam o rosto, numa atitude de reverência perante o Senhor. Com as outras duas asas cobriam os pés, falando de santidade no andar diante de Deus, e com as duas últimas asas, eles voavam. Essa visão de seres alados não significa que todos os anjos, obrigatoriamente, têm de Ter asas. As asas desses serafins tinham por objetivo mostrar ao profeta a capacidade de movimento e locomoção dos anjos para realizarem a vontade de Deus. É uma forma materializada que os seres espirituais usam para serem compreendidos, porque, de fato, os anjos são incorpóreos.
Querubins - Essa classe de anjos criados por Deus se destaca pela ligação que eles têm com o trono de Deus. A palavra querubim, no original hebraico "querub" , tem o sentido de guardar, cobrir. Eles aparecem pela primeira vez na Bíblia em Gn 3.24 no Jardim do Éden para guardar a entrada oriental a fim de que o homem que havia pecado contra o seu Criador não tivesse acesso ao caminho da árvore da vida. 0 que aprendemos acerca dos querubins ‚ que eles possuem uma posição elevada na corte celestial e estão diretamente ligados ao trono de Deus (I Sm 4.4; II Rs 19.15; Sl 80.1; 99.1; Is 37.16). Em Ezequiel 10, os querubins aparecem cheios de olhos e o trono de Deus está acima deles. A ligação dos querubins com o trono de Deus nos ensina que eles guardam o acesso á presença de Deus. Só nos é possível entrar no Santo dos Santos ou " Lugar Santíssimo " com o sangue da aliança em nossas vidas (Hb 10.19-22)”. (PIBMILIONARIOS);

3. Arcanjos. Esse termo significa chefe ou líder dos anjos. Essa palavra só aparece duas vezes na Bíblia, em: "com voz de arcanjo" (1 Ts 4.16) e "mas o arcanjo Miguel, quando contendia..." (Jd 9). Os tratados de teologia costumam incluir Gabriel como arcanjo. Miguel e Gabriel são os únicos anjos mencionados por nome na Bíblia. O nome "Miguel", mikhael em hebraico, significa "quem é semelhante a Deus?"; e "Gabriel", gvriel, "varão de Deus". As Escrituras Sagradas revelam existir mais seres no céu, da mesma natureza e com a mesma posição de arcanjo: "e eis que Miguel, um dos primeiros príncipes, veio para ajudar-me, e eu fiquei ali com os reis da Pérsia" (Dn 10.13). Veja que a expressão "um dos primeiros príncipes" mostra existirem outros como Miguel.
A palavra "arcanjo" representa a mais elevada posição na hierarquia angelical. O prefixo "arc", do grego "arch", sugere tratar-se de um chefe, um príncipe, um primeiro- ministro. Entre os livros apócrifos, existe o livro de Enoque, que apresenta sete arcanjos, a saber: Uriel, Rafael, Raquel, Saracael, Miguel, Gabriel e Remiel. Mas o único nome dessa lista que aparece nos livros canônicos da Bíblia que usamos é o do arcanjo Miguel (Jd 9). Esse arcanjo se destaca biblicamente como uma espécie de administrador e protetor dos interesses divinos em relação a Israel) (Jd 9; Dn 12.1). O arcanjo Miguel ‚ denominado "príncipe dos filhos de Israel" porque é o guardião dessa nação. Na visão apocalíptica e escatológica (futura) que João teve na Ilha de Patmos, o arcanjo Miguel surgirá como o grande comandante dos exércitos celestiais contra as milícias satânicas, representadas pelo dragão, símbolo de Satanás (Ap 12.7-12). Na vinda pessoal de Jesus Cristo, na primeira fase de convocação dos remidos do Senhor, a escritura não dá nome ao arcanjo, mas declara que a voz do arcanjo será ouvida pelos mortos santos, os quais ressuscitarão e se levantarão de suas sepulturas para ir ao encontro do Senhor nos ares (I Ts 4.16)”. (PIBMILIONARIOS).

IV. JESUS E O ARCANJO MIGUEL

O ministério dos anjos em relação a Jesus vem desde o anúncio do seu nascimento até a sua ascensão ao céu. Miguel é anjo e se inclui também nesse ministério.
1. A identidade de Miguel. As Escrituras falam muito pouco a respeito desse anjo. O seu nome aparece cinco vezes na Bíblia, como "príncipes" (Dn 10.13,21; 12.1), arcanjo (Jd 9) e combatente contra Satanás e seus anjos (Ap 12.7). Alguns grupos religiosos ensinam que Miguel é o próprio Jesus Cristo. Esse pensamento não nos surpreende, pois um desses grupos é arianista. O que nos chama a atenção é o fato de outros grupos cristãos, que afirmam crer na Trindade, confundam o Criador com a criatura.
Esclarecendo o termo ‘arianismo’: doutrina de Ário 250-336, um professor do início do século 4 d.C., de Alexandria (Egito), que afirmava ser Cristo a essência intermediária entre a divindade e a humanidade, negava-lhe o caráter divino e ainda desacreditava a Santíssima Trindade. O Arianismo, então, é a crença de que Jesus era um ser criado com atributos divinos, mas não era divindade em Si mesmo. Hoje, existem seitas que advogam esse ensino e que afirmam que sempre que Miguel é mencionado na Bíblia, refere-se à Pessoa de Jesus como Comandante dos exércitos celestiais em direta disputa com Satanás e os anjos maus. (Leia mais sobre este assunto aqui). Judas 9 é a única passagem das Escrituras que mostra ser Miguel um arcanjo. “O termo grego ἀρχ (gr. arch) significa, “chefe, líder” ou “cabeça”. Isto mostra que Miguel é um líder dos anjos. Seu nome em hebraico é מִֽיכָאֵ֗ל (Michael), significa ‘Quem é semelhante a Deus?’. O hebraísta Heinrich Friedrich Wilhelm Gesenios, declara que a tradição rabínica afirma ser Miguel “um dos sete arcanjos”. Esses arcanjos aparecem na literatura rabínica apocalíptica, em que esses nomes são apresentados no livro pseudoepífrafo de Enoque: Uriel, Rafael, Raquel, Miguel, Saracael, Gabriel e Remiel (1Enoque 20.2-8; Tob 12:15)”. (CACP).

2. Uma diferença abissal. Não é verdade que o Senhor Jesus Cristo seja o mesmo Miguel, pois há uma diferença abissal entre ambos: Jesus é Deus, o Criador e transcendente, Miguel é anjo, portanto, criatura (Jo 1.1-3; Cl 1.16,17; Jd 9). Jesus é adorado até pelos anjos, e isso inclui o próprio Miguel; no entanto, Miguel, sendo anjo, não pode ser adorado (Hb 1.6; Ap 19.10; 22.8,9).  Jesus é o Senhor dos senhores, e Miguel é príncipe (Ap 17.14; Dn 10.13,21). Não se deve, portanto, confundir o Criador com a criatura.” [Lições Bíblicas CPAD, Revista Adultos, 1º Trimestre 2019. Lição 2, 13 Jan, 2019]
Distinções entre Jesus e Miguel:
● Jesus é chamado de Filho, mas Miguel não, por ser ele anjo;
● Jesus é Criador (Jo1.3; Ap 1.18), Miguel é criatura que obedece ao Criador (Mt 26.53; Cl 1.16);
● Jesus é adorado por Miguel (Hb 1.6), Miguel não pode ser adorado (Ap 22.8-9);
● Jesus, é o Senhor dos senhores (Ap 17.14), Miguel é um dos príncipes (Dn 10.13);
● Jesus é Rei dos reis (1Tm 6.15), Miguel é príncipe dos judeus (Dn 12.1).
Jesus não é o Arcanjo Miguel. A Bíblia em nenhum lugar identifica Jesus como Miguel (ou como qualquer outro anjo). Hebreus 1:5-8 estabelece uma clara distinção entre Jesus e os anjos: "Pois a qual dos anjos disse jamais: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei? E outra vez: Eu lhe serei Pai, e ele me será Filho? E, novamente, ao introduzir o Primogênito no mundo, diz: E todos os anjos de Deus o adorem. Ainda, quanto aos anjos, diz: Aquele que a seus anjos faz ventos, e a seus ministros, labareda de fogo; mas acerca do Filho: O teu trono, ó Deus, é para todo o sempre; e: Cetro de equidade é o cetro do seu reino." A hierarquia dos seres celestiais é esclarecida nessa passagem – os anjos adoram a Jesus, o qual, como Deus, é o único digno de adoração. Nenhum anjo é jamais adorado nas Escrituras; portanto, Jesus (digno de adoração) não pode ser Miguel ou qualquer outro anjo (não digno de adoração). Os anjos são chamados de filhos de Deus (Gênesis 6:2-4; Jó 1:6, 2:1, 38:7), mas Jesus é o Filho de Deus (Hebreus 1:8, Mateus 4:3-6). O Arcanjo Miguel talvez seja o maior de todos os anjos. Miguel é o único anjo na Bíblia que é chamado de "Arcanjo" (Judas versículo 9). O Arcanjo Miguel, porém, é apenas um anjo. Ele não é Deus. A clara distinção no poder e autoridade de Miguel e de Jesus pode ser vista através da comparação de Mateus 4:10, onde Jesus repreende Satanás, com Judas, versículo 9, onde o Arcanjo Miguel "não se atreveu a proferir juízo infamatório" contra Satanás e chama o Senhor para repreendê-lo. Jesus é Deus encarnado (João 1:1,14). O Arcanjo Miguel é um anjo poderoso, mas ainda só um anjo.” (Is Jesus Michael the archangel? Disponível em: https://www.gotquestions.org/Jesus-Michael-Archangel.html. Acesso em: 4 Jan, 2019)

SUBSÍDIO DOUTRINÁRIO

“A Bíblia afirma com frequência que Jesus é Deus: ‘No princípio, era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus’ (Jo 1.1); ‘Porque nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade’ (Cl 2.9). [...] As suas obras revelam também a sua divindade. Ele é o absoluto soberano e criador de todas as coisas. Ele é a fonte de vida, autor do novo nascimento, habita nos fiéis, dá a vida eterna, inspirou também os profetas e apóstolos, perdoa pecados, é adorado pelos humanos, pelos anjos, na terra e no céu. Possui títulos divinos, como “Eu Sou”, o Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim, e o Senhor dos Senhores” (Declaração de Fé das Assembleias de Deus. Rio de Janeiro: CPAD, 2017, p.51).

CONCLUSÃO

A Bíblia traz muitas informações acerca dos anjos e, apesar das inúmeras referências bíblicas, ainda muito pouco sabemos a respeito de quem eles são e do que fazem. A diferença entre os anjos e os humanos está, entre outras, no fato de que a nós o Criador deu a capacidade reprodutiva e, para tal, quando criou o ser humano, criou um casal que geraria outros da mesma espécie. Os anjos não se reproduzem.
A Escritura ensina que anjos ministram aos santos (Hb 1.14), e que algumas pessoas “hospedaram anjos sem saber” (Hb 13.2). Em nenhum lugar nas Escrituras somos encorajados a procurar evidências de anjos na vida cotidiana, além do que, Paulo adverte os crentes a não se tornarem adoradores de anjos (Cl 2.18). “Os anjos não dormem, não tiram férias. Eles são ministros. São feitos ventos. Eles agem diuturnamente. O diabo tenta se fazer de anjo para enganar as pessoas. Eles estão ao nosso redor. Eles nos vigiam, nos guardam. Eles estão perto de nós. O mundo está povoado deles. Eles são milhões de milhões. Eles são guerreiros. Eles são adoradores. Eles trabalham em nosso favor. Eles são em maior número que os nossos adversários. Estamos do lado do vencedor!” (Rev. Hernandes Dias Lopes)

Francisco Barbosa
Disponível no blog: auxilioebd.blogspot.com.br

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

LIÇÃO 1: BATALHA ESPIRITUAL – A REALIDADE NÃO PODE SER SUBESTIMADA



SUBSÍDIO I

EXISTE CRISTÃO ENDEMONINHADO?

Os pregadores de libertação baseiam os seus ensinos nas experiências vindas do campo missionário. A Bíblia fica em segundo plano, pois eles pinçam as Escrituras aqui e ali, com interpretações peculiares contrárias à hermenêutica bíblica e aplicando uma exegese ruim. Paulo Romeiro, em sua obra Evangélicos em Crise, cita diversas fontes desses relatórios missionários (p. 120-123).
Para justificar a ideia de que um crente, mesmo cheio do Espírito Santo, pode ser endemoninhado, tais pregadores costumam apresentar o seguinte argumento: “A palavra traduzida ‘possuído’, na versão bíblica feita pelo rei Tiago da Inglaterra (KJV), e a palavra grega daimonizomai. Muitas autoridades em língua grega dizem que esta tradução está errada. Ela deveria ser traduzida por ‘endemoninhado’ ou ‘ter demônios’” (HAMMOND, 1973, p. 11); “esta palavra ‘possessão’ teologicamente é inadequada e enganosa. A expressão correta deve ser endemoninhado. O grego usa a palavra daimonizomenos, significando endemoninhado, ou echon daimonia, significando ‘ter demônios’ ou ‘estar com demônio’” (ITIOKA, 1991, p. 171). Tudo isso é para dizer que o espírito imundo pode habitar no corpo do cristão, mas não no espírito: “enquanto o Espírito Santo pode habitar no espírito, os demônios podem habitar na carne... Eles se escondem em algum lugar nos cantos” (MILHOMENS, s/d, p. 54, apud ROMEIRO, 1995, p. 128).
Esses argumentos são de uma fragilidade exegética assustadora. Poderia ser citada uma lista considerável de dicionários e léxicos que não sustentam tais ideias, como os léxicos Liddell & Scott e Walter Bauer’s; o Léxico Grego do Novo Testamento, de Edward Robinson, edição da CPAD, e o Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, de Verlyn D. Verbrugge, da Vida Nova, entre muitos outros. Quanto à exegese, Mateus e Marcos empregam daimonizomai para os endemoninhados gaderenos (Mt 8.28; Mc 5.15) e Lucas utiliza echon daimonia (Lc 8.27). A descrição do gadareno em Mateus, Marcos e Lucas mostra que ele estava completamente dominado pelos demônios, e isso evidencia que não há diferença entre “endemoninhado” e “possuído pelo demônio”.
Outro meio de justificar a ideia de que o crente pode ser endemoninhado é desenvolvendo uma nova antropologia. Eles argumentam ainda que o homem “é um espírito - tem alma – e vive num corpo” (HAGIN, 1988, p. 89). Esse conceito é defendido também pela Confissão Positiva. Partindo desse falso conceito, afirmam que o Espírito Santo habita no espírito humano, na salvação, e os espíritos imundos “estão relegados à alma e ao corpo do cristão” (HAMMOND, 1973, p. 132). 
À luz da Bíblia, o ser humano é um ser metafísico e moral, feito à imagem e semelhança de Deus, constituído de corpo alma e espírito (Gn 1.26; 2.7; 1 Ts 5.23). Alma e espírito são entidades imateriais, distintos um do outro, embora inseparáveis. O corpo é o invólucro material da alma e do espírito, pois existe uma “divisão da alma, e do espírito, e das juntas e medulas” (Hb 4.12). Isso refere-se às três partes distintas da constituição humana. Fazer jogo de palavras envolvendo corpo, alma e espírito para redefinir teologicamente o ser humano, afirmando ser ele um “espírito que tem alma e habita num corpo”, facilita a manipulação do texto para adulterar o pensamento bíblico. A constituição bíblica do ser humano contraria o falso conceito da presença dos demônios no corpo e na alma do cristão.
Outros citam, ainda, passagens bíblicas, como “o mau espírito da parte de Deus, se apoderou de Saul” (1 Sm 18.10) e fraseologia similar (1 Sm 19.9), além de Judas Iscariotes (Lc 22.3) e Ananias e Safira (At 5.1-10). Essas três passagens são interpretadas por eles de maneira distorcida. O argumento sobre o estado espiritual e psicológico de Saul precisa ser analisado com muito cuidado: “E o Espírito do SENHOR se retirou de Saul, e o assombrava um espírito mau, da parte do SENHOR” (1 Sm 16.14); “Porém o espírito mau, da parte do SENHOR, se tornou sobre Saul” (1 Sm 19.9); “o mau espírito, da parte de Deus, se apoderou de Saul” (1 Sm 18.10). Antes de tudo, convém salientar que Saul já estava desviado e havia sido rejeitado por Deus (1 Sm 15.23; 16.1). Então, essa passagem não ajuda em nada na possibilidade de um crente fiel ter demônios. O que aconteceu com Saul é que o Espírito Santo se apoderou dele por ocasião de sua unção para reinar sobre Israel (1 Sm 10.6, 10; 11.6). Uma vez que “o Espírito do SENHOR se retirou de Saul”, isso indica não ser ele mais o escolhido para reinar, e dessa forma Deus enviou o “espírito mau” para o assombrar e o atormentar. Trata-se de um espírito da parte de Deus, e não de Satanás.
O exemplo de Judas Iscariotes é inconsistente, pois está escrito que “Satanás entrou em Judas, chamado Iscariotes” (Lc 22.3, ARA), mas Jesus havia dito antes que Judas era “um diabo” (Jo 6.70). Assim, “dizer que ele foi um cristão é forçar demais o texto bíblico, e nem foi essa a opinião do Senhor sobre ele” (ROMEIRO, 1995, p. 125). 
A passagem de Ananias e Safira (At 5.1-11) não confirma sua doutrina, pois o texto sagrado declara que Ananias e Safira mentiram ao Espírito Santo, ou seja, mentir à Igreja é mentir a Deus. Não está escrito que ambos ficaram possessos ou endemoninhados. Eles foram incapazes de discernir o Espírito Santo na vida da Igreja. O acontecido é que eles não vigiaram e por isso agiram sob influência de Satanás, mentindo ao Espírito Santo (v. 3). Isso pode acontecer com um cristão vacilante, e não é possessão maligna, por isso devemos orar e vigiar, para não cairmos em tentação. Jesus disse: “o espírito está pronto, mas a carne é fraca” (Mt 26.41). Não está escrito que Pedro expulsou o “demônio” de Ananias e Safira.
O Senhor Jesus afirmou que todos os espíritos demoníacos deixam o corpo da pessoa que se converte ao seu evangelho (Lc 11.24). Tal corpo fica varrido e adornado, como obra do Espírito Santo (v. 25). A Bíblia, ensina ainda, que o corpo do cristão é templo do Espírito Santo (1 Co 6.19) e que o corpo, a alma e o espírito do cristão “pertencem a Deus” (v. 20). Temos promessas de Deus de que o maligno não nos toca: “o que de Deus é gerado conserva-se a sim mesmo, e o maligno não lhe toca” (1 Jo 5.18). O cristianismo baseia-se na Bíblia, e não em experiências humanas contrárias às Escrituras Sagradas.

SOARES, Esequias. Batalha Espiritual: o povo de Deus e a Guerra contra as potestades do mal. 1. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2018

COMENTÁRIO E SUBSÍDIO II

INTRODUÇÃO

Neste trimestre estudaremos a respeito do conceito bíblico de Batalha Espiritual. Esse é um tema que encontra respaldo escriturístico, mas que precisa ser avaliado à luz dos princípios hermenêuticos, a fim de evitar excessos bastante comuns ao tratar sobre o assunto. Na aula de hoje analisaremos o texto de I Pe. 5.5-9, ressaltando a realidade da luta diante da qual nos encontramos, que não poderá ser subestimada, sob o risco de perdemos nossa alma.

I. ANÁLISE TEXTUAL

Na passagem em foco, o autor admoesta aos anciãos da igreja, em relação aos dias difíceis que se aproximam, encorajando-os a serem humildes e vigilantes. Uma mensagem inicial é direcionada aos jovens – neoteroi – para que esses sejam sujeitos aos anciãos – presbyteroi. Nesse caso, os jovens necessariamente não têm a ver com idade, mas com a relação com os mais velhos, sobretudo àqueles que estão em liderança. E como se isso não fosse suficiente, é preciso que sejamos sujeitos – hupotagete – uns aos outros, considerando que na igreja, a liderança é primordialmente funcional, não tem a pretensão de ser hierárquica. Pedro orienta ao revestimento em humildade – tapeinophrosune – que dá ideia também de ascetismo, pois Deus resiste aos soberbos  - huperephanos – aqueles que são prepotentes, que querem se colocar acima dos outros, mas dá graça aos humildade – tapeinos – aqueles que estão em posição menos elevada.  O imperativo é para que devamos nos humilhar – tapeinothete, debaixo da potente mão de Deus, esperando que Ele, no tempo oportuno – kairo, e de acordo com Sua soberana vontade, exalte os humildes. O melhor é levar até Ele todas nossas ansiedades – merimnan, ciente de que Ele é Aquele que tem cuidados de nós. E mais, sejamos sóbrios – nepsate – uma virtude necessária, que deve permanecer atrelada a um outro imperativo: ser vigilante – gregoresate, tendo em vista que temos um adversário – antidikos, que também pode ser traduzido como acusador. Esse é o diabo – diabolos - que anda em derredor, bramando como leão, buscando a quem possa tragar – katapiein. Esse verbo também tem o sentido de devorar, o que implica em maior violência. Para vencê-lo, devemos, portanto, resistir firmes – steroi, sabendo que as mesmas aflições – pathematon – também sofrem outros irmãos no mundo.

II. INTERPRETAÇÃO TEXTUAL

A I Epístola de Pedro foi escrita por volta do ano 64 d. C., possivelmente da cidade de Roma, com o objetivo de oferecer encorajamento aos cristãos que sofriam perseguição.  A orientação de Pedro é para que as pessoas mais jovens da congregação, que geralmente são mais resistentes à liderança, sejam sujeitas aos anciãos e para isso cita Pv. 3.34, a fim de lembra-los que Deus se opõe aos orgulhosos, mas direciona seu favor àqueles que são humildes (5.5). Na verdade, todos devem ser humildes, aprendendo a depender de Deus, mesmo nos momentos da adversidade. Devemos depender da potente mão de Deus que trouxe Israel do Egito (Ex. 3.19; 32.11; Dt. 4.34; 5.15; Dn. 9.15). Assim como aconteceu com Israel, o cativeiro não durará para sempre, portanto, sabemos que o período de sofrimento vai passar. Ainda que estejamos passando por momentos difíceis nos dias atuais, temos a convicção que no tempo oportuno de Deus, Seu povo será exaltado na eternidade (5.6). Por isso, devemos lançar sobre Ele toda nossa ansiedade, não temos motivos para viver preocupados, se confiamos na providência do Senhor (5.7). Antes, devemos nos manter sóbrios e vigilantes, alertas aos ataques do Adversário, pois o diabo – representado como um leão – fica à espreita buscando a quem devorar. A admoestação é de que o diabo deve ser resistido (5.8), esse não deve ser temido pelos cristãos, pois o Senhor tem dado poder espiritual para permanecer firme na fé (Ef. 6.12-18). Devemos, portanto, confiar nas promessas do Senhor, pois Deus tem a palavra final, quando exaltará aqueles que atualmente são perseguidos (Tg. 4.7). Além disso, é preciso saber que o sofrimento não é exclusividade de alguns, crentes no mundo inteiro padecem por causa do nome do Senhor. E mais que isso, o próprio Senhor sofre com aqueles que são perseguidos por causa do Seu evangelho (5.9).

III. APLICAÇÃO TEXTUAL

Os cristãos estão envolvidos em uma batalha espiritual, e essa não pode ser subestimada. É preciso, no entanto, evitar qualquer tipo de extremos, se por um lado alguns crentes descreem no poder das hostes celestiais do Adversário, por outro lado, outros exageram na supervalorização desse poder. Há evangélicos que veem o diabo em toda esquina, certos pregadores falam mais a respeito do Satanás do que de Jesus. Em alguns cultos, ao invés de se pregar a Palavra de Deus, fala-se apenas no poder do diabo, e quando há prática de exorcismo, entrevista-se o Inimigo sem atentar para a verdade bíblica de que é o pai da mentira (Jo. 8.44). Precisamos ter cautela com esse tipo de ensinamento, resultante de uma teologia deformada, que apregoa doutrinas como mapeamento espiritual, maldição hereditária e de crentes endemoninhados. Tais crenças vieram da Teologia da Prosperidade, da Confissão Positiva e do Domínio, e se espalharam pelos arraiais neopentecostais, ou melhor, pseudopentecostais. A doutrina do mapeamento espiritual não tem base bíblica, e geralmente está fundamentada em versículos descontextualizados ou em interpretações equivocadas da Bíblia. Em relação à maldição hereditária, costuma-se citar Ex. 20.5, mas esse texto se refere às gerações, principalmente às pessoas de uma família, que vivem debaixo de um jugo de pecado, mas não se aplica aos crentes, pois Cristo se fez maldição por nós (Gl. 3.13). Sobre crentes endemoninhados, devemos saber que o maligno não pode tocar naqueles que tiveram um encontro com Cristo (I Jo. 5.18), e mais, aquele que está em nós é maior do que aquele que está no mundo (I Jo. 4.4).

CONCLUSÃO

Esse é o momento de alertar aos evangélicos que se deixam controlar por uma crença equivocada em uma falsa doutrina da batalha espiritual. Na mesma medida em que reconhecemos que essa batalha é real, precisamos também considerar que Cristo é maior, e que não devemos nos deixar manipular por lideranças que se aproveitam dessas doutrinas falsas para causar insegurança espiritual nas pessoas. Consoante ao exposto, devemos saber que o diabo precisa ser resistido, mas que devemos depender da direção divina (Jd. 1.9).

José Roberto A. Barbosa
Disponível no Blog subsidioebd.blogspot.com

COMENTÁRIO E SUBSÍDIO III

INTRODUÇÃO

A Batalha Espiritual é o tema do trimestre que estamos iniciando. Basta uma olhada na leitura diária para confirmar a menção do assunto nas Escrituras. Mas existe uma onda extravagante que surgiu na década de 1960 e que tenta se passar por batalha espiritual. A presente lição apresenta o equilíbrio doutrinário que servirá como ajuda para ninguém subestimar o assunto.
Iniciando o primeiro trimestre deste novo ano, refletiremos acerca de um assunto importante, no entanto, ignorado: “Batalha Espiritual”. Não podemos ignorar, subestimar ou supervalorizar a Batalha Espiritual; ela é real, mas requer cuidados e conhecimento bíblico para não incorrermos em superstição e erros teológicos que soam como heresia, tais como “maldição hereditária”, “mapeamento espiritual” e “crentes endemoninhados”. “Precisamos nos guardar contra dois perigos extremos. Não podemos tratá-lo com muita leviandade, para não subestimar seus perigos. Por outro lado, também não podemos nos interessar demais por ele.(Millard J. Erickson- INTRODUÇÃO A TEOLOGIA SISTEMÁTICA- Pág. 200). Precisamos de uma visão bíblica e equilibrada sobre o tema e saber que a verdadeira Batalha Espiritual consiste na luta contínua da Igreja contra o reino das trevas: com a pregação do Evangelho! – Dito isto, convido-o a pensar maduramente a fé cristã!

I. A BATALHA ESPIRITUAL
                                                                 
A autêntica batalha espiritual tem fundamentos bíblicos, mas nem tudo o que se diz ser batalha espiritual tem sustentação nas Escrituras.
1. Conceito de Batalha Espiritual. A Bíblia afirma "que todo o mundo está no maligno" (1 Jo 5.19). Assim, existem seres malignos e espirituais que desde o princípio conspiram contra Deus e contra a humanidade para a destruição e o caos no mundo. Primordialmente, os demônios existem; eles são reais e manifestam-se de várias maneiras, em princípio, nas pessoas possessas, e tais espíritos precisam ser expulsos. Por conseguinte, os cristãos se opõem a essas forças malignas pela pregação do evangelho, a oração e o poder da Palavra de Deus. A essa oposição dos crentes denominamos "batalha espiritual”.
- Há uma ‘moda’ atualmente no meio evangélico nacional ‘gerando’ novas doutrinas como nunca houve na história da Igreja. Entre muitas novidades está o Movimento de Batalha Espiritual, que emprega todas as suas forças em especular uma nova cosmovisão sobre a esfera espiritual, especialmente sobre os demônios, e como enfrentar este mundo de espíritos. Claramente se vê na Bíblia que existe uma batalha espiritual sendo travada entre os servos de Deus e os servos do diabo e que todos os crentes estão envolvidos nesta batalha. Segundo João 10.10, é o diabo quem governa as forças espirituais em rebelião contra Deus. Devemos resistir ao adversário mas não precisamos ter medo dele, porque Deus é mais forte que todos os nossos inimigos.
Não existe explicitamente o termo "batalha espiritual" na Bíblia, ou pelo menos na versão que busquei, mas isso não quer dizer que o crente não esteja em uma constante guerra no mundo espiritual, a qual é travada em oração. Esta passagem é um exemplo: Saúda-vos Epafras, que é dos vossos, servo de Cristo, combatendo sempre por vós em orações, para que vos conserveis firmes, perfeitos e consumados em toda a vontade de Deus (Cl 4.12). Estamos empenhados em uma batalha espiritual - se quiser usar o termo - em todos os aspectos da vida cristã, seja em nossas orações, quando invadimos com elas as regiões celestiais para lutarmos contra seres espirituais, seja na labuta diária para testemunharmos de Cristo.” (RESPONDI)

2. Uma realidade bíblica. O tema principal da Primeira Epístola do apóstolo Pedro é o sofrimento do crente por causa do nome de Jesus. Esse sofrimento resulta da nossa contínua luta espiritual contra o pecado e contra o indiferentismo religioso. Mas, ao encerrar a sua epístola, o apóstolo esclarece que tudo isso parte de Satanás e seus agentes: “Sede sóbrios, vigiai, porque o diabo, vosso adversário, anda em derredor, bramando como leão, buscando a quem possa tragar” (v.8).
- Lemos em Efésios 6.11-12 que nossa luta não é contra seres humanos. A verdadeira batalha é contra forças espirituais malignas que têm autoridade sobre este mundo - o Adversário que destruir o homem e que permanece no ataque mesmo quando uma pessoa se converte. Em Apocalipse 12.4, encontramos uma referência à primeira batalha espiritual que foi travada: “E a sua cauda levou após si a terça parte das estrelas do céu, e lançou-as sobre a terra”; João se refere à Satanás quando rebelou-se contra Deus e arrastou consigo a terça parte dos anjos. Desde então, nós vemos, através da Bíblia, Satanás fazendo guerra contra Deus e o Seu povo: “Então ele me mostrou o sumo sacerdote Josué, o qual estava diante do anjo do Senhor, e Satanás estava à sua mão direita, para se lhe opor” (Zc 3.1).
- “A batalha espiritual é nossa luta contra tudo que nos afasta de Deus. Os nossos três grandes inimigos são:
•O diabo – ele governa as forças espirituais em rebelião contra Deus (Jo 10.10)
•O mundo – o mundo está amaldiçoado por causa do pecado, é dominado pelo diabo e tem muitas tentações (1Jo 5.19)
•Nossa velha natureza – todos temos certa tendência para pecar e precisamos lutar contra esses desejos errados (Gl 5.16-17)
Esses três inimigos podem atuar juntos ou separados contra nós. Não podemos culpar tudo apenas no diabo. Mesmo quando somos influenciados ou tentados, se pecarmos, a responsabilidade é nossa. A Bíblia diz que devemos:
•Resistir ao diabo – rejeitando suas mentiras e declarando a verdade da Bíblia (Tg 4.7)
•Não nos contaminar com o mundo – escolhendo obedecer a Deus e não aos padrões do mundo (1Jo 2.15-17)
•Mudar nossos pensamentos – submetendo tudo a Deus, para que Sua vontade se torne nossa vontade (Rm 12.2; 2Co 10.4-5)” (O que a Bíblia fala sobre batalha espiritual? Disponível em: https://www.respostas.com.br/o-que-a-biblia-fala-sobre-batalha-espiritual/. Acesso em: 31 Dez, 2018)

3. O que não é Batalha Espiritual. O que geralmente se chama de "batalha espiritual" por alguns é um modelo não bíblico e nocivo à fé cristã. Os mentores dessa doutrina pinçam a Bíblia aqui e ali e adaptam as passagens selecionadas para ajustá-las às suas próprias experiências. Trata-se de uma cosmovisão abrangente de culturas antigas como a da Mesopotâmia e do Egito, influenciada pela magia e pelo ocultismo.* Era na época um mundo cheio de forças ocultas em que os homens viviam procurando se proteger de deuses e demônios malévolos. É uma estrutura muito próxima do ocultismo contemporâneo com a doutrina dos espíritos territoriais, maldição hereditária ou de família com os rituais de libertação.
- Exposto o que é batalha espiritual como aparece nas Escrituras, precisamos entender o que ela não é, e faremos isso expondo um pouco sobre o Movimento de Batalha Espiritual.
No imaginário brasileiro o diabo goza de um certo “carisma”, vemos isso em literaturas produzidas e encenadas. O novelista Aguinaldo Silva chegou a dizer o seguinte: “No Brasil, as pessoas acreditam que o diabo realmente interfere em nossa vida, mais até do que os santos.” (Revista Veja, 11 de agosto de 1999, pág. 142); e esse imaginário é materializa-se no espiritualismo. Mas não está restrito ao mundo não alcançado pelo Evangelho, nos círculos evangélicos há hoje, uma supervalorização do mundo angelical, há Assembleias de Deus, por exemplo, onde é reservada uma cadeira no púlpito, destacada das demais, para o ‘anjo da igreja’! É comum encontrarmos “cultos de libertação”, de “poder” e seminários sobre batalha espiritual. É fácil encontrar irmãos que já ‘devoraram’ o livro ‘Este Mundo Tenebroso’ (Ed. Vida), de Frank Peretti.
- “A esta ênfase dada aos demônios, pelo menos aqui no Brasil, atribuímos a responsabilidade a um pastor norte americano chamado C. Peter Wagner. Ele é autor de trinta livros e é a atual autoridade no campo de guerra espiritual. Em seu livro intitulado Oração de Guerra (Ed. Unilit), ele nos conta como foi originado este movimento de guerra espiritual. Peter Wagner é representante do Movimento de Crescimento da Igreja, fundado por Donald MacGavran, em 1955. Em 1980 começou a interessar-se sobre as dimensões espirituais do crescimento eclesiástico. Em 1989, percebeu que o evangelismo funciona melhor quando é realizado através de oração e que Deus tem dotado certos indivíduos que se mostram incomunmente poderosos no ministério da intercessão. Pensando sobre a ideia de como conciliar evangelismo e intercessão, Peter Wagner reuniu um grupo de cinquenta intercessores para orarem em um hotel, localizado em frente do local onde seria o segundo congresso de Lausanne. Durante esta intercessão, Peter Wagner diz que recebeu de Deus o que denominou de “parábola viva”. Ele deu esse nome a um acontecimento durante a intercessão. Uma das intercessoras, Juana Francisco, foi acometida de uma crise asmática, rapidamente levaram-na às pressas para o hospital. Esperando a recuperação da amiga no hospital, outras duas intercessoras, Mary Lance e Cidy Jacobs, tiveram uma mensagem que logo identificaram como sendo de Deus. Juana Francisco havia sido atacada por um espírito da macumba. Recebendo a revelação, as duas intercessoras fizeram uma oração quebrando o poder do demônio enquanto, no mesmo momento, Bill Bright, estava com a enferma orando em prol da cura. O que aconteceu foi que no mesmo momento a mulher ficou boa. Peter Wagner interpretou este episódio como sendo uma lição de Deus ao Seu povo. A partir daí ele tomou para si os seguintes princípios:
• (1) A evangelização do mundo é uma questão de vida ou morte;
• (2) A chave para a evangelização do mundo consiste em ouvirmos a Deus e obedecermos àquilo que tivermos ouvido. “Elas sabiam que Deus queria que a maldição fosse anulada, pelo que entraram em ação”;
• (3) Deus usará a totalidade do corpo de Cristo para completar a tarefa da evangelização do mundo.
Naquela mesma conferência de Lausanne, em Manila, foram abordados os temas de espíritos territoriais e da intercessão espiritual em nível estratégico. O interesse sobre o assunto cresceu e foi organizado um grupo de pessoas que se interessavam por guerra espiritual. Peter Wagner tornou-se o líder deste grupo que posteriormente foi denominado de “Rede de Guerra Espiritual”. Entre os membros deste grupo podemos mencionar Larry Lea, John Dawson, Cindy Jacobs e Edgardo Silvoso.” (Batalha Espiritual. Disponível em: http://www.cacp.org.br/batalha-espiritual/. Acesso em: 31 Dez, 2019)


SUBSÍDIO DIDÁTICO-PEDAGÓGICO
                                         
Após introduzir a lição e “apresentar” o pastor Esequias Soares, mostre aos alunos os objetivos da presente lição. Diga a eles que, como introdução ao estudo deste trimestre, o objetivo da presente aula é conceituar a expressão “Batalha Espiritual”, pontuar as falsas crenças da “pseudobatalha espiritual” e desconstruí-las por meio das Escrituras Sagradas. A lição desta semana está estruturada nesse tripé.

II. PRINCIPAIS CRENÇAS DA PSEUDOBATALHA ESPIRITUAL

As inovações mais chocantes que se pregam por aí são o mapeamento espiritual, a maldição hereditária e a ideia de que um salvo pode ser possuído pelos demônios.
1. Mapeamento espiritual. A doutrina consiste na crença de que Satanás designou seus correligionários para cada país, região ou cidade. O evangelho só pode prosperar nesses lugares quando alguém, cheio do Espírito Santo, expulsar esse espírito maligno. Em decorrência, surgiu a necessidade de uma geografia espiritual, o mapeamento espiritual. Os espíritos territoriais são identificados por nomes que eles mesmos teriam revelado, com as respectivas regiões que eles supostamente comandam. Essas pessoas acreditam que tudo isso se baseia na Bíblia (Dn 10.13,20; Mc 5.10).
- Os adeptos do Movimento de Batalha Espiritual adotam um método muito comum - o mapeamento espiritual de cidades, regiões, países. Segundo pensam, a igreja precisa conhecer a região onde está plantada, conhecer a história do lugar onde se deseja evangelizar e descobrir o espírito territorial que governa aquela região. Esse levantamento é necessário para que o demônio que governa ali seja amarrado. Segundo um artigo publicado em um site deste movimento, ‘mapeamento espiritual’ é definido assim: “Mapeamento espiritual é o processo em que se comparam as informações e dados de uma região ou pessoas, colocando-as sobre um mapa ou gráfico. As informações colhidas são usadas na guerra espiritual com o fim de arrancar as pessoas das mãos do inimigo. O mapeamento espiritual é como uma grande luz lançada numa região escura. Permite-nos ver a estratégia do inimigo, e expõe os planos ocultos de Satanás para aquela região ou algum grupo especial. "Pois nada está oculto, senão para ser manifesto; e nada se faz escondido, senão para ser revelado" (Mc 4.22).” (SEMEAR).
Não há nas Escrituras respaldo teológico para este ensino; Não encontramos Jesus falando ou ensinando sobre isto. O que nos cabe fazer é obedecer integralmente suas ordens pregando o evangelho integral do Senhor Jesus Cristo a toda criatura, crendo que ele é poderoso para a salvação de todo aquele que nele crê, como também para expulsar da vida dos homens toda sorte de espíritos malignos. “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado.” (Mt 29.18,19); “Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura” (Mc 16.15).

2. A maldição hereditária. A doutrina resume-se nisso: se uma pessoa tem problemas com adultério, pornografia, divórcio, alcoolismo ou tendências suicidas é porque, no passado, alguém de sua família, não importa se avós, bisavós ou tataravós, teve esse problema. Desse modo, a pessoa afetada pela maldição hereditária deve, em primeiro lugar, descobrir em que geração seus ancestrais deram lugar ao Diabo. Uma vez descoberta a tal geração, pede-se perdão por ela, e, dessa forma, a maldição de família será desfeita. É uma espécie de perdão por procuração, muito parecido com o batismo pelos mortos praticado pelos mórmons. Os que defendem essa doutrina pinçam as Escrituras em busca de sustentação bíblica (Êx 20.5; Dt 5.9; Is 8.19).
Uma das distorções doutrinárias mais difundidas entre o povo de Deus ultimamente é o ensino das “maldições hereditárias”, conhecido também como “maldição de família ou “pecado de geração”. Estes conceitos circulam bastante através da televisão, rádio, literatura e seminários nas igrejas. Muitos líderes, ministérios e igrejas, antes sólidos e confiáveis, acabaram sucumbindo a mais esse ensino controvertido e importado dos Estados Unidos. Os pregadores da maldição afirmam que se alguém tem algum problema relacionado com alcoolismo, pornografia, depressão, adultério, nervosismo, divórcio, diabete, câncer e muitos outros, é porque algum antepassado viveu aquela situação ou praticou aquele pecado e transmitiu tal pecado ou maldição a um descendente.A pessoa deve então orar a Deus a fim de que lhe seja revelado qual é a geração no passado que o está afetando. Uma vez que se saiba qual, pede-se perdão por aquele antepassado ou pela geração revelada e o problema estará resolvido, isto é, estará desfeita a maldição.” (CACP).
A quebra de maldições hereditárias tem o objetivo de elucidar as causas espirituais de problemas vividos por alguém como consequência de ‘herança’ espiritual, tais como Alcoolismo, pornografia, depressão, ou problemas de gênero, e aponta o caminho para anular pactos malignos que pesam sobre indivíduos, famílias e até cidades inteiras, conduzindo à libertação espiritual definitiva. Um dos textos bíblicos mais usados pelos pregadores da maldição hereditária para defender este ensino é Êxodo 20.4-6
É verdade que os filhos que repetem os pecados de seus pais têm toda a possibilidade de colher o que seus pais colhe­ram. Os pais que vivem no alcoolismo têm grande possibilidade de ter filhos alcoólatras. Os que vivem blasfemando, ou na imoralidade e vícios, estão estabelecendo um padrão de comportamento que, com grande probabilidade, será segui­do por seus filhos, pois “aquilo que o homem semear, isso também ceifará” (Gl 6.7). Isso poderá suceder até que uma geração se arrependa, volte-se para Deus e entre num relaciona­mento de amor com ele através de Jesus Cristo. Cessou aí toda a maldição. Não deve ser esquecido também que o autor da maldição ou punição é Deus e que ela é a manifestação da sua ira. Note que, no final do versículo cinco do capítulo vinte de Êxodo, a Palavra de Deus declara que a maldição viria apenas sobre aqueles que aborrecem a Deus, algo que não se passa com o cristão.” (CACP).
Jesus veio para libertar de toda maldição do pecado (Rm 5.15). Isso significa que, quando uma pessoa se converte, pode ser libertado de qualquer maldição hereditária. Assim, o crente tem poder para tratar de qualquer problema espiritual e viver na liberdade de Jesus.

3. “Crentes endemoninhados”. Esses pregadores ensinam que “o homem é um espírito que tem alma e habita num corpo” (Kenneth Hagin). Partindo desse falso conceito teológico, afirmam que o Espírito Santo habita no espírito humano no processo de salvação; e que os espíritos imundos “estão relegados à alma e ao corpo do cristão”. Os promotores dessa doutrina costumam apelar para o estado psicológico de Saul depois que ele se afastou de Deus (1 Sm 16.14; 18.10; 19.9), o caso de Judas Iscariotes (Lc 22.3), além de Ananias e Safira (At 5.3).
- Este último ponto é o ensino mais polêmico desse Movimento e que tem criado raízes na mente de muitos crentes: um cristão pode ter demônios? Já tive a oportunidade de presenciar reuniões onde as pessoas eram chamadas a colocar as mãos sobre suas cabeças e ordenarem a expulsão de espíritos malignos. Alguns teólogos também passaram, nos últimos anos, a aderir a tal posição e muitos deles reconhecem que o assunto é controvertido. De qualquer forma, a Bíblia Sagrada tem a palavra final sobre esta questão ou sobre qualquer outro assunto relacionado com a vida espiritual e o cristão.
Merrill F. Unger, um autor lido e seguido por várias pessoas que hoje desenvolvem ministérios de libertação espiritual no Brasil, reconhece a dificuldade de se tratar do assunto, ao declarar: A verdade da questão é que as Escrituras em nenhum lugar declaram que um verdadeiro crente não pode ser invadido por Satanás ou seus demônios. Naturalmente, a doutrina deve sempre ter precedência sobre a experiência. Nem pode a experiência jamais oferecer base para a interpretação bíblica. Apesar disso, se experiências consistentes chocam com uma interpretação, a única conclusão possível é de que há alguma coisa errada, ou com a própria experiência ou com a interpretação da Escritura que vai contra ela. Certamente a Palavra inspirada de Deus nunca contradiz a experiência válida. Aquele que procura a verdade com sinceridade deve estar preparado para consertar sua interpretação a fim de trazê-la em conformidade com os fatos como eles são. (Merrill F. Unger, What Demons Can Do To Saints (O que os Demônios Podem fazer aos Santos) (Chicago, E.U.A., Moody Press,1991), p. 69.)” (CACP).
Estas declarações trazem alguns problemas, ele afirma que a Bíblia não é clara quanto um cristão poder ser possuído por espíritos malignos. Se a Bíblia não afirma com clareza (o que não é verdade), como pode alguém então ensinar sobre aquilo que não está claro na Palavra de Deus? A Bíblia não ensina que um cristão pode ficar possesso ou ser habitado por um demônio; há inúmeros casos de crentes sendo atacados, oprimidos de várias maneiras por demônios, mas não possuídos por eles (Veja Paulo e o espinho na carne - 2Co 12.7).

SUBSÍDIO APOLOGÉTICO

“[Sobre o Mapeamento Espiritual] “É verdade, ‘o príncipe do reino da Pérsia’ impediu, por três semanas, que o anjo (presumivelmente, Gabriel) viesse até Daniel (Dn 10.12,13). No entanto, Daniel estava aspirando à visão profética, e jamais pensou em ‘amarrar’ o ‘espírito territorial’ da Pérsia. Nem o anjo o instruiu para empreender tal ‘batalha’. Na verdade, em lugar algum da Bíblia sugere-se a ideia de que certos demônios tenham autoridade específica sobre certas cidades ou territórios e que devam ser ‘amarrados’. [...] Paulo nunca tentou ‘amarrar espíritos territoriais’ para ensinar o evangelho ao mundo de sua época, portanto, por que deveríamos fazê-lo?” (HUNT, Dave. Em Defesa da Fé Cristã: Respostas a perguntas difíceis. Rio de Janeiro: CPAD, 2006, pp. 223-24)


III. VAMOS À BÍBLIA

Ninguém tem o direito de fazer o que quiser com a Bíblia. Vejamos, portanto, o que Bíblia ensina nas passagens reivindicadas pelos líderes defensores dessa inovação:
1. Sobre o mapeamento espiritual. As duas passagens de Daniel falam sobre o “príncipe do reino da Pérsia” (Dn 10.13) e o “príncipe da Grécia” (v.20). São citações fora de contexto, pois se trata de guerra angelical, e não há indícios da presença humana. O gadareno "rogava-lhe muito que os não enviasse para fora daquela província" (Mc 5.10) porque Jesus havia mandado os tais espíritos para o abismo: “E rogavam-lhe que não os mandasse para o abismo” (Lc 8.31). Essa é a razão de pedirem para ficar na região; não se refere, portanto, a espíritos territoriais. Assim, fica claro que se trata de uma doutrina baseada numa interpretação equivocada.
O conflito entre o Arcanjo Miguel e o príncipe do reino da Pérsia (10.13). No capítulo dez do livro de Daniel, dois príncipes das milícias satânicas são identificados: “o príncipe do reino da Pérsia” (v.13) e o “príncipe da Grécia” (v.20). Estes príncipes não eram homens comuns, mas anjos satânicos. Estes anjos caídos só foram derrotados depois que Deus enviou Miguel, o príncipe de Israel (v.21). O anjo que falava com o profeta explicou que o príncipe da Pérsia estava impedindo que a mensagem de Deus fosse entregue. O propósito de Satanás era impedir que Daniel recebesse a revelação do Senhor. “A narrativa no evangelho de Mateus menciona somente o pedido dos demônios para que fossem enviados aos porcos. Mas o evangelho de Marcos fala do desejo prévio dos demônios de que não fossem enviados para fora do país, ou seja, daquele território geográfico. Lucas menciona que os demônios não desejavam ser expulsos e lançados no abismo — uma referência ao hades. O ponto básico é que os demônios queriam evitar o tormento, conforme mencionado em Mateus 8.29. Alguns estudiosos explicam que na região de Decápolis se concentravam os judeus helenizados, apóstatas. Não temos aqui informação suficiente para delinearmos o campo de ação dos demônios. Podemos concordar que deve haver uma hierarquia baseada no poder desses seres espirituais. Contudo, o texto bíblico enfatiza a soberania de Jesus sobre quaisquer classes demoníacas. Enquanto os exorcistas afirmavam que precisavam saber os nomes das entidades manifestadas, notamos que o Senhor Jesus apenas ordenou uma vez a toda legião, e não houve necessidade que identificasse um por um.” (CACP)

2. Sobre a maldição hereditária. No segundo mandamento do Decálogo, Deus afirma visitar “a maldade dos pais nos filhos até à terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem” (Êx 20.5; Dt 5.9). Essas palavras não podem se aplicar à doutrina da maldição hereditária porque, quando alguém se converte a Cristo, deixa de aborrecer a Deus; logo, essa passagem bíblica não pode se aplicar aos crentes (Rm 5.8-10), pois estes se tornam nova criatura, “as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” (2 Co 5.17). O que eles fazem com a expressão “espíritos familiares” é uma fraude. O termo usado na Bíblia hebraica é ov, ou ovoth, plural, “médium, espírito, espírito de mortos, necromante e mágico” (Lv 19.31; 20.6). Isso está muito longe de serem espíritos que passam de pai para filhos.
Para entender Êxodo 20.5 é preciso ter em mente que o Senhor estava falando com Israel enquanto povo. Com o povo, o Senhor lidava coletivamente. A passagem se refere ao fato de que se Israel fosse idólatra, geração após geração, em algum momento a punição chegaria, como de fato ocorreu. A chave para esse versículo é: “Daqueles que me odeiam.” O texto fala de idolatria e não oferece qualquer base para alguém afirmar que herdamos maldições espirituais de nos­sos antepassados em qualquer área das dificuldades humanas. A narrativa do Antigo Testamento nos informa que sempre que a nação de Israel esteve num relacionamento de amor com Deus, ela não podia ser amaldiçoada. Vemos a prova disso em Números 23:7, 8, quando Balaque pediu a Balaão que amaldiçoasse a Israel. A resposta de Balaão aparece no versículo 23: “Pois contra Jacó não vale encantamento, nem adivinhação contra Israel”. Por outro lado, sempre que a nação quebrou a aliança de amor com Deus, ela ficou exposta a maldição, calamidades e cativeiro. (Leia mais sobre esse tema aqui)

3. Sobre a possibilidade de o cristão ser possesso. É bom lembrar que Saul já estava desviado nessa época (1 Sm 15.23); além disso, a Bíblia não fala de demônio, mas que “o assombrava um espírito mau da parte do SENHOR” (1 Sm 16.14). Quem foi que disse que Judas Iscariotes era crente? Foi Jesus quem disse: “Não vos escolhi a vós os doze? E um de vós é um diabo. E isso dizia ele de Judas Iscariotes” (Jo 6.70,71). E, quanto a Ananias e Safira, a Bíblia declara que eles mentiram ao Espírito Santo, e não que ficaram possessos. O crente em Jesus tem a promessa de Deus de que "o maligno não lhe toca" (1 Jo 5.18).
- Quando um Cristão recebe Cristo como seu Senhor e Salvador pessoal, o Espírito Santo entra no corpo do Cristão, na sua alma e no seu espírito. Deus toma a vida do Cristão para Ele, e como resultado, os demônios não podem ocupar o mesmo lugar que o Espírito Santo. Satanás sabe disto, e é por isso que ele tenta arduamente seduzir a pessoa antes disso e ter seus demônios ou influências demoníacas controlando ou afetando esta pessoa. “Os cristãos são habitados pelo Espírito Santo Rm 8.9-11 - “vós, porém, não estais na carne, mas no Espírito, se é que o Espírito de Deus habita em vós. Mas, se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele. 10 – e, se cristo está em vós, o corpo, na verdade, está morto por causa do pecado, mas o espírito vive por causa da justiça. 11 – e, se o Espírito daquele que dentre os mortos ressuscitou a Jesus habita em vós, aquele que dentre os mortos ressuscitou a cristo também vivificará os vossos corpos mortais, pelo seu Espírito que em vós habita.” I Co 3.16 – “não sabeis vós que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? I Co 6.19 – “ou não sabeis que o vosso corpo é o templo do Espírito Santo, que habita em vós, proveniente de Deus, e que não sois de vós mesmos?.” Certamente o Espírito Santo não permitiria que um demônio possuísse a mesma pessoa em quem ele habita. É impensável que Deus permitiria que um de seus filhos, alguém que ele adquiriu com o sangue de Cristo, fosse habitado pelo diabo. I Pe 1.18-19 – “sabendo que não foi com coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados da vossa vã maneira de viver que por tradição recebestes dos vossos pais, 19 – mas com o precioso sangue de cristo, como de um cordeiro imaculado e incontaminado, e tornou uma nova criatura.” II Co 5.17 – “assim que, se alguém está em cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo.”, poderia ser possuído por um demônio? Não. Como seguidores de cristo, estamos em guerra com satanás e seus demônios, mas não de dentro de nós mesmos. Em (I Jo 4:4) lemos: “filhinhos, vós sois de Deus e tendes vencido os falsos profetas, porque maior é aquele que está em vós do que aquele que está no mundo.” Quem é o ser que em nós habita? O Espírito Santo. Quem é o que está no mundo? Satanás e seus demônios. Portanto, o crente tem vitória sobre o mundo dos demônios e o caso de possessão demoníaca de um seguidor de Jesus não pode ser defendido biblicamente. Em vista da forte evidência bíblica de que um cristão não possa ser possuído por demônios, alguns intérpretes da bíblia usam o termo “demonização” para se referir a um demônio tendo controle sobre um cristão. Alguns argumentam que, embora um cristão não possa ser possuído por demônios, ele ainda pode ser demonizado. Normalmente, a descrição de demonização é praticamente idêntica à descrição da possessão demoníaca. Assim, temos o mesmo problema. Mudar a terminologia não muda o fato de que um demônio não pode habitar ou assumir o controle total de um cristão. Influência e opressão demoníaca são realidades para os cristãos, sem dúvida, mas simplesmente não é bíblico dizer que um cristão pode ser demonizado ou possuído por um demônio” (CACP).

4. O homem segundo a Bíblia. Jesus disse que “um espírito não tem carne nem ossos” (Lc 24.39). Se o espírito não tem carne nem ossos, logo se conclui que não é verdade que o homem seja um espírito. A Bíblia declara que Deus formou “o homem do pó da terra e soprou em seus narizes o fôlego da vida; e o homem foi feito alma vivente” (Gn 2.7). Isso mostra que o ser humano é uma combinação do pó da terra com o sopro de Deus. O Senhor Jesus se fez homem, pois “o verbo se fez carne” (Jo 1.14).
Segundo o Pr Elienai Cabral, em seu artigo ‘A tricotomia do homem’, publicado no Portal CPAD News, “O homem é um ser tricótomo (1Ts 5.23; Hb 4.12). O termo tricotomia significa “aquilo que é dividido em três” ou “que se divide em três tomos”. Em relação ao homem, o termo tricotomia refere-se às três partes do seu ser: corpo, alma e espírito. Há divergência neste ponto entre alguns teólogos. Há aqueles que entendem o homem como apenas um ser dicótomo, ou seja, que se divide em duas partes: corpo e alma (ou espírito). Os defensores da dicotomia do homem unem alma e espírito como sendo uma e a mesma coisa. Entretanto, parece-nos  mais aceitável o ponto de vista da tricotomia. Esse conceito da tricotomia crê que o homem é uma triunidade composta e inseparável. Só a morte física é capaz de separar as partes: o corpo de sua parte imaterial” (CPAD NEWS). Teologicamente diz-se que o homem é a Imago dei (a Imagem de Deus no Homem). O fato de ser o homem à imagem de Deus significa que ele é semelhante a Deus e o representa. Cuidado é requerido ao entender o homem como “carne”. O corpo se constitui de elementos químicos, porém, sem os elementos divinos, ele é de ínfimo valor.

SUBSÍDIO BÍBLICO

“Entre estes dois momentos na narrativa está a estranha conversa entre Jesus e o endemoninhado, nos versículos 6 a 12. [...] No versículo 10 (‘E rogava-lha muito que os não enviasse para fora daquela província’), então, de novo no versículo 12 (‘E todos aqueles demônios lhe rogaram dizendo: Manda-nos para aqueles porcos, para que entremos neles’). A imagem está densamente acondicionada, com referências repetidas à submissão e humilhação.
Entrosado com a imagem de mesura está o fato de quem o demônio tenta ameaçar e dominar Jesus, deixando escapar o nome e o título do Senhor (v.7) e afirmando ser chamado por ‘Legião’, [...] porque somos muitos’ (v.9). Talvez mais distintivo seja o uso que o demônio faz da linguagem de libertação ao se dirigir a Jesus: ‘Conjuro-te por Deus que não me atormente’ (v.7). Esta expressão é frase técnica usada por exorcistas no desempenho do exorcismo (e.g., At 19.13). Que estranho que tal linguagem fosse usada por um demônio! E que esquisito que Jesus concedesse o pedido do demônio, no versículo 13. Estas imagens são fundidas num tipo de quebra-cabeça narrativo: Há algo mais do que os olhos percebem, mas o quê?
Esse ‘algo mais’ é a batalha pela alma humana. Na luta entre o povo da cidade, o homem e o demônio, está claro quem até agora tem vencido. O poder selvagem do endemoninhado é compendiado nas correntes quebradas e neste animal humano que se esquiva da sociedade, dilacera a própria carne e à noite uiva de agonia num cemitério.
O ponto é que Jesus não vê um animal humano, mas um ser humano, que foi saqueado por este espírito maligno e violento” (STRONSTAD, Roger; ARRINGTON, French L. (Eds.) Comentário Bíblico Pentecostal Novo Testamento. Rio de Janeiro: CPAD, 2003, pp. 214-15).

CONCLUSÃO

Há necessidade de equilíbrio para que os exageros dessas aberrações doutrinárias não levem o crente ao ceticismo, porque a batalha espiritual existe e ninguém deve subestimá-la. Os fatos estão registrados na Bíblia, e nenhum cristão ousa negar essa realidade. Por outro lado, os crentes devem ter maturidade suficiente para não entrar no fanatismo, mas discernir entre o que é verdadeiramente espiritual e o que é manipulação esotérica.
Há uma guerra sendo travada no mundo espiritual com reflexos na vida real e todos os crentes estão alistados para combater neste conflito, de forma involuntária, pelo simples fato de terem assentido com fé ao Evangelho. Satanás e o mundo lutam violentamente contra nós externamente, e nossa carne se opõe a nós internamente. “Há dois lados nesta batalha cósmica das eras. “O inimigo é Satanás, o campo de batalha é a nossa mente, e a questão é a nossa caminhada cristã. Nós não vivemos em um mundo neutro. Existem forças hostis em operação nele, um ser maligno com uma hoste de serviçais que se opõem a Deus e ao homem.” (Paul W. Powell, The Great Deceiver: Seeing Satan for What He Is (Nashville, TN: Broadman Press, 1988), p. 9). A boa notícia é que na cruz, Jesus derrotou o diabo, o mundo e o pecado. Jesus até derrotou a morte, quando ressuscitou. Por isso, a vitória é nossa (1Jo 5.4-5). O nascido de Deus não pode ser derrotado pelo diabo, não pode ser possuído por ele, nem precisa sair identificando governantes espirituais antes de evangelizar. A ordem do Mestre é: “Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; Ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado; e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos” (Mt 28.19,20). 
Francisco Barbosa
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